terça-feira, 17 de julho de 2018

FORO




Teve uma vez que eu fui. Acho que foi uma única. Não teve outra. Se bem que, lembrando melhor, foram mais de uma sim. Duas ou três, talvez. Na verdade, mesmo que tivessem ocorrido mais de tantas vezes, foi como se tivesse sido única.

Estou certo que sempre chovia, uma chuva fina e constante, daquelas que encharcam a terra sem destruir plantações. Isso contribuía, e muito, para o contexto. Havia certa tristeza no ar, a cor cinza assim cabia emoldurando a cena.

Outra circunstância presente é de que sempre aconteceu à noite. Depois das vinte e duas e quarenta, nunca antes. O mais interessante é que ninguém, nem eu mesmo, combinávamos o horário e sabem-se lá cargas d’água porque, sempre aconteceu depois daquele horário, nunca antes.

Eu nunca cheguei primeiro, por isto acho sempre que foi uma única vez. Porque também, os outros que chegavam depois de mim, sempre entravam na mesma ordem. Todos os quinze, primeiro o Herasmo e, por último, Antenor.

Deles todos, de muito, conhecia o nome. Nada mais, tudo o mais fui supondo. Idade, descendência, estado civil, opção sexual, formação, estes tipos de caracteres. Assim, nunca perguntei nada a nenhum deles. Ia ouvindo um ao outro e fui decorando os nomes. Só.

Duas mulheres participavam também. Uma senhora de uns oitenta e poucos anos e outra, jovem, de uns trinta e poucos. Zenaide e Karla. Ambas descendentes de estrangeiros. Não soube distinguir a origem. Mas cada uma a sua maneira tinha traços diferentes dos nossos.

A coisa durava exatos 185 minutos, nunca mais e nunca menos. Fosse o que acontecesse durante, era batata. Do início até terminar podia ver no relógio digital com frações de segundos. Na pinta.

Nunca soube por que.

Ao terminar todos saiam sem se despedir e nenhum acompanhado. Todos sozinhos, alguns de cabeça baixa. Na rua, idem. Ninguém se comunicava. E sempre os destinos de cada um pareciam o mesmo. Alguns seguiam a rua defronte, outros desciam a ladeira e outros, subiam em direção à praça.

Uma das mulheres, a mais jovem, subia a ladeira. A mais velha seguia a rua defronte. Melhor, pois era uma rua plana, de calçadas largas e bem iluminada. A única pessoa do grupo que encontrava já no meio do quarteirão um homem grisalho que vinha busca-la. Suponho ser seu filho, ou um irmão mais novo.

Eu descia a ladeira, pegava a primeira rua à esquerda, andava uns seiscentos e trinta metros e depois virava à direita, na Rua Ramos Delgado, onde ficava o Bar do Quincas, aberto até as duas da madrugada.

Quincas era um filhote de português adestrado pela senhora sua esposa, homem bom, bigodes espessos e sempre com seu mesmo chinelo de dedos com as tiras emendadas com arames finos. Uma tristeza.

- Fala aí, Quincas!

- O de sempre, gajo?

- Serve que é o mesmo...

- Tá vindo de onde?

Nunca disse.

domingo, 24 de junho de 2018

SerTão




Tenho sido privilegiado pela Vida. Inúmeros momentos de inesgotável prazer e alegria.
Ontem vivi um desses, intenso, inenarrável, inesquecível.
Assisti ontem Grande Sertão: Veredas, no Palácio das Artes, digno deste nome por abrigar o espetáculo Obra prima de Guimarães Rosa e agora da artista multifacetada, cineasta, diretora de teatro e ópera, exposições, ganhadora de vários prêmios, a extraordinária Bia Lessa.
“Algumas pessoas vinham dizendo pra eu fazer teatro, e eu nunca senti que deixei de fazê-lo. Um dia eu fui à feira e vi mendigos pegando comida. Tenho um amigo que fala uma coisa que eu amo: a gente não pode viver vendo, porque se a gente vê tudo, a gente não dá conta de viver, mas tem dias que a gente enxerga, e quando enxergamos, a gente cai pra trás. Nesse dia eu enxerguei. Quando cheguei em casa, sentei no sofá e olhei para o ‘Grande Sertão: Veredas’. Aí eu decidi enfrentar esse negócio. Não pelo desejo de fazer, mas pelo desejo de enfrentar algo. Porque eu acho que temos que enfrentar coisas diariamente”, comentou Bia, sobre a decisão de voltar ao fazer teatral.
“É importante que a gente olhe para a vida, não só para os acontecimentos históricos, mas para onde estamos. Tudo que nós fomos criando ao longo da nossa existência. O mundo está vivendo contradições profundas. Montar um ‘Grande Sertão’ pra mim é enfrentar essas questões necessárias de se falar, que é a construção de um novo ser humano, uma outra humanidade”, comenta sobre a importância e urgência de se montar a peça.
“Guimarães é inadaptável. Isso foi desesperador pra mim, mas acabou se tornando um trunfo. Trabalhei diretamente com o texto do livro”, explica. A diretora assumiu o desafio de dialogar com uma das obras mais complexas da língua portuguesa.
“Nossa forma de estar presente e do ser o que a gente pensa, a gente faz através do próprio espetáculo. O livro é um livro formador, então não é à toa que a gente resolveu fazer nesse momento. Tem uma coisa muito bonita do Guimarães Rosa que ele coloca o homem no contexto, fazendo parte da natureza como um todo. Então os animais e os homens têm a mesma importância. Esse espetáculo fala um pouco desse respeito ao outro e à diferença. É isso que a gente gosta e tem orgulho de defender. Nesse momento que o mundo está tão reacionário, andando tão pra trás, é fundamental que a gente dê um passo à frente. Por isso é importante que a gente monte ‘Grande Sertão: Veredas’”, concluiu Bia.
Em um trabalho tão artesanal, marca da diretora (que passou mais de 600 horas com o elenco, em ensaios diários por 92 dias), e de grande esforço físico (a preparação corporal foi um dos aspectos indissociáveis do trabalho de direção, com aulas de corpo diariamente durante os quatro meses de ensaio), a tecnologia foi fundamental para guiar o público em tantas veredas.
"O trabalho exigiu muito fisicamente e emocionalmente. Foram oito horas de ensaio por dia. Isso porque o próprio livro em si é uma fonte inesgotável de soluções e de questionamentos. Sempre vamos ter perguntas pra fazer e vamos correndo atrás das respostas. Pra mim está sendo transformador enquanto artista, mexe com meus conceitos, com a minha forma de enxergar a arte. É mais interessante o processo do que o resultado em si. O resultado é parte desse processo e ele não termina, ele é contínuo, ele vai continuar reverberando na gente”, comentou Leonardo Miggiorin, um dos atores em cena.

Não há representação, no sentido literal, mas um jogo cênico que exige do espectador. Não basta só olhar, é preciso querer ver – e é essa brincadeira entre olhar e ver que Bia busca em Guimarães. Para criar o formato híbrido entre espetáculo e instalação, ela recorreu a vários elementos cênicos. Os personagens aparecem em uma gaiola, potencializando o exercício do espectador de se posicionar para ver o que ocorre.

“ A gaiola dificulta a visualização. Não deixa livre o olho do espectador, ele deve procurar e ver. Guimarães dizia: ‘Mire e veja’”, adianta a diretora.

A paisagem sonora é outro elemento fundamental da instalação. Há quatro camadas de sonoridades: o ruído que amplia o espaço, o som vindo de lugares amplos; a música autoral composta por Egberto Gismonti; as cantorias e rezas ligadas ao inconsciente coletivo; e, finalmente, o timbre das vozes do elenco. “A instalação invade a plateia. Não tem o lá e o cá”, resume Bia Lessa.

“Contar seguido, alinhavado, só mesmo sendo as coisas de rasa importância.” Bia conhece profundamente o Sertão de Guimarães Rosa. Ela convida a plateia a um mergulho fundo na epopeia narrada pelo jagunço Riobaldo, que atravessa o sertão para combater seu maior inimigo, Hermógenes, fazer um pacto com o diabo e descobrir seu amor por Diadorim. O espetáculo contempla duas horas e vinte minutos ininterruptos de encenação, com o elenco em cena permanentemente, em que o público experimenta a dissolução das fronteiras entre início e fim do espetáculo; entre teatro, cinema e artes plásticas; entre literatura e encenação.

“O sertão está dentro da gente”. “Nosso caminho foi realizar um trabalho onde homens, animais e vegetais estabelecessem uma relação de diálogo sem supremacia entre eles. Não estamos exatamente no sertão, mas em um espaço “ecológico” e metafísico onde tudo cabe. Um espaço, uma imagem, que nos possibilita a experiência proposta pelo romance, sem obviamente realizar o romance tal como é – fidelidade absoluta (todas as palavras ditas são de Guimarães Rosa), mas liberdade infinita, visto que é apenas uma das leituras possíveis da riquíssima obra de Guimarães. Escolhemos não utilizar grandes efeitos ou recursos, a não ser a valorização do universo sonoro dos espaços propostos pelo romance, apenas os próprios atores”, pontua a diretora.

“O sertão está em toda parte” A grande estrutura tubular concebida lembra um claustro, uma gaiola. Instalada no palco do Grande Teatro do Palácio das Artes, também é, ao mesmo tempo, cenário de violentas batalhas e de reflexões profundas. Como instalação são 250 bonecos de feltro com tamanho humano, compõem uma imagem permanente: a cena da morte de Diadorim como um presépio. A trilha sonora completa a atmosfera do Grande Sertão: Veredas, composta por três camadas: os ruídos e sons ambientes, a música composta por Egberto Gismonti e a trilha sonora que representa nossa memória emotiva, com músicas que fazem parte de nosso imaginário. Os figurinos são uma leitura do sertão, sem regionalizá-lo – são personagens do mundo.

A gongórica e letal escrita de Rosa ganha o corpo dos atores. Empresta-lhes ação e fala. E a trama romanesca se desenvolve diabolicamente, com movimentos desordenados, afetuosos e anárquicos, qual máquina escultural.

Grande Sertão: Veredas se expande como espetáculo teatral que libera – qual alegoria rigorosa da nossa contemporaneidade − o modo como os movimentos desenvolvimentistas sem preocupação social e humana não recobrem a nação como um todo. Pelo contrário. O esforço positivo da modernização é localizado, centrado e privilegia. Nas margens, cria enclaves de párias – bairros miseráveis, favelas, prisões, manicômios, etc. − onde violentas forças antagônicas se defrontam e se afirmam pela ferocidade da sobrevivência a qualquer custo, acirrando a irascibilidade do controle e do mando.

Viver é perigoso. Extraordinário em Guimarães Rosa é que, no mais profundo da vida humana miserável e autodestrutiva, na morte, há lugar para o afeto e o amor. Ao compasso de espera, Riobaldo e Diadorim dançam novos e felizes tempos. Piscam a alegria de viver, como vagalumes que a mata libera à noite. 

Até breve.

quarta-feira, 23 de maio de 2018

INPERFECTOS





Eu, por mim, não diria. Amigos não virtuais é que cobraram que eu o fizesse. Estou solidário a eles, então digo.

Aconteceu no dia seguinte àquele em que eu tinha escrito um romance de 354 páginas. Ouvi dizer que um homem havia pulado da janela de seu apartamento no 15º andar, como fazia diariamente pela manhã, para o apartamento de seu amante morador do 14º.

Lamentável ou destinodesatradamente o amante esqueceu-se de abrir a janela. O do 15º precipitou-se abismo urbano abaixo e estatelou-se ao solo de barriga para cima e os olhos esbugalhados.

O amante abriu a janela e, quando viu seu amado estatelado ao solo com os olhos esbugalhados como se o crispassem, teve a nítida impressão de que aquele que jazia teria dito antes do juízo final:

- Filho de uma puta!!!

Eu não presenciei a cena, ouvi dizer de populares que a viram e comentaram nas esquinas pelas quais passei para ir ao banco pagar aqueles dois boletos. Um da operadora de TV paga, que logo voltou a transmitir o sinal e o outro que lembrei agorinha, o da operadora de saúde.

Eu mesmo uso pouco para emergências, quase sempre para exames regulares por força de uma cirurgia que extirpou uma dessas partes deste meu corpicho cujas funções têm que ser preenchidas pela química farmacêutica.

Geralmente fico sempre horrorizado com essas coisas, mas fazer o quê, multinacionais podem sempre tudo. Carteis que operam milagres nos marcos regulatórios bancados em dólares da melhor qualidade.

Está variando entre R$3,65 a R$3,75, sujeito à confirmação nos institutos de maior credibilidade, então não é hora de programar nada que envolva a moeda. Turismo externo, nem pensar.

Gostei mais da Dinamarca do que de Cuzco, ou foi ao contrário. Tem horas que tendo viajado tanto misturo paisagens, guias, jantares, torres e fotos.

Teve uma dessas que eu fui de camisa azul. Aconteceu inadvertidamente, avoado que sou. O time adversário usava preto e, caramba, só pelos olhares da vizinhança da arquibancada um pouco mais ríspidos do que eu estou acostumado é que vim perceber que algo estava errado. O quê que aqueles caras estavam fazendo naquela parte reservada do estádio.

Taí uma coisa que de jeito nenhum tolero. Intrigas, maledicências. Quase sempre me reúno com amigos que, com a maior lisura, escolhem a dedo os seus alvos. Teve um, dos mais queridos, que criou uma confraria: Quinta dos Infernos. Toda quinta-feira reuníamos, sim porque ela não passou da segunda sessão, para meter o pau nos outros. Um dos presentes começou a meter o pau em nós mesmos que fazíamos parte da confraria. Pode algo pior?

Se bem que não, gosto mesmo é de mulheres, de certos tipos, idade, cabelos, olhos e boca. Alguns pensam que eu sou mesmo afrescalhado, mas faço por puro charme, lanço olhares esquizos, como se não estivesse nem aí. Adoro voz.

Eu disse que diria. Não sei se esqueci de alguma coisa. Amanhã se amanhecer quinta-feira, na confraria vão meter o pau em mim.

Eu, por mim, num tô nem aí. Eu paguei o meu boleto e assisti ao filme muito doido: PERFECTOS DESCONOCIDOS.

Ótimo, estou tranquilo. Paguei o meu boleto do plano de saúde. 

Chá de aeroporto dá nisso.


Até breve. 

domingo, 20 de maio de 2018

PERFECTO





Outro dia escrevi um romance de 354 páginas de que gostei muito.

Foi assim. Eu tava meio com muito sono, só que era de dia, então não fazia cabimento. Eu faço o quê com esse sono? Pensei eu, cá com os meus problemas.

Já sei. Vou sonhar, mesmo que acordado.

Foi quando sentei diante de meu computador e desandei a digitar umas primeiras frases. Quando se dei por mim, já era tarde da noite, meio de madrugada e eu senti que era por fome e sede e vontade de ir ao banheiro para sólido e líquido.

Fui lá e já voltei e desgramei a escrever sei lá com quê coerência e/ou consistência.

De verdade, na passagem pela cozinha, peguei duas maças vermelhas na geladeira e um yogurt de morango. As teclas do computador ficaram ensebadas do sumo da maça, mas eu, excepcionalmente, não derramei nem uma gota de yogurt em canto algum.

Já era do outro dia e eu ali, com as costas doídas e os dedos meio que inchados e cento e dez páginas, arial, fonte 12, formato A4 inteiras.

De repente, parei. Levantei-me de um salto e me pus a pensar que eu era meio doido. Quem faz isso e desse jeito? Só um tomado de espírito, psicografando.

Eu não. Nunca deixei que ninguém montasse em mim.

Fui à cidade, paguei dois boletos. Um da televisão a cabo e o outro não sei bem de quê, só sei que teve juros e correção monetária. Eu costumo atrasar os pagamentos, quando tenho dinheiro. Quando não tenho, não pago.

Liguei para a operadora para perguntar quando que voltaria o sinal se eu já tinha pagado o boleto e que estava em dia. Eu não me lembro do que a atendente disse, só que quando liguei a TV tava tranquilo. Tinha voltado a funcionar toda a programação.

Assisti, na Netflix, a dois filmes: PERFECTOS DESCONOCIDOS, espanhol, bom as pampa.

Uma comédia dramática sobre um grupo de amigos que, em um jantar, resolvem fazer o jogo do celular sobre a mesa. A regra é simples. Tocando o celular o dono tem que atender e dar curso à conversa.

O que pinta só vendo o filme, que eu tinha que escrever mais umas duzentas e tantas páginas para concluir o romance.

Ah, o outro filme. Uma porcaria com aquele cara que fez O PIANO. Fosse por este eu devia de não ter pagado o boleto.

Depois, fui dormir.

Será que alguém acreditou nessa conversa?


ATÉ BREVE.

quarta-feira, 9 de maio de 2018

TREM





Recebi hoje uma provocação dilacerante.

O que é amor intenso?

De onde vem a ideia de alguém que, por cargas d’água que sejam, possa acreditar que eu tenha algo a dizer sobre.

Fosse poeta, comporia, porque a poesia pode tudo.

Fosse escritor, narraria, no plano do intelecto tudo racionalizaria ainda que em romance, ficção mesmo que absurda.

Fosse filósofo, deliraria, viajando na maionese.

Ou fosse eu, quem sou, um sujeito qualquer que não consegue viver sem estar na condição proposta pela questão formulada.

Eu sei lá o que é isto. Eu só sei que, em não sabendo, sinto. E de tal sorte fundo que tenho para mim que só pode ser da minha natureza, disso que suponho, andam tentando dizer de humano.

A coisa toma conta assim dos pensamentos, das interpretações, dessas faculdades todas, mas é no estômago, creio, que ela se dá por inteiro.

Visceralmente quando na ausência, uns trem que dizem nomeado só em português não lusitano: saudade.

A falta do ser objeto dói. Outro trem que para você explicar tem que recorrer à poesia, à prosa, à filosofia. Melhor não. Sentir, que é de bão.

Na presença, aí é que o bicho cresce. Começa pela via dos olhos, dão uns estremecimentos das musculaturas, uns tremeleques, uns incômodos, umas ardências, que eu até ousaria dizer de uma gostosura assim indizível.

Aí se se põem as mãos, meus deuses, elétrons puros e incandescentes. Mãos nas mãos, mãos nos cabelos, no rosto e aí imagine meu desavisado leitor, imagine por onde andarão essas mãos todas e com que brandura, cuidado e acuidade.

Quando a boca é convidada, caramba (!), proferir palavras alvoraçantes, dessas que pelo som embalam. Os lábios em lábios, em rostos, em pescoços, em tantos quantos forem os sentires, os pedires em gemidos quase que de sempre.

Depois, ou não necessariamente nessa ordem, o estômago. Deve derivar daí a ideia de que a tradução se dá conta: “Eu quero te comer!”.

Apropriar-se do outro, engoli-lo, possuí-lo, toma-lo para si, antropofagicamente. Comer-se do outro.

Daí em diante é tudo que se deve mesmo proibir desde sempre. Perigo imanente de sentir a maior expressão do que é, essencialmente, humano: o prazer.

Assim: inteiro, entregue, fundo, de propósito, intenso.

A Psicanálise nomeia como pulsão.

De vida.


Até breve.

segunda-feira, 19 de março de 2018

CLAMOR




O quê clamam, ou por quê clamam, ou porque clamam estas mulheres?

A foto “roubada” do Estadão registra um momento das manifestações ocorridas na semana passada. Mas ela poderia estar estampada em todos os lugares, vinte e quatro horas por dia, há séculos e por séculos.

Penso que clamam o direito à vida, ao afeto, à compreensão, ao carinho, ao respeito.

Penso que clamam pela atenção aos seus filhos, à sua sexualidade, ao seu corpo desnudo, pela sua opção de ser ou não ser o que bem lhe aprouver.

Penso que clamam porque estão esgotadas há milênios de serem vilipendiadas, enxovalhadas, brutalizadas.

Penso que a Vida, entendida como fundamento civilizatório, clama por um basta.

A Vida enquanto conduta social, prática do cotidiano, a vida mais comezinha vivida em todos os lugares, lares, escritórios, lojas de comércio, estádios de futebol, casas noturnas, ruas, praças, avenidas, estradas.

Onde houver uma mulher. Basta!

Por que desaguar sobre ela a incapacidade manifesta de todas as maneiras, meios, formas, intensidades, veladas ou explícitas? Por que fazê-la depositária da incompetência de ser parceiro, provedor, protetor, amante?

Por que odiá-la?

Por que traí-la?

Por que mata-la?

A violência é atributo do másculo, da besta caçadora, do selvagem, do descivilizado.

O que ele ataca, o que ele destrói, o que ele denigre é muito mais do que um corpo com uma racha entre as pernas, diferente do que tem entre as suas, um pêndulo.

Um pêndulo simbólico que marca uma história de violência concreta.

Basta!

É passada a hora de, enquanto sujeitos do masculino, civilizarmo-nos. Domar esta troglodita expressão da força quase sempre desigual perante o feminino.

Como na foto sugere, é preciso abrir todos os semáforos, sinais, faróis. É preciso deixar que passem as mulheres. É preciso deixa-las irem, leves, soltas, livres, inteiras. É imperioso permiti-las.

Sob pena de, qualquer hora dessas, decidirem não gerarem mais filh(o)s. Para explicitarem, e de uma vez por todas, seu desatino.

E aí, nada mais poderá ser feito.




Até breve.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

BUFA




Notícia de Fato Irrelevante.

Anitta foi convidada para dar uma palestra na Universidade de Harvard, em Boston, nos Estados Unidos, durante o evento Brazil Conference at Harvard & MIT. O evento será realizado em 6 e 7 de abril.

Desde 2015, o evento Brazil Conference at Harvard & MIT, organizado por estudantes brasileiros que vivem na região de Boston, reúne líderes e representantes da diversidade brasileira para debater sobre diversos temas relevantes e propor soluções para o país. Tendo como palco a Universidade de Harvard e o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), o evento já recebeu nomes como Dilma Rousseff, Sérgio Moro, Gilberto Gil e Wagner Moura. 

Pois é, são eventos como esses que nos entusiasmam e nos dão esperanças de que o caminho da solução está sendo achado.

Se bem que, colocado de lado a ironia, devemos pensar um pouco a respeito de Anitta ter sido convidada, não pela expressão do evento em si (que é desprezível), mas o que dele repercute.

O Brasil é Anitta também, embora não, sobretudo. Mas é Anitta. Esse sonho coletivo de milhões de meninas em atingirem a fama, ainda que meteórica, claro, porque Anitta (como tantas outras) desaparecerá como surgiu.

Anitta é produto de nossa extraordinária capacidade de produzir espetaculoses com um grau de efemeridade avassalador. Traduzindo: o invólucro em celofane do Nada.

Vai malandra.

Perdemos substância cultural, econômica, política, social. Somos um feixe de factoides repetitivos a serviço da nossa servidão voluntária, essa escolha centenária que nos torna coadjuvantes de um texto em cena em um palco vazio.

A gente somos inútil.

Brasília está desabando concretamente de podre. Nossa dignidade, nossas instituições, nosso futuro, nosso sentido histórico.

Estou me referindo à ideia que algum dia (é provável) que tínhamos de povo brasileiro, que nas aulas de moral e cívica, enaltecíamos, mesmo que sobre bárbara ditadura.

Hoje o debate nacional reduziu a correntes paranoicas e pseudoideologizadas cuja resultante é senão nula, angustiante. Nele, nesse histérico e estéril debate vamos nos dissolvendo ainda mais, postergando o impostergável já que a vida é finita e ali na frente ela nos cobrará sentido.

Quando o país construirá um Fato Relevante? Desde junho de 2013 não acontece nada que mereça atenção.

Até breve.




quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

TOQUE



Há anos nos ocupamos de uma mesmice repetitiva compulsiva histérica estéril nauseante inócua incompetente contumaz frágil. Assim mesmo, sem vírgulas. É o termo científico para a patologia que grassa.

De um lado os “a favor de”, de outro os “a favor de”, de outro os “a favor de” e, de outro ainda, “a favor de”.

A favor de quê?

Do lugar comum, da repetição sistemática de temas com seus conteúdos variando de episódio para episódio com as mesmas características e matizes.

Há anos, estamos no mesmo lugar.

Damos lugar em nossas vidas a personagens públicos de todas as esferas: política, cultural, do entretenimento, celebres e descerebres, momentâneos ou históricos. Gastamos rios de dinheiro com isso em diversas modalidades e não obtemos nenhum retorno. De nenhuma natureza.

Nada implica e nem resulta.

É notório o empobrecimento nacional, tão profundo que, em alguns casos, com característica de irreversibilidade. A Moral, por exemplo: temo por ela.

Não vivemos mais em um território apenas de imoralidades. Bundas de fora sempre estiveram. No vasto rol de “liberdades”, adentramos um campo não de liberalidade, mas de libertinagem.

Já não causam nenhum espanto, nem furor de nenhuma ordem as inúmeras manifestações em todas as formas de mídias, da libertinagem.

Contudo, agora, vivemos em um território de amoralidades.
Amoral é aquilo que está fora da moral, ou seja, é aquilo que é neutro no que se refere à ética.  Em um sentido prático, um indivíduo amoral vive sem as condições subjetivas exigidas para que os seus atos ou juízos sejam morais.
O estado ou qualidade de uma pessoa sem obrigações morais ou princípios éticos é designado como amoralidade.
O amoralismo é uma doutrina que, no sentido teórico, indica a negação das obrigações propostas pelas leis morais. Isto significa que segundo o amoralismo, a vida não deve ser vivida de acordo com as normas da moral.

Observem o cotidiano, parece complexa a tarefa, mas é mais simples na medida em que as diferentes e inúmeras oportunidades em que os atores da vida pública, cultural, mídias, intelectualidade (?), redes sociais, nos dão exemplos contundentes de que não há nenhuma moral a seguir.

Voltar ao território da Moral, talvez seja o nosso maior desafio. Agora, por outra, se for esta que está aí, nada de nós restará senão a mesmice repetitiva compulsiva histérica estéril nauseante inócua incompetente contumaz frágil.

Assim mesmo, sem vírgulas.



Até breve.

sábado, 13 de janeiro de 2018

PROGNO(PER)NÓSTICOS




Supunhetemos que dia 24 o tribunal condene por balaiada: 3X0.

Desconsiderando os considerandos, os emboramentes, os data-vênias, e os embargos e os emborgos declaratórios, infringentes, influentes, masturbatórios e protelatórios de praxe.

Determinada pela corte que a Polícia compareça à residência do cujo e o recolha aos costumes.

Quebradeira geral com o IBOPE estourando em todas as mídias. Alô, alô galera do marketing inserção geral do dia 20 até o carnaval tanto na eletrônica, digital, escrita, os cambau. Vai ter consumidor ligado no canal.

Ruas e estradas abarrotadas de flâmulas vermelhas, pneus incendiados, vandalismo social, declarações bombásticas, ameaças de invasões, gases (inclusive lacrimogênios), prisões e comícios. Vídeos com canções de época remota interpretada por todos os artistas dito engajados.

Apoteose na cena em que o cujo é conduzido algemado ao rabecão. Atenção às caras e bocas do cujo, performance brilhante.

Êxtase, orgasmos múltiplos, abertura extraoficial do carnaval com o Rei Momo vestido de amarelo, azul, verde e branco.

Supunhetemos que dia 24 o tribunal absolva por balaiada: 3X0.

Desconsiderando os considerandos, os emboramentes, os data-vênias, e os embargos e os emborgos declaratórios, infringentes, influentes, masturbatórios e protelatórios de praxe.
Determinada pela corte que se arquive o processo por inexistência absoluta de provas.

Quebradeira geral com o IBOPE estourando em todas as mídias. Alô, alô galera do marketing inserção geral do dia 20 até o carnaval tanto na eletrônica, digital, escrita, os cambau. Vai ter consumidor ligado no canal.

Ruas e estradas abarrotadas de flâmulas vermelhas, pneus incendiados, vandalismo social, declarações bombásticas, ameaças de invasões, gases (inclusive lacrimogênios), prisões e comícios. Vídeos com canções de época remota interpretada por todos os artistas dito engajados.

Apoteose na cena em que o cujo é conduzido ao palanque armado no centro do Itaquerão. Atenção às caras e bocas do cujo, performance brilhante.

Êxtase, orgasmos múltiplos, abertura extraoficial do carnaval com o Rei Momo vestido de vermelho e branco.

Supunhetemos que dia 24 o tribunal amarele e impute (adoro o final da palavra) outro resultado diferente dos anteriores. Inclusive empate. Não se alarmem, no Brasil plantando tudo dá.

E que continue a bronha até depois do carnaval, Copa do Mundo, recesso de férias parlamentares e, afinal, se tenha o veredicto.

Por estas e por outras é que compreendo e sou obrigado a aceitar o extraordinário sucesso de Pabllo Vittar: a massa opta pelo desafino, até para poder ser ouvida.


Ou não.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

RECAÍDA




De fato eu não deveria, até porque havia prometido a mim mesmo não mais fazê-lo. Abordar - ou será abortar? - assuntos relacionados à puslítica.

Ocorre, porém, que em férias breves, andei zapeando a rede e me dando conta do debate que se trava.

Há aí um episódio agendado para o dia 24, entendido como um divisor de éguas, ops... De águas.

Na superfície de idiota, que me permito, o que vejo é uma tese da defesa do acusado fundada na premissa de que não há provas materiais que atestem a veracidade das acusações que recaem sobre o réu.

O tríplex não foi adquirido pelo acusado com recursos desviados da Petrobras. Não há nenhum cheque da Petrobras em nome do acusado que tenha sido depositado na conta da construtora com vinculação no verso de que se tratava da aquisição do investigado apartamento pelo citado na denúncia. Portanto, nada pode ser provado.

O que existem, de fato, são devaneios de testemunhas prenhadas por interesses escusos que declararam terem visto algumas vezes a ex do acusado visitando as obras; documento com rasuras pós operação lava jato da recusa de compra do tríplex; e, declarações em juízo do presidente da construtora (um desqualificado) que confirmou a reserva e as inúmeras obras realizadas no imóvel para adequar às necessidades do futuro ilustre morador. Enfim, nada que consubstancie (acho que seja este o termo jurídico) prova de que a construtora e o acusado se locupletaram em negociatas com fontes petrolíferas ou pré-salgadas.

Em paralelo, no debate, corre outro candidato que, pesquisas dão conta, será o opositor mais provável do acusado preso, solto ou em embargos declaratórios deflorentes. O opositor é considerado Mico, ops... Mito.

Assim, 2018 abre aurora alvissareira na puslítica. Tudo da mesma forma que sempre foi para mudar tudo e continuar exatamente como tudo sempre continuará.

E por quê?

Aqui preciso ser sério. Cinquenta anos de vida empresarial, 20 como assistente  e executivo, 10 como professor nas três escolas mais distintas de negócios do país e 20 como consultor e conselheiro em empresas de médio e grande porte credenciam-me para uma crítica ácida.

Este país perdeu o jato da História. E perdeu porque não tem classe empresarial a altura do conjunto de oportunidades que se abriram e ainda existem para ocupar o espaço imenso de desenvolvimento na cena internacional.

Nossas lideranças empresariais são pífias, muitas delas incapazes de gerirem os seus próprios negócios, quanto mais para buscarem estatura de estadistas econômico-sociais.

A ausência absoluta e generalizada de uma força transformadora da economia encabeçada por instituições empresariais sérias e resolutas que forcem os governantes a uma conduta que afinal coloque o país nos trilhos é, em minha opinião, o nosso maior drama.

Muito maior que aquele que se trava na rede e que já sabemos o desfecho. Vencerá a maioria inculta, inocentemente útil e carente. E de forma democrática, o que faz ainda mais lamentável a ópera bufa.

Aprofundaremos o modelo híbrido constituído por um arremedo de capitalismo chofre conjugado com administração pública (em todas as esferas institucionais e de todos os poderes) infestada por uma competentíssima rede de gangsteres.


Triste sina.

Até breve.