segunda-feira, 23 de outubro de 2017

REPLICANTE



Assistir à ELLE, filme de Paul Verhoeven, assemelha-se a um soco na boca do estômago. Uma fisgada na vertebra, uma torcida de tornozelo no último degrau da escada, a perda de alguém muito próximo...

Uma dor e profunda.

Michèle, a protagonista, vivida pela diva Isabelle Huppert, é a personificação do contemporâneo. Ao longo de toda a trama ela é exposta a diversas situações e reage a todas a partir de um traço de conduta absolutamente consistente.

Michèle é a Amoralidade.

Amoral é aquilo que está fora da moral, ou seja, é aquilo que é neutro no que se refere à Ética. Em um sentido prático, um indivíduo amoral vive sem as condições subjetivas exigidas para que os seus atos ou juízos sejam morais.

Nada que lhe sucede encontra paradigma em algum código moral. Ele é imune a parâmetros que constituem o civilizatório. No filme, o sexo, o trabalho, o amor e a família são vistos como formas de organização perversas em si. Questiona toda forma de dominação, culminando no exemplo de violência sexual.

Os personagens são tomados por seus desejos, e Verhoeven permite que saiam impunes de gestos socialmente inaceitáveis.

A dor a que fui submetido não deriva da narrativa em si, mas daquilo que a interpretação do filme a mim remeteu. O contemporâneo nos expõe a sinais cada vez mais evidentes de que nosso código moral esgarçou, perdeu consistência e nexo. Não há Moral referente, portanto.

Toda análise dos atores sociais está prejudicada sob a perspectiva de algum marco ético norteador. É tola a crítica fundada em qualquer parâmetro. Não há parâmetro.

Tudo pode.

Não há escândalo, nem crime. A aparente ordem ambulante contém em suas vísceras a perversão que nenhuma máscara encobre.

Nosso juízo sobre o Juízo, nossa expectativa quanto à Política, nossa compreensão e compromisso com o afeto, nossa concepção como sujeitos da Cultura estão em frangalhos.
Nem a Arte se salva e nem salva.

Preferia não ter assistido à ELLE e ter me poupado da dor.

A realidade sem máscaras é desesperadora.

O título do filme, o feminino, é a pá de cal.



Até breve.

domingo, 1 de outubro de 2017

FULIGEM



Recebemos ontem, para almoço, em nossa casa de Santa Luzia um grupo de familiares e amigos próximos.

Em dado momento, um dos presentes disse, apontando para a escultura da foto:

- Agulhô, você precisa tirar isto daí... É politicamente incorreto. Ou então pintá-la de branco...

Contratei seu Divino logo que adquirimos o terreno, há mais de vinte cinco anos. Ele ficou conosco durante quinze, nos quais foi responsável pela arquitetura e execução de todos os jardins, pomares e hortas impregnados por um toque de seu nome.

Pouco mais de treze anos atrás ele me pediu que eu dissesse ao encarregado pela construção de nossa casa para que contratasse seus filhos: João (pedreiro), Geraldo e “Pior” como ajudantes.

Assim aconteceu. Logo que eles chegaram para trabalhar e foram apresentados, minha esposa quis saber por que “Pior”.

- Seu nome não é esse...

- É apelido de criança... Eu não jogava bola bem...

- Qual seu nome, menino?

- Joselone.

- Pois aqui na nossa casa ninguém vai chama-lo de “Pior”.

Próximo de terminar a obra seu Divino nos disse que estava cansado e que gostaria de se aposentar e nos pediu que ficasse com Joselone em seu lugar.

Desde então, Joselone está conosco mantendo com o mesmo carinho, dedicação e empenho o que o seu pai deixou divino. Mas com ele trouxe Kátia, sua esposa pedindo que ela fosse contratada para cuidar da casa e da cozinha.

Minha esposa disse a eles que aceitava ficar com ela somente se ela voltasse a estudar pelo que receberia de nós alguma ajuda. Na ocasião fui conhecer onde eles moravam junto com duas filhas pequenas.

Era um espaço de pouco mais de quatro metros quadrados em um porão úmido e sem janelas com uma abertura que servia de entrada tapada à noite por uma folha de compensado, refugo de obra. Cozinhavam em dois blocos de cimento superpostos e as paredes do cômodo estavam impregnadas de fuligem.

Samara, sua filha mais velha ficou com sequelas nos olhos, por força das circunstâncias.

Conversamos com ambos e combinamos que eles construiriam também a sua casa. No ano que vem eles terminam de paga-la. Uma casa de 103m² com sala, banheiro social, suíte, dois quartos e cozinha. De laje, com cercas vivas. Pintada de um verde sem tamanho.

Ao longo desses anos todos, Joselone e Kátia nos ajudaram a manter nossa casa um lugar agradável por estar. Sentam-se conosco à mesa em todas as refeições, mesmo quando eventualmente somos visitados por algumas pessoas que se sentem um pouco incomodadas com a presença de ambos.

Em contrapartida pudemos recompensá-los também com algo menos relevantes como móveis, eletrodomésticos, roupas e um sem número de outros agradecimentos. No último dia 21, nasceu Lucas Antônio, filho de Verônica. Joselone e Kátia estão transtornados de alegria pela chegada do netinho e levaram de nós o berço em que dormiram todos os meus quatro netos e a poltrona em que sentaram minha filha e minha nora para amamenta-los.

Kátia fez o primeiro grau, o segundo grau, o vestibular e hoje está cursando a Faculdade de Pedagogia. Hoje ela ainda continua conosco, mas faz estágio em escolas e vem se aplicando em concursos para professora.

Joselone, de quando em vez, diz que o valor que eu descontei mensalmente sem juros do salário dele representa hoje a metade do que estão vendendo lotes nas suas redondezas e a casa vale hoje quase dez vezes o valor que foi gasto.

- E foi eu quem fiz e foi em quem pagou, né Agulhô?

Pois é, o comentário feito ontem me despertou para algo para o qual eu não estava atento. Todos os presos e ainda investigados na operação Lava Jato, nenhum deles tem a cor de seu Divino, João, Geraldo, Kátia, Samara, Verônica e também Lucas Antônio.


Penso se eu consulta-los se gostariam de ter outra pele revestindo os seus corpos eles responderiam singelamente que não. Não gostariam de viver a vergonha de serem brancos.


Até breve.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

FOTOGRAMA




Fui, ontem, assistir à estreia do terceiro e último filme do brasileiro Selton Mello. Antes ele tinha rodado "Feliz Natal" (2008) e "O palhaço" (2011).

Além da direção Selton assina, em conjunto com Marcelo Vindicatto, o roteiro baseado no romance Um Pai de Cinema, escrito pelo chileno Antonio Skármeta (que também atua no filme assim como o próprio Selton), o mesmo autor de o Carteiro e o Poeta.

São vários os filmes de minha vida, afinal sessenta e cinco anos me obrigam a registrar inúmeros roteiros em todos os estilos. E é no cinema que eu vejo transbordar todos os momentos inesquecíveis do meu drama, da minha comédia, do meu romance, da minha epopeia.

O filme de Selton me faz negar, deliberadamente, uma das falas dele, enquanto personagem, de que “cinema é um lugar em que se perde duas horas das nossas vidas”.

A tela inteira, tanto quanto pode ser, acolhe imagens de nosso inverno sulista, numa fotografia deslumbrante com tomadas de cena que mais parecem quadros de um pintor iluminado, arrebatadas por uma trilha sonora que invadem nossos ouvidos e forçam que lágrimas brotem de nossos olhos.

É assim o filme: arrebatador, poesia pura na veia. "É um filme com uma narrativa cheia de candura, um filme terno, que faz sonhar e te devolve uma pessoa melhor na saída do cinema, e isso não é pouca coisa", disse Selton em entrevista.

Para confirmar que “a beleza salvará o mundo” a fita traz as extraordinárias atrizes Ondina Clais (divina), Bruna Linzmeyer (maravilhosa), Beatriz Arantes (estonteante) e o charme intenso de Johnny Massaro,  Vincent CasselSelton Mello, ingredientes indispensáveis para alimentar os sonhos a que o cinema nos remete.

O roteiro carregado de citações poéticas e filosóficas, a filmografia que expõe inúmeras referências ao próprio cinema, nos embala em uma viagem deliciosa, intensa e mais do que reflexiva.

Retrata uma época, com matizes específicos de uma região do país, um tempo em que afeto, honra, segredo, mistério, ainda faziam parte de nossas vidas. Foi aqui também que o filme me fisgou. Quanto de humanidade se perdeu ao longo dos nossos últimos anos.

Concordo com o que disse Selton, em entrevista: "O público merece um filme assim nos dias de hoje. São dias muito estranhos, não só no Brasil, no mundo todo".

Minha estranheza, para não dizer angústia, está na parte que não gostei do filme. Era a estreia do filme e para a sessão que assistimos ontem compareceram, além de nós, uma dúzia de espectadores.

Dizem que por força da concorrência com as estreias simultâneas de Dunkirk, Baby Driver e Planeta do Macacos.

Muito estranho.


Até breve.


segunda-feira, 26 de junho de 2017

ENTREMENTES



O que afinal está acontecendo?

Surpreendi-me com a classificação como COMÉDIA do filme O Cidadão Ilustre.

Ontem fui assistir à peça O Escândalo de Philippe Dussaert e, para minha maior surpresa, ela também foi “enquadrada” como COMÉDIA tendo inclusive ganho o troféu de melhor espetáculo no gênero em cartaz na cidade do Rio de Janeiro em 2016.

Marcos Caruso, que encena o monólogo, ao receber o prêmio falou em seu discurso de agradecimento: “O humor salvou um texto que no Brasil poderia ter dado completamente errado”.

O que pode ser considerado arte contemporânea? Qual a dimensão valorativa atribuída àquilo que conquista o direito de ser assim nomeado? O que é o artista? Como se pode defini-lo, reconhecê-lo? Qual a diferença entre um quadro feito por um chimpanzé com coordenação motora suficiente para jogar tintas em uma tela, e outro, feito por qualquer humano, figurativo ou abstrato?

O solo “O Escândalo Phillipe Dussaert”, do dramaturgo francês Jacques Mougenot que na França é interpretado pelo autor, com mais de 600 apresentações em temporada há dez anos, tem como “graça” as curiosas observações do dramaturgo sobre o lugar e o valor da arte contemporânea.

No Brasil, Caruso estabelece vínculo com o espectador a partir de uma naturalidade que não rouba a impostação mais formal do texto e o tom agudo de sua crítica. O ator conquista a plateia, trazendo-a para o centro da cena com a facilidade de uma conversa afiada pela cumplicidade de uma “troca de ideias”.

O monólogo em forma de conferência revela a existência de um pintor, o tal Philippe Dussaert, que de copista dos clássicos, evolui para produção heterodoxa e fica conhecido por pintar quadros conceituais – o fundo de obras conhecidas. “Monalisa”, de Leonardo Da Vinci, por exemplo: retirando a mulher do enquadramento, o que resta? O fundo. É o que ele pinta. Ele faz isso para várias pinturas, retirando o que há de vida humana ou animal, firmando seu nome nos museus e galerias. Sua série “ao fundo de…” se torna um sucesso. As mudanças sofridas por sua obra, pequena – restrita a 18 telas -, mas polêmica provocam sismos na crítica, na academia, na política de aquisição de museus internacionais e até mesmo no Ministério da Cultura da França.

Vida e criação do artista são expostas pelo conferencista que confessa não ser especialista em arte, muito menos jornalista ou marchand, apenas alguém interessado em desvendar o mistério que envolve intrigante existência e invenção provocativa. Ao desvendar para a plateia os motivos de tanta celeuma em torno de um artista praticamente desconhecido, o palestrante conclui que a verdade do personagem somente será descoberta pela ilusão mentirosa do teatro. Mas, se essa é a conclusão poetizada, o percurso é mordaz em relação à arte contemporânea. Nada fica de pé no circuito artístico, da necessidade do discurso à “significância do não signo”. Da manipulação mercadológica à “representação do nada” e da “plenitude do vazio”.

O conferencista revela o “escândalo”: inquieto com “ao fundo de…”, Phillipe Dussaert anuncia uma nova exposição, “No Fundo”, para mostrar o que estaria ao fundo do fundo – ou seja, por trás da paisagem. Quando os convidados chegam à galeria, a encontram vazia: não há nem mesmo uma tela em branco, ou uma moldura. Dussaert se desfaz de forma e conteúdo levando sua obra à limitação de um conceito. “No fundo” é o nada. E essa obra termina vendida para o governo francês em um leilão por oito milhões de francos. É aí que se inicia a discussão: o Estado está jogando dinheiro fora adquirindo uma ideia (o nada) ou “No Fundo” pode mesmo ser considerada como arte e, portanto, valer tanto.

Contemporânea, ousada, a peça escapa à simplicidade das velhas classificações de gênero dos manuais. Simula ser uma encenação-conferência. A rigor é um ato do espírito, decidido a derrubar grandes certezas – em especial a certeza de que devemos acreditar em histórias bem contadas.

Não tem nada de comédia. Há uma construção dramatúrgica rigorosa. A encenação segue um texto, mas tem a forma do teatro contemporâneo mais atual, misto de presença, performance e representação. Como o ator é exuberante, magistral mesmo, a sessão se transforma em ato de encantamento. Irresistível para quem gosta de arte, escandaloso para quem ama teatro.

E os motivos? Fácil, tanto o texto como a encenação oferecem tudo aquilo que o melhor teatro possui – belas ideias, arrebatamento, humor, a possibilidade de novas visões da vida e da sociedade. A ironia e a sutileza garantem o riso farto, como se fosse uma comédia muito espirituosa, atrevida mesmo. E, no entanto, o foco é sério, apenas a imoralidade das transgressões mais profundas, aquelas que afetam a ética, ignoram os valores básicos essenciais para a vida em sociedade. Transgressões contra todos nós, cometidas pela arte, em nome da arte.

A trama tem aparência singela, mas se torna bastante densa graças à reviravolta final, que não deve ser revelada.

A metralhadora do texto mira em todas as direções, acerta em tudo: a arte, os artistas, os turistas da arte, os críticos de arte, a imprensa, o público de arte, os marchands, a academia, os doutos e professores, os museus, os Ministérios da Cultura. Sim, é claro que os deslumbrados pela vanguarda sofrem mais: os americanos, os alemães, os israelenses e – não podiam escapar – os belgas, todos representados por seus milionários museus, capazes de comprar qualquer vento rotulado de invenção. Eles são os alvos maiores da imensa gozação.

O que afinal está acontecendo?

Somente a mentira do teatro para nos escancarar a verdade.

A arte nos salvará?


Até breve.

PS: Este post foi escrito apoiado em algumas críticas da peça, mas no fundo, ele é de minha autoria. Ou não?

quarta-feira, 21 de junho de 2017

CIRURGIA




A corrupção é crime hediondo.

Não há nenhum crime, por mais cruel, que se assemelhe, em gravidade e extensão de dano, ao crime praticado pelo corruptor mancomunado com o corrupto.

A corrupção alcança destruição visceral e secular na economia, na política, na cultura e, sobretudo, na Ética de um povo.

A corrupção esfacela os projetos da sociedade elaborados em benefício do desenvolvimento do município, do estado e da federação, inviabilizando investimentos cruciais à segurança, saúde e educação dos cidadãos, além de infraestrutura, ciência e tecnologia e tantos outros indispensáveis ao presente e ao futuro do país.

A corrupção destrói a essência da democracia, que não é outra senão o anseio de cada cidadão em se fazer representar dignamente nas diversas instituições que governam e garantem o Estado de Direito.

A corrupção macula profundamente a cultura cívica de um povo, especialmente no nosso caso, pela nossa fragilidade, nossa ingenuidade e nossa ignorância secular de corações e mentes.

A corrupção é um crime hediondo e como tal deve ser tratado.

É um câncer e como tal deve ser enfrentado. Erradicá-lo é nossa maior prioridade e como tal deve ser gerida.

Penso que devemos voltar aos nossos primórdios feudais: aos criminosos hediondos a exposição pública.

Entendo que precisamos tirar uma lição definitiva do nosso martírio atual e adotar medidas exemplares reparadoras e de efeito duradouro e transformador.

Sou de opinião que devemos distinguir o criminoso corruptor e o corrupto, reservando a eles penitenciária específica e simbólica.

Devemos dar a magnitude do crime a sua exposição. O que me ocorre, portanto, é: com os recursos auferidos pela recuperação do produto dos crimes praticados (R$bilhões) seriam construídas penitenciárias em área central da federação, de cada estado e cada município para onde deveriam ser dirigidos os criminosos apenados.

Imagino, na área central de Brasília, a edificação explícita e simbólica do destino que a sociedade reservará àqueles que vilipendiaram a federação.

Imagino, próximo ao centro cívico de cada estado, a edificação explícita e simbólica do destino que a sociedade reservará àqueles que vilipendiaram ao estado e/ou sua capital.

Imagino, em cada cidade deste país, a edificação explícita e simbólica do que a sociedade reservará àqueles que vilipendiaram o seu município.

Que seja fixanda na fachada, uma placa, idealmente em neon com letras garrafais: “AQUI RESIDEM TRAIDORES DO PAÍS”.

Para que, ao passar, inúmeras vezes por este maldito lugar, jamais nos esqueçamos do que fomos capazes de fazer de nossa história.

Ao final de décadas, quando queira Deus, não se fizer mais necessária nenhuma destas edificações, elas seriam demolidas e, no seu lugar, construiríamos jardins eternos de flores e fontes de água cristalina.




Até breve.

terça-feira, 13 de junho de 2017

ÀSFAVAS



Calei meu grito ou reduzi o meu chiado. Ao longo de seis anos que edito o blog acho que foi o período mais longo que fiquei sem deixar as minhas falas.

Fui prá rede feicebucar. Sob protesto do que se passa, venho todas as noites publicando os diálogos com minha posteridade singela, limpa, ingênua. Minha netaiada, na figura ficcional de Liz.

O horror da vilania me afastou do noticiário, do interesse em pensar e contribuir, ainda que modestamente, na reflexão e no endereçamento de saídas.

E foi bom.

Estava tão visceralmente tomado por cada movimento do tabuleiro do lamaçal que, acho, perdi dias, semanas, meses, boas horas.

Se bem que não. Estou apaixonado por Lelê. Prá quem se esqueceu ou não sabe, Lelê é apelido de Helena, minha netinha mais nova, que em abril completou seu primeiro aninho de beleza.

Sempre acho que acham que eu prefiro Liz. E é verdade. Sempre acho que acham que eu prefiro o Tin. E é verdade. Sempre acho que acham que eu prefiro o Antônio. E é verdade. Sempre acho que acham que eu prefiro a Lelê. E é verdade.

Eu prefiro a pureza, a alegria desmedida, o sonho, a ausência de adultice velhaca. Das crianças é o reino dos céus, alguém já pregou isto. E é verdade.

Impossível imaginar a utopia do retorno aos verdes anos. Para não dizer, uma tolice. Mas, em função dos comentários que recebi nos textos publicados no FB penso que há uma demanda por pureza.

Foram poucos, é verdade, mas o suficiente para eu acreditar. Ninguém suporta mais ódio, desconfiança, agressão desmedida, desrespeito à individualidade, o direito do outro as suas mais intensas escolhas.

Ninguém mais pode querer esta vida.

Não serei eu o ingênuo de propagar a alienação deliberada. Chutar o balde da realidade objetiva e reduzir à infantilidade enquanto bandeira. Seria por demais revolucionário.

Pois que seja.

Doravante meus olhos, meus ouvidos e minha voz estarão direcionados a ver, ouvir e dizer apenas bobices.

Lelê, no domingo, pela primeira vez, disse em alto e bom som, na presença de testemunhas:

- “Vovô...”






Até breve.


(*) EM ALUSÃO A UM CERTO JUIZ SUPREMO.

quarta-feira, 31 de maio de 2017

DESCELEBRE




Se me perguntassem hoje quais os três melhores filmes que eu assisti ao longo de toda a minha vida, teria que citar quatro. Aqui no meu perfil do dasletra você encontrará três deles: Cinema Paradiso, Era uma vez na América e O Carteiro e o Poeta.

O Cidadão ilustre é o quarto que citaria e que assisti ontem no cinema.

Andrés Duprat, o roteirista, disse em entrevista: – “Não somos estreantes e quem conhece nosso trabalho, sabe que nunca foi nosso ideal entregar os filmes prontos para o público. Sabe? Aquela coisa cômoda, a história com começo, meio e conclusão? É muito mais interessante e desafiador criar com o público, levar o espectador a participar de uma maneira mais ativa.”.

O filme, da extraordinária safra argentina, dirigido por Mariano Cohn e Gastón Duprat, tem, no papel de protagonista, o vencedor do prêmio de melhor ator no Festival de Veneza, Oscar Martínez (Ninho vazio) interpretando o renomado escritor Daniel Mantovani.

A Argentina teve um grande escritor cosmopolita – Jorge Luís Borges – que não logrou, como gostaria, o Nobel. Um provinciano, mesmo universal, como Mantovani, chega lá na ficção. Ironia…?

A primeira cena do filme revela a entrega do Prêmio Nobel de Literatura ao escritor Daniel Mantovani, argentino radicado na Europa há quarenta anos.

Com uma câmera documental registrando o momento, Daniel sobe ao palco e, em seu discurso, agradece dizendo que também lamenta o recebimento do prêmio por ele significar o "fim de sua aventura criativa". “Tenho a convicção de que este tipo de reconhecimento unânime está relacionado direta e inequivocamente com o declínio do artista.” “A canonização é fatal”, conclui.

Uma vez tendo ganhado o prêmio ele fica cinco anos sem escrever e se nega a participar de todos os eventos para o qual é convidado em diversas partes do mundo. Exceto a um: de sua cidade natal, Salas, que fica 7 km distantes da capital Buenos Aires.

Inicialmente ele hesita em aceitar, mas acaba aceitando o convite para ir a Salas e lá receber o prêmio de cidadão ilustre, em parte por saudosismo e muito pela vaidade de ser o filho pródigo louvado pelos seus. Sua jornada começa a partir dai retornando ao local que havia deixado há quarenta anos.

Por mais que Salas seja fonte de inspiração de todos os seus trabalhos, Daniel possui um profundo desprezo pela região graças às suas peculiaridades interioranas, muito distantes do lado cosmopolita da Europa.

Raduan Nassar, em seu Lavoura Arcaica, escreveu: “Não importa para onde vamos, estamos sempre voltando para casa.”.

O filme nos remete à questão ficcional: toda a verdade é fruto de uma interpretação, no entanto, impossível safar-se do destino.

O seu lugar é o seu lugar.

Salas, que pode ser lida de trás para frente, ambienta toda a miséria humana que vem à luz. Costumes sociais e culturais, idiossincrasias, chauvinismo, mediocridade, ignorância, barbarismo, violência, dogmatismo da pior espécie, fanatismo ideológico, hipocrisia política e, também, docilidade de pessoas que se deixam governar e manejar para um lado e para outro.

Li algumas críticas ao filme e me surpreendi em que gênero ele foi classificado: Comédia.

Nem Dante Alighieri explica.



Até breve.

terça-feira, 30 de maio de 2017

ESPACITO




Estou dando uma trégua, fazendo uma assepsia cerebral, lavando neurônios enfastiados pela verve sociopolítica. Dando um break na repetição sistemática das mesmas teses e encaminhamentos.

Vou para o futuro olhando o retrovisor. Meus passados anos recentes, ali por volta do corte epistemológico que fiz ao adentrar meus sessenta. No dia 27 de fevereiro de 2012 o meu adiante floriu. Começava ali a jorrar sobre a minha vida meus mais queridos desejos.

Meus netos.

A partir daquela data embrenhei-me na fantasia, mais do que simbólica que deveria pautar meu viver doravante. Nada me ocupava mais do que sonhar o sonho de ver brotar do que brotou de mim.

Confesso: o fato de ter sido brindado, inicialmente, por uma menina faz com que eu jamais saberei agradecer a Vida por tanto. Desnecessário dizer que amo a todos com a mesma intensidade e cuidados: Liz, Valentin, Antônio e Helena.

Escrevi 42 diálogos hipotéticos, entre eu e Liz, frutos de minha imaginação transtornada pela alegria que estava por vir.

Agora, minha assepsia se fará pela crença de que há sim um futuro e, no simbólico, ele se resume em LIZ. A flor-de-lis é utilizada como símbolo do curso de Letras em várias universidades brasileiras.

Com LIZ abriu-se um novo texto, um intertexto que percorre todo o jorrar de minhas mais profundas reflexões e desejos.

Convido aos leitores do dasletra, especialmente aos recém-chegados, que leiam estes diálogos que estão catalogados no ícone de assuntos sobre o título de LIZ.

É quase um resumo de tudo o que tenho a dizer sobre a Vida. E, por favor, não colem a Liz dos textos à minha querida netinha. Minha netinha é mais do que real.

A Liz dos textos é um texto.



Até breve.

domingo, 21 de maio de 2017

KIKO



Nenhuma teoria ou ciência dá conta de tamanha bandalha. Mesmo guardando as estratégias mais do que perversas entre os grupos que se articulam não é possível crer em qualquer expediente moderador.

Não há entre os contendores nenhum puro. Todos, indiscriminadamente todos, pustulam. O organismo institucional é uma metástase que cotidianamente vaza. E, a cada vez, com maior carnicão.

Seguramente nunca estivemos tão distantes de um desfecho que possa sugerir superação. Qualquer resultado das pendências jurídicas em curso é aterrorizante. Ninguém será condenado sem condenar a tantos outros. Inclusive aos próprios juízes.

Não há nenhum puro.

Mera denúncia vazia. Denúncia vazia é a retomada do imóvel pelo locador, sem necessidade de justificativa, após o término do prazo de locação inicialmente fixado em contrato.

Devolvam-me o meu mundo. O que farei sem a minha morada?

Postei este texto ontem no FB. É um fragmento de TUMOR editado aqui no dasletra.

Experimentei ao longo dos últimos dias sentimentos contraditórios. Vacilei-me em diferentes expectativas e tensões. Surpreendi-me com a magnitude, indignei-me com o escárnio. Esperei acontecimentos.

Ausentei-me do noticiário, facilitado pelo cuidar dos netos, passarinhos, coiseiras do sítio. Meu coração e cérebro ainda assim tomado pela inquietude e pelo torpor.

Todos sabemos que não vivemos tempos fáceis. Todos estamos conscientes de estarmos diante de uma mudança de era, que deixamos para traz uma era de mudanças. Todos sabemos que a vida já não é mais do jeito que teria sido.

O que nos trouxe até aqui?

Negligência, desinteresse, desesperança, irresponsabilidade, ingenuidade, intenção. Afinal quanto do que está posto, criamos? Quanto de nós está no quadro emoldurado? Por omissão, inércia, egoísmo, descompromisso?

A democracia clama por envolvimento, por legitimidade, por lisura e responsabilidade. Tudo do que vier é nosso, sobretudo. Não há um “eles” sobre o qual recaia a culpa pelo desastre.

O desastre é integralmente nosso.

Escolhi Collor. Escolhi FHC. Escolhi Lula, escolhi Dilma, escolhi Aécio. Escolhi tudo o que está aí. Confortável é a certeza, compartilhada, de que não fui o único. O que está aí é muito maior do que eu possa mudar.

Talvez isto nos garanta lógica futura. Talvez isto compense e explique nossa passividade. Talvez esconda nossa omissão semi-deliberada.  Nossa alienação. Nossa fraqueza.

Talvez.

Talvez tudo mude e, por pura sorte, me caiba.



Até breve. 

quinta-feira, 11 de maio de 2017

EXPERT



“O importante é o principal, o resto é secundário”. Lula usou esta frase no depoimento – de um amigo metalúrgico – para dizer como deveríamos tratar o processo.

E o principal, para mim, reside no que não foi dito.

A questão da propriedade do tríplex é controversa e, como se defende Lula, não há escritura lavrada em cartório que ateste de forma inquestionável a propriedade. Podemos considerar a hipótese (em minha opinião mais provável) de que houve sim a negociação com a construtora como pagamento de propina, mas Lula disse que não gostou de “500 coisas muito ruins” e que se ele tivesse que colocar um elevador no tríplex teria pedido para colocar no apartamento onde reside há dezoito anos.

A veracidade ou não da propriedade me parece secundária, ainda que nos meandros do processo existam documentos (a recusa da compra somente em 2015, a Nota expedida pelo Instituto Lula, e-mails internos da construtora tratando das demandas da “madame”, entre outros) que atestam  o encaminhamento da negociação entre Lula e/ou Dona Mariza com o presidente da construtora.

O tríplex é frágil para incriminar Lula.

No entanto, a estratégia brilhantemente conduzida pelos advogados de defesa, buscou forçar o juiz a restringir o depoimento a fatos relacionados exclusivamente à questão da propriedade ou não do apartamento. Diversas vezes o advogado, que atuou também para desestabilizar Moro, fez apartes conclamando que o juiz se ativesse aos termos do processo em julgamento.

E por quê?

Para que o principal não emergisse. Moro seguiu uma linha, em minha opinião sutil, de que Lula teria participação decisiva na composição da diretoria da Petrobras, do Presidente e de alguns diretores da empresa, especialmente Duque.

Moro irritou a bancada de defesa quando insistiu, várias vezes, na solicitação de que Lula explicasse como se deu a escolha dos diretores hoje condenados.

Moro irritou mais ainda quando consultou Lula sobre as características que, enquanto presidente da república escolhia os seus colaboradores.

Esta me parece a questão central e determinante neste e nos demais processos em que o senhor ex-presidente é réu.

A defesa recomendou ao cliente que não respondesse a nenhuma pergunta relacionada em que pese, um dos advogados da sessão (o mais sênior) ter posicionado veemente em defesa do juiz de que era pertinente às perguntas uma vez que ao juiz é dado o direito de inquirir o reu para saber de traços do caráter do mesmo.

E nisso Lula incorreu em um escorregão fatal. Ele havia dito que nunca conversava com diretores da Petrobrás e em seguida, provocado por Moro em outra questão, disse que havia pedido ao Vacari para agendar um encontro com Duque, encontro este que ocorreu em um hangar do aeroporto de Congonhas.

Lula talvez não saiba mesmo quanto roubaram, ele me pareceu assustado quando perguntou ao juiz: “Quanto mesmo que Barusco roubou?” Duzentos milhões de reais, respondeu Moro.

Dentro deste contexto Lula disse, referindo-se à Barusco, a frase que julgo PRINCIPAL do depoimento de ontem:

“Um ladrão assim é tão esperto que só se sabe se for delatado.”

Outra hipótese, a mais ingênua, é de que Lula não sabia do que ocorria em sua casa, nem no Instituto, nem no Partido, nem na Petrobras...

Outra hipótese, a menos ingênua, é de Lula não sabia do que ocorria em sua casa, nem no Insituto, nem no Partido, nem na Petrobras...



Até breve.

CLIMAX



Por volta das duas horas da madrugada fui dormir depois de assistir, com atenção, às gravações em vídeo de todo o depoimento do ex-presidente Lula ao Juiz Sérgio Moro. Algo perto de cinco horas de intenso debate e embate.

Convido à reflexão a partir de alguns trechos da fala, inicialmente das declarações finais do senhor ex-presidente (tratamento que o juiz adotou ao longo de todo o depoimento, sancionando inclusive membro do MP que tratava sua excelência por “você”).

Permito-me extrair da fala do acusado trechos fora da ordem em que eles foram declarados, a fim de compor minha abordagem.

Lula, desde sempre se vê como um predestinado e se cobra por isto. “Quando me candidatei à presidente sabia que tinha um compromisso de fé. Se eu errasse nunca mais a classe trabalhadora elegeria alguém de baixo.”

Lula queixa da falta de respeito dos acusadores e considera que está sendo vítima de um massacre. “Imperdoável o processo de perseguição, confesso que eu espero que tivessem mais respeito por um homem que deu à este país a dignidade que ele não tinha há muito tempo.” “Massacrar o cidadão, ele tem que pagar o preço por existir, esse cidadão cometeu o erro de provar que este país pode dar certo.”

Lula aponta a imprensa como a grande julgadora de todo o processo. “De março de 2014 prá cá foram 25 capas da Isto É, criando um monstro. 19 capas de Veja e da época 11. A Folha de São Paulo publicou 298 matérias negativas e 40 positivas, O Globo 530 negativas e 8 positivas, e o Estadão 318 matérias negativas e apenas 2 positivas. Somente no Jornal Nacional foram 18 horas em 12 meses.”

Lula se vê diante de um julgamento político sem base de sustentação em provas comprobatórias. “Desconhecendo a política fizeram um power point, porque já tinha a tese anterior de que o PT era uma organização criminosa que o Lula, por ser o presidente, era o chefe e que, portanto, Lula montou o governo para roubar.” “É uma tese eminentemente política.” “Pelas perguntas que vocês me fizeram(dirigindo-se aos membros presentes do MP) o Dr. Moro nem deveria ter aceito esta acusação.” “Quero que parem com ilações e digam qual o crime que eu cometi.”

Lula se diz respeitador das leis e que foi quem mais trabalhou para criar as condições para o desenvolvimento da justiça no país. “Fui presidente durante oito anos e respeitei as leis mais que qualquer outro, fiz mais leis que qualquer um.”

Lula, em suas declarações finais, vaticina algo com o qual devemos nos preocupar. “O comprometimento da justiça e o comprometimento da acusação com a imprensa está levando a um impasse. Eles estão com dificuldade de saber: quando isto acabar, e se esse tal de Lula for inocente?”

Lula, em tom grave, alerta ao juiz. “Doutor, eu vou lhe avisar uma coisa. Estes mesmos que me atacam hoje se tiverem sinais de que eu serei absolvido, prepare-se, porque os ataques ao senhor vão ser muito mais fortes do que eles fazem até aos ministros da Suprema Corte.”

Penso e tenho dito ser este o grande nó histórico. Como vamos fazer a passagem pós-desfecho judicial? Os fatos em si, mesmo que translúcidos aos olhos de qualquer análise probatória não serão suficientes para pacificar toda a sociedade, independentemente do veredicto.

Não há a hipótese, para milhões de brasileiros que Lula não seja preso. Não há a hipótese, para milhões de outros brasileiros que Lula seja preso.

No próximo post abordo minhas observações sobre a parte central do depoimento.



Até breve.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

SEIS



Há exatos seis anos atrás publiquei o meu primeiro post aqui no dasletra. Entre as paixões que me acompanharam ao longo de toda a minha vida escrever foi e, enquanto estiver supostamente lúcido, será uma das mais intensas. 

Desde sempre escrevi e, por razões diversas, nunca publiquei. Acho porque nunca me levei muito à serio e, indisciplinado que sou, sempre achei também que não sustentaria a existência do blog. 

Mil e treze posts editados depois tenho esta atividade como uma necessidade visceral. Permito-me lavrar como uma catarse, tanto no tema a abordar quanto na forma.

De tudo o que escrevi o que considero de mais sério foram  as estórias que construi através de hipotéticos diálogos com a minha netinha que nasceria cinco meses depois de eu tê-las escrito. 

No dia 27 de fevereiro de 2012, dia do meu aniversário de 60 anos, recebi um convite com uma foto de um exame ultrassom. Minha filha me pediu que a acompanhasse no exame. E lá ficamos sabendo que era Liz, que estava por vir.

Minha vida é marcada à partir desta data. A chegada dos meus netos, Liz (01.08.2012), Valentin (07.03.2014), Antônio (06.12.2014) e Helena (30.04.2016).  Tudo o que um homem pode experimentar de realização e alegria.

Até o dia 31 de julho de 2012 (Liz nasceu no dia 01) escrevi inúmeros diálogos e me recordo com que prazer. 

Para memorar e agradecer à Vida por ter me gratificado com todas as vivências destes mais de mil posts escolhi aleatoriamente (será?) um destes diálogos que intitulei como NÓ.

- Vovô...

- Oi, Liz.

- Por quê que a gente morre?

- A gente morre, Liz?

- Sim. A Luciana, minha colega da escola, não foi à aula hoje. Aí eles falaram que foi porque a vovó dela tinha morrido.

- Você conhecia a vovó dela?

- Ela já foi muitas vezes na nossa festinha... Brincava comigo...

- Ela era muito legal então, Liz...

- Sim, muito legal.

- Sei.

- E então, vovô? Por que a gente morre?

- A vovó da Luciana estava doente?

- Não sei.

- A gente morre quando fica doente...

- Outro dia, você lembra vovô? Eu fiquei doente.

- Gripada, né?

- É. E por que eu não morri?

- Porque a gripe não é uma doença grave...

- Grave?

- É. Uma doença grave é quando ela deixa a gente tão fraquinho que aí a gente não agüenta...

- E morre? E aí?

- Aí o quê, Liz?

- O que acontece com a gente?

- A gente nunca mais vê a pessoa e...

- Ela vai prá onde?

- Ô Liz... Meu celular. Deixa eu atender...

- Pai...

- Oi, Pretinha.

- É a mamãe, vovô? Deixa eu falar com ela.

- Pode falar, toma...

- Oi, mamãe...

- Oi, querida! Tá tudo bem aí?

- Eu estou conversando com o vovô.

- Ele está te contando histórias?

- Não.

- Então vocês estão conversando sobre o quê?

- Sobre morte.

- Deixa eu falar com o vovô, minha filha.

- Beijo, mamãe.

- Pai, que história é essa?

- Ela que perguntou.

- Desconversa pai... Como você vai sair dessa?

- Espero que só daqui alguns anos. Eu quero viver muito ainda.

- Êh, pai, tô falando da pergunta da Liz.

- Eu sei lá!

- Pai, faz o seguinte: despiste ela, chama ela prá ver um filminho, leva ela lá prá baixo. Vê se faz ela esquecer desse assunto...

- A avó da coleguinha dela morreu.

- Qual coleguinha?

- A Luciana.

- Nossa, a dona Clara morreu? Que pena, meu Deus!

- Você a conhecia, minha filha?

- Sim, estive com ela na semana passada.

- Pois é.

- Vou ligar prá escola prá saber o que aconteceu.

- Faça isto minha filha.

- Puxa, que dó, né pai?

- É, minha filha.

- Beijo, pai. Tchau!

- Vamos ver um filminho, Liz?

- Agora não.

- Vamos dar uma volta?

- Onde?

- Lá embaixo.

- Quero agora não, vovô.

- Então o que você quer fazer?

- Continuar conversando.

- Então tá.

- Fala, vovô.

- Sabe que hoje eu fiz um exercício legal lá no pilates?

- Como foi?

- A gente fica pendurado em duas barras... Assim ó, sabe?

- É perigoso, vovô?

- Não, perigoso não é não.

- Se você cair você morre?

- Não... Posso só machucar um pouquinho.

- Quando a gente morre a gente vai prá onde, vovô?

- Liz, o vovô não sabe.

- Mamãe sabe?

- Não.

- O papai sabe, num sabe?

- Também não.

- As vovós? Vovó Tucha é professora, ela sabe. O vovô Cláudio...

- Acho que não.

- Quem sabe, então, vovô?


Hoje já não preciso escrever diálogos hipotéticos. 

Até breve.

Obs. Todos os diálogos estão no icone de assuntos com o título LIZ.