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quarta-feira, 11 de setembro de 2024

AQUARELA

 









Minha mãe sempre teve um olhar especial para com ele. Certa vez ela comprou uma tela de setenta por oitenta centímetros e disse ao meu irmão, à época com dez anos de idade, que era para que ele pintasse um quadro para presenteá-la no Dia das Mães.

Esse meu irmão, sorrateira e ardilosamente, foi à surdina idealizando o quadro e depois de algumas pinceladas a cada dia o escondia de todos, inclusive de minha mãe. Em certo segundo domingo do mês de maio ele trancou-se em seu quarto e, em que pese as reprimendas de nossa mãe, batendo na porta e pedindo que ele abrisse, só saiu de lá quando tinha terminado sua obra.

Nosso quarto era contíguo à cozinha onde minha mãe ao cuidar dos afazeres culinários de cada dia cantarolava suas canções. Entre elas havia uma que meu irmão adorava: a letra dava conta de uma velha senhora que todas as tardes esperava sob a sombra de uma mangueira, rezando um terço, a volta de seu filho querido que havia partido para a guerra.

Domingo, logo após o almoço, recebi a notícia de que meu irmão perdeu a guerra para um câncer.


quarta-feira, 19 de junho de 2024

CARTA À UM IRMÃO ERRANTE

 




 

Trinta e cinco dias faltaram-lhe para ultrapassar a barreira dos oitenta anos. E não lhe foi possível atender ao meu pedido.

Por onde anda agora, lembrará.

Eu te pedi, às vésperas da cirurgia de alto risco a que você foi submetido, há dois anos e pouco, que, caso retornasse, se fizesse uma proposta: de ser uma pessoa melhor, que pudesse ser lembrado por algo que efetivamente fizesse sentido à sua vida.

Sim, Mauro. Fui privilegiado pela Vida por ter me exposto a poucas e expressivas tristezas. Mas, uma delas, devo confessar e imensa foi observar a sua trajetória. Sempre me perguntei por que alguém poderia, sistematicamente, permitir-se tantos desacertos, desatinos, errâncias?

Não escrevo para fazer juízo de seus atos, mas para deixar registrado quanto eu sofri por não ver de você e em você algo que marcasse a sua passagem pela Vida.

Não que tivesse algo de extraordinário a fazer, mas algo pelo qual eu pudesse ter na lembrança e dizer: “Aqui ele me foi importante, ou importante a alguém.”

Se bem que, minto, quando morávamos eu e minha família em Vitoria, você esteve lá em casa e cuidou dos meninos durante alguns dias para que eu pudesse trabalhar e Vera ir para a faculdade.

Olha, eu estou me lembrando de quando da penúria na infância, você apareceu com pares de sapatos que serviam em mim, sabe-se lá vindos de onde.

Lembro também que, certa vez, fui pressionado pelos pais, aos quatorze anos, para que eu arrumasse trabalho, você interveio e disse: “Deixem que amanhã vou arrumar um emprego pra esse menino.” No dia seguinte, ansioso, fui contigo ao encontro da oportunidade. Você me levou ao campo do Cruzeiro, no Barro Preto, para assistir à um treino do time, e lá me disse: “Relaxe, viva a Vida.”

Há também o episódio em Cabo Frio que estávamos juntos no mar e nos vimos em palmos de aranhas, quase nos afogamos e juntos. Você ao sair, disse: “Que porra de mar besta, sô! Vê lá se me levas!”

E foi assim.

Hoje, ao despedir, quero que saibas: eu lhe sou muito grato por me revestir os pés descalços e viver a Vida. E isso foi imensamente extraordinário.

Muito obrigado, meu irmão.

Vá em paz!


quinta-feira, 2 de novembro de 2023

VIVER

 

Amanheci vivo em mais um Dia dos Mortos e me pergunto: o que faço deste dia além de uma reverência àqueles que se foram levando neles a parcela original que em mim permanece?

Sim, eu sou ainda feito dos meus mortos, que impregnaram marcas indeléveis, tatuadas em meu espírito e em meu corpo. Eu sou o legado de tantos de quem absorvi e, além, sigo buscando aquilo, que em mim, ainda quero vivo.

Estou animado? Retiro da palavra o seu radical que grita: Ânima. Alma, energia.

O que está insepulto clamando para que eu deixe ir? Mágoas, ressentimentos, decepções, amores frustrados, ainda que eu próprio não admita: ódio.

E o que em medida maior, está vivo em mim, que ainda me faz buscar o sol, a luz, o tempo?

Quais lutas, pelejas, proponho ainda empreender? O que quero ainda fazer? A nova casinha dos netos? Editar meus textos? Trocar aquela torneira, que insiste em vazar, uma água tão pouca?

Não deixar a vida fluir como se não fizesse sentido e abrir mão daquilo que me deixaram para que eu perpetuasse.

Os jardins de minha mãe, as obras brutas de meu pai, a candura de minha avó materna, o afeto infantil de meu sogro, e tudo daqueles que ainda esperam de mim que a melhor parte deles pro siga.

Eu tenho uma imensa responsabilidade para com os meus mortos por estar vivo. Não quero abdicar dela, esperando que aqueles que de mim descendem e daqueles que porventura marquei, quando eu for, encontrem algum motivo para que a cada 02 de novembro me reverenciem.

A Vida precisa seguir o seu curso.




sexta-feira, 11 de agosto de 2023

VERA

 


Feitas as contas, ainda que com resultante inexata, achei que deveria trazer à post. Post à prova.

Meu dizer é tão chocho, descredidente que, mais um menos um, não fecharia em nada. Outro dia tava dizendo disso aqui. Por conta de Kundera. Nada.

Pois é.

É que, com quem compartilho a Vida há quase cinquenta anos, enveredou-se por estas searas shakespearianas, desde criancinha.

É que Pretinha, também, há décadas, visita charlatã, pseudocientista, mesmo eu tendo, há décadas, vindo dizendo a ela que eu não posso ser tão rico a ponto de tê-la afetado tanto.

Hoje ambas pregam peças em seus consultórios. Consultórios? Não serão, esconderijos à Lei?

O Pai da Coisa, da Peste, não formulou em microscópio. É Obra Literária, não Tratado.

Um de seus adeptos, lacanizou enunciados de linha. Vai estudá-lo a fundo procevê. Eu num recomendo. E o pior, não cura nada.

Poetas mal resolvidos. Ou mau?

Supunhetemos que a Psicanálise não seja, à luz microscópica, Ciência. Assim mesmo, com “C” maiúsculo.

Este (ou será esse?) discurso cabe interpretação.

Aos adeptos, a sessão está encerrada.

Voltem na próxima semana.



sexta-feira, 28 de abril de 2023

LUGAR

 



Adoráveis meus amigos do Facebook. Não sei o que seria da minha vidinha sem eles. A demonstração está em alguns comentários com que me brindam. Os daqui não o fazem.

No último post, quando postei sobre jazigos e imortalidade, recebi:

- Agulhô querido, verve você tem de sobra. Seus textos são puro encanto e baita sensibilidade.

- Tenho certeza de que você vai direto para o céu...

- Meu voto é seu.

 

Lembrei-me de Aprendiz de Liberdade, um texto delicioso de um amigo adorável, de lá do FB também, o Chico Daudt (ele não me dá liberdade para tratá-lo assim).

Ele escreve no Capítulo A INSTITUIÇÃO que Machado de Assis adorava a esposa e, por força disso, teria prometido amá-la até na outra vida.

Ela morre primeiro do que ele. Há um poema de Machado: “Querida aos pés do leito derradeiro que descansas desta amarga lida venho e virei pobre querida trazer-te o coração de companheiro.”.

E assim ele fez. Ia todos os dias, às tardes, visitar o túmulo de sua esposa. Antes de falecer pediu encarecidamente que fosse enterrado junto a ela. Faleceu e assim foi feito. Anos mais tarde a Academia Brasileira de Letras, por decisão dos imortais, deliberou que o corpo de Machado fosse exumado e seus restos colocados no mausoléu da Academia.

Chico conclui seu capítulo: “Isto é uma instituição.”

Não falei publicamente com minha família, esta instituição, mas há um lugar onde eu gostaria de permanecer.

Inclusive vivo.



quarta-feira, 8 de março de 2023

SINTOMA






A mulher não existe. A relação sexual, também não.
Lá em casa este vazio ocupa um lugar abissal, ainda que sintomático.
Em abril completam 54 anos que sintômano. Ela tinha ido à igreja, confessar. Eu a vi passar e delirei. Aquilo não existia. Meu corpo arrupiou-se todo. E tinha muito corpo em mim, aos dezessete.
Quando ela saiu da igreja e eu sintomei ao vê-la, saltei no oco.
E lá se vão 54 anos com esta falta.
No início, a gente chamava de “fazer gostoso”, e era bom. Depois, na medida em que a gente ia não sabendo pudemos de tudo, a dois.
Efeitos colaterais da trama relacional resultaram em três rebentos e de dois deles mais quatro e a gente, ainda goza.
Todo dia ela inventa. O desejo é infinito.
Adoro este vazio que em mim transborda.


 

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2023

ESTUDANTE

 



- Lozinho...

- Mãe?!...


- Mais um ciclo, filho...


- Pois é...


- Renova-se a esperança, nova aurora a cada dia, e há que se cuidar do broto pra que a vida nos dê flor e fruto...


- Ele está entre nós ainda, mãe.


- Sei...


- Você me fez privilegiado...


- Você acha mesmo, meu filho?


- Toda hora sinto a sua presença, estou marcado por suas manias...


- Ô, menino, respeita a sua mãe, sô!


- Jardins, recolhimento, solidão...


- Eu gostava mesmo do meu jardim...


- Ele segue comigo.


- Cê gosta muito de ficar só, né Lozinho?


- Nem é tanto pelos outros, é uma necessidade de refletir...


- Sei como é... Todos estão bem?


- Caminhando, mãe.


- Alegria e muito sonho espalhados pelo caminho, verdes, planta e sentimento, folhas, coração, juventude e fé. Beijos, meu filho. Seu pai tá te mandando um abraço, também.


quinta-feira, 23 de fevereiro de 2023

PÁTINA

 



Não só de cinema rolou o início do ano.

Janeiro e parte de fevereiro é ninja. A netaiada, os quatro, gruda como tornozeleira. Fico literalmente preso: “Vovô você prometeu.”, é a frase que mais ouço.

Quando os pais se mancam, sobra tempo para o que me dá um especial prazer: reparos na morada. De um tudo, com todo tipo de ferramenta. Onde não tem o que bulir eu invento e passo horas do dia tomado como possuído.

Derrubei dois coqueiros, um açaí, troquei bomba hidráulica, torneiras, pintura dos postes de luz de jardim (e olha que são 23), persianas, rede do gol do Veredão, e uma pá de outros trens.

Cera líquida incolor, óleo de peroba, corante líquido verde, está pronto o preparo para um dos serviços mais extenuantes: refazer toda a cobertura das janelas, portas e marcos da casa. Putz, não gosto nem de lembrar, foram dias e dias com uma buchinha destas de pia, panos para retirada de inevitáveis respingos no chão e um singelo pincelzinho de dois centímetros de largura. Quero ver daqui uns quinze, vinte anos, como será.

Ideia dela, fórmula dela, execução minha. E eu acho lindo. Acho que no planeta só tem uma morada com este tipo de ilusão. Todo o madeirame da casa, esquadrias, esteios, tudo foi montado ao longo da obra.

E verde pátina.

E eu acho lindo.

Bom mesmo é quando as pessoas que nos visitam nos levam impregnados em suas roupas, marcadas com resvalos nas portas ou marcos. Alguns resmungam. “Coisa mais tosca.”, eu já ouvi.

Passado o tempo o composto impregna na madeira e não deixa mais marcas.

Assim como janeiros. 


domingo, 28 de agosto de 2022

AMÁLGAMA

 



Estamos desde a quinta-feira em Porto Seguro-BA.

Comemoramos aqui a passagem do aniversário de uma amiga-irmã com a qual convivemos há quase quarenta anos.

Além dela, seu marido e mais dois casais com quem, da mesma forma e pelo mesmo período, temos o privilégio de conviver.

No jantar de ontem, no belíssimo restaurante do Hotel Kyuara, nos perguntávamos o que determinou a longevidade de nossa amizade.

Foi Lydinha que, em minha opinião, trouxe o amálgama mais provável da química que nos entrelaça há quase quatro décadas: zelo.

Na saída do restaurante Lydinha me perguntou se eu conhecia o poema GUARDAR, do Antônio Cícero. Já em casa, de um dos casais do grupo, onde estamos hospedados, ela o colocou no celular na voz do próprio poeta que nos emudeceu a todos.

 

Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.

Em cofre não se guarda coisa alguma.

Em cofre perde-se a coisa à vista.

Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.

Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela, isto é, estar por ela ou ser por ela.

Por isso, melhor se guarda o voo de um pássaro

Do que de um pássaro sem voos.

Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica, por isso se declara e declama um poema:

Para guardá-lo:

Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:

Guarde o que quer que guarda um poema:

Por isso o lance do poema:

Por guardar-se o que se quer guardar.

 

Talvez seja isto que estamos todos necessitados para reduzir tantas rupturas. Rij, a querida aniversariante, há muitos anos, sempre que nos encontramos repete: “Cada dia que passa eu gosto mais das mesmas pessoas.”.

Eu também.



terça-feira, 2 de agosto de 2022

TRINCHEIRA

 





Ocupei este espaço com meus diálogos hipotéticos com Liz que escrevi seis meses antes dela nascer há exatos dez anos. Foi um jeito, à época, para lidar com a imensa alegria do acontecimento.
Já publiquei por mais de uma vez ao longo destes anos todos que me inscrevo aqui.
Confesso que o faço reiteradamente por duas razões: uma das vaidades que mais cultuo em mim é que gosto de ser querido e, a segunda razão, é que inocência, candura, singeleza ficou tão fora de moda que resolvi fazer desta página meu espaço de resistência.
O mundo perde todo dia um naco de beleza.
Em que pese isto há que se buscar leveza.
Preferiria que os amigos não lessem os diálogos de forma rigorosa, se correspondem à verdade ou se são pura invencionice. Eu já disse: são hipotéticos, escritos antes de Liz nascer.
Eu não os escrevi para a minha netinha, mas a partir dela, fazendo-a metáfora viva para cantar esperança.
Liz, Valentin, Antônio e Helena, meus netinhos reais, são muito mais importantes a mim do que minha subliteratura.
No entanto, esta fuga poética me dá alento e me pacifica, fazendo com que eu não traga, aos amigos, horrores do cotidiano.
Entre o Mal e o Mau, optarei pela Utopia: o Feminino. Basta de Homens e de suas ferramentas para operarem o mundo, como disse Simone de Beauvoir à Sartre.
Agradeço a forma carinhosa e gentil com que receberam estes diálogos, esperando que esta modesta contribuição tenha os ajudado a ampliar o gosto pela Vida.
Grato a todos.

FEMINICE (3ª DE 3)

 




- Oi, vovô.
- Ei, querida. Uai, mas você já está pronta?!!!
- Já. Fiquei bonita?
- Linda.
- Mas você não falou que nós íamos escolher a roupa que você ia na festinha?
- Tia Fa me ajudou...
- Fabiana esteve aqui?
- Acabou de sair...
- Ela é legal né, Liz?
- Super!
- Tia Fa te arrumou muito chic...
- Aí eu liguei pra Dinda e perguntei pra ela se essa era a roupa que eu devia mesmo de ir na festinha...
- Liz, você ligou para sua madrinha pra saber se a roupa que a tia Fa escolheu era a que você deve ir na festinha?
- Vovô, você nem pensa em falar nada com a Tia Fá, hein?
- Tá bom. Eu não vou falar nada não, sô.
- Nem com a Dinda.
- Por quê?
- Elas morrem de ciúmes... Você comprou os presentes, vovô?
- Comprei.
- O quê?
- Umas lembrancinhas.
- Lembrancinhas, vovô?
- É... Umas bobagenzinhas...
- Bobagenzinhas, vovô?!!!
- É... Nada de especial...
- É assim que você trata os meus coleguinhas, vovô?
- Não, é que...
- São três de meninos e três de meninas. Você separou os presentes, vovô?
- A moça embrulhou de azul e rosa...
- Mais fácil pra você, né vovô?
- É, Liz.
- Vamos então, vovô... Eu não quero chegar atrasada.
- Vamos, Liz.
- Ah, só um minutinho, vovô...
- O que foi, Liz?
- É que eu não estou gostando deste sapato. Acho que eu vou de tênis.
- Mas e a tia Fa?
- O que tem a tia Fa?
- Ela não disse pra você ir com esse sapato?
- Disse.
- E a madrinha não disse que está bom assim?
- Disse.
- Então, Liz?
- Quando você tirar as fotos não mostra, tá vovô?
- Liz?
- O que é?
- Você não disse que não quer se atrasar...
- Só um minutinho.
- Que foi agora?
- Eu vou só passar um batonzinho.

FEMINICE (2ª DE 3)

 


- Ei, pai.

- Oi, Pretinha. Tudo beleza?
- Jóia... Vim aqui pra pegar uma saia da mamãe emprestada...
- Tudo bem...
- Você vai mesmo na festinha?
- Liz pediu, eu tenho que ir, né?
- Ela está empolgadíssima que você vai.
- Eu também. Tô até pensando com que roupa que eu vou...
- KKKK... Eu ia mesmo te pedir pra me ajudar escolher a saia...
- Ah não, minha filha... Eu gosto de todas as roupas de sua mãe... Fique à vontade.
- Pode deixar. Mamãe tá chegando aí ela me ajuda...
- Melhor.
- Pai, você tem que comprar umas coisinhas...
- Que coisinhas?
- Pra levar prá festinha.
- Eu?
- É pai. Umas lembrancinhas...
- Lembrancinhas?
- Para os aniversariantes da semana, ora...
- E sou eu que tenho que comprar?
- Você me faz esse favor?
- Eu compro o quê?
- Ah... vê lá, umas bobagenzinhas, pai.
- O quê?
- Pros meninos brinquedos, bolas de futebol, essas coisas...
- E para as meninas?... Espere um pouco minha filha... Eu acho que sua mãe é quem está abrindo a porta... Oi, mô... Pretinha taí.
- Ah, que bom... Oi, minha filha.
- Oi, mãe, eu já estou aqui vendo se escolho uma roupa...
- Você experimentou aquela saia verde?
- Uma godê?
- Não, filha, aquela que eu gosto, que eu usei no aniversário da...
- Pras meninas eu compro o quê, Pretinha?
- Mãe, fala pro papai o que ele deve comprar...
- Para quais meninas?... Experimenta essa aqui, minha filha, eu acho que vai ficar bem em você...
- Essa eu acho muito séria, mãe. O encontro é à tarde...
- Mô, eu compro o quê para as meninas?
- Que meninas, mozinho?
- Mãe, o papai vai na festinha da escolinha da Liz...
- Mozinho, se você vai tem que comprar umas coisinhas...
- Pois é mãe, eu já falei prá ele...
- Filha, por que você não vai de vestido?
- Você acha mesmo? É que eu queria usar uma blusa nova...
- Qual?
- Eu comprei sábado. Você não viu ainda...
- Como que ela é?
- O que eu compro prá festinha?
- Mozinho, você está com sessenta anos e até hoje não sabe o que comprar para uma criança?
- Ô mãe, num fala com ele assim não. Sabe que você tem razão... Eu acho melhor eu ir de vestido mesmo, né mãe?
- Você vai ficar mais a vontade...
- Já sei até qual... Posso levar aquele cinto?
- Pros meninos eu vou comprar Ben10?
- Mozinho, não compra essas bobagens, compra lembrancinha...
- Mãe, será que esse cinto fica bem com o vestido que eu fui lá na...
- Lembrancinha ou brinquedinho, Pretinha?
- Pai, vê lá... Nem precisa ser nada de especial não...
- Mô, você pode ir comigo?
- Onde?
- Comprar as lembrancinhas...
- Filha, esse cinto ficou lindo em você, deixe ele assim folgadinho na cintura...
- Eu acho que não vou mais à festinha com a Liz.
- Não pai, você tem que ir!
- Mozinho, nem pensar! Você já combinou com ela, agora tem que ir...
- Então, vocês querem, por favor, me dizer o que eu devo comprar para levar?
- Quantas crianças estão fazendo aniversário, pai?
- Você pergunta pra mim, minha filha?
- Liz não te falou?
- Não.
- Eu vou perguntar pra ela e te falo, então, pai.
- Sei.
- Ai você compra no número certo de meninas e meninos...
- O quê?
- Você vê lá.
- Filha, o Cláudio vai contigo?
- Não Mô, só eu que vou com a Liz.
- Não, mãe, o encontro é de trabalho. O Cláudio eu acho que vai ficar assistindo futebol...
- Ah, tá.
- Meu Deus eu tenho que ir, tchau!
- Pretina, você não vai me dar nem umas dicas do que comprar pros meninos?
- Ah, pai, vê com a mamãe que eu tô super com pressa... Beijão!
- Mô, o que eu compro prá festinha?
- Que festinha, mozinho?
- A dos meninos da escola da Liz, pombas!
- Mozinho, liga a televisão. Vê se tá passando um filme bom. Tô doida pra assistir um filme...