segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

VENTOS




“Eu vou me acumulando, me acumulando, me acumulando
– até que não caibo em mim e estouro em palavras”.
Clarice, em Um Sopro de Vida.


Toda vez que chega final de ano me lembro de Drummond, quando ele nos lança à pergunta de para quê contamos o tempo.

Afinal para que nos serve dia, semana, mês, ano, segundos, minutos? Ora, senão para nos fazermos diferentes. Fosse a ausência do tempo presente, adeus passado e adiante seria de um vazio.

Além de um desfazimento da natura bruta, em simultâneo, sobra um fazer sei lá se de alma e compreendimentos fundos. A gente sempre terá dessas ilusões marítimas ou firmamentos.

Não é mesmo de possível sejamos apenas esta bisnaga de carne que evolui à carniça. Gosto deste verbo quando usado por médicos em seus veredictos fatais: o paciente evoluiu para óbito.

Não! Adiante para que seja, haverá de ter.

E, em tendo, o que farei de mim?

Afora os haveres, deveres, teres, o quê seres?

{Agora que existem computadores para quase todo tipo de procura de soluções intelectuais – volto-me então para o meu rico nada interior. E grito: eu sinto, eu sofro, eu me alegro, eu me comovo. Só o meu enigma me interessa.

Mais que tudo, me busco no meu grande vazio.} É, de novo, de Clarice.

Maior do que dessas ilusões fortuitas trazidas do suposto insuportável real que nos acomete. Tudo está sabido, inventado, corruptado, defenestrado, Tem gente ai ainda se ocupando de direitas e esquerdas, de povo, de puslítica, dessas quimeras nutridoras de ódios e alucinúrias.

Tem gente com tempo para estas coisas. Ainda.

Claro! É do jeito que vida parece. Melhor ficar crendo que sim, só há.

Eu não. Por mim, abro lagunas, lacunas, fossos, enxurrantes tempestades de dentro. Caçantes embocaduras, vales estreitos de mim, quando suponho. Ninguém me entenderá completamente. E ninguém aqui sou eu próprio com todos os meus nem guéns.

Fora isso sobra o Amor. Intenso e por todos os poros. Frequente de alucínio. Loucura das puras e fora das convenções mais do que doidas. Pobres, endêmicas, cagantes.

Eu vou sei que sei. O Nada é de um tudo bastante. E o Rosa perfuma: “o real não se encontra na saída e muito menos na chegada, senão na travessia”.

Ali onde a Vida alcança.

Profundo Nada a todos!


Até breve.

sábado, 29 de dezembro de 2018

DESCORPORAR




Claudinho, ontem pela manhã, trouxe das compras duas ou três caixas de cervejas. A intenção é de consumi-las todas ao longo de até o 02.

Perguntou ao Vlad sobre a marca, se o cunhado, conhecedor de cervejas artesanais, gostava de Petra.
Vlad disse que não conhecia, se eu ouvi bem.

Já à noite perguntei ao meu genro, Claudinho, se Petra é Latim. Era mais para zoar com o sujeito que levou minha filha para Lages com meus netos. Claro que eu sabia, se bem que não com convicção, Petra é Grego.

- É, Agulhô, é em latinha, mas eu acho que tem em garrafa também.

Pouco mais tarde Pretinha, minha filha que o sujeito levou para Lages com meus netos, irmã de Vlad e Bernardo, meus outros dois filhos, foi quem me perguntou por que eu não escrevo mais.

Acho que é por isto.

Escrevo em Grego e o consumidor quer em latinha.

Bem já quase meia-noite, tomei um banho e debrucei sobre o Um Sopro de Vida, de Clarice, a Lispector.

Numa hora qualquer do texto ela inscreve: “Vou escrever um livro tão fechado que não dará passagem senão para alguns. Ou talvez eu não escreva nunca mais”.

Tipo do livro Grego. Vou precisar de uns seis meses para sorvê-lo todo em cada linha.

Minha vida me quer escritor e então escrevo. Não é por escolha: é íntima ordem de comando.

Não fui eu que escrevi a frase de cima. É “dita” pelo personagem Autor do livro de Clarice, a quem ela deu sopro de vida. E, como autor, ele se pergunta: “Eu inventei Ângela porque eu preciso me inventar?” Ângela, eu acho, é personagem de Autor.

Escrever pode tornar a pessoa louca. Não se queira.

A primeira frase de cima é do livro de Clarice.É de Clarice, do Autor (personagem de Clarice(?) ou de Ângela (personagem de Autor)?

O pior plágio é o que se faz de si mesmo.

Acordei hoje com tal nostalgia de ser feliz. Eu nunca fui livre na minha vida inteira. Por dentro eu sempre me persegui. Eu me tornei intolerável para mim mesma. Vivo numa dualidade dilacerante. Eu tenho uma liberdade, mas estou presa dentro de mim. Eu queria uma liberdade olímpica. Mas essa liberdade só é concedida aos seres imateriais. Enquanto eu tiver corpo ele me submeterá às suas exigências. Vejo a liberdade como uma forma de beleza e essa beleza me falta.

Acessei o caderno Cultura do Estadão e lá li um poema:

BARGANHA

O quê? Dar pelo meu ouro
O teu saco de farinha?
Te pergunto, meu tesouro:
Na bundada não vai ninha?

Deixei Pretinha sem resposta, mas parece que é por isto. Ser imaterial, para ser livre.

Pedra.


Até breve.

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

CORTE





Corria o ano de 1962. Em um bar, Pedrinho, então com 26 anos, dedilhava as cordas do pinho atendendo aos pedidos dos convivas. Bebericava pouco e cantava muito.

Alguns acompanhavam, fazendo compasso no tampo das mesas, nos copos, garrafas. Outros expressavam gestos de performance, imitavam cantores da época, simulavam as dores trazidas das letras das canções lacrimais.

Era final de tarde de um sábado.

Em dado momento um grito calou pinho, vozes, ritmos e congelou performances.

- Caramba! Minha mulher vai me matar!

Entre todos surgiu aos berros um dos convivas:

- Eu tenho um casamento prá ir, estou atrasado... Tinha que ter feito o cabelo, a barba... Eu sou o padrinho.

- Não vá! – Ecoou em uníssono vindo dos quatro cantos enquanto, simultaneamente, voltava de onde havia parado os acordes, o canto, gestos e performances.

- Ela vai me matar! Onde vou achar um barbeiro aberto agora, santo deus!

Por um momento ouviu-se somente o canto de alguns convivas, o violão cessou suas cordas e o principal puxador do ritmo foi quem disse:

- Se quiser, faço barba, cabelo e bigode... Tenho umas ferramentas aqui.

- Porra, Pedrinho, cê corta cabelo?

- Também.

Alguém assumiu o pinho, o som continuou solto, a turma reacendeu e Pedrinho foi com o ressuscitado para o fundo do bar. Improvisou um avental com jornais e fez o serviço completo.

- Ficou mais lindo que o noivo! – Gritou de lá alguém.

- Pedrinho, muito obrigado, cara! Sabe, vou te dar um salão. Você é um artista!

- Que nada, toco tudo de ouvido...

Passaram três ou quatro meses do ocorrido. Todos já haviam se esquecido da promessa, menos do medo (hoje pavor) das mulheres. A roda comia solta, ali pelas tantas, e todos assistiram o ressuscitado adentrar o estabelecimento com um molho de chaves na mão.

- Pedrinho, aqui está!

Break na cena boêmia, estupefação geral, Pedrinho atônito:

- Qualé, bicho?

- São as chaves do salão que montei para você...

- Vá gozar com a cara de outro...

- É sério, cara! Tá aqui o endereço...

Pedrinho, hoje com 82 anos, ainda toca violão de ouvido. Qualquer ritmo ele extrai do pinho com primor. A Vida lhe fez um artista. Ele visita diariamente suas seis lojas, todas próprias, em que instalou salões. Unisex. Polisex. Sedlex.

Há cinquenta e seis anos atrás ele abria incrédulo o primeiro cubículo. Seu primeiro e fiel cliente por anos a fio foi o ressuscitado.

Sempre achei que o medo às mulheres resulta, além de que o cotidiano é sempre mais rico do que a História.


Até breve.

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

DUCE



Luiz Fernando Veríssimo escreveu em sua crônica de ontem no Estadão: “Eu sou um marginal, na medida em que crônicas são anotações e comentários na margem das notícias, uma espécie de pichação literária, e eu faço crônicas.”.

Eu então, nem marginal sou. Sou para lá de marginal, já que posto meus textos sem a menor responsabilidade. Saí até do facebook, porque aquilo está gerando influência social. Quero insistir na minha insignificância e ganhar com isso o direito à minha solidão.

Só que eu não me emendo contrariando quem tem me pedido para que eu escreva textos leves e lindos.

Eu já tinha resolvido parar e não dizer nada, mas o olhar me assalta. Ontem mesmo, assisti na Sky ao filme: Estou de volta. O enunciado classifica o filme como COMÉDIA. Trata da hipótese e absurda do retorno de Benito Mussolini a Roma, agora nos tempos atuais.

Acho que sei por que não consegui rir em nenhum momento. Vejo muita semelhança entre nós e os italianos, em nossa formação. O filme explicita essa proximidade e eu quero crer que o programador da operadora não fez sem intenção.

“Não fui eu quem inventou o fascismo, eu só o tirei do inconsciente dos italianos.”

Nos meus guardados intelectuais mais íntimos nutro um desejo de que a vida brasileira melhore a partir de 2019. Há sinais importantes nesta direção: tanto no plano das propostas econômicas quanto naquelas de caráter da limpeza das instituições sempre à luz dos preceitos constitucionais.

Por outro lado, a frase de Mussolini acima, estampada impressa no filme, me congelou. Não pelo próprio e nem pela nossa suposta/exagerada versão mais do que tupiniquim. Não temo pelos ditadores, mas pelos seus fanáticos seguidores. Quem cria e sustenta um, são milhões. Daí meu receio.

O que dita o nosso inconsciente coletivo? Que ódio recalcado encerra?

Lembrei-me agora de que no dia da votação do segundo turno levei Tin, um de meus netos, comigo. Ele estava esbanjando o uniforme que trouxe para ele de Portugal da seleção daquele país. Eu estava com uma bermuda também de cor vermelha. Sabem que temi?

Não sei o que se passa na rede, suponho que ela não esteja pacificada. Ouço pessoas próximas, leio matérias em jornais, vejo muito pouco um ou outro noticiário na TV. Escuto e observo.

No filme, Mussolini retorna à tumba, tendo desistido de recompor o seu ideário face aos italianos que encontra.

Não quero crer que estejamos entrando em algo mais grave do que nossas escolhas.

Aqui não há nada de comédia, antes pelo contrário.



Até breve.


sábado, 3 de novembro de 2018

ENTREGA





Alguém me disse que aprecia meus textos, quando abordam temas relacionados à Política. Vê neles alguma coerência, consistência e raiva.

A teoria não esconde a indignação.

Por ser muito cara à mim, essa pessoa sugeriu que eu “refrescasse”. Tirasse, por outros textos, essa angústia, amargura por estar diante da realidade.

Estou passando o fim de semana prolongado no sítio.

“Pise na grama, ouça os passarinhos, pule na piscina (eu adoro água). Aproveite a vida e os privilégios que ela te legou. Quando for a noite escreva um texto leve, lindo.”

Pois é.

Quem escreve se revela e, no meu caso, me desvelo.

Construí olhares vitimados por meus vieses, meus dIssabores e, sobretudo, pela minha solidão intelectual estreita.

E deixei também impresso em telas meus encantamentos, meus agradecimentos, amores, minhas paixões.

Um texto lindo e leve deve ser endereçado à alguém, e assim o faço:

“Pise na grama, ouça os passarinhos, pule na piscina...”



Até breve.

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

FINADOS





Todo ato humano é, em essência, um ato político.

Mesmo aqueles desesperados, desassistidos, miseráveis, marginalizados, excluídos, têm por sua existência e natureza um espaço na cena da polis.

Mesmo inconscientes, descerebrados, ignorantes, párias, selvagens são membros da polis e, portanto, atores políticos.

O que se faz é fundir Política com Poder. Políticos com Instituições. Isto serve a destruir, na origem, a liberdade do sujeito de ser protagonista na constituição da polis.

Chega-se ao ponto de, dada à perversão semântica, constituir-se ofensa moral quando se nomeia alguém como “político”.

A tragédia social é intencionalmente segregatícia. Separam-se os quem têm poder daqueles que escolhem e se sujeitam ao poder. Política e Povo, como se fossem “entidades” separadas.

Penso que aqui reside o maior “mal” da cena: o discurso.

O discurso é intencionalmente sectário e ditatorial. Alguém exercerá sobre outrem o Poder discricionário. Mesmo aqueles que têm como papel o estabelecimento das leis, mesmo aqueles que têm como papel, fazê-las cumprir.

O homem é uma besta, portanto, precisa ser domado. Premissa civilizatória que sustenta a prática do “bem”, mesmo que leve à fogueira, milhões de atores refratários. Anexo: Inquisições, Holocausto, ditaduras de todos os matizes, e assemelhados.

Civilizar passa a significar lobotomizar o sujeito e coloca-lo à mercê dos ditames daqueles que, independentemente dos meios, alçam o Poder ainda que supostamente legal.

Estamos no ápice do declínio da civilização. Mesmo sem lupa, uma olhadela em torno, estampa a barbárie consentida. A História sempre nos apontou o equívoco.

A Inteligência não tem sido capaz de construir o Humano no Homem. O discurso configurado como ideário de propósito (ideologias) nasce fragmentado, partido.

Rompe toda a possibilidade de harmonização de direitos e deveres, produção e distribuição de riquezas implicando em subvida e vida digna.

A lógica de todo discurso, mesmo o libertário, é perversa porque assim como o conservador, mantém na essência, o libelo da dominação.

O que quer este meu discurso? Absolutamente nada, apenas referendar os mortos.

O único lugar que nos lembra de sermos iguais.


Até breve.

domingo, 28 de outubro de 2018

DIACHO




O Brasil escolhe hoje entre o pior e o pior.

Aquele que for pior vencerá as eleições presidenciais. Assim continuaremos a viver da esperança que um dia melhorará. Como o futuro está à frente há muito tempo ainda para acreditarmos.

Quem sabe nas próximas eleições?

Nossa experiência democrática, agora vitaminada pela extraordinária manifestação via redes sociais, tem iluminado o país para o seu futuro.

A cada alternância de poder é nítido, em todos os campos da sociedade brasileira que, pela via da corrida de bastão (sinalizada por Obama), estamos encontrando o nosso caminho.

O Brasil avança em indicadores fundamentais na avaliação das nações. A cada mandato, pelas sábias medidas adotadas, ultrapassamos (com louvor) degraus de uma descida vertiginosa.

O Brasil piora com a maior competência e, sobretudo, liberdade democrática. É bonita de se ver a festa da democracia. O profundo e profícuo debate que se travou nos últimos meses nos fez esquecer a Copa do Mundo que realizamos com tanta galhardia e que nos legou tamanha perspectiva de desenvolvimento.

Corruptos estão presos e incomunicáveis na cadeia, outros ainda no poder, o serão logo que desvestirem o manto institucional.

Mas, calma! Será necessário que tenhamos paciência para o próximo ano. É natural que aquele que assumir em primeiro de janeiro levará pelo menos uns cem dias para dizer a que veio.

Não nos alarmemos, contudo, pois continuaremos sendo capazes em inovar em todas as áreas da administração pública, tanto no campo das origens (impostos escorchantes) como nos destinos (desperdícios intencionais) dos vultosos recursos mais do que disponíveis da grande maioria de brasileiros, especialmente os menos abastados que recebem os melhores serviços.

Não sei, mas acho que aquilo que queremos tanto está nos acontecendo. Demo cracia.

Não fosse ateu eu acreditaria no diabo.


Até breve.

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

EXCLAMAÇÕES




Ah, estes vilões Bem e Mal que acreditamos compor o que autodenominamos como natureza humana! Como nos seduzem! Ou melhor, como “usamos” de um e de outro para explicitar nossas mazelas, misérias morais, paixões mais do que transloucadas, conhecimentos rasos, crenças em versões distanciadas de fatos.

Ah, espécie fundada na crença da razão contrária às bestas que gramam pastos com olhos postos abaixo sem vistas ao horizonte. Elas, as bestas, levando o seu designo mais do que natural, sem traumas!

Ah, nós os herdeiros do divino, filhos da Criação, senhores da Terra!

Ah, raça superior, senhora do destino, realizadora de todas as transformações daquilo a que ela própria entende como “realidade”!

Ah, Bem e Mal como nos advém como sustentáculos para nossas escolhas, ainda que nos ceguem, nos obnubilam, nos adormecem, especialmente quando envolvem questões relacionadas a Poder!

Ah, nossa ignorância! Ah, nossa ignomínia!

Ah, nós por sermos!

Ah, nós brasileiros diante de nossas escolhas!

Ah, eu e meus impropérios delirantes, minhas tolices, meus assombramentos!

Ah, eu e meus botões!

Não, não, não!!! Três vezes, NÃO!

Não escolherei entre o Bem e o Mal. Não!

Não este Bem travestido contra este Mal bossal!

Não este Mal porque para o Bem já conhecido em lamaçal!

Não!

Escolherei pela minha solidão primeva. Nasci sozinho e morrerei sozinho.

Entre o Bem e o Mal, escolho o Não!


Até breve!

domingo, 14 de outubro de 2018

SEMSENSO





Não gosto do que se nos avizinha ao Alvorada.

E digo que não gosto, porque ao longo de toda a minha vida não aprendi a odiar, nem a pessoas e nem a realidade. Esta frase me lembra de uma citação que faço em um dos livros que escrevi na juventude e que jamais os publicarei.

“Não se trata de amar ou odiar, mas de compreender. Quem sabe assim a Humanidade poderia ser menos iníqua.” (Niestzche)

Não gosto do que a realidade nos impõe neste momento naquilo que se refere ao processo eleitoral para o Palácio da esperança permanente. Há aqui, também, uma inversão profunda de valores.

O processo, embora legal, é cruelmente ilegítimo. A maioria está sendo desconsiderada o que, sob qualquer prisma, confere-se em um golpe mortal ao conceito essencial de democracia.

A maioria não quer quem está por ser eleito. Não quer nem o candidato A e nem o candidato B. A maioria está gritando: “EleS Não!”

Se somados aos votos brancos e nulos (e parte das abstenções) àqueles dos eleitores que estão escolhendo o candidato A para que o candidato B não vença mais os votos dos eleitores que estão escolhendo o candidato B para que o candidato A não vença, a apuração conferirá um resultado avassalador.

A minoria está escolhendo quem presidirá o país. Nada mais trágico e ilegítimo.

São numericamente inferiores os eleitores de convicção tanto no candidato A quanto no candidato B. Por diferentes razões, mas seja pela qual for, não há convicção, sem temor ou sem ressalvas.

Até mesmo nestes, relativamente ao universo completo de eleitores, numericamente inferiores, não há uma escolha irrestrita.

Busco compreender e confesso tenho sérias dificuldades. O que verdadeiramente nos trouxe a este quadro de equívocos? Por que optamos pela não manifestação pura de nossa vontade? Por que nos omitimos diante de questões tão graves para o presente e para o futuro?

Por que traímos aos nossos mais profundos desejos? Por que escolhemos aquilo que nos exporá à nossa própria verdade? Por que seguimos aos outros que também não querem aquilo que, no fundo, nós também não queremos?

Por que não somos capitães de nossa própria alma? (Ouvi esta frase, dita na primeira pessoa, em um filme que assisti ontem.)

Rogo para que os ilustres legisladores tenham a eleição de 2018 como algo a ser considerado. Que revisem a estrutura dos marcos regulatórios da matéria. Considerar inválida a maioria é, essencialmente, um equívoco determinante para o desconcerto da sociedade.

Talvez o futuro aponte que o equívoco seja meu.

Melhor.


Até breve.

sábado, 13 de outubro de 2018

PARALELOVINTE




“Não ando de carro blindado porque eu tenho medo.”

Quem me disse essa frase foi Pedro, atendente da recepção do Hotel da Baixa, em Lisboa, cidade de onde me despedi ontem, pela manhã, com um misto de tristeza e satisfação.

Tristeza por deixar o Velho Mundo, que sempre me arrebata e, satisfação, por tê-lo aproveitado durante os últimos quinze dias de maneira intensa e profunda.

A frase dita por Pedro, na verdade, é de Ricardo Araújo Pereira, um português que, para o atendente, é inteligentíssimo “apesar de humorista”.

Passeei, literalmente, por Amsterdam e arredores, Porto, Guimarães, Régua, Tua, Aveiro e Lisboa. Tropeçamos, a cada quarteirão, em patrimônios culturais inestimáveis da Humanidade. Tesouros datados de mais de dois mil anos antes de Cristo até o presente. É de tirar o fôlego.

A Casa Museu de Anne Frank, o Rijskmuseum, o Distrito da Luz Vermelha (com a exposição de suas garotas tristes), o Museu Hermitage, o Museu de Van Gogh, os inúmeros canais, em Amsterdam.

A Ponte Dom Luis I, o Museu de Arqueologia da cidade, a Vila Nova de Gaia, a Estação (de comboios) São Bento, a Casa da Música (caramba!), a Livraria Lello (quiquiéaquilo!), caves e caves e caves, e naturalmente o Rio Douro, em Porto. A vila de pescadores em Aveiro com suas casas pintadas com listas coloridas de um alegre sem tamanho.

Em Lisboa, o Museu da Fundação Calouse Kulbenkian, a Casa Museu do poeta Fernando Pessoa (ai, meu gisus), a Casa do Bico do Nobel José Saramago, o Museu do Fado.

Além de todos os “sítios” citados, as cidades em si são de uma beleza estonteante que, a mim, encantam e me remetem a reflexões.

Talvez por isto eu goste tanto de estar por estas bandas. O Velho Mundo.

Na última noite em Lisboa, para coroar o privilégio de ter vivido esses dias, assisti (de camarote) no grande teatro do Centro Cultural de Belém, ao show impagável do fadista Camané. Fui ouvi-lo movido por um documentário curto que assisti no Museu do Fado. Diferentes fadistas consagrados pelo mundo, entre eles Carminho, Mariza e muitos outros e, para o meu espanto e admiração, Ivan Lins, tecem considerações sobre aquilo que mais caracteriza a esse país a que devemos tanto e, com toda certeza, nos deve em maior e certa medida.

Entre uma canção e outra, Camané disse que quando jovem o criticavam por ter escolhido algo que está por desaparecer. E ele respondia àqueles que o criticavam com a própria razão revolucionária de ser do Fado: a resistência a ser distinto.

Algo muito próprio, particular, visceral, que por nenhum outro se identifica, que o marca. Ivan Lins, por sua vez, no documentário diz que fez inúmeras tentativas de interpretar composições de Fado feitas por ele, mas jamais conseguiu como seus amigos portugueses.


Ao longo de toda viagem, no entanto, não consegui deixar de pensar o Brasil, nossas atuais circunstâncias. Esses dias valeram-me, sobretudo para pensar o momento trágico por que passamos.

“Estamos num tempo a que chamamos de pensamento único, embora pareça que se aproxima muito perigosamente de um pensamento zero.”  A frase dita por Saramago em entrevista ao jornal La Jornada, México, em 10 de outubro de 1998, confere uma atualidade brasileira acachapante.

Não há nada a pensar senão no fosso profundo em que nos metemos entre, supostamente, dois polos que se digladiam vitimados por uma surdez demoníaca.

Em Portugal nomeiam o nosso segundo turno eleitoral como “segunda volta”. Triste e emblemática constatação. Estamos a decidir para onde “voltarmos”.

“A Humanidade nunca foi educada para a paz, mas sim para a guerra e para o conflito. O outro é sempre potencialmente o inimigo. Levamos milhões e milhares de anos nisto.” Saramago ao El Diário Vasco. Embora, por enquanto única, a morte por assassinato do artista baiano, é simbólica.

Parece adentrarmos a miséria do obscurantismo, violentados pela cegueira da verdade única.

NÃO! Há que se dizer NÃO.

“Há que introduzir um não para enfrentar o sim, que é o consenso hipócrita em que mais ou menos estamos a viver.” Saramago à Revista Três, Montevidéu, em 1988.

A realidade não nos obriga a escolher entre dois turnos, duas voltas, duas aberrações.

“Eu creio que estamos necessitados, efetivamente, de uma insurreição. Sim, uma insurreição, uma insurreição ÉTICA, mas não no sentido corrente, moralizador, porque no fundo seria ir pelo mesmo caminho. Eu diria, antes, uma Ética da responsabilidade.” Saramago, Revista Magna Tierra, Guatemala.

Covarde, por ser originalmente romântica, minha disposição era de não comparecer também ao segundo turno ou segunda volta. Mas vou votar. Eu preciso assumir o dever de estar vivo. E o faço dizendo um não rotundo a tudo isto o que está posto.

Há uma obra exposta no Museu da Fundação Caloute Kulbenkian em Lisboa que me fascinou porque deu conta: “Alternativas para um plano de fuga” (fotos), feita pelo artista Jaime Nolasco usando a porta de seu ateliê.

“Eu acredito e respeito as crenças de todo o mundo, mas gostaria que as crenças de todo o mundo fossem capazes de respeitar as crenças de todo o mundo.” Saramago, Magna Tierra, Guatemala.

Estou NULO. Permitam-me fazer o meu “fado”.


Até breve.



OBSERVAÇÃO: Não gosto, mas vou dizer, o título remete à José Saramago que disse as "cousas" aqui citadas em 1998.