quinta-feira, 28 de março de 2013

GRACINHA



Eram perto das nove horas da manhã de ontem quando ela deu o seu primeiro sinal: “Eu estou chegando”.

Somente à noite é que Tadeu e Lola, os pais, foram para a maternidade. Internação na madrugada e alumbramento às 05h45min de hoje.

No caminho, Lola teria perguntado:

- “Você está bem, Tadeu”?

- “Claro, eu estou tranquilo, está tudo bem, eu só estou um pouco nervoso”...

Quando ele saiu do bloco cirúrgico depois de ter banhado 700 flashes em lágrimas, encontrou-se com a sogra, o sogro, a cunhada e o cunhado e foi logo dizendo:

- “Tá tudo bem, gente. Eu só quero comer um pão de queijo”.

E foi assim.

Catarina já está entre nós. Chegou com dois quilos, setecentos e sessenta gramas e quarenta e cinco centímetros. Uma tetéia.

Tem dias que por muito pouco a gente tem motivos para dar graças à vida. Hoje, ao depararmos com a felicidade de Tadeu e de Lola, da vovó e da titia de Catarina, foi um dia desses.

Estou doido para encontrar com o vovô Antônio. Acho que ele deve estar bobo, que nem eu.



Até breve.

terça-feira, 26 de março de 2013

EBANINHA




Seguinte: Pretinha, que ontem comemorou aniversário e consegue ficar cada dia mais linda, fez um comentário que eu achei legal de trazer aqui.

Estávamos almoçando juntos em família e ela disse que havia recebido um vídeo editado no YouTube. Um sujeito, no vídeo, fala do que distingue um homem de uma mulher.

Para ele o homem tem no cérebro várias caixinhas onde ele guarda repertório sobre alguns assuntos e toda a sua ação no mundo deriva daquele enquadre. Cada demanda trazida pelo externo o homem reage de forma burocrática, caixinha por caixinha, assunto por assunto. Não coloque o homem diante de duas ou mais questões que ele vai se embaralhar todo.

A mulher, por sua vez, tem no cérebro um emaranhado de fios, boa parte deles desencapados. Daí a razão, eu suponho, que nenhum homem é capaz de entender a nenhuma mulher e toda e qualquer mulher é capaz de fazer conexão desencapada com qualquer outra mulher.

Pois bem, quem quiser ver o vídeo que procure por que eu mesmo não tive muito interesse.

A questão é que hoje bem cedo quando aguardava um voo para Campinas me deparei com uma caixinha do meu cérebro. Lá eu guardo minha boneca, Pretinha.

Ando com ela por todos os lugares que vou, sinto-a presente, até porque ela também não deixa que eu a esqueça por um instante sequer, sempre me acessa via celular, WhatsApp, FaceTime, msn, esses trens todos.

E olhem que ela me diz que não temos diálogo, e não temos mesmo. Ela só diz que eu sou muito bobo, ou que sou muito engraçado. Em nossa linguagem é tudo o de melhor que eu posso ouvir de Pretinha.

Tenho apenas dito para ela que não convém levar para sua analista esta sensação de que depois que Noninha nasceu eu não dou mais atenção para ela, que é só Noninha prá lá, Noninha prá cá. Simplesmente porque é a pura verdade.

Hoje, no entanto, abri minha caixa onde eu guardo minha boneca, Pretinha. Quando me deparo com ela, com este assunto, com esta pessoa sinto um imenso orgulho de ter tido o privilégio de recebê-la como filha.

Tomara que um de seus fios mais do que desencapados nunca entre em um curto tal que perca de vista quão ela continuará sendo para mim uma das caixinhas mais importantes para o meu verso.

Depois de Noninha, claro!


Até breve.

domingo, 24 de março de 2013

ALERTA



Acordei sobressaltado nesta madrugada. Na cena do pesadelo minha mãe repreendia-me severamente:

- “Respeite as pessoas, menino! Um dia você terá a idade dela e não gostará nada de que façam contigo o que você está fazendo com ela agora! A próxima vez que eu souber ou ver que você está zombando da Dona Zenólia eu vou colocar você de castigo de cara para a parede, você me ouviu”?

Nós morávamos vizinhos a uma numerosa família constituída por membros de várias gerações. Dona Zenólia era o mais velho integrante dessa família e a cada dia sua senilidade tornava-se mais aguda. Em outras palavras: ela tinha ficado caduca.

Nada mais hilariante para um garoto do que os atos insanos daquela senhora. Eu estava sempre lá, todos eram muitos gentis e, embora não tivesse nenhum menino de minha idade no clã, eu gostava de ir para lá. Claro, sobretudo, para guardar minhas gargalhadas dos disparates absurdos de Dona Zenólia.

Lembro-me agora que os selemeleques da pobre mulher viravam repertório para eu compartilhar com meus amigos de rua e colegas de escola. Já bocudo, naquela época eu sempre aumentava, ou dava um tom mais exagerado às atitudes da infeliz. E ria às bandeiras desfraldadas junto com os meus amigos. Eles me pediam incessantemente para que eu os levasse qualquer dia para presenciar.

Meu medo de minha mãe era tão grande que, mesmo eu tendo pensado em cobrar ingresso para levar um par de meninos de cada vez à casa vizinha, isto eu nunca fiz.

Era só eu chegar na roda e a turma ia logo pedindo: “Conta aí, Lozinho... O quê que a maluca aprontou agora”?

Ela se maquiava toda com borrões que lhe davam um aspecto aterrorizante, colocava vestidos do lado avesso, calçava sapatos com os pés trocados ou um de cada par, dizia disparates incompreensíveis e, invariavelmente, quando alguém se aproximava dela ela virava-se para o lado e perguntava a alguém que estivesse mais próximo: “Quem é?” Muitas vezes era um filho ou uma filha ou um neto. Eu ela sempre dizia: “Quem é este menino que não sai daqui de casa”?

Inúmeras vezes ela saia de seu quarto e entrava abruptamente na sala de visitas e dizia: “Olha o que eu achei”! Nas mãos ela apresentava tudo o que encontrasse pela casa. Roupas íntimas dos familiares, panelas, vassouras e todo tipo de objetos. Do jeito que ela entrava saía da sala e de repente voltava trazendo outro achado.

Nesta madrugada acordei sobressaltado porque a cena do pesadelo que vivi dava conta de que certa vez  Dona Zenólia entrou na sala de visitas com um urinol (pinico) na mão e disse com sua expressão mais ensandecida:

- “Olha a merda que eu achei”!

Será que eu estou vivendo praga de mãe? Ou será que estou ficando caduco? Vou logo avisando a todos: quem sair aí zombando do que apresentei nos últimos posts ou em eventuais vindouros eu colocarei todos de cara para a parede, ouviram?

Aguardem-me. Eu só vou ali e já volto.


Até breve.

sexta-feira, 22 de março de 2013

DRENO



Se bem que talvez toda a minha tese (?) lançada nos últimos posts valha somente para nós brasileiros. Dormência faz parte do traço de nossa personalidade para não dizer de outra que é a alegria.

Diante do adverso sempre criamos pilhérias. Melhor assim do que sair por aí lançando bombas sobre edifícios e matando inocentes, como é próprio de outros povos diante de seus quereres.

Temo apenas que nossa alegria fique no limiar da idiotia, aquela patologia que dá conta do sujeito que ri independentemente do que lhe é trazido.

Peralá, também não é tão grave assim. Nos jornais há muita inteligência política especialmente nos espaços, teoricamente, reservados ao humor. Quem sabe por esta via, o recado seja dado.

Para ilustrar fiz uma síntese de insights do jornalista Alfredo Ribeiro, que é também o blogueiro Tutty Vasques do Estadão, publicados nos últimos dias. Em entrevista ao Juca Kfouri ele disse que devemos procurar sorrir antes de nos indignarmos. Disse também que devemos ter cuidado com o limite entre o humor e a grosseria. 

Vamos ao Tutty, então:

ADES – Suco de Soja Cáustica

ESTÁDIO DO CORINTHIANS – O futebol é uma caixinha2 de surpresas

MARIA VERÔNICA CALHEIROS – Não é qualquer mulher que lucra 72% em quatro meses depois de injetar R$290 mil numa empresa relâmpago do marido

MALUF – “O primeiro que encontrar conta minha no Chipre, pode ficar com o dinheiro”.

CARTILHA ANTI-SEQUESTRO NA BAHIA – “Chute os faróis traseiros até que eles saiam para fora, estique seus braços pelos buracos e comece a gesticular como doido”.

PICHAÇÃO NA IGREJA UNIVERSAL – O Bispo Macedo, pelo menos, não é argentino.

KIM JONG-UN (líder norte-coreano) - “Me segura se não eu te ataco”.

Zeroum foi quem me ajudou a expressar o sentimento de coisas como estas: devo rir ou chorar? Julinho também já se fez esta pergunta, em comentário posts atrás.


Lembrei-me de minha mãe, feliz, há cinquenta anos cantando o jingle de campanha de seu candidato à Presidência da República.

“Varre, varre vassourinha.
Varre toda a bandalheira.
Que o povo está cansado de sofrer desta maneira”.

Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo o que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais.


Até breve.

quinta-feira, 21 de março de 2013

CENAS



Continuando o TEMA.

"Há muitos juízes para colocar para fora. Esse conluio entre juízes e advogados é o que há de mais pernicioso. Nós sabemos que há decisões graciosas, condescendentes, absolutamente fora das regras".

Esta época é mesmo orgástica de tão explícita. As falas do Presidente do Supremo Tribunal na sessão de trabalho no Conselho Nacional de Justiça de ontem foram lapidares que ilustram minha tentativa de compreendê-la.

Hoje fui levar Noninha ao médico pediatra. Revisão de rotina, nada de grave. Comentei com ela do ocorrido na reunião do CNJ.  Flagrei a reação dela, quase escandalizada.


Como se não bastasse, já tendo retornado da consulta com a médica, fui falar com Noninha sobre a visita de nossa Presidenta a Roma onde nossa lidera se encontrou com El Papa Francisco. Minha netinha não se conteve quando eu disse que a comitiva presidencial ficou hospedada durante três dias em cinquenta apartamentos de um hotel de luxo no centro da cidade e alugou dezessete carros de luxo. A missão propriamente dita não ultrapassou a cinco horas. Noninha fez como se me dissesse: “Mesmo, vovô? Né pussível”.


Continuei conversando com ela. Falei do reajuste dos suados ganhos dos deputados e senadores aprovado ontem pelo Congresso e da decisão judicial de confisco dos bens da quadrilha de Cachoeira a qual, naturalmente, sofrerá impetração de recurso.


Quando olhei para o lado Noninha dormia. Esta foto não tirei, porque assemelha-se a da nação que dorme. E todos conhecem.

Explicitação. Efemeridade. Banalidade.


Até breve.

quarta-feira, 20 de março de 2013

EMBREAGEM



Seguindo.

Acho que já podemos admitir que a época de mudanças passou. Os últimos quarenta ou cinquenta anos foram palcos de sucessivas transformações especialmente naquilo que diz respeito à produção e aos meios de distribuição do conhecimento humano e dos seus efeitos decorrentes.

UFA!

Foram tempos avassaladores que nos trouxeram até aqui e, penso, nos colocaram diante de uma mudança de época. Sim, não estamos mais diante de uma época de mudanças, mas de uma mudança de época.

Quais são os ícones desta época que abre o Terceiro Milênio? Explicitação, efemeridade, banalidade. Uma levando à outra. O explícito leva ao efêmero que, por sua vez, torna-se banal.

Tenho para mim, como conceito, que NOVO é tudo aquilo que não tem passado e NOVIDADE é tudo aquilo que deriva de algo preexistente.

Nossa época não traz nada de NOVO, mas uma avalanche de NOVIDADES proliferadas por inúmeros meios caracterizados pelo acesso, pela portabilidade e pela instantaneidade.

Todos podemos ter agora, neste instante, qualquer informação disponível em equipamento que pesa algumas centenas de gramas. Recebi de Lydinha uma coletânea de endereços da web: toda a obra de Chaplin, 1300 documentários, o primeiro filme, todo o acervo desde 1900 da TV Européia, toda a obra de Fernando Pessoa e de Machado de Assis, 100 clássicos da literatura universal, todas as entrevistas da Paris Review e da Playboy, todos os textos do Modernismo, 60 obras dos pensadores da educação, a biblioteca de Julio Cortazar, as 100 obras primas da música clássica, o maior acervo de MPB, 200 clássicos da música erudita, a maior coleção de fotografias históricas do mundo, Memorial do Holocausto, as obras completas de Paul Cézanne de Leonardo da Vinci e 63 mil pinturas de cinco mil artistas, 3 milhões de pronúncias em 60 idiomas, todo o acervo do Grupo Folha, 144 sites educacionais, 100 alternativas à Wikipédia, os dez melhores começos e finais de livros, os dez melhores textos de todos os tempos...

UFA!


É claro, se eu ficasse vinte e quatro horas a disposição para clicar este acervo, o que resta de toda a minha vida seria tempo insuficiente para acessar a tudo. Ocorre que está ali, disponível.

Não há mistério e se não há mistério não há reflexão, se não há reflexão não há elaboração e se não há elaboração não há o NOVO. Nem o pecado é mais original.

Talvez Da Vinci, Picasso, Mirò, Buñuel, Bergman, Wood Allen, Almodóvar, Kafka, Freud, Marx, João Gilberto, Presley, Lennon, Caetano e Gil. Se não foram NOVO ficaram muito próximo.

Não há nenhum problema, nem de natureza moral, no sucedâneo de NOVIDADES. A única questão é que elas veem carregadas de explicitação. Sempre se aventou sobre a maquinaria dos atos corruptos em todas as instituições. Da Igreja ao Estado e em todas as demais privadas.

Nunca foi tão explícito quanto agora. A manutenção no cargo dos presidentes da Câmara, do Senado e da Comissão de Direitos Humanos, as alianças com o Diabo da Presidenta e as imagens do ex-Ministro da Justiça ao lado de seu cliente o criminoso (hoje em liberdade) Cachoeira são pornografia explícita da pior qualidade.

TRASH!

A entrega do Oscar de melhor filme pela primeira dama dos USA e o vídeo da Coréia do Norte divulgado ontem são outros exemplos do horror de nossa época. Explícitos, efêmeros e banais.

Quando eu era menino lutava para saber onde existiam ou quem tinha revistinha de sacanagem. Sacanagem, para quem não sabe, é mulher mijar na garagem e dizer que é óleo de embreagem. Alguns amigos meus às vezes perguntavam: o que é embreagem? Eu os deixava em mistério.

E Noninha, afinal, não é NOVO? Não, Noninha é minha melhor NOVIDADE derivada daquilo que me concerne e que relatei aqui na série SEIVA. Aliás, muitos dos que colocam os olhos nela dizem:

- É sua cara, Agulhô!

Isto todo dia me torna quase NOVO.



Até breve.

terça-feira, 19 de março de 2013

TEMA



Estive analisando as estatísticas de acesso ao blog. O número de visitas vem caindo assustadoramente. Acho que descobri parte das razões que levaram a alguns internautas a não mais se interessarem pelos meus textos.

A primeira diz respeito à escolha do tema a ser abordado. Ninguém tem muito saco pra ficar acompanhando as sonolentas experiências de um avô.

A segunda são as opiniões pouco abalizadas quando eu enveredo por territórios mais elaborados como política, religião, comportamento, estas coisas.

A terceira, que me parece, é que as vivências ocasionais com meus amigos são de uma pieguice sem parâmetro. Um porre.

Muito bem.

Ah, tem a descrição ou relatos das viagens. Alguns já se manifestaram que irão para qualquer lugar menos para aqueles que eu descrevi aqui.
Assim também com os filmes. Diretores de cinema estão ficando preocupados com a possibilidade de eu vir a gostar de seu filme e querer comentá-lo aqui: perda de bilheteria na certa.

Depois da audiência com Kristina, a Louca, Francisco me ligou e pediu que eu o esquecesse. Ele está mesmo levando a sério o seu pontificado. Clamou para que eu não voltasse a falar nem dele e nem de nada que pudesse fazer o leitor a se lembrar da existência de um novo papa. E eu, que já estava começando a gostar de seu estilo.

Portanto, vou ter que ou deixar de escrever meus posts ou procurar um tema que possa interessar internautas e com isso recuperar meus índices de bloguência.
Como não estou disposto a ficar com minhas comichões nas mãos eu vou seguir em frente.

Já tenho um tema novo.

Vou escrever sobre algo que ninguém tem interesse e, portanto, não deverei trazer nenhum mal estar.

Vou tratar nos próximos posts da época em que havia mistério. Isso mesmo, mistério, desconhecimento, desinformação. As pessoas encontravam-se e falavam de suas vidas, de seus familiares, de suas mazelas e desejos.

Vou falar de uma época em que se tinha interesse.

Prognóstico: nem com os membros da minha família eu poderei contar nas próximas estatísticas.

Até breve.

sexta-feira, 15 de março de 2013

XICO



Primeiras impressões sobre Francisco, Bispo de Roma.

Não foi lapso, a meu ver, no seu primeiro pronunciamento a referência à Roma. Prefiro acreditar que ele nos convida às origens, à tradição, à nossos limites que nos constituem historicamente.

A escolha do nome é outro recado que, a mim, parece emblemático. Envolve o conceito de uma conduta de abdicação das riquezas mundanas para o acolhimento ao simples e à adoção desafortunada de bens e ostentações.

Francisco avança para trás.

Convida ao serviço e à entrega ao outro, como queria Aquele que ele se faz representar.

Não será favorável, penso eu, às demandas do contemporâneo: ele provavelmente não somará com os defensores de “adaptações às novas realidades” como o aborto, a queda do celibato, o casamento entre homossexuais e a ordenação de mulheres.

O Bispo de Roma não caminhará sobre a tese de que ao homem é facultado o direito de decidir sobre a vida; o casamento serve à multiplicação da espécie e a representação de Cristo só pode se dar na figura de um homem.

O Bispo de Roma continuará entendendo que a dedicação celibatária ao sacerdócio é a via que endereça ao Divino, desatrelada das práticas e costumes mundanos. O homem sacerdote serve para servir, exclusivamente. Amar é o prazer que se coloca na perspectiva de servir ao outro.

Sem estes preceitos não será  Igreja será, como disse o Santo Papa, uma ONG piedosa.

Espinhosa tarefa esta do novo Pontífice. Ou não.

Como tudo na modernidade será rapidamente absorvido, consumido e entrará para o rol dos acontecimentos marcantes do ano de 2013 e logo será esquecido. A vinda dele ao Brasil coincidirá com a Copa da Confederações, depois vem 2014 a Copa do Mundo e as eleições, para quê mesmo?

Enfim, pautas midiáticas.

É uma pena.

A renúncia de Bento e a posse de Francisco deveria nos servir para algo mais. Ambos com seus gestos parecem querer nos dizer: “Eu prefiro ter uma velha opinião tomada sobre tudo, do que ser uma ambulante metamorfose”.

Ambulante no sentido de perdido, metamorfose no sentido de conduzido pelas massas.

Eu, de mim, prefiro.


Até breve.

quinta-feira, 14 de março de 2013

SABER





Esta foto tirada de uma turma do primeiro ano de uma faculdade nos USA é óbvia e, talvez por isto, me impressionou.

Se eu viver mais dezoito ou vinte anos e se tudo continuar evoluindo nesta velocidade exponencial eu temo que não saiba lidar com meus netos. Hitler em 1945 declarou: “Todo homem bem informado é um homem perigoso”.

Eu não serei consultado por eles para nada. O tempo vivido não terá o menor valor, antes pelo contrário. Não porque eles saberão tudo ou porque poderão ter acesso a toda e qualquer informação e instantânea. Não.

Porque provavelmente não haverá interesse.

Jamais poderei eu acompanhá-los nos bits e nos bytes. Eles terão inúmeras e variadas respostas para tudo e em diferentes idiomas e em diferentes estruturas de formulação com imagem, som e texto ou sabe-se lá o que mais.

Eles saberão tudo. Em todos os campos do conhecimento, se é que lá no futuro haverá quintais de conhecimento como agora. Eu suponho que não, na medida em que hoje toda elaboração já é multi, interdisciplinar e em códigos abertos.

E estarão interessados em quê?

Vou me preparar então para os melhores vinte anos de minha vida com os meus netos. Vou despertá-los para o absurdo, para o incerto, para o insano, para o mistério, para o medo, para a inquietação, para o humano.

Gosto de levar Noninha para ver, na casa vizinha ao meu prédio, um cachorro. Ele fica solto no amplo quintal da casa. É um belo e bem tratado animal. E late. E sempre que late Noninha se assusta. A primeira vez que se deparou com a experiência ela esboçou um chorinho e eu disse: “É um au au, neném.” Ela não levou o choro adiante e ficou apenas com expressão grave com seus olhinhos de jabuticaba abertos e fixos no animal.

Sempre que ela está em nosso apartamento levo-a para ver o cachorro. Atualmente quando estou aproximando da casa, com ela no colo, eu já não preciso dizer. Ela procura com o olhar o animal entre as folhagens que entrelaçam as grades de ferro da frente da casa e ele sempre aparece e late. Noninha olha para ele e me passa uma sensação de como se ela dissesse ao cachorro:

- “Eu sei de você”...

Espero que, lá no futuro, eu esteja preparado para levar meus jovens netos a se assustarem.


Até breve.

terça-feira, 12 de março de 2013

TROÇA



Já que o debate não é o Sagrado vamos pela via do mundano.

Não estou nada satisfeito com a cobertura feita pela mídia dos fatos que antecedem à eleição do novo Papa. Na verdade estou decepcionado.

Esperava, como é do costume, muito mais conteúdo na cobertura do espetáculo. Hoje muito cedo, quando liguei a TV, esperava ver extensa matéria sobre a biografia de cada um dos cardeais brasileiros que participam da escolha do novo chefe da Igreja.

Imagens da residência de cada um deles com seus familiares empunhando bandeiras da Congregação da qual o ilustre parente faz parte, eufóricos e entoando jingles de campanha: “Pá, Pá, Pá, Pá... Zezinho é nosso Papa”!

Entrevista com a mãe: “Zezinho sempre foi um bom menino. Nunca quis isso que pode acontecer hoje com ele... Na verdade, eu que sempre sonhei em ter um filho Papa”.

Ou com o cunhado: “Eu casei nesta família sempre acreditando poder me apoiar no seu caráter”.

Enquanto isto, ao fundo das imagens das entrevistas na residência de familiares, crianças (algumas sobrinhos do candidato) fazem embaixadas com bíblia e do terreiro ouve-se alaridos de disputa por outro exemplar: “Essa bíblia é minha, foi titio que me deu!”.

Em cenas externas outras pessoas que conviveram com os cardeais candidatos são catalogadas para opinarem sobre as suas características.

A professora do primário: “Zezinho sempre tirou dez em comportamento. Na hora do recreio ele sempre continuava na sala, estudando”.

O padeiro da esquina da rua onde está a casa em que o cardeal candidato nasceu: “Ele sempre comprou pãozinho sovado. Na verdade um único dia ele levou dois pãezinhos doces. Até hoje eu não sei por que”...

Uma amiga da adolescência: “Eu sempre fui doida para namorar com ele, mas ele era tão manso”...

Um amigo também da adolescência: “Eu sabia”.

O espetáculo merece também uma consulta popular. Estou sentindo falta de fotos dos cardeais dando entrada nos intervalos comerciais com o número de telefone a ser chamado: “Se quer que o Fulano seja o Papa ligue 0300 720 715; se quer que o Ciclano seja o Papa ligue 0300 720 720, e assim por diante. O resultado você terá quando surgir a fumaça branca do teto da Capela Sistina”.

Acho que pela natureza do espetáculo poderiam nos poupar dos impostos pela ligação telefônica e parte do dinheiro deveria ser enviado para a OCENG-Organização Corrupta Explícita Não Governamental, ASINPAPAL, Associação dos Infelizes de Paragominas de Alagoinhas das Alagoas, que assiste milhões de pessoas na periferia da grande metrópole e é dirigida por um Senador largamente conhecido pelos seus inúmeros processos filantrópicos.

Em um evento desta magnitude não poderia faltar estes ingredientes para preencher nosso vazio. Prefiro estas manifestações a outras, aquelas que dão conta dos crimes sexuais, disputas de poder vaticanais e extorsões de toda monta que nós, simples pecadores, não somos capazes de imaginar a extensão.

Arq! Mundão de Deus.


Até breve.

sexta-feira, 8 de março de 2013

NONA



Dia Internacional da Mulher.

A quem convidamos para homenagear no dia de hoje? Ao Ser de buraco, de racha, que sangra uma vez ao mês no tempo do multiplicai-vos e depois vê calores corroendo suas entranhas até que é levado aos aposentos para o ocaso da existência?

Ou ao Ser Social que só a partir do início do século passado, por forças de inúmeras lutas, viu incluir-se como sujeito aos direitos sociais (?) e mais para o fim do século ao mercado (Arq!...) de trabalho quase em igualdade de condições?

Ou ainda ao ser que hoje tem a ser dispor delegacias de polícia especiais, como outros animais e o meio ambiente, para defender-se de seus criminosos predadores contumazes?

A quem referenciamos no dia de hoje?

Às conquistas, à liberdade e posse desse corpo, aos postos de comando em diferentes áreas, aos espaços ocupados e ampliados?

Prefiro não ocupar-me destas abstrações. Mais uma vez colido com a convenção e a exploração midiática. Prefiro pensar no que está diante de mim e sobre o qual padeço influência.

Eu de mim vivi duas mulheres no passado, minha avó materna Eulália e minha mãe já se foram. No presente tenho três. Ela, minha Mulher, assim mesmo absoluta, não no sentido possessivo já que mesmo por meu caráter machoso eu, para quem a conhece, não tenho a menor chance. Minha filha, Pretinha e minha neta, Noninha.

Assim, fosse eu homenageá-las por um único dia, uma tolice, seria 04 de abril, 25 de março e 01 de agosto, não no dia de hoje. Em um dia 04 de abril debrucei meus olhos pela primeira vez sobre Ela. Em um dia 25 de março a minha vida encheu-se de graça com a chegada de Pretinha e em um dia 01 de agosto eu padeci, verdadeiramente, do parto de Noninha.

Minhas mulheres são as minhas únicas marcas indeléveis e por elas minha vida se orienta e se desorienta. Tenho a cada dia isto mais presente na medida em que me colocam em um lugar de auxiliar. Ela me quer para acompanhá-la em suas viagens, supermercados, cinemas, médicos e laboratórios, restaurantes, rua, andares e fazeres. Pretinha me pede de um tudo face às circunstâncias. Noninha ainda não por si própria, mas é pura demanda.

Minha tarefa é estar por conta delas. E, pior, eu gosto.

Penso que jamais deveriam evoluir tanto a ponto de serem independentes, para que um nosso lugar continue possível. Quero para todo o sempre continuar tentando servir às minhas mulheres para lá do meu alcance.

Fora elas, no abstrato, penso que se cada homem cultuasse suas mulheres, quem sabe a humanidade estaria melhor?

Mande flores para as suas, mesmo que hoje seja um dia qualquer e que um monte de outros homens façam o mesmo, impelidos pela conveniência.

Um dia, você melhor, ela acreditará.


Até breve.

quarta-feira, 6 de março de 2013

OLHOS



Recebi hoje de um executivo participante de um ciclo de palestras que fiz há alguns anos atrás para uma empresa de energia, o email abaixo:

Boa tarde, Agulhô.

Espero encontrá-lo chupando jabuticabas doces e roendo seus caroços...

Abraços,
Fernando.  

O Valioso tempo dos maduros
Mario de Andrade

“Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para a frente do que já vivi até agora.
Tenho muito mais passado do que futuro.
Sinto-me como aquele menino que ganhou uma bacia de jabuticabas.
As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados.
Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos.
Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário geral do coral.
As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos.
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa...
Sem muitas jabuticabas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana, que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade...
Só há que caminhar perto de coisas e pessoas de verdade.
O essencial faz a vida valer a pena.
E, para mim, basta o essencial."

Interessante. Há alguns dias atrás eu passeava com Noninha no meu colo e cruzamos com uma senhora que nos parou para brincar com minha netinha. Entre seus comentários um, agora, faz mais sentido:

- “Os olhos dela são lindos... Parecem duas jabuticabas”...

Pois é.


Até breve.



terça-feira, 5 de março de 2013

VISTA




Noninha tem, como esperado, me proporcionado momentos ímpares. A vida me permite agora acompanhá-la com mais frequência e atenção que quando com os meus filhos pequenos. Ser avô é mesmo uma preciosidade.

Todo olhar dela é pela primeira vez. E ela concentra-se e de tal forma que sinto que deve estar experimentando maravilhas. Quando estou passeando com ela no colo e cruzo com qualquer pessoa na rua ela fita com tal intensidade e interesse que me dá inveja.

Assim também com tudo o mais. Tudo de Noninha está acontecendo pela primeira vez.

Sua manifestação é rudimentar, ainda está longe de uma linguagem, mas suas reações instantâneas ao que vê e escuta são extraordinariamente pedagógicas ao avô que as observa.

Certa tarde eu acabei ficando sozinho com ela em meu apartamento. Para Pretinha é puro risco. Noninha me proporcionou a experiência da troca de fraldas depois de uma cagança generalizada. Coloquei-a sobre o trocador forrado de plástico, limpei com duas toalhas de papel o que foi possível e levei-a para a pia do banheiro social.

Satisfação imensa dela e desespero meu foram o que experimentamos juntos. Ela era só alegria querendo pegar a água que saía da torneira e tantas outras primeiras vezes. Enrolei-a na toalha e esperei pela chegada de Pretinha, que felizmente não tardou muito.

Em uma entrevista feita antes de se suicidar, Walmor Chagas criticou a redundância de temas recorrentes nas manifestações culturais. Como um dos maiores atores em atividade ele ainda recebia convites para atuar no palco, nas telonas e na TV, mas os projetos eram tão repetitivos e alienados que ele recusava.

Aqueles que me acompanham no blog devem concordar comigo que meu sentimento não difere muito do grande ator quando olho através de meus posts para o que se passa.

Longe de mim a coragem de um ato como o suicídio, pelo menos o explícito. Posso e tenho feito um esforço de não mais me irritar quando assisto aos jornais televisivos ou leio notícias em outras mídias.

Tenho muito perto de mim algo verdadeiramente novo.

Fico sempre imaginando, quando estou com ela, o caminho que ela irá seguir. Não se trata de um reviver ou de um renascer: é uma memória. Às vezes, quando ela se depara com qualquer pessoa ou coisa desconhecida ela volta o seu olhar para mim e eu suponho que Noninha, lá do fundo de sua almazinha, me indaga:


- “Vovô, qual foi a última vez que você fez uma coisa pela primeira vez?

Até breve.

domingo, 3 de março de 2013

ALÍVIO



Reação de Zeroum ao post de ontem.



Noninha, por sua vez, aproveita.




Até breve.

sábado, 2 de março de 2013

ZERODOIS




Noninha completou, ontem, sete meses em seu puro encanto.

Breve aliviará nossos braços de seu pesinho delicado e ganhará o chão, as ruas, as praças, escolas preparatórias, baladas, pistas de dança, universidade.

Crescerá.

Em algum momento passaremos e, claro, só parte do percurso de Noninha, presenciaremos. Diz Pretinha que ela me adorará, eu de todo não gosto muito da ideia porque, seguramente, não exercerei sobre ela boa influência.

Daí a razão pela qual tramo outras compensações. Idealizo uma Tropa de Elite. Membros contemporâneos de Noninha que estarão melhor aparelhados para lidar com o tempo em que ela trilhará os seus passos.

É primitiva a necessidade do núcleo familiar para construir práticas e costumes. Começo com meus afilhados diretos. Ainda que seja por convenção, gosto da ideia.

Somos padrinhos de batismo de Camila e estamos muito felizes com aquele berço de afeto que, junto com Leandro, forjou Zeroum. Seguramente ele será importante para trocar com Noninha questões de seu tempo.

Recentemente os primeiros contatos já mostraram que ele não deverá encontrar facilidades. Colocados ambos em um mesmo berço a primeira atitude de Noninha foi puxar os cabelos de Zeroum. Coisas de leonina. Vai ser bravo, Zeroum!

Nesta quinta-feira visitamos Julinho e Mônica e seu pequeno robusto Leozinho, que está mais para Leozão. Julinho prepara-se para inscrevê-lo no MMA.

Somos, também, padrinhos de batismo de Julinho e vimos quão focado, junto com Mônica, eles estão no produto de seu afeto. Na sexta recebi um email dele dizendo da satisfação pela nossa visita. Aproveitei e pedi a eles que me permitissem inscrever Leozinho na Tropa com as mesmas responsabilidades e regalias de Zeroum. Eles responderam que será um prazer.

Leozinho, doravante, para mim, é ZERODOIS.



Até breve.