domingo, 29 de maio de 2011

MARCA



Minha mãe voltara da missa de fim de tarde de um sábado. Ela sempre, aos sábados à tarde, arrumava-se toda, com seus melhores vestidos, sua alfazema e seus cabelos acinzentados, cor de prata, cuidadosamente penteados. Naquele sábado, de fevereiro, ela encontrou em casa meu pai, sozinho, assistindo TV e de forma serena perguntou-lhe: ‘Pepe, você ainda me acha uma mulher bonita?’ Ao que o meu pai respondeu: ‘Claro, Leny, você é a mulher mais linda do mundo!’ ‘Pepe, você esquenta uma caneca de leite para mim, eu não estou me sentindo muito bem, vou me deitar um pouco... ’ Meu pai desligou a TV, foi à cozinha e colocou o leite para esquentar, depois colocou um pouco na caneca e foi para o quarto deles. Encontrou minha mãe deitada na cama, com as mãos postas uma sobre a outra e apoiadas sobre a barriga, com os olhos fechados. Meu pai a chamou pelo nome uma, duas, três vezes. Por um momento ele pensou que ela havia adormecido, deixou a caneca com leite sobre o criado e ia deixando o quarto quando resolveu voltar e chamá-la novamente. Sete dias depois distribuímos a parentes e amigos o pequeno cartão com o diálogo de despedida: ‘Pepe, você ainda me acha uma mulher bonita?’ ‘Claro, Leny, você é a mulher mais linda do mundo!’

Tínhamos acabado de sepultá-la e eu saia no meu carro com meu pai a meu lado, passávamos pela portaria do cemitério, eu perguntei-lhe: ‘Pai, mamãe entregue, o que o senhor quer fazer ainda?’ Ele sem pensar muito, olhou para mim e disse: ‘Eu quero rever Vicente Pelizzia. ’ ‘Quem é esse Vicente?’, perguntei surpreso. ‘Um grande amigo de infância... Tem oitenta anos... Nasceu no mesmo dia que eu... ’ Meu pai nunca havia falado de Vicente Pelizzia até então. ‘Você nunca nos falou dele. Esse cara ta vivo, pai?’ Meu pai com um olhar grave respondeu: ‘você me perguntou o que eu quero. Eu quero rever Vicente Pelizzia. ’

Meu pai nasceu na Argentina, numa cidade quatro horas ao norte de Buenos Aires. Veio adolescente para o Brasil e nunca mais retornou. Naquele dia no cemitério resolvi levar meu pai até a sua cidade natal e em todas as vezes que perguntei ao meu pai se o amigo estava vivo ele sempre respondeu: ‘você me perguntou o que eu quero. Eu quero rever Vicente Pelizzia. ’ Consultei minhas tias que, mais velhas que o meu pai, mal se lembravam dos seus próprios nomes quanto mais se Vicente Pelizzia estava ou não vivo. Pesquisei na internet, sem êxito.

Organizei-me e no mês de abril, dois meses após o falecimento de minha mãe fomos meu pai, eu, minha esposa e uma tia dela para Buenos Aires. Eu não levava nenhuma referência onde pudesse encontrar Vicente Pelizzia. Minha intenção era levar meu pai a Buenos Aires, ficar ali por três dias e retornarmos ao Brasil. Fizemos juntos agradáveis passeios em Buenos Aires.

Na noite do terceiro dia que estávamos em Buenos Aires, bati na porta do apartamento do hotel em que meu pai estava instalado e entrei. Meu pai estava organizando as suas roupas e pertences na mala: ‘o que o senhor está fazendo, pai?’ Perguntei-lhe apreensivo. ‘Você está me engalobando... Já ficamos três dias aqui... Eu não vim aqui para passear... Estou indo rever Vicente Pelizzia! Abracei-lhe e disse que iria alugar um carro no dia seguinte e que nós iríamos até a sua cidade natal. ‘Não, vá à rodoviária, compre passagens só para nós dois... Vamos e voltamos amanhã mesmo. ’ Assim eu fiz.

No dia seguinte, chegamos bem cedo à rodoviária. Apontei para meu pai as placas indicativas das plataformas de embarque e disse a ele o número da plataforma que sairia o ônibus com destino a várias cidades, entre elas a de onde ele nascera. Meu pai aumentou as passadas e foi em direção a plataforma que eu indicara. Quando chegamos, havia um casal de idosos sentados em cadeiras da plataforma. Meu pai aproximou-se, cumprimentou o casal e perguntou dirigindo-se à senhora qual era o destino deles. A senhora respondeu o nome da cidade para qual estavam indo e meu pai perguntou se ela conhecia a cidade natal dele. A senhora disse que sim e que havia morado lá durante vários anos. Meu pai perguntou à senhora se ela conhecia Vicente Pelizzia. Aproximei mais de meu pai, abracei-o e esperei tenso pela resposta. A mulher demorou-se um pouco, olhou para o marido. Então, os dois balançaram juntos a cabeça em sinal de afirmação. Foi a senhora que disse: ‘Si.’

Eu sentei à janela, meu pai no corredor e o casal nas poltronas ao lado. Foram conversando durante duas horas e meia (tempo de duração da viagem até a cidade onde o casal desceu), Vicente Pelizzia entrara e saíra da conversa por diversas vezes e eu não sabia se ele estava vivo ou não. Na primeira meia-hora de viagem pedi ao meu pai que ele perguntasse ao casal: ‘pergunta, pai, pergunta. ’ Eu estava com receio de dizer claramente para ele perguntar se Vicente Pelizzia estava ou não vivo. Ele, incomodado: ‘perguntar o quê, rapaz?'

Fiquei calado todo o tempo que restou do momento em que o casal desceu até quando chegamos à cidade natal do meu pai. Descemos do ônibus e eu fui direto comprar as passagens de volta. Meu pai vinha atrás de mim. Eu estava no guichê e meu pai debruçou-se sobre o balcão e perguntou à jovem que nos atendia: ‘conheces Vicente Pelizzia?’ A jovem respondeu que não, eu disse a ele que iríamos procurar um catálogo de telefones, uma delegacia de polícia, enfim algum lugar onde pudéssemos ter alguma informação sobre Vicente Pelizzia. Meu pai disse que gostaria de passear pela cidade.

A cidade natal de meu pai na verdade é até hoje muito pequena. Meu pai colocou as mãos para trás e saiu andando lentamente pelas ruas e de quando em vez perguntava a um e outro se conhecia Vicente Pelizzia. Foi assim que perto de duas horas depois nos deparamos com uma senhora na sacada de sua casa e meu pai dirigiu-se a ela, perguntando: ‘conheces Vicente Pelizzia?’ Antes de a senhora responder saiu da garage da casa um jovem e disse: ‘meu tio, por quê?’ Eu pulei para perto do meu pai, meu coração estava aos saltos, abracei-o e aguardei que ele perguntasse afinal. Meu pai não perguntou, aumentou o tom de voz e disse: ‘me levas até ele!’, desvencilhando-se do meu abraço. O jovem disse: ‘um minutinho, por favor, que vou buscar as chaves do meu carro... ’ Enquanto o rapaz foi dentro de casa e voltou fiquei em silêncio olhando para os olhos de meu pai. Eles estavam absolutamente serenos. O rapaz nos colocou dentro do carro dele e nos levou até a casa de Vicente Pelizzia.

Vicente Pelizzia não estava em casa. Ficamos na calçada em frente e depois de poucos minutos vimos um senhor baixo, mas forte, vindo em nossa direção. Meu pai me disse: ‘é ele. ’ Foi ao encontro de Vicente Pelizzia o abraçou efusivamente e com lágrimas nos olhos disse que havia vindo do Brasil apenas para revê-lo. Eu estava experimentando um dos dias mais plenos da minha vida.

Passamos o dia inteiro com Vicente Pelizzia, sua esposa e seu neto de oito anos de idade. Meu pai esgotou toda a sua energia. Quando entramos no ônibus para retornarmos à Buenos Aires, coloquei meu pai sentado à janela. Esperei que ele relaxasse, coloquei a mão direita atrás do pescoço dele e fitando diretamente nos olhos, disse: ‘pai, você vai me responder com toda a sinceridade, você nunca cogitou desse cara estar morto? Em nenhum momento você pensou que poderia não encontrá-lo... ’ Meu pai jamais compreendeu o que significou para mim a sua resposta naquele entardecer de abril em Salto, Argentina. ‘Como, se era tudo o que eu queria.’

Meu pai veio dormindo durante as quatro horas de viagem de retorno à Buenos Aires e eu, profundamente emocionado com uma pergunta que de vez em quando ainda me faço:

- Quem é meu Vicente Pelizzia?


Até breve.

6 comentários:

  1. É, sem sombra de dúvidas, um dos mais belos textos que eu já li.

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  2. Belíssima inspiração!
    Pra além da mensagem, gostaria de conhecer melhor os bastidores desta história.
    Abraço!

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  3. Concordo com João, também achei esse post muito tocante!

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  4. Agulhô, obrigada por compartilhar suas belíssimas histórias!! Abraços.

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  5. Emocionante!
    Vô Pepe foi um Grande Homem. Parabéns pela homenagem.

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  6. Caro Agulho,
    Que saudades do velho Pepe, das suas laranjas após o almoço e jantar, do seu amor pelos carros, pelo cruzeiro e pela vó Leny.
    Voce foi muito feliz neste belo texto. Parabéns e um abraço

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