terça-feira, 18 de setembro de 2018

SERPENTES





Estou lendo Ascensão e Queda de Adão e Eva, de Stephen Greenblatt, vencedor do Prêmio Pulitzer, edição da Companhia das Letras.

“Deus criou Adão e Eva, o primeiro homem e a primeira mulher, e os pôs, nus e livres de vergonha, num jardim de delícias. Disse-lhes que poderiam comer o fruto de qualquer uma de suas árvores, com uma única exceção. Não poderiam comer da árvore da consciência do bem e do mal; no dia em que violassem essa única proibição, morreriam.

Uma serpente, o mais ardiloso dos animais do campo, pôs-se a conversar com a mulher. Falou-lhe que desobedecer à ordem divina não os levaria à morte, mas que lhes abriria os olhos e os tornariam semelhantes aos deuses, conhecedores do bem e do mal. Acreditando na serpente, Eva comeu o fruto proibido. Ofereceu-o a Adão, que também o comeu.

Os olhos deles realmente se abriram; ao se darem conta de que estavam nus, juntaram folhas de figueira para se cobrir. O Senhor os chamou e perguntou-lhes o que tinham feito. Diante da confissão, Deus anunciou várias punições: daí em diante, as serpentes rastejariam sobre o ventre e comeriam o pó; as mulheres teriam filhos com dor e desejariam os homens, que as dominariam; os homens seriam obrigados a ganhar seu sustento com suor e fadiga, até que retornassem à terra de que tinham sido feitos. Pois tu és pó, e ao pó tornarás.

Para impedir que eles comessem o fruto de outra das árvores especiais – a Árvore da Vida – e vivessem eternamente, Deus expulsou-os do jardim e pôs de sentinela querubins armados, para evitar que votassem.”

Pois é.

A cada quatro anos, na cena política, figuras mitológicas nos assombram com suas estórias fantásticas, obnubilando nossa frágil consciência. Alguns simples mortais são tomados de tal fervor que passam a crer na construção de paraísos jamais habitados.

“Durante toda a vida fascinaram-me as histórias que inventamos na tentativa de dar sentido a nossa existência, e vim a compreender que ‘mentira’ é um termo de lastimável inadequação quando aplicado ao tema ou ao conteúdo dessas histórias, mesmo quando fantásticas.

A humanidade não pode viver sem histórias. Nós nos cercamos delas, as criamos ao dormir, as contamos aos nossos filhos e pagamos a outras pessoas para que as contem. Há quem as invente para ganhar a vida.”

Surpreendente como, desde os primórdios, somos tomados por elas, mesmo que ultimamente elas têm se tornado tão sinistras.

As estórias que me contam agora, confesso, não têm me feito dormir.


Até breve.


sexta-feira, 7 de setembro de 2018

INTERTINOS




Quem esfaqueou? Quem foi esfaqueado?

À margem especulações de qualquer natureza das motivações e da extensão - se lesão corporal, tentativa de assassinato ou atentado - permito-me refletir sobre o episódio ocorrido um dia antes que comemoramos nossa independência.

O que encerra o ato? A quem se destina?

Vejo cada um de nós fusionado tanto naquele que atua quanto naquele que é afetado pelo ato. Tornamo-nos todos beligerantes e vitimas de nossa beligerância. Nunca fomos tão agressivos, violentos, bestiais, desumanos.

Tudo bem, uns mais outros menos, mas todos têm agravado o universo em que vivemos. Seja pela ação, seja por omissão, seja por incitação, seja por conveniência, seja por que razão for, estamos sujeitos e submissos à nossa parcela mais do que abominável enquanto seres supostamente racionais.

São incontáveis as evidências de nosso desastre estampadas pelo cotidiano, desgraças que se incorporam à paisagem e que não nos causam porque se sucedem com tal frequência que, bem nos refizemos de um golpe, sucede outro maior ou mais daninho.

Paradoxalmente evoluímos em anos o que demorávamos séculos para descobrir em qualquer campo da ciência e da tecnologia. No campo das relações mais próximas, contudo, temos fracassado sistemática e profundamente.

Hoje, não deveríamos louvar nossa independência. Essa festa é caduca. Arcaico colocar nossas forças bélicas em parada, nossas crianças repetindo valores de superfície. Nossos governantes e suas vestes pudicas. Nossos palanques demoníacos.

Deveríamos nos convidar à interdependência, face ao tempo presente. Urge que façamos um exame de consciência: quanto tenho contribuído para que esse estado de violência se torne agudo?

Parece que não, mas reflita. Você se encontrará em algum ato, seja como agressor ou como vítima.

A faca transita.


Até breve! 
(Se houver amanhã...)

domingo, 26 de agosto de 2018

VÁCUOS




Outro dia estive pensando. Sério, apesar de não ser mais necessário, eu consegui alguns lampejos originais.

Eu estava só, tinha dado uma pausa na leitura de um livro e, num viés de vazio, me dei conta que eu estava por elaborar um pensamento.

Ocupei-me. Deixei que acontecesse, não resisti. Abdiquei-me completamente de recorrer ao Google para me dar conta, sozinho, daquilo que formulava.

Claro que eu tenho presente que seja uma tolice uma vez que aquilo pelo que me propunha a pensar, aliás como tudo o mais, já está pensado e catalogado.

Formule qualquer questão, digite lacuna googliana e prepare-se: páginas e mais páginas para você viajar em extensão e profundidade que lhe aprouver.

Resisti, contudo.

Eu pensei, acreditem.

Qual o melhor itinerário para eu ir ao consultório de meu médico oftalmologista? Era a questão que me propus investigar. Em que pese a dificuldade, em face de perda da prática em pensar, consegui articular algumas rotas alternativas.

Quando deu a hora para eu me dirigir à consulta, acessei UBER e, três minutos depois, eu estava entrando no carro.

Lembro que o motorista me perguntou se eu tinha preferência de itinerário.

- Vá pelo que tiver menos trânsito...

Foi o que eu disse.



Até breve.


terça-feira, 21 de agosto de 2018

ORIFICIOS




Estou, desde quinta-feira, em João Pessoa visitando Bernardo e Alessandra, sua namorada. Namorada do meu filho, não de João Pessoa, para ser bem claro.

Na sexta fizemos um programa de índio: fomos ao encontro da natureza.

Exuberante, diga-se de passagem!

Estivemos em reserva da FUNAI em Barra do Rio Camaratuba, entre as cidades de Mataraca e Baía da Paixão, território da tribo Potiguara, a menos de 100km de JP.

À beira dessa maravilha (foto) vivem, em condições primitivas, Ronaldo, sua esposa Mariana e o filinho deles, Júlio.

Ela preparou um caldo de camarões, cozido - pasmem - com coco, uma das minhas paixões.

Pois foi Mariana que nos brindou com a receita para a preparação do prato dos deuses mais primitivos.
Só que ocorreu à partir daí um fato relevante de choque cultural. Deu-se o seguinte: Mariana fez também um pastel de queijo, e, perguntada por Alessandra porque ela não fazia o pastel de camarão, ela respondeu que fazia e se colocou a nos explicar como.

A coisa ia bem até que já no final da aula de gastronomia divina Mariana disse: “Eu deixo o óleo esquentar bastante, coloco o pastel com recheio seco, e quando ele desgruda do cu da panela eu viro ele”.

Eu, chocado: “ A senhora pode repetir essa parte?”
“Pois é, eu espero ele desgrudar do cuzinho da panela e viro...”

Não sei como suportei tamanha descoberta.



terça-feira, 7 de agosto de 2018

QUIMERAS






Hoje, pela manhã, tive uma ideia. É raro, mas, ás vezes, acontece.

Se acolhessem minhas ideias, ainda que raras e rasas, não estaríamos aqui. Estaríamos em outro lugar, estou certo.

A ideia é a seguinte, até que eu tenha outra que, igualmente, não será acatada.

Cada candidato à Presidência da República teria que, uma vez aprovada à sua candidatura, das 21:00h às 22:00h, em cadeia nacional de TV, diante do Congresso Nacional presidido pelo presidente do STF, apresentar a sua visão dos principais desafios colocados ao país no momento e os planos e meios para a superação dos mesmos.

Ao longo da campanha à Presidência o candidato poderia fazer ajustes que, sobre seu juízo se fizessem necessários, mas no dia 31 de dezembro o candidato eleito teria que apresentar novamente ao Congresso Nacional presidido pelo presidente do STF sua versão final de seu programa de governo.

Esta apresentação serviria no futuro como elemento fundamental para o acompanhamento do governo, cabendo ao presidente eleito a responsabilidade de prestar contas, durante o mandato, dentro do mesmo formato quando da apresentação de seus planos.

Assim, as instituições centrais da governança teriam a visão objetiva e clara dos planos, bem como toda a sociedade estaria informada e em condições de debater e sancionar pelo voto o plano que a seu juízo seria o mais apropriado para a realidade.

O país precisa de um plano, um congresso, um poder judiciário e um povo para realiza-lo. O presidente apenas o seguirá.

Assisti, no Brasil, a nove conferências do pensador francês Alain Badiou. Depois que ele terminou a última, aproximei-me dele e fiz uma pergunta que havia formulado. Uma pergunta que nem me lembro de mais qual, sei que era um enrosco.

Ele, no alto de sua altura e de sua privilegiada inteligência, respondeu até com  certo desdém.

- “Meu caro, a vida apresenta-se travestida de complexidade, mas continua simples”.

Pois é.


Até breve.

quarta-feira, 25 de julho de 2018

ESCOLHAS





A Vida convida ao caos. A Paz não nega a possibilidade da Vida. Assim é.

Pois.

Os anos, todos, não serão jamais suficientes para entendê-la toda, nem vivê-lo todo. A Paz, por decorrência, idem.

Daí os momentos especiais que a Vida nos coloca. Diante do caos. Sobretudo da própria existência e a procura de seu significado. Já nos bastaria a pergunta essencial: quem sou? Para não nos angustiarmos ainda com: para quê sou?

Quando escolhessem o lugar para construir sua morada buscariam exatamente a resposta a tais perguntas e a tais propósitos. Um lugar distante privilegiado pelo gosto de um vale (carregado de ambiguidade de sentido), das matas exuberantes com suas árvores mais do que centenárias, frondosas, verdes e tais.

Ainda que muros altos divisassem o terreno manteriam portões abertos para que viesse de lá o caos e que dele, em se hospedando experimentassem a soberana paz.

Os pinheiros todos seriam dispostos um ao lado do outro com intervalo de um metro, como se buscasse uma ordem ao caminho, diante de todo caos.

Viver terá sempre a ver com caminhos e escolhas.

O casarão abrigaria sobretudo livros, de todas as paixões para que nenhuma delas pudesse ser desperdiçada. Todo o saber e toda poesia vestiriam as inúmeras prateleiras, estantes, mesas, móveis, poltronas, redes, cadeiras de balanço dispostas a esmo e revoltas pela sua própria necessidade.

A Vida convida à interioridade para compreender a exterioridade.

Sob o mais que belo arvoredo se colocaria uma mesa redonda, sem quinas, aberta ao todo, para que ali tramassem e fizessem o pré-preparo de doces com frutas colhidas de um pomar nativo e singelo preservado ao longo da parte esquerda do casarão.

De cada trama um gosto e de cada fruta uma poesia ou prosa vária. Para que se drenassem o espírito e a vã filosofia. Viver se resumiria a tramar e a adoçar.

Doce, sempre doce, não para negar o amargo, não. Mas para servir-lhe de antítese e, no contraponto, produzir uma síntese sobre a qual valeria a pena de estar aqui e agora.

Em que pese toda a dor que circunda e toda a impotência mais do que real, se buscaria um viver que tivesse valia, legado, sentido.

Letras emergiriam da experiência e tudo da produção serviria de alguma forma para que se atenuasse todo o amargo, toda dor, todo o caos.

Até que nada mais pudesse ser feito.

quarta-feira, 18 de julho de 2018

BOLA II




Fui acometido entre os oito e os doze anos de idade (de maneira mais intensa, eu acho) por algo que me consumia sem saciar, que me tirou de todos os outros olhares e só queria que eu vivesse para ela.

Todos os meus pés descalços que andaram por ruas, também fugiram para gramados batidos de terra em terrenos baldios, campinhos de araques, ruas e ladeiras de pedra Pé de Moleque. Deixaram marcas indeléveis de dores e dores pelos tampos dos dedos ensanguentados cobertos de terra. Como herança ficaram unhas encravadas (dos dedões) porque não tiveram nunca oportunidade de crescer.

No dia seguinte eu estava lá à caça dela para correr-lhe atrás. Em que pesem as circunstâncias da época especialmente de minha zelosa mãe que me tentava impedir de todas as formas que eu fosse dragado pela paixão.

Lembro apenas que entre os instrumentos de repressão havia o de me colocar vestidos de minhas irmãs para que eu não evadisse. Perdi aí a grande oportunidade de ser mais doce.

Desvencilhei-me de tudo e caí apaixonado, intensa e desesperadamente. Passava horas nas ruas, procurando minhas turmas para jogar todas as peladas que pudesse haver no bairro.

Jogava bem, sei por que observava ao redor outros meninos comentarem ou mesmo adultos e sei deles porque o pé esquerdo na bola, um olho no gol e outro na iminente aproximação de minha querida mãe. Ela nunca conseguiu me pegar.

Ao final das tardes, início de noite, exausto ia embora por força de senha que minhas irmãs me levavam: “Mamãe vai te matar!”.

Ontem recebi, via WhatsApp, foto do Tim (um de meus netinhos) fazendo teste de pontaria com uma bola a ser arremessada em buraco da parede de uma casa em Carmo da Mata, cidade natal de seu pai, meu genro de quem recebi essa preciosidade.

Claudio disse, na mensagem, que se recordou de sua infância e que os buracos da parede variam de diâmetro o que aumenta ou reduz o grau de dificuldade para acertá-los.

Poder viver esses legados me inunda o coração de alegria.

Tim, são muitos os buracos dessa Vida.   

terça-feira, 17 de julho de 2018

FORO




Teve uma vez que eu fui. Acho que foi uma única. Não teve outra. Se bem que, lembrando melhor, foram mais de uma sim. Duas ou três, talvez. Na verdade, mesmo que tivessem ocorrido mais de tantas vezes, foi como se tivesse sido única.

Estou certo que sempre chovia, uma chuva fina e constante, daquelas que encharcam a terra sem destruir plantações. Isso contribuía, e muito, para o contexto. Havia certa tristeza no ar, a cor cinza assim cabia emoldurando a cena.

Outra circunstância presente é de que sempre aconteceu à noite. Depois das vinte e duas e quarenta, nunca antes. O mais interessante é que ninguém, nem eu mesmo, combinávamos o horário e sabem-se lá cargas d’água porque, sempre aconteceu depois daquele horário, nunca antes.

Eu nunca cheguei primeiro, por isto acho sempre que foi uma única vez. Porque também, os outros que chegavam depois de mim, sempre entravam na mesma ordem. Todos os quinze, primeiro o Herasmo e, por último, Antenor.

Deles todos, de muito, conhecia o nome. Nada mais, tudo o mais fui supondo. Idade, descendência, estado civil, opção sexual, formação, estes tipos de caracteres. Assim, nunca perguntei nada a nenhum deles. Ia ouvindo um ao outro e fui decorando os nomes. Só.

Duas mulheres participavam também. Uma senhora de uns oitenta e poucos anos e outra, jovem, de uns trinta e poucos. Zenaide e Karla. Ambas descendentes de estrangeiros. Não soube distinguir a origem. Mas cada uma a sua maneira tinha traços diferentes dos nossos.

A coisa durava exatos 185 minutos, nunca mais e nunca menos. Fosse o que acontecesse durante, era batata. Do início até terminar podia ver no relógio digital com frações de segundos. Na pinta.

Nunca soube por que.

Ao terminar todos saiam sem se despedir e nenhum acompanhado. Todos sozinhos, alguns de cabeça baixa. Na rua, idem. Ninguém se comunicava. E sempre os destinos de cada um pareciam o mesmo. Alguns seguiam a rua defronte, outros desciam a ladeira e outros, subiam em direção à praça.

Uma das mulheres, a mais jovem, subia a ladeira. A mais velha seguia a rua defronte. Melhor, pois era uma rua plana, de calçadas largas e bem iluminada. A única pessoa do grupo que encontrava já no meio do quarteirão um homem grisalho que vinha busca-la. Suponho ser seu filho, ou um irmão mais novo.

Eu descia a ladeira, pegava a primeira rua à esquerda, andava uns seiscentos e trinta metros e depois virava à direita, na Rua Ramos Delgado, onde ficava o Bar do Quincas, aberto até as duas da madrugada.

Quincas era um filhote de português adestrado pela senhora sua esposa, homem bom, bigodes espessos e sempre com seu mesmo chinelo de dedos com as tiras emendadas com arames finos. Uma tristeza.

- Fala aí, Quincas!

- O de sempre, gajo?

- Serve que é o mesmo...

- Tá vindo de onde?

Nunca disse.

domingo, 24 de junho de 2018

SerTão




Tenho sido privilegiado pela Vida. Inúmeros momentos de inesgotável prazer e alegria.
Ontem vivi um desses, intenso, inenarrável, inesquecível.
Assisti ontem Grande Sertão: Veredas, no Palácio das Artes, digno deste nome por abrigar o espetáculo Obra prima de Guimarães Rosa e agora da artista multifacetada, cineasta, diretora de teatro e ópera, exposições, ganhadora de vários prêmios, a extraordinária Bia Lessa.
“Algumas pessoas vinham dizendo pra eu fazer teatro, e eu nunca senti que deixei de fazê-lo. Um dia eu fui à feira e vi mendigos pegando comida. Tenho um amigo que fala uma coisa que eu amo: a gente não pode viver vendo, porque se a gente vê tudo, a gente não dá conta de viver, mas tem dias que a gente enxerga, e quando enxergamos, a gente cai pra trás. Nesse dia eu enxerguei. Quando cheguei em casa, sentei no sofá e olhei para o ‘Grande Sertão: Veredas’. Aí eu decidi enfrentar esse negócio. Não pelo desejo de fazer, mas pelo desejo de enfrentar algo. Porque eu acho que temos que enfrentar coisas diariamente”, comentou Bia, sobre a decisão de voltar ao fazer teatral.
“É importante que a gente olhe para a vida, não só para os acontecimentos históricos, mas para onde estamos. Tudo que nós fomos criando ao longo da nossa existência. O mundo está vivendo contradições profundas. Montar um ‘Grande Sertão’ pra mim é enfrentar essas questões necessárias de se falar, que é a construção de um novo ser humano, uma outra humanidade”, comenta sobre a importância e urgência de se montar a peça.
“Guimarães é inadaptável. Isso foi desesperador pra mim, mas acabou se tornando um trunfo. Trabalhei diretamente com o texto do livro”, explica. A diretora assumiu o desafio de dialogar com uma das obras mais complexas da língua portuguesa.
“Nossa forma de estar presente e do ser o que a gente pensa, a gente faz através do próprio espetáculo. O livro é um livro formador, então não é à toa que a gente resolveu fazer nesse momento. Tem uma coisa muito bonita do Guimarães Rosa que ele coloca o homem no contexto, fazendo parte da natureza como um todo. Então os animais e os homens têm a mesma importância. Esse espetáculo fala um pouco desse respeito ao outro e à diferença. É isso que a gente gosta e tem orgulho de defender. Nesse momento que o mundo está tão reacionário, andando tão pra trás, é fundamental que a gente dê um passo à frente. Por isso é importante que a gente monte ‘Grande Sertão: Veredas’”, concluiu Bia.
Em um trabalho tão artesanal, marca da diretora (que passou mais de 600 horas com o elenco, em ensaios diários por 92 dias), e de grande esforço físico (a preparação corporal foi um dos aspectos indissociáveis do trabalho de direção, com aulas de corpo diariamente durante os quatro meses de ensaio), a tecnologia foi fundamental para guiar o público em tantas veredas.
"O trabalho exigiu muito fisicamente e emocionalmente. Foram oito horas de ensaio por dia. Isso porque o próprio livro em si é uma fonte inesgotável de soluções e de questionamentos. Sempre vamos ter perguntas pra fazer e vamos correndo atrás das respostas. Pra mim está sendo transformador enquanto artista, mexe com meus conceitos, com a minha forma de enxergar a arte. É mais interessante o processo do que o resultado em si. O resultado é parte desse processo e ele não termina, ele é contínuo, ele vai continuar reverberando na gente”, comentou Leonardo Miggiorin, um dos atores em cena.

Não há representação, no sentido literal, mas um jogo cênico que exige do espectador. Não basta só olhar, é preciso querer ver – e é essa brincadeira entre olhar e ver que Bia busca em Guimarães. Para criar o formato híbrido entre espetáculo e instalação, ela recorreu a vários elementos cênicos. Os personagens aparecem em uma gaiola, potencializando o exercício do espectador de se posicionar para ver o que ocorre.

“ A gaiola dificulta a visualização. Não deixa livre o olho do espectador, ele deve procurar e ver. Guimarães dizia: ‘Mire e veja’”, adianta a diretora.

A paisagem sonora é outro elemento fundamental da instalação. Há quatro camadas de sonoridades: o ruído que amplia o espaço, o som vindo de lugares amplos; a música autoral composta por Egberto Gismonti; as cantorias e rezas ligadas ao inconsciente coletivo; e, finalmente, o timbre das vozes do elenco. “A instalação invade a plateia. Não tem o lá e o cá”, resume Bia Lessa.

“Contar seguido, alinhavado, só mesmo sendo as coisas de rasa importância.” Bia conhece profundamente o Sertão de Guimarães Rosa. Ela convida a plateia a um mergulho fundo na epopeia narrada pelo jagunço Riobaldo, que atravessa o sertão para combater seu maior inimigo, Hermógenes, fazer um pacto com o diabo e descobrir seu amor por Diadorim. O espetáculo contempla duas horas e vinte minutos ininterruptos de encenação, com o elenco em cena permanentemente, em que o público experimenta a dissolução das fronteiras entre início e fim do espetáculo; entre teatro, cinema e artes plásticas; entre literatura e encenação.

“O sertão está dentro da gente”. “Nosso caminho foi realizar um trabalho onde homens, animais e vegetais estabelecessem uma relação de diálogo sem supremacia entre eles. Não estamos exatamente no sertão, mas em um espaço “ecológico” e metafísico onde tudo cabe. Um espaço, uma imagem, que nos possibilita a experiência proposta pelo romance, sem obviamente realizar o romance tal como é – fidelidade absoluta (todas as palavras ditas são de Guimarães Rosa), mas liberdade infinita, visto que é apenas uma das leituras possíveis da riquíssima obra de Guimarães. Escolhemos não utilizar grandes efeitos ou recursos, a não ser a valorização do universo sonoro dos espaços propostos pelo romance, apenas os próprios atores”, pontua a diretora.

“O sertão está em toda parte” A grande estrutura tubular concebida lembra um claustro, uma gaiola. Instalada no palco do Grande Teatro do Palácio das Artes, também é, ao mesmo tempo, cenário de violentas batalhas e de reflexões profundas. Como instalação são 250 bonecos de feltro com tamanho humano, compõem uma imagem permanente: a cena da morte de Diadorim como um presépio. A trilha sonora completa a atmosfera do Grande Sertão: Veredas, composta por três camadas: os ruídos e sons ambientes, a música composta por Egberto Gismonti e a trilha sonora que representa nossa memória emotiva, com músicas que fazem parte de nosso imaginário. Os figurinos são uma leitura do sertão, sem regionalizá-lo – são personagens do mundo.

A gongórica e letal escrita de Rosa ganha o corpo dos atores. Empresta-lhes ação e fala. E a trama romanesca se desenvolve diabolicamente, com movimentos desordenados, afetuosos e anárquicos, qual máquina escultural.

Grande Sertão: Veredas se expande como espetáculo teatral que libera – qual alegoria rigorosa da nossa contemporaneidade − o modo como os movimentos desenvolvimentistas sem preocupação social e humana não recobrem a nação como um todo. Pelo contrário. O esforço positivo da modernização é localizado, centrado e privilegia. Nas margens, cria enclaves de párias – bairros miseráveis, favelas, prisões, manicômios, etc. − onde violentas forças antagônicas se defrontam e se afirmam pela ferocidade da sobrevivência a qualquer custo, acirrando a irascibilidade do controle e do mando.

Viver é perigoso. Extraordinário em Guimarães Rosa é que, no mais profundo da vida humana miserável e autodestrutiva, na morte, há lugar para o afeto e o amor. Ao compasso de espera, Riobaldo e Diadorim dançam novos e felizes tempos. Piscam a alegria de viver, como vagalumes que a mata libera à noite. 

Até breve.

quarta-feira, 23 de maio de 2018

INPERFECTOS





Eu, por mim, não diria. Amigos não virtuais é que cobraram que eu o fizesse. Estou solidário a eles, então digo.

Aconteceu no dia seguinte àquele em que eu tinha escrito um romance de 354 páginas. Ouvi dizer que um homem havia pulado da janela de seu apartamento no 15º andar, como fazia diariamente pela manhã, para o apartamento de seu amante morador do 14º.

Lamentável ou destinodesatradamente o amante esqueceu-se de abrir a janela. O do 15º precipitou-se abismo urbano abaixo e estatelou-se ao solo de barriga para cima e os olhos esbugalhados.

O amante abriu a janela e, quando viu seu amado estatelado ao solo com os olhos esbugalhados como se o crispassem, teve a nítida impressão de que aquele que jazia teria dito antes do juízo final:

- Filho de uma puta!!!

Eu não presenciei a cena, ouvi dizer de populares que a viram e comentaram nas esquinas pelas quais passei para ir ao banco pagar aqueles dois boletos. Um da operadora de TV paga, que logo voltou a transmitir o sinal e o outro que lembrei agorinha, o da operadora de saúde.

Eu mesmo uso pouco para emergências, quase sempre para exames regulares por força de uma cirurgia que extirpou uma dessas partes deste meu corpicho cujas funções têm que ser preenchidas pela química farmacêutica.

Geralmente fico sempre horrorizado com essas coisas, mas fazer o quê, multinacionais podem sempre tudo. Carteis que operam milagres nos marcos regulatórios bancados em dólares da melhor qualidade.

Está variando entre R$3,65 a R$3,75, sujeito à confirmação nos institutos de maior credibilidade, então não é hora de programar nada que envolva a moeda. Turismo externo, nem pensar.

Gostei mais da Dinamarca do que de Cuzco, ou foi ao contrário. Tem horas que tendo viajado tanto misturo paisagens, guias, jantares, torres e fotos.

Teve uma dessas que eu fui de camisa azul. Aconteceu inadvertidamente, avoado que sou. O time adversário usava preto e, caramba, só pelos olhares da vizinhança da arquibancada um pouco mais ríspidos do que eu estou acostumado é que vim perceber que algo estava errado. O quê que aqueles caras estavam fazendo naquela parte reservada do estádio.

Taí uma coisa que de jeito nenhum tolero. Intrigas, maledicências. Quase sempre me reúno com amigos que, com a maior lisura, escolhem a dedo os seus alvos. Teve um, dos mais queridos, que criou uma confraria: Quinta dos Infernos. Toda quinta-feira reuníamos, sim porque ela não passou da segunda sessão, para meter o pau nos outros. Um dos presentes começou a meter o pau em nós mesmos que fazíamos parte da confraria. Pode algo pior?

Se bem que não, gosto mesmo é de mulheres, de certos tipos, idade, cabelos, olhos e boca. Alguns pensam que eu sou mesmo afrescalhado, mas faço por puro charme, lanço olhares esquizos, como se não estivesse nem aí. Adoro voz.

Eu disse que diria. Não sei se esqueci de alguma coisa. Amanhã se amanhecer quinta-feira, na confraria vão meter o pau em mim.

Eu, por mim, num tô nem aí. Eu paguei o meu boleto e assisti ao filme muito doido: PERFECTOS DESCONOCIDOS.

Ótimo, estou tranquilo. Paguei o meu boleto do plano de saúde. 

Chá de aeroporto dá nisso.


Até breve. 

domingo, 20 de maio de 2018

PERFECTO





Outro dia escrevi um romance de 354 páginas de que gostei muito.

Foi assim. Eu tava meio com muito sono, só que era de dia, então não fazia cabimento. Eu faço o quê com esse sono? Pensei eu, cá com os meus problemas.

Já sei. Vou sonhar, mesmo que acordado.

Foi quando sentei diante de meu computador e desandei a digitar umas primeiras frases. Quando se dei por mim, já era tarde da noite, meio de madrugada e eu senti que era por fome e sede e vontade de ir ao banheiro para sólido e líquido.

Fui lá e já voltei e desgramei a escrever sei lá com quê coerência e/ou consistência.

De verdade, na passagem pela cozinha, peguei duas maças vermelhas na geladeira e um yogurt de morango. As teclas do computador ficaram ensebadas do sumo da maça, mas eu, excepcionalmente, não derramei nem uma gota de yogurt em canto algum.

Já era do outro dia e eu ali, com as costas doídas e os dedos meio que inchados e cento e dez páginas, arial, fonte 12, formato A4 inteiras.

De repente, parei. Levantei-me de um salto e me pus a pensar que eu era meio doido. Quem faz isso e desse jeito? Só um tomado de espírito, psicografando.

Eu não. Nunca deixei que ninguém montasse em mim.

Fui à cidade, paguei dois boletos. Um da televisão a cabo e o outro não sei bem de quê, só sei que teve juros e correção monetária. Eu costumo atrasar os pagamentos, quando tenho dinheiro. Quando não tenho, não pago.

Liguei para a operadora para perguntar quando que voltaria o sinal se eu já tinha pagado o boleto e que estava em dia. Eu não me lembro do que a atendente disse, só que quando liguei a TV tava tranquilo. Tinha voltado a funcionar toda a programação.

Assisti, na Netflix, a dois filmes: PERFECTOS DESCONOCIDOS, espanhol, bom as pampa.

Uma comédia dramática sobre um grupo de amigos que, em um jantar, resolvem fazer o jogo do celular sobre a mesa. A regra é simples. Tocando o celular o dono tem que atender e dar curso à conversa.

O que pinta só vendo o filme, que eu tinha que escrever mais umas duzentas e tantas páginas para concluir o romance.

Ah, o outro filme. Uma porcaria com aquele cara que fez O PIANO. Fosse por este eu devia de não ter pagado o boleto.

Depois, fui dormir.

Será que alguém acreditou nessa conversa?


ATÉ BREVE.

quarta-feira, 9 de maio de 2018

TREM





Recebi hoje uma provocação dilacerante.

O que é amor intenso?

De onde vem a ideia de alguém que, por cargas d’água que sejam, possa acreditar que eu tenha algo a dizer sobre.

Fosse poeta, comporia, porque a poesia pode tudo.

Fosse escritor, narraria, no plano do intelecto tudo racionalizaria ainda que em romance, ficção mesmo que absurda.

Fosse filósofo, deliraria, viajando na maionese.

Ou fosse eu, quem sou, um sujeito qualquer que não consegue viver sem estar na condição proposta pela questão formulada.

Eu sei lá o que é isto. Eu só sei que, em não sabendo, sinto. E de tal sorte fundo que tenho para mim que só pode ser da minha natureza, disso que suponho, andam tentando dizer de humano.

A coisa toma conta assim dos pensamentos, das interpretações, dessas faculdades todas, mas é no estômago, creio, que ela se dá por inteiro.

Visceralmente quando na ausência, uns trem que dizem nomeado só em português não lusitano: saudade.

A falta do ser objeto dói. Outro trem que para você explicar tem que recorrer à poesia, à prosa, à filosofia. Melhor não. Sentir, que é de bão.

Na presença, aí é que o bicho cresce. Começa pela via dos olhos, dão uns estremecimentos das musculaturas, uns tremeleques, uns incômodos, umas ardências, que eu até ousaria dizer de uma gostosura assim indizível.

Aí se se põem as mãos, meus deuses, elétrons puros e incandescentes. Mãos nas mãos, mãos nos cabelos, no rosto e aí imagine meu desavisado leitor, imagine por onde andarão essas mãos todas e com que brandura, cuidado e acuidade.

Quando a boca é convidada, caramba (!), proferir palavras alvoraçantes, dessas que pelo som embalam. Os lábios em lábios, em rostos, em pescoços, em tantos quantos forem os sentires, os pedires em gemidos quase que de sempre.

Depois, ou não necessariamente nessa ordem, o estômago. Deve derivar daí a ideia de que a tradução se dá conta: “Eu quero te comer!”.

Apropriar-se do outro, engoli-lo, possuí-lo, toma-lo para si, antropofagicamente. Comer-se do outro.

Daí em diante é tudo que se deve mesmo proibir desde sempre. Perigo imanente de sentir a maior expressão do que é, essencialmente, humano: o prazer.

Assim: inteiro, entregue, fundo, de propósito, intenso.

A Psicanálise nomeia como pulsão.

De vida.


Até breve.

segunda-feira, 19 de março de 2018

CLAMOR




O quê clamam, ou por quê clamam, ou porque clamam estas mulheres?

A foto “roubada” do Estadão registra um momento das manifestações ocorridas na semana passada. Mas ela poderia estar estampada em todos os lugares, vinte e quatro horas por dia, há séculos e por séculos.

Penso que clamam o direito à vida, ao afeto, à compreensão, ao carinho, ao respeito.

Penso que clamam pela atenção aos seus filhos, à sua sexualidade, ao seu corpo desnudo, pela sua opção de ser ou não ser o que bem lhe aprouver.

Penso que clamam porque estão esgotadas há milênios de serem vilipendiadas, enxovalhadas, brutalizadas.

Penso que a Vida, entendida como fundamento civilizatório, clama por um basta.

A Vida enquanto conduta social, prática do cotidiano, a vida mais comezinha vivida em todos os lugares, lares, escritórios, lojas de comércio, estádios de futebol, casas noturnas, ruas, praças, avenidas, estradas.

Onde houver uma mulher. Basta!

Por que desaguar sobre ela a incapacidade manifesta de todas as maneiras, meios, formas, intensidades, veladas ou explícitas? Por que fazê-la depositária da incompetência de ser parceiro, provedor, protetor, amante?

Por que odiá-la?

Por que traí-la?

Por que mata-la?

A violência é atributo do másculo, da besta caçadora, do selvagem, do descivilizado.

O que ele ataca, o que ele destrói, o que ele denigre é muito mais do que um corpo com uma racha entre as pernas, diferente do que tem entre as suas, um pêndulo.

Um pêndulo simbólico que marca uma história de violência concreta.

Basta!

É passada a hora de, enquanto sujeitos do masculino, civilizarmo-nos. Domar esta troglodita expressão da força quase sempre desigual perante o feminino.

Como na foto sugere, é preciso abrir todos os semáforos, sinais, faróis. É preciso deixar que passem as mulheres. É preciso deixa-las irem, leves, soltas, livres, inteiras. É imperioso permiti-las.

Sob pena de, qualquer hora dessas, decidirem não gerarem mais filh(o)s. Para explicitarem, e de uma vez por todas, seu desatino.

E aí, nada mais poderá ser feito.




Até breve.