sexta-feira, 24 de junho de 2022

GÊNERO

 

Corta!

De drama para comédia, o que não se pode perder na cena é a pitada dantesca.

Na linha do que trouxe meu amigo querido, Wilson, em comentário no post anterior, estamos diante do dilema de Scylla e Charybdis (“dos males o menor”), construo enredo para minha folia neste post.

Há pelo menos três outros candidatos menos-males que podem ser enquadrados na categoria e disputarem o Palácio do Anoitecer com o “homem mais honesto do mundo” e o “capitão de hospício”.

Os demais seriam classificados pela minha avó Eulália como: “não fedem e nem cheiram”.

Quem fica, então?

Tem o machudo, o Agnaldo Royal e a mulher.

Ciro, menos-male.

Bivar, menos-male.

Há alguns anos estava eu no aeroporto de Brasília e avisto Simone. Fui ao encontro dela, cumprimentei-a e disse-lhe que acompanhar o que se passa no circo de horrores que é a política brasileira está entre as minhas taras preferidas.

Simone desprendeu quase uma gargalhada. Ela tem um sorriso lindo.

Dois minutos de tolerância recíproca depois trocamos cartões de visita. Ela me disse que, estando em Brasília, eu passasse pelo seu gabinete.

Pois é. Maldita memória, não tenho a menor ideia onde foi parar o cartão dela. O meu? Deve ter ficado na primeira lixeira encontrada por Simone logo depois que se desvencilhou de mim.

Se bem que não. Vai que meus olhos a fascinaram e ela guardou o meu cartão para um eventual quadro de partido. Agora ela estaria me cogitando para um ministério. Tipo: Sinistrério dos Humores Aleatórios e outras Sandices.

Menos-male. Pra mim, claro.


Até breve!

quinta-feira, 23 de junho de 2022

CARTA

 

CARTA A UMA AMIGA QUERIDA


Penso que não seria necessário escrever-lhe para expor minhas razões por ter publicado o post anterior, a partir do qual, respondendo à um comentário que fiz, possa ter lhe causado um mal-estar.

Imagino sua reação: “O Agulhô não podia ter escrito isto.” “O Agulhô, não.” “É imperdoável.”

Você sabe quanto respeito você e Nelson e quanto os admiro pela irretocável carreira e brilhantismo intelectual, além da gratidão que tenho por todo o carinho que ambos sempre tiveram por mim e minha família.

Lamento muito que as razões que os movem não serem as mesmas minhas. Lamento tanto e, sobretudo, que as razões que os movem são semelhantes àquelas que a pessoa, com quem convivo há mais de cinquenta e três anos, também alimenta.

Lamento, não porque gostaria que vocês “pensassem” como eu, longe disso. Lamento, profundamente, que por força destas razões, a gente se distancie, como tantos fizeram.

Minhas razões fundamentam-se no que conheço da história política recente de nosso país. Dediquei-me muito do meu precioso tempo a pensar a respeito, fundamentando-me em informações fidedignas e acompanhando sistematicamente o desenrolar dos principais fatos quando estavam ocorrendo.

São vastas e complexas as razões e qualquer síntese resultará arriscada para o melhor entendimento. Ouso correr o risco, no afã de fazer compreender-me.

Recorro-me a um único fato. No último mês de abril, a Quinta Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) confirmou decisão monocrática do desembargador convocado Leopoldo de Arruda Raposo e manteve a condenação do ex-ministro José Dirceu (a 27 anos e um mês de reclusão em regime fechado) e de outros réus no âmbito da Operação Lava Jato, em processo que apurou condutas ilícitas de empresas privadas, agentes políticos, funcionários públicos e integrantes da Petrobras.

São inúmeros outros processos que tramitam ou tramitaram na justiça sobre a questão que é impossível desconsiderar na medida em que envolve o assalto aos cofres públicos e que varreu do mercado as maiores companhias de engenharia pesada do país.

Não consigo aceitar a tese de que durante dois mandatos em que os fatos ocorreram o ex-presidente não tinha conhecimento deles. Aliás, se aceitar esta tese, como um ingênuo, seria suficiente para não apoiar seu retorno ao posto.

A corrupção é um câncer que dilacera o tecido social e ela é secular no Brasil e em outros países. Este é outro argumento que, muitas vezes, é usado para “compensar” os atos beneméritos do ex-presidente.

A defesa do ex-presidente fez um trabalho extraordinário, meritoso e dentro das melhoras práticas jurídicas, e obteve o cancelamento da maioria dos processos. Noventa e nove por cento dos apenados em cárcere, não tiveram a mesma cobertura para livrá-los das penas por meio de inúmeros expedientes que a imbricada justiça brasileira contempla.

O mérito não foi julgado e nem o será.

No entanto, minhas principais razões para não apoiar o retorno do ex-presidente prendem-se a estes fatos. A que tenho dado maior relevância é que, por força deles, milhões de brasileiros foram induzidos, em 2018, a escolher o traste que hoje nos governa.

Dramática consequência.

O pior é que estamos há anos com isto engasgado e vitimando tantos amigos, famílias e a sociedade em geral em extensão quase patológica.

Amiga querida, tudo entre nós, menos isto.

quinta-feira, 9 de junho de 2022

GO






Participo, hoje à noite, como membro convidado de evento patrocinado por comunidade, jovem aberta e atuante, que tem se proposto a pensar a Governança da Inovação e a Inovação da Governança.

O tema central do evento de hoje não poderia ter maior relevância: a liberdade de expressão.

Pretendo contribuir na vertente de três eixos:

1.     Liberdade é uma palavra que o sonho humano alimenta, não há ninguém que explique e ninguém que não entenda.” (Cecília Meireles)

Portanto, a liberdade enquanto sonho não está dada, deve ser uma conquista permanente para se tornar realidade.

 

2.     “Todo homem bem-informado é um homem perigoso.” (Adolf Hitler) Nem sempre convém a quem governa que o outro detenha conhecimento. Para o espírito autoritário não interessa o que você pensa, mas o que ele pensa.

 

3.     “Não fui eu quem inventou o fascismo. Eu só o extraí do inconsciente dos italianos.” (Benito Mussolini) Não é exclusiva de um líder a convicção do arbítrio, ela está permeada na sociedade.

 

Engana-se quem restringe a questão foco ao ambiente macropolítico. A liberdade de expressão encontra-se vitimada nas relações mais triviais do dia a dia de cada um de nós com impactos expressivos na qualidade de nossa vida enquanto indivíduos.

 

Levada às organizações empresariais ela encontra vulto e pertinência, na medida em que, como centro de desenvolvimento de saberes que enderecem à melhor produtividade, a liberdade é condição sine qua non para que o melhor de cada um sobrevenha.

 

Cabe sim aos Conselhos a atenção dedicada ao tema, especialmente na elaboração, implementação e acompanhamento das políticas e práticas que assegurem que seus líderes estejam comprometidos com um ambiente nutriente que estimule e acolha a participação irrestrita de todos os seus colaboradores.



Até breve.



terça-feira, 24 de maio de 2022

AMANHÃ

 



Ed, protagonista do filme O Homem do amanhã, em cartaz na Amazon Vídeo, coloca como máxima: “Tem aqueles que veem, aqueles que veem porque eu mostro e aqueles que não veem.”.

Eu, então, lembrei-me de uma assertiva que fazia nas palestras que ministrei por mais de quinze anos país-a-fora: “Há três categorias de pessoas: aquelas que estão fazendo as coisas acontecerem; aquelas que estão observando as pessoas que estão fazendo as coisas acontecerem e aquelas que não estão entendendo nada.”.

O filme, americano, é construído em esforço interessante para comunicar a ideia com alegorias e metáforas. Assemelha-se ao recém-lançado Não olhe para cima, já que trata do que em um e em outro é iminente: o futuro.

No futuro todos nós morreremos ainda parece ser algo em que boa parte de nós acredita. A questão é que como e quando e se todos vitimados coletivamente por catástrofe climática ou desatino de nossos líderes ou individualmente, um a cada um, vítima de mazela súbita ou falência geral dos órgãos.

O filme convida a pensar sobre o momento presente, as relações (especialmente as familiares) e sobre o cotidiano de nossas vidas.

Há a figura simbólica do afeto como instrumento de ligação e sentido, mas o que me causou maior interesse foi a impotência do indivíduo diante do desenrolar da História.

Estamos sendo levado algoritmicamente para algo expressivo sinalizado por diferentes variáveis todas de alta combustão: a questão climática, o fosso social, as tecnologias disruptivas e o esgotamento da Política como meio de ajustamento entre os poderes institucionais.

A sensação que fica, como no filme ou à partir dele, é que algo está por vir ali à nossa frente, ainda que em primeiro plano aja um campo verdejante.

Assistam, vale a mensalidade.

 

Até breve.



segunda-feira, 2 de maio de 2022

PALMILHA

 



Estou maravilhado com a nossa energia democrática.

Que momento fascinante!

A infernet tem possibilitado um debate com bilhões de interações que culminam em inúmeras propostas muito bem fundamentadas para o enfrentamento de nossos maiores desafios.

Está mesmo difícil escolher entre tantos programas extraordinários.

Entrei neste êxtase por ter visto matéria sobre o Levantamento do Observatório Democracia em Xeque feito por Marcelo Alves, professor do Departamento de Comunicação da PUC-Rio.

O monitoramento foi feito com base em uma análise de alcance de publicações de influenciadores e políticos. A pesquisa acompanhou as postagens de cada espectro político com o maior número de interações – curtidas, visualizações e comentários – por dia, de 1.º de janeiro a 26 de abril deste ano. Foram observadas as redes sociais Facebook, Instagram e YouTube.

No Facebook, a direita gerou 273 milhões de interações entre as publicações mais virais. A esquerda, por sua vez, fez 113 milhões; o centro não passou dos 23 milhões.

No Instagram, foram 400 milhões de impressões da direita ante 320 milhões da esquerda. O centro segue atrás, com 21 milhões de interações na rede.

No YouTube, a direita produziu cerca de 1,6 bilhão de visualizações se reunidos os vídeos mais visualizados de cada dia deste ano – a esquerda gerou 309 milhões. O centro soma 253 milhões.

O que eu acho mais lindo é que a paixão é classificada em esquerda, centro e direita.

Estou adorando, aos setenta anos, assistir a esta folia.

Ah sim, a foto. É da sandalinha da Lelê que ela usou no aniversário de seis anos no último sábado. Reparou como a palmilha ficou sujinha? Pois é.


Até breve.


sexta-feira, 29 de abril de 2022

FRISSON



Paixão cega, mas é bom. Não ver, com gozo, qual o problema? Não é o que importa, a satisfação?

Leio com interesse e atenção tudo o que me surge à frente relacionado ao campo das relações. Gosto às pampas de gente. A vida toda estive olhando para o tema.

Em diferentes cenas a figura humana me excita. Acho o maior barato, o bicho.

Agora, de uns tempos pra cá, especialmente. A infernet permitiu que as relações fossem mais amplas. Tudo rola na rede.

Eu deliraria ser possível acompanhar mais de perto a imensa corrente de paixões do tempo presente. Ocorre que eu tenho outros afazeres, movidos por paixões mais desimportantes. Fazer um tablet de madeira pra Lelê, por exemplo.

No entanto, confesso que 2022 está me proporcionando um vasto campo de “estudo” do bicho e, por força disto, às vezes me pego às gargalhadas e outras vezes em estado de torpor.

As paixões estão agudas, cegas por demais.

Na minha juventude como desenvolvedor de gente usei a Análise Transacional. A Análise Transacional é uma teoria psicológica que se propõe a estudar o comportamento humano, compreendendo a personalidade enquanto um sistema biopsicossocial aberto e dinâmico, que considera os aspectos individuais, interpessoais e grupais como parte essencial deste sistema.

Essa teoria foi criada por um psiquiatra canadense chamado Eric Berne que nasceu em 1910, em Montreal, e morreu em 1970 na Califórnia, EUA. Berne era judeu, filho de um médico e uma escritora.

Mais? Se sua paixão te levar, pesquise.

Resumindo, ela coloca as relações na perspectiva de três “papeis”: o perseguidor, a vítima e o salvador. Não é legal? Sei que você já está dando tratos-à-bola, dada à simplicidade da coisa.

Então, por exemplo: a vítima, somos nós (a sociedade e o povo); o perseguidor (é ele) e o salvador (é o nosso). Ficou mais legal ainda?

Ah, sim, no tempo presente há no centro da trama aqueles que se locupletam e que, de tão potente, é chamado de centrão. E é aquele que toca a dança, com uma lira e outros pastores fiéis e muito bem (secretamente) agraciados.

Brinquem com a técnica lendo os posts dos amigos e, se conseguirem se enxergar, brinquem consigo mesmos e percebam quanto estão energizados pela paixão, ainda que cega.

Pode ser, quem sabe, um outro gozo.

Até que nos seja possível.


Até breve.

sábado, 23 de abril de 2022

ARTESANIAS

 


- Vovô, sabe o que eu queria que você fizesse pra mim?

- Não.

- Um tablet...

- Um tablet?!!!

- Sim, de madeira parecido com o celular que você fez pra Liz.


No final de semana passado fui levar o Totô na aula de equitação. Enquanto ele trotava saí, acompanhado por Lelê, a procurar pelos cantos da fazenda algum pedaço de madeira que me servisse a tablet. Subi numa pilha de tábuas em retalhos e de lá:


- Lelê, acho que esse pedaço pode servir.

- Traz aqui, deixa eu ver.


Com dificuldade desci da pilha levando um retalho de madeira.


- Essa não serve, vovô.

- Como não?

- Muito fina... Precisa ser mais larga.

- Ah, Lelê, vou levar essa mesma.

- Nem precisa, não quero que você faça o meu tablet com essa madeira.


Joguei o retalho de volta à pilha.


No carro, Lelê disse que no sítio nós acharíamos um pedaço “perfeito” para fazer o tablet.

Encontrei uma tábua e mostrei pra Lelê. Com a mãozinha como se serrasse ela disse:


- Agora você corta aqui, vovô.

- Não está grande?

- Eu quero deste tamanho.

- Eu acho que vai ficar grande.

- Corte, vovô.

Cortei, lixei a madeira e entreguei pra Lelê.

- Perfeito, vovô!


Peguei uma folha de papel, lápis e sentei a mesa com Lelê.

 

- Agora você faz um treino do desenho das teclas que você vai fazer no tablet.


Lelê, olhando na tela do meu IPhone, desenhou algumas das telas.


- Não gostei, vovô... Não ficou legal.

 

Disse a ela que eu ia dar um jeito. Tive a ideia de fazer um print do fundo de tela do meu celular com a foto dela e as teclas em primeiro plano.

Ela escolheu a foto:


- Quero esta por causa do tererê...


Na segunda-feira, perguntei à Lelê (pelo celular do pai) que cor que ela queria o tablet.


- Pode ser rosa, vovô.


Comprei rolo de papel contact, envolvi a madeira, imprimi a foto e colei revestindo-a com contact transparente.

Ontem, entreguei pra ela.


- Ficou lindo, vovô!!! Brigado.



quinta-feira, 21 de abril de 2022

ILHAS

 


 


Olho, com reservas, as questões nomeadas como “Identitarismo”, “Diversidade”, “Inclusão”.

Para Identitarismo, que o meu computador sublinha em vermelho porque não reconhece em seu vocabulário, encontro na WEB:

“O termo identitarismo, popularizado no Brasil a partir das eleições presidenciais de 2018, tem origem na expressão identity politics (políticas identitárias). Este conceito foi cunhado pelo Combahee River Collective, grupo feminista formado por negras e lésbicas em 1974. Estas mulheres uniram-se por não se sentirem representadas pelo movimento feminista, branco em sua quase totalidade.”

Pois é, ocorre que a expressão ampliou suas origens e cabe em inúmeras outras manifestações correlatas.

Diversidade e Inclusão, faz parte do grito contemporâneo por liberdades e divisão do bolo das riquezas produzidas.

Um dos afetos que mais admiro é a paixão que nos move em prol de nossas convicções e propósitos, quase sempre alinhados com outros em grupos, facções, partidos. Não seríamos, não fosse essa paixão. Como algas, nos emaranhamos, para construir.

Até aí entendo e louvo toda iniciativa solidária independente em que território manobra: político, sociocultural, religioso e tantas outros com manifestações de adeptos em todo o mundo.

Minha reserva está em quanto isto contribui (e de forma intensa), pela exacerbação e/ou por intenções perversas, com a ampliação, já tão extensa, das motivações que justifiquem (ainda que por fins legítimos) ações desproporcionais, segregadoras e, não raro, violentas.

Está assim desde sempre na História, mas hoje há dois fatores que amplificam exponencialmente os efeitos colarerais perversos desta “compartimentação social”: as redes sociais globais e o chamado “Mercado”.

As redes sociais turbinadas por tecnologia que disponibiliza TUDO com instantaneidade, portabilidade e acessibilidade dão “voz” à bilhões de pessoas em todo o mundo, impactando a sociedade como nunca.

Por outro lado, o Mercado, esta “descoberta” do moderno com seus tentáculos sobre o consumidor, fazendo destas “minorias exclusas”, maioria para a sua prospecção estratégica e crescimento exponencial de seus faturamentos e rentabilidade.

“Descobriu-se” que há muitos negros no país, assim como LGBTQIAPN+, e eles estão “estrelando” peças e peças publicitárias, para “incluir” seus “pares identitários” na moenda do consumo.

Perdoem-me por um texto tão denso. É que Inconfidência me fez pensar em John Lennon e lembrar de quando  eu era jovem e cantava IMAGINE a todos os pulmões na Praça Duque de Caxias.


Até breve.

terça-feira, 19 de abril de 2022

BÁLSAMO

 



Assim como Montaigne ou Yuval Harari, João é um cético. Cético não porque “não acredite”, mas porque se distancia para compreender. O pensamento sempre exigiu que aquele que se debruça sobre a realidade deva fazer um esforço imenso para que paixões não embacem as diversas facetas daquilo que analisa.

João sugere que esta seja a conduta do jornalista para responder à pergunta do “homem-comum” às sete horas da manhã quando ele assiste o jornal: Por que isto aconteceu?

Recebi como um alento a tese de João, quando opinou que é uma decisão dentro do espírito democrático não comparecer às eleições de 2022. Pessoalmente, eu nunca tive dúvidas disto, mesmo o voto sendo obrigatório.

Até porque é uma questão moral, como iluminou João, e só possível na iIdade Moderna.


Até breve.



ESCALAS

 

Fragmento do artigo de Eli Saslow, publicado hoje no THE WASHINGTON POST:

 

O míssil foi batizado de Minuteman III, e sua plataforma de lançamento foi instalada na propriedade dos Butchers na época da Guerra Fria, quando a Força Aérea pagou US$ 150 por 4 mil metros quadrados da terra da família enquanto instalava armas nucleares por todo o Oeste rural. Cerca de 400 daqueles mísseis continuam ativos e prontos para serem lançados em poucos segundos a partir de Montana, Wyoming, Dakota do Norte, Colorado e Nebraska. Os armamentos estão instalados em áreas de conservação de bisões e reservas indígenas. Ficam em localidades como uma floresta nacional, atrás de um estádio de rodeio, na mesma rua de uma pequena escola e dentro de dezenas de fazendas privadas, com a dos Butchers, que há 60 anos têm como vizinho mais próximo um míssil nuclear.

O armamento está enterrado em um local cercado por cercas metálicas, sob uma comporta de 110 toneladas feita de concreto e aço. O míssil tem 18,3 metros de comprimento. Pesa 36.029 quilos. Possui uma força ao menos 20 vezes maior do que a da bomba atômica que matou 140 mil pessoas em Hiroshima. Uma equipe da Força Aérea fica estacionada num bunker subterrâneo a poucos quilômetros de lá, pronta para disparar o míssil no momento que a ordem chegar. O projétil levaria cerca de 3,4 segundos para deixar o silo e cortar o céu da fazenda a 3.048 metros por segundo. Foi projetado para atingir uma altura de 112,7 quilômetros, voar para o outro lado do mundo em 25 minutos e explodir a poucos metros de seu alvo. A bola de fogo resultante é capaz de vaporizar todos os seres humanos e estruturas do local da explosão num raio de 800 metros. A explosão arruinaria edifícios num raio de 8 quilômetros. Incêndios secundários e doses fatais de radiação se espalhariam por dezenas de quilômetros quadrados, resultando no que especialistas militares americanos qualificam como “aniquilação nuclear total”.

O local é conhecido pelo governo como Plataforma de Lançamento E05, um dos 52 silos de mísseis nucleares instalados nas tradicionais fazendas do Condado de Fergus. O governo escolheu transformar as desoladas pradarias de Montana em centro de atividades nucleares nos anos 50, em razão do que foi descrito como uma relativa proximidade à Rússia e também porque a região poderia atuar como o que especialistas chamavam de “esponja nuclear sacrificial”, no caso de uma guerra atômica. A teoria era que, em vez de despejar todos os seus mísseis em grandes cidades americanas, um inimigo usaria, em vez disso, alguns de seus mísseis para atacar os silos espalhados por Winifred, Montana, lar de 35 mil cabeças de gado e 189 moradores, cujos aniversários de nascimento e casamento são impressos no calendário oficial do município.

O ressequido capim amarelo que cobre os 4 mil metros quadrados do governo se confunde com a paisagem do restante da fazenda dos Butchers, mas a Força Aérea instalou uma cerca de alambrado e um banheiro químico. Atrás da cerca, há alguns postes telefônicos, um pequeno círculo de concreto sobre o chão e uma tampa de bueiro metálica que dá acesso ao bunker. “Entrada proibida”, diz uma pequena placa. “Autorizado o uso de força letal.”

Quando os militares construíram a plataforma de lançamento, durante a adolescência de Ed Butcher, ele considerava a instalação principalmente como um potencial intrusão, um símbolo do exagero do governo, que ele qualificava como uma “insanidade da corrida nuclear armamentista”. Ele nasceu enquanto a guerra atômica surgia, e mesmo que o historiador que existe nele acreditasse que as bombas nucleares lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki foram necessárias para pôr fim à 2ª Guerra, ele esperava nunca mais voltar a testemunhar esse tipo de devastação durante sua vida. Quando era professor de faculdade, ele dirigia uma kombi com o símbolo da paz pintado na janela traseira, e sua esposa compareceu a um pequeno protesto contra os mísseis Minuteman diante de um prédio do governo federal na região rural da Dakota do Norte. Eles se mudaram para a fazenda achando que poderiam testemunhar dramas nucleares dos quais haviam escutado falar a respeito de outros silos: vazamentos de lixo tóxico, acidentes que quase causaram explosões, espiões russos ou grupos de freiras se acorrentando às cercas do silo em atos de protesto.

Mas, em vez disso, toda vez que Ed passou pelo silo para ver o que acontecia por lá, não se deparou com nada além do vento e da paisagem — e ocasionalmente com alguma vaca enroscada na cerca. A Força Aérea substituiu o míssil Minuteman original por um Minuteman II e depois por um Minuteman III. Equipes de soldados construíram estradas de terra melhores na fazenda dos Butchers. No inverno, os militares passam a máquina para retirar neve das vias. E empregaram eletricistas e empreiteiros do Condado de Fergus, que trabalharam no campo de lançamento principalmente na calada da noite e, até onde Ed pode dizer, nunca aconteceu nada de excepcional por lá. O míssil nunca foi lançado. O apocalipse nuclear nunca ocorreu. Depois de um tempo, o silo passou a parecer para Ed mais uma parte da paisagem, em vez de uma ameaça — como se fosse uma relíquia benigna da Guerra Fria. Eram 4 mil metros quadrados em meio a mais de 48 milhões de metros quadrados. Pelo menos era isso que Ed pensava até o fim de fevereiro, quando a Rússia invadiu a Ucrânia e o presidente Vladimir Putin colocou suas armas nucleares em alerta máximo.

“Aposto que os satélites russos estão contando até quantos fios de cabelo ainda cobrem minha cabeça neste exato momento”, afirmou Ed.

Ele olhou para o céu e depois puxou a aba de seu chapéu para baixo, na direção dos olhos, deu as costas para o silo e voltou a conferir seu gado. “Eu gostava mais quando esse lugar parecia um pedaço da história”, afirmou ele.

 


Até breve.

 


domingo, 3 de abril de 2022

MÚSICA

 



Assisti, ontem, no Palácio das Artes – BH, ao show de Caetano.

No início do espetáculo achei que a euforia normal carregasse por parte do público a expectativa que pudesse tornar-se um ato político. Uma ou outra manifestação nesse sentido foi tentada.

Ocorre que quem esteve em cena foi o artista e não o homem.

Aquela euforia inicial deu lugar à uma certa dormência reflexiva, na medida em que Caetano trazia composições densas e intimistas, muitas delas desconhecidas pelo grande público.

Senti o show como biográfico e com um certo aceno de saída. Caetano foi, como todo homem próximo aos oitenta anos, nostálgico. Falou sobre momentos da carreira e de pessoas chaves no seu enriquecimento, especialmente como músico. Jaques Morelenbaum, por exemplo. Gil, naturalmente.

Uma das passagens que mais me emocionaram foi quando ele se disse “tímido musical” (lembrei-me de que, para ele, músico é Djavan) e que a vida ideal é ser músico. Deparei-me comigo, quase sozinho, num aplauso efusivo.

Acho que sei o que Caetano pode ter querido dizer com isto.

A inserção de canções que marcaram a sua identidade e embalaram o espírito de milhões de fãs como eu, dão ao espetáculo, quase uma transcendência ultrapassando ao artista e fazendo dela o seu principal legado.

Caetano, portanto, em nenhum momento sugeriu, nem por um deslize, qualquer oportunidade para explicitar suas convicções políticas.

Já com ele fora do palco, na saída do público, ouviu-se parcas manifestações e palavras de ordem.

Tenho para mim que a conduta de Caetano, o artista, não poderia ser outra, reservando ao homem, um outro espaço para a cena pública.

Devo dizer, no entanto, mesmo que ele fizesse do seu gigantismo como persona, uma oportunidade para turbinar suas preferências políticas, ainda assim nada ofuscaria em mim o fascínio que tenho por Caetano.

Paguei e fui lá para assistir ao gigante, não ao homem.

Caetano, ainda que usando o recurso de teleprompter, a mim serve e servirá como um bálsamo.

Temos, entre nós, o brilhantismo de um gigante que vive a vida ideal.


Até breve.




sábado, 2 de abril de 2022

COCHO

 



Há exatos cinquenta e oito anos.

Nos livrarão das garras dos horrores e das brutalidades modelados pelos teóricos soviéticos e já implementados em Cuba. No lugar do caos de uma república operária nos darão às benesses de um capitalismo verdejante onde tudo serão flores.

Para regular e defender os novos procedimentos e colocar a nação nos rumos suspenderão, por um tempo, a democracia representativa e governarão o país a partir de verdes olivas empossados que comandarão com rigor e com respaldo em Atos Institucionais quantos forem necessários.

Determinarão aos cidadãos que amem ou deixem o país. Aqueles que permanecerem deverão amá-lo inclusive na Copa do Mundo. O general de plantão poderá escalar um dos atacantes.

Os mortos e desaparecidos por não concordarem ou por discordarem dos encaminhamentos serão considerados vítimas do combate pelo que se entenderá como o melhor para o país e segundo as leis de segurança nacional.

A arte será regulada por censores que farão juízo a seu juízo do que as mentes e os corações deverão se dar ao luxo de consumirem. Brasília sediará censores que usarão tesouras e aparelhos de fragmentação de letras de música, peças de teatro, filmes, romances, novelas e programas de TV.

Qualquer um que se parecer com qualquer que se parecer com subversivo será sumariamente recolhido a porões e confessará ou não com quem se parece, mesmo não se parecendo.

Sendo assim para o bem e felicidade da nação ficará estabelecido:

  1. A cessação de privilégio de foro por prerrogativa de função;
  2. Suspensão do direito de votar e ser votado nas eleições sindicais;
  3. Proibição de atividades ou manifestação sobre assunto de natureza política;
  4. Aplicação, pelo Ministério da Justiça, independentemente de apreciação pelo Poder Judiciário, das seguintes medidas:

a) liberdade vigiada;

b) proibição de frequentar determinados lugares;

c) domicílio determinado.

 

O Presidente da República decretará o recesso do Congresso Nacional, das Assembleias Legislativas e das Câmaras de Vereadores, que só voltarão a funcionar quando o Presidente os convocar. Durante o recesso, o Poder Executivo federal, estadual ou municipal, cumprirá as funções do Legislativo correspondente. Ademais, o Poder Judiciário também se subordinará ao Executivo, pois os atos praticados de acordo com os Atos Institucionais excluir-se-iam de qualquer apreciação judicial.

 

O Presidente da República poderá decretar a intervenção nos estados e municípios, "sem as limitações previstas na Constituição". Poderá ainda suspender os direitos políticos de quaisquer cidadãos por dez anos e cassar mandatos eletivos federais, estaduais e municipais.

Isto NUNCA MAIS!

Hoje há opções.

Voltar com o caudilho encantador de consciências benignas e outras nem tanto. alchimizado em trapaça por coligação e aquadrilhado com vampiros históricos do erário público.

Manter jânico messiânico, portador de trágica bivalência de truculência com incapacidade, transloucado e vassourado com intenções pouco ortodoxas, apoiado por cegos das duas orelhas de duvidosos propósitos.

No dia da escolha, manter-me na varanda de minha morada, tocando minha viola de cocho pantaneira, encantando-me com coisas verdadeiramente desimportantes e recolhido à minha insignificância.


Até breve. 



segunda-feira, 7 de março de 2022

VERDANTIRA II

 

 





“Eu considerei a glória de um pavão ostentando o esplendor de suas cores; é um luxo imperial. Mas andei lendo livros, e descobri que aquelas cores todas não existem na pena do pavão. Não há pigmentos. O que há são minúsculas bolhas d’água em que a luz se fragmenta, como em um prisma. O pavão é um arco-íris de plumas.”

Rubem Braga

 

Doravante acreditarei na Verdade. Doravante acreditarei na Verdade que contempla a Mentira. Todas elas.

A mulher do rei é honesta. A mulher do rei é vadia. Se ela for honesta, não será suficiente, o rei fará de um tudo para que ela pareça aos olhos de todos, ser honesta. Se ela for vadia, o rei fará de um tudo para que todos creiam que ela não é vadia.

Essa a Verdade.

Nos primórdios nos contamos a Verdade Original: Deus existe. E foram tantas e quantas as Mentiras que se sucederam para parecerem a todos que Deus existe que, quase, essa seja a Verdade. 

“Farei o homem à minha imagem e semelhança.” Nossa pretensão não tem limites. Construímos Deus ou a ideia dEle, à nossa imagem e semelhança. Como não seria viável concebê-lo Todo, elaboramos a estória e a História de um filho de mãe virgem, que nos salvaria.

Durante milênios nos matamos por isto, durante milênios involuímos por isto. 

Como conviver com a Verdade Original impregnada de uma Mentira Essencial?

Acreditando na Verdade. Acreditando na Mentira. Então Verdade e Mentira são o mesmo? Que importância tem, se tudo é. No fundo ninguém nunca saberá, sendo a rainha honesta, de seus sonhos ou pensamentos para lá de libidinosos. Sendo vadia, ninguém saberá de seus inúmeros esforços para um dia largar essa vida.

Deixemos de lado a filosofia de botequim, regada à cerveja barata (com ou sem pombos moídos e tira-gosto de carne fraca?), e vamos ao que interessa: a Verdade.

O povo é desonesto, logo seus representantes também o são. Os representantes foram seduzidos pelos Poder e se tornaram desonestos e, portanto, um péssimo exemplo aos seus representados.

Daí, deixar 100 contos na CNH quando flagrado pela PRF, pedir NF no valor superior para o Relatório de Viagem, não emitir recibos quando profissional liberal assemelha-se a pagar porcentual sobre contratos (públicos e privados) a título de propina, são Verdades.

Mentira! Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Verdade.

Caixa um, pode. Caixa dois pode, em termos. Vamos fazer uma lei disciplinando a orgia. Fixaremos tetos para as campanhas, e determinaremos um Fundo (bem fundo) de bilhões de reais que os contribuintes contribuirão contribuindo com sua passividade histórica. 

Verdade Original com Mentira Essencial.

“Na guerra, a primeira vítima é a Verdade!” A maioria de matérias que tenho lido, de diferentes tendências, citam esta máxima.

Não fosse a Mentira, enlouqueceríamos. Não fosse a Verdade, também.


NOTA: Releitura do post VERDANTIRA publicado aqui em 05 de abril de 2017.

 


sexta-feira, 4 de março de 2022

EVA

 

Há exatos cinquenta anos iniciei o cumprimento do dever cívico de prestação do serviço militar.

Em uma das paredes dos pavilhões do quartel em que servi uma sentença (sentido duplo, por favor) estampada em letras garrafais: “SE QUERES A PAZ, PREPARA-TE PARA A GUERRA.”

Li e ainda leio muito. Confesso que tudo que pude conhecer através deste gosto foi capaz de registrar tamanha síntese sobre a condição humana.

Segundo o instituto americano Alvin Tofler, 7% dos produtores de conhecimento, desde o início da história do Homem, estão mortos. O que vale dizer que 93% dos produtores de conhecimento estão vivos e produzindo conhecimento agora.

Cinquenta mil anos de “descobertas” extraordinárias em todos os campos civilizatórios, no entanto, nenhuma delas foi capaz, até aqui, de nos afastar da “besta” que ainda somos.

Estamos no mesmo “lugar” que sempre estivemos: da desrazão, da irracionalidade, da bestialidade.

A tragédia humana, essa condição, como sentença.

Quando tomei contato com a notícia que os russos capturaram a primeira grande cidade ucraniana, Kherson, lembrei-me do livro de Lionel Shriver: Precisamos falar sobre o Kevin.

A autora realiza uma espécie de genealogia do assassínio ao criar na ficção uma chacina similar a tantas provocadas por jovens em escolas americanas.

Aos 15 anos, o personagem Kevin mata onze pessoas, entre colegas no colégio e familiares. Enquanto ele cumpre pena, a mãe Eva amarga a monstruosidade do filho.

Um ano e oito meses depois, ela dá início a uma correspondência com o marido, único interlocutor capaz de entender a tragédia, apesar de ausente. Cada carta é uma ode e uma desconstrução do amor. Não sobra uma só emoção inaudita no relato da mulher de ascendência armênia.

Cada interstício do histórico familiar é flagrado: o casal se apaixona; ele quer filhos, ela não. Kevin é um menino entediado e cruel empenhado em aterrorizar babás e vizinhos. Eva tenta cumprir mecanicamente os ritos maternos, até que nasce uma filha realmente querida. A essa altura, as relações familiares já estão viciadas. Contudo, é à mãe que resta a tarefa de visitar o "sociopata inatingível" que ela gerou, numa casa de correção para menores. Orgulhoso da fama de bandido notório, ele não a recebe bem de início, mas ela insiste nos encontros quinzenais.

Por meio de Eva, Lionel Shriver quebra o silêncio que costuma se impor após esse tipo de drama e expõe o indizível sobre as frágeis nuances das relações entre pais e filhos num romance irretocável.

Penso que o nome da personagem é intencionalmente simbólico: EVA.

Pois é, precisamos falar sobre o Amor. Precisamos falar sobre o nosso legado.

Se é que ainda haverá tempo.

 

NOTA: Parte do texto "adaptei" de resenha do livro encontrada na web.





segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

TUDO

 


- Filho...

- Ei, mãe...

- Tô tão emocionada...

- Eu também.

- Gostei tanto de ter podido conversar contigo, meu filho.

- Eu também adorei, mãe. A gente podia continuar...

- Pode ser meu filho, mas agora é importante que você me diga: você está satisfeito com o que conquistou, meu filho?

- Recebi muito além do que poderia imaginar...

- Especialmente?

- As viagens que fiz pelo mundo afora, mãe. Estive em lugares inimagináveis, experimentei emoções profundas, me encantei com tanta coisa...

- Há muito a explorar aí, meu filho...

- Sem dúvida, mãe.

- Profissionalmente?

- Não posso me queixar, mãe. Ocupei posições importantes como executivo, ascendi na carreira, montei minha empresa, estive professor nas melhores escolas de negócios do país e hoje, ainda, estou conselheiro em várias empresas.

- Que bom, meu filho?

- Me fez lembrar a minha formatura...  Depois que fui buscar o diploma no palco e na volta vi você, só você, de pé me aplaudindo, mãe...

- Eu sempre quis muito que isto acontecesse, meu filho.

- Construí minha morada, foram mil dias de obra, cada centímetro com gosto, muito empenho, dedicação e zelo. Adoro meu canto, mãe. Invariavelmente, quando estou molhando os jardins me lembro de você.

- Eu amava as minhas rosas...

- Fiz poucos, mas valiosos amigos e nunca guardei qualquer mágoa de quem quer que seja...

- Eu sei disso, Lozinho.

- Fiz, com Vera, uma jornada de afeto que completa este ano 53 anos de convivência e que nos deu frutos maravilhosos, três filhos e quatro netos...

- Por enquanto, né?

- Acho que os meninos vão parar por aqui. Liz, Valentin, Antônio e Helena são dádivas, mãe.

- Família...

- Tudo mãe! O meu maior patrimônio.

- Amo você por isto, meu filho. Nosso tempo é curto, mas há algo ainda que preciso ouvir de você...

- Não precisa, mãe, por favor...

- É importante, Lozinho. Eu quero muito ter claro que você me perdoou...

- Já escrevi, mãe, sobre isto tantas vezes...

- É importante, meu filho...

- Não guardo nenhuma mágoa e nem ressentimento por você ter me dito, quando eu tinha onze para doze anos, depois de uma traquinagem minha, que deveria ter me matado no dia em que eu nasci...

- ...

- Mãe?... Mãe?...

- ...

- No bilhete que te entreguei, há exatos cinquenta anos, meu texto terminava assim: “Benditas sejas, mãe, por ter me dado a possibilidade de ver o mundo.”.

- ...

- Mãe...