terça-feira, 30 de julho de 2013

MOCKbA



Moscou surpreende. A partir do nome que é o mesmo do rio que corre em toda a extensão de 80 Km dos limites da cidade. Às margens, quando no ano de 1143 ela foi fundada havia muita mosca e o rio teria sido batizado por esta razão e depois a própria cidade.

Moscou surpreende pelo seu metrô cuja primeira estação foi inaugurada em 1938. Hoje, dez milhões de usuários por dia transitam breves e rápidos por suas profundas escadas rolantes para atingir monumentais duzentas estações.

Onze linhas regulares e uma circular com a extensão total de 300 km atendem praticamente a todos os cantos da cidade com composições que se espaçam de dois em dois minutos.

Estações que deram ao metrô de Moscou o prêmio de arte e arquitetura subterrânea. Em uma das estações, por exemplo, a da Praça da Revolução, com 73 metros de extensão e 60 metros de largura, estão expostas setenta e duas estátuas esculpidas em bronze. Vitrais iluminam, colorem e encantam. Do teto pendem lustres de inúmeros cristais.


Moscou surpreende pela magnitude de seus verdes e cores que cobrem parques, jardins, praças e que integram 27% do território da cidade. O Parque Gorky é o maior do mundo com 5 km de extensão. O Álamo é a árvore que veste 80%, mas a Bétula é considerada a árvore símbolo do país.

No século XIII cento e cinqüenta mil habitantes da maior cidade do mundo na época eram letrados. Claro que não em todas as letras de um Guerra e Paz, de Tostoi, mas em dez verbos fundamentais. Extraiam a casca da Bétula e escreviam sobre ela. Com o tempo ela tornava-se flexível. Os pedidos de casamento, por exemplo, tinham que ser por escrito e a resposta também.

Moscou surpreende pelas suas amplas avenidas cujos automóveis transitam em alta velocidade. Não há sinais para a travessia de pedestres, pois há passagens subterrâneas. A cidade é plana, limpíssima (lavam as ruas e calçadas pelo menos três vezes ao dia) e sua colina mais alta está a 80 metros do nível do mar.

Letreiros luminosos, placas de sinalização, outdoors com palavras apenas no idioma russo, com suas letras tortas, algumas escritas ao contrário esbanjando consoantes.


Poucas pessoas, inclusive em bares, restaurantes, comércio em geral e até em hotéis falam outro idioma. Não há nada, no entanto, que uma boa mímica ou o dedo indicador não resolva.

Vinte centrais térmicas abastecem todos os domicílios, prédios, lojas comerciais, indústrias com água quente e o sistema de calefação e aquecimento dos ambientes. Pelos serviços de fornecimento de água (quente e fria), luz, telefone e gás em um apartamento de cem metros quadrados, o cidadão paga uma taxa de até o equivalente a trezentos euros ou doze mil rublos.

Moscou surpreende porque seus habitantes são plenamente ativos durante todo o inverno sob temperatura que chega a trinta graus negativos entre os meses de setembro a maio. Escolas, indústrias, comércio, construção civil e de estradas tudo funciona a pleno vapor nesse período.

Moscou surpreende pelos seus magníficos monumentos, catedrais, palácios, esculturas espalhadas pelas imensas e encantadoras praças, largos, calçadas, edifícios públicos e privados.

Pelas sete torres mandadas construir por Stalin nos anos cinqüenta para servir de referência à arquitetura da cidade que se reerguia após os avassaladores bombardeios da Segunda Grande Guerra contra os nazistas. Hoje estes gigantescos edifícios abrigam dois ministérios, dois hotéis (Hilton e Ucrânia), dois de apartamentos e um da Universidade.

Moscou surpreende pelo Memorial à Guerra Mundial com seus salões majestosos onde obras de arte da pintura e escultura reproduzem cenas das batalhas travadas. O Salão das Lágrimas, logo na chegada do Memorial, emociona pelos 2,5 milhões de cristais em forma de gotas que pendem do teto presas em correntes. Simbolizam dez por cento do total de russos que perderam a vida durante o conflito que durou exatos 1417 dias. Os nomes de todas as vítimas estão catalogados em 528 volumes, alguns destes volumes, expostos no salão.

Há na entrada do Memorial um monumento em bronze em forma de baioneta que mede 141,7 metros de altura. Cada centímetro representa dez dias de batalhas. Ao longo de toda a estrutura são reproduzidas cenas das lutas e os locais em que ocorreram. No alto, duas figuras humanas, um homem e mulher, exultantes pela vitória. A frente do monumento há, ainda, uma imensa escultura de São Jorge sobre seu cavalo, com a lança matando o dragão, que simbolizava os nazistas.

Muitos dos inimigos feitos prisioneiros só voltaram à Alemanha depois de dez anos terminada a guerra. Eles foram colocados nas obras de reconstrução do país ou em trabalhos forçados na Sibéria.

Moscou surpreende pelo seu Marco Zero: a Praça Vermelha. Para russos não é vermelha, mas BELA. Não há na língua russa a palavra BELEZA com significado único. KPACHAR, com o R invertido, quer dizer da cor vermelha e também significa “coisa bela”.

Ali está o Kremlin, que quer dizer fortaleza. Existem inúmeras cidades na Rússia que tem seus kremlins, porém no caso de Moscou recebeu significado histórico, militar e político especial. A área total de trinta hectares é cercada por uma muralha de seis metros de largura e 2235 metros de extensão e possuem quatro torres entre setenta e oitenta e cinco metros de altura que dão acesso aos inúmeros prédios existentes onde funciona a administração federal.

Circundando estes prédios belíssimos jardins ostentam flores e folhagens ornamentais e (pasmem) pomares com pés de maças verde e vermelha, ameixas, cerejas, amoras, peras.

A Praça das Catedrais, dentro do Kremlin, com suas quatro edificações exuberantes que foram vandalizadas pelos comunistas. Destaca-se a Catedral da Anunciação, local onde foram coroados todos os Czares, de Ivan o Terrível (1537 a 1582) até o último Nicolau II (1895 a 1917), quando ocorreu a revolução que implantou o comunismo no país. Nicolau II, toda a sua família, seus parentes mais próximos e aliados foram fuzilados por ordem de Lênin.

A Catedral da Anunciação recebeu o símbolo da Terceira Roma: a primeira, a própria Roma; a segunda, Bizâncio e a terceira, Moscou. Badalam, até hoje, vinte e seis sinos. O principal deles, na torre central da catedral, pesa sessenta toneladas.

Moscou foi capital da Rússia desde a sua fundação até quando Pedro o Grande, nascido na cidade, para integrar a Rússia aos demais países da Europa pelo Golfo da Finlândia, construiu São Petersburgo, transferindo para lá a capital.

Depois da revolução de 1917, Lênin voltou a tornar Moscou a capital. Para ele uma capital não podia, estrategicamente, ficar a 34 km da fronteira com outro país. Em caso de guerra o inimigo teria mais facilidade em eliminar as comunicações com o centro nervoso do poder.
Lênin tinha razão. Durante a II Guerra, Moscou cobriu com lonas todos os seus edifícios ícones, do Kremlin ao Teatro Bolshoi para não serem identificados e destruídos pelos nazistas.

Escrevo este post a bordo do avião que nos leva de Moscou à Londres, onde faremos escala para São Paulo e de lá para Belo Horizonte. Sinto-me um tolo. Todos os passageiros dormem ou vêem filmes de ação, drama, comédia. Estes parcos registros podem ser encontrados com maior fidelidade na web.

Ocorre, porém, é que Moscou faz parte do imaginário de minha juventude. Representava o império do mal. Era uma das palavras malditas, proibida de ser usada no âmbito da FAFICH. A cor vermelha era perigosa e tudo que se referisse à Rússia era rechaçado.

Hoje ainda há algumas estátuas e bustos de Lênin, Karl Marx e Engels. Alguns anos atrás estes monumentos eram vandalizados. Hoje os jovens russos não se interessam mais por esta parte de sua história. O Partido Comunista é irrelevante no jogo e o seu jornal Pravda sequer é encontrado para compra.

O fato é que, mais uma vez sinto-me brindado pela vida que me permitiu estar aqui. Assistir ao balé “Dom Quixote” no Teatro Marinski em São Petersburgo onde, no passado, performaram Nureyev e Baryshnikov, a uma ópera de Vagner no teatro Bolshoi e ao espetacular balé  folclórico no Grande Teatro Mokana, foram emoções eternas.

Eternas como o olhar que flagrei de uma jovem que passou por mim faceira sobre seus saltos altos, em uma cidade qualquer da Escandinávia ou da Rússia.



Quimeras, quimeras... Mas a beleza fala por si.


Até breve.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

MILAGRE



Hoje, quando deixávamos São Petersburgo, pedi a Sergey, nosso guia de turismo, que ele me dissesse uma palavra que, na opinião dele, sintetizasse a cidade. Ele titubeou, disse que era uma tarefa muito difícil, mas depois, com convicção, disse a palavra que dá título ao post.

A Cidade de Pedro, O Grande. Grande não só pelos seus dois metros e três centímetros de altura, mas principalmente por tudo que este Imperador (ou Czar) realizou desde que assumiu o trono em 1699, aos vinte e oito anos. Aos 32 começou a edificar a cidade e morreu aos 54, em 1725.

Formou-se em dezessete profissões, esteve em várias cidades mais evoluídas e trouxe delas além de idéias, projetos, materiais e arquitetos. As edificações até então na Rússia eram em madeira. Foi Pedro quem começou a usar pedra e tijolo sobre um solo de geologia construtiva frágil, pantanoso e formado por inúmeras regiões alagadiças.

A cidade agora de oitocentos palácios é tombada pela UNESCO como Patrimônio da Humanidade. Considerada a capital das pontes, pois foi construída sobre 45 ilhas e tem 400 pontes de diferentes dimensões. Várias destas tem as partes centrais levantadas, entre a zero hora e quatro da madrugada, para a passagem de embarcações de maior porte que cruzam os inúmeros rios, principalmente o Rio Neva que mede 70 Km de extensão, até um quilômetro de largura e profundidade média de vinte metros.

No verão, como agora, ocorrem as noites chamadas brancas: anoitece a zero hora e amanhece às quatro da madrugada. Sol apenas durante sessenta ou setenta dias no ano, disputando com chuvas que precipitam e de repente cessam.

O inverno castiga de setembro a abril com temperatura chegando até a trinta graus centígrados negativos, o que faz congelarem os rios que banham a cidade e o Mar Báltico, próximo, trazendo ventos que tornam mais agressiva a sensação de frio glacial.

Nossa estadia relâmpago de quatro dias deixou-me insatisfeito. São Petersburgo é um lugar para visitar e estar por anos. Sim, somente muitos anos serão capazes de fazer compreender a avalanche de fatos históricos marcantes de seus quatrocentos e dez anos que jorraram sobre nós trazidos por Sergey, nativo da cidade.

Os relatos das construções, dos monumentos, das inúmeras obras de artes, teatros, igrejas, das passagens de canais que inspiraram Tchaikovsky para compor “O Lago dos Cisnes”.

O Palácio Hermitage, hoje museu, que começou a ser construído em 1752, o primeiro edifício foi concluído em 1762; o quarto e último edifício ficou pronto em 1860. No acervo do museu existem três milhões de objetos dos quais apenas vinte por cento estão expostos.

O Palácio de Verão dos Imperadores, também transformado em museu, com sua fachada de trezentos e trinta metros e seus bosques e jardins distribuídos por, não se alarmem, cento e cinqüenta hectares onde estão cento e cinqüenta fontes imensas com estátuas em mármore, granito ou folheadas a ouro que brilham quando o sol acontece.

Estas fontes são abastecidas por uma nascente que desliza de uma colina de cento e vinte metros de altura próxima ao palácio e que, por declive, faz jorrar jatos e mais jatos de água desde a construção dos jardins em 1805 até hoje, ininterruptamente.

Para dar a noção de grandeza o salão de baile do palácio usou quinze quilos de ouro trazidos da Sibéria. Catarina II, neta de Pedro, comprou as obras completas de Voltaire, porém mandou guardar nos porões do Palácio Hermitage. Temia pelas idéias revolucionárias do francês.

Inenarrável experiência esta em São Petersburgo. Eu poderia editar aqui inúmeras fotos e/ou vídeos que registrei das inúmeras obras motivo do maior orgulho para seus hoje mais de cinco milhões de habitantes.

Outras inúmeras fotos e/ou vídeos dos palácios visitados, dos museus, dos edifícios, dos jardins, das praças, das igrejas como a do Salvador do Sangue Derramado que recebeu esse nome porque foi construída pelo filho de um dos imperadores assassinado no local. Uma maravilha inesquecível de tirar o fôlego.

As fotos e/ou vídeos do Palácio de Catarina II, que fica a vinte e sete quilômetros do centro da cidade. Um dos salões, chamado Salão do Âmbar que, depois de ter sido saqueado pelos nazistas na Segunda Grande Guerra, foi restaurado durante trinta anos e custou aos cofres do estado o montante de US14 milhões e empregou nove toneladas de âmbar. Ímpar.

Prefiro concluir este post que escrevo a bordo de um trem que nos levará em viagem de quatro horas à Moscou. Eu gostaria de deixar a melhor impressão de São Petersburgo, eu poderia dizer que não se deve morrer sem conhecê-la, eu poderia dizer que ela é mesmo uma cidade extraordinária.

Vou levar, no entanto, o olhar de alguns de seus cidadãos. Há nele uma tristeza fascinante, inclusive nos olhos desta menina que nos serve a refeição no trem.

É que a História grandiosa e comovente deste povo não se deu sem a perda de milhões de vidas humanas. Durante seus impérios, revoluções, suas guerras, insurreições, golpes de estado e também na construção das inúmeras obras de engenharia e artes cobraram inúmeras vidas.

Em 1941, quando do cerco à Leningrado (nome da cidade de São Petersburgo de 1924 a 1991) os nazistas privaram de alimentos os moradores que resistiram à entrada daqueles inimigos de guerra. Morreram dois milhões nas ruas, vítimas de fome e de frio que na época chegou a menos quarenta e cinco graus centígrados, embora o Estado entregasse a cada homem 150 gramas de pão, 100 para cada mulher e 75 gramas para cada criança. Até enquanto foi possível.

São Petersburgo, história de tragédia e esplendor. Hoje, todos os recursos arrecadados nos principais museus são enviados para o Ministério da Cultura em Moscou e distribuídos para a manutenção daqueles menos visitados pelos turistas. Ocorre também o aluguel para casamentos, festas e recepções diversas custando até duzentos e cinqüenta mil euros por noite.

Prefiro ficar com o humano da história contada e sintetizada em uma palavra por Sergey e que ilustro em duas fotos. A primeira tirada de uma foto exposta na Igreja de Santo Isaac, que vem a ser o dia de nascimento de Pedro, O Grande. Dá conta de algumas pessoas colhendo hortaliças plantadas na frente da igreja por ocasião da II Guerra, quando do cerco dos nazistas. A segunda tirei de uma foto exposta em uma galeria existente nos corredores do Palácio de Catarina II, que retrata diferentes flagrantes de trabalhadores no processo de restauração após o fim da grande guerra que ceifou a vida de mais de vinte milhões em toda a União Soviética.

Em 12 de junho de 1991, ocorreu a dissolução da União Soviética constituída por dezesseis repúblicas. Desde então há um enorme esforço para restaurar este imenso patrimônio de História, arte e cultura.

Colocando de lado os horrores ideológicos ou de seus monarcas, fico novamente com Sergey: “É preciso olhar sim para o Holocausto, mas não podemos perder de vista também a nossa tragédia histórica”.

Não sei o que serão de minhas retinas e de meu coração nos próximos dias em que estou indo visitar Moscou.





Até breve.

terça-feira, 23 de julho de 2013

ONCE



Papai Noel vive aqui na Lapônia a 830 quilômetros de distância da capital da Finlândia, Helsingue, cidade em que desembarcamos ontem pela manhã do navio Seija Serenade vindo de Estocolmo.

Na Lapônia, bem ao norte da Finlândia, no inverno os termômetros marcam até menos trinta graus centígrados.

Helsingue não chega a tanto, menos vinte graus é comum nos meses de janeiro e fevereiro deixando pela cidade camadas de gelo de até setenta centímetros de altura. O Mar Báltico congela e parte dos sete portos do país fecham, poucas embarcações operam com o auxílio de barcos quebra-gelo. As moradias têm sistema de calefação, naturalmente, e as janelas têm três vidros superpostos.

A Finlândia conseguiu do Czar Nicolau II, em 1917, a sua independência da Rússia, pouco antes da revolução que acabou com a morte de todos os seus Czares. Hoje o país tem pouco mais de cinco milhões de habitantes, um milhão na região metropolitana da capital.

Assim como os outros países da Escandinávia, o Estado é presente na vida de seus cidadãos com rigor na cobrança de impostos especialmente álcool e cigarros, além de doces, já que o governo entende que a obesidade traria muitos prejuízos ao país. Cachorros pagam imposto anual de cinqüenta euros, mas a guia não soube dizer como é feito o controle.

Sessenta por cento do território do país é formado por bosques. Boa parte do artesanato é rigorosamente protegido e feito essencialmente de madeira. Há abundância de animais, entre eles o Alce, responsável pelo maior número de acidentes nas estradas que cortam o país. Alguns chegam a pesar 600 quilos.

A Educação é considerada a mais completa do mundo. O cidadão é assistido pelo estado até os dezesseis anos, sendo que a ensino básico (até os dezesseis anos) é obrigatório e gratuito, inclusive as refeições servidas nas escolas. Não há universidades particulares.

A palavra mais cultuada na Finlândia é MÃE. A licença maternidade custeada pelo Estado é de nove meses, um mês antes e oito depois do nascimento da criança. O pai tem direito a cinco semanas. Depois deste período, o pai ou a mãe podem ficar sem trabalhar durante até três anos recebendo o seguro de setecentos euros mensais.

A modalidade de esporte que eles são bambas e campeões mundiais é o Hóquei sobre gelo, por razões óbvias, eu acho. Nas artes quem se destaca é o compositor Jean Sibélius, que faleceu em 1967 e para quem se ergueu, em 1969, um monumento feito com 600 tubos de vinte e cinco centímetros de diâmetros e pesa vinte toneladas.

Confesso que não tem sido fácil postar durante estes dias. Além da diferença de fuso horário, que é aqui de seis horas, é muita emoção, sem contar as inúmeras vezes que ligamos via Face Time para Pretinha, para dar uma olhadinha em Noninha. Sei que estou já em falta com o neném que está vindo. Nessa época eu já tinha começado os diálogos.

De qualquer forma ficam estes breves registros. Ontem, por exemplo, quando descemos do ônibus para visitar o primeiro ponto turístico da cidade, a Catedral Luterana de Helsingue, nos deparamos com um destes inúmeros artistas anônimos que se espalham pelas ruas da Europa. Um músico e intérprete que cativava a todos que visitavam a imensa praça da Catedral.

Lembrei-me de Glen Hansard, em Once (Apenas uma vez). Gravei em vídeo que imaginava editar em post. Deu um tilte e fico devendo. Se conseguir, à frente, edito.

Agora já estamos em um trem que nos levará, em viagem de três horas e meia, para São Petersburgo, Rússia.



Até breve. 

domingo, 21 de julho de 2013

NOBEL



Estocolmo é esplendorosa. Fosse este blog especializado em roteiros turísticos apontaria um sem número de atrações que encantam a qualquer pessoa.

Restrito ao olhar e intimista do autor, os posts acabam por fixar em alguns pontos que possam ter despertado os músculos de seu coração e/ou de seu cérebro.

Um guia especializado destacaria os inúmeros edifícios, igrejas luteranas, o braço do Mar Báltico e o majestoso lago azul que banham a cidade . A rua mais estreita do mundo e o casario da cidade antiga.

Seus convidativos restaurantes, pubs, casas de espetáculos, infinitos museus como o Museu ABBA, inaugurado há dois meses, que guarda o extraordinário sucesso que fizeram Agnetha, Benny, Bjorn e Anni, até que uma delas resolveu engravidar e abandonar o show business.

O Parque Nacional, dentro da cidade, que expõe várias moradias em projeto original que foram construídas pelos escandinavos ao longo da história. Ali também estão expostos, ao ar livre, animais como o Alce, o Bisão, o Mousse, focas, lontras e ursos, além de tantos outros. Tendo pernas dispostas, vale o ingresso.

Faço dois registros com interesse e emoção especiais: o Museu Vasa e o Museu Nobel.

Em 1625 o rei Gustaf II Adolph resolveu demonstrar ao restante da Europa o seu poderio. Mandou construir o maior e melhor navio de guerra da época. Entre projeto e execução foram despendidos três anos e o navio ficou pronto em 10 de agosto de 1628, quando fez sua viagem inaugural na presença de vários reis e de seus súditos.

Ocorre que Gustaf mandou colocar um número de canhões incompatível com a capacidade da embarcação. O navio fez o percurso de uns 1200 metros e naufragou em minutos com seus mais de quatrocentos tripulantes. Perto de quarenta morreram.

Um estrondoso fracasso que deu ao rei Gustaf o nome de “A gargalhada da Europa”.

Inúmeras tentativas de resgatar o navio foram feitas. Em 1670 conseguiram resgatar apenas os canhões. Em 1961, 333 anos depois do naufrágio, especialistas conseguiram içá-lo da profundidade de 33 metros e trazê-lo à tona.

Vinte e um anos foram investidos em um meticuloso, árduo e competente trabalho de restauração. 98% da embarcação foi mantido do original, inclusive as centenas de figuras esculpidas em madeira, bem como móveis, adornos, lustres que fizeram que o Vasa recebesse na época o nome de “Castelo Flutuante”.



Hoje, o Vasa é uma das maiores atrações turísticas mundiais, oferecendo uma perspectiva única da Suécia do início do século XVII. Não fossem as gargalhadas este navio teria servido à conquistas e feito inúmeras vítimas. Poderia ajudado a construir um outro desenho geopolítico da História.

Não fosse o determinismo, a paciência e os recursos alocados nós não estaríamos agora vendo a exuberância da arte e engenharia humanas.

O Navio Vasa, A Gargalhada da Europa, é hoje um esplendor.

Emocionante, porém, é estar no Museu Nobel e ouvir a gravação de seu testamento. Neste momento há uma exposição MAKING PEACE – ESTOCOLMO 2013 com fotos contundentes de conflitos mundo afora. As imagens falam por si.







Ação da Polícia Militar de Manaus contra manifestação de índios 


Estocolmo é uma das cidades que, se eu pudesse, seguramente retornaria.

É fascinante.


Até breve.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

CICLO

Terça-feira Pretinha foi ao Korea para saber do neném. Voltou dizendo que ele é que nem um feijãozinho. Lá de dentro vem um barulhinho que bate.

Na casa da Tiavoni também vem mais um do João e da Piti. Vão ficar quase igual Noninha e Mateo na diferença de idade. A casinha do sítio vai ficando pequena. Logo logo vou ter que fazer um puxadinho.



Esta é uma das 276 estátuas com mais de 600 figuras humanas espalhadas pelo Parque Frogner, em Oslo. Ali estão as belíssimas esculturas em granito e bronze de Gustav Vigeland. Ele esculpiu o ciclo da vida, do nascimento à morte. Algumas pessoas saem da visita ao parque com lágrimas nos olhos tal a emoção.

Em uma das praças as esculturas contam a história humana em círculo e, ao centro, ergue-se um obelisco com a representação de várias figuras de crianças, jovens, adultos e idosos que se entrelaçam.



É também norueguês Nobel, que deixou toda a sua fortuna para ser distribuída a todas as pessoas que se distinguirem em prol da humanidade. Aqui é entregue o Prêmio Nobel da Paz; os outros quatro prêmios são entregues em Estocolmo, na Suécia, cidade para a qual nós vamos embarcar no dia de hoje.



Outro da terra é Edvard Munch, que tem como tela principal “O grito”.



Nossa viagem vai esculpindo nas retinas, no coração e na mente experiências inigualáveis. O Museu Viking, por exemplo, onde estão quatro dos barcos recuperados e os seus pertences. É um trabalho surpreendente, tanto daqueles bárbaros como dos bárbaros arqueólogos.



Fomos também brindados pelo grupo de pessoas com as quais fazemos a viagem. Rola muita troca de experiências, muita alegria, muita vida. E algumas replicas da arte, como a de Paul, um chinês nascido no Brasil. Havíamos batido pernas o dia inteiro e ele reclamava de fome em nosso jantar.




Até breve.

terça-feira, 16 de julho de 2013

ÂMAGO







Viajar é, também, ir ao encontro do óbvio: cada lugar é ímpar. Não cabem paralelos, comparações, similaridades. No entanto, quando se olha para alguns prédios do centro do Rio ou de São Paulo e outros de Paris é possível lembrar um e outro. Assim como em tantas e tantas outras referências deste ou daquele lugar.

Ocorre que,  sob o meu olhar, o interior da Noruega é destes lugares impares. Viajamos muito pelas rodovias estreitas e sem acostamento decoradas por plantações de árvores com predomínio das bétulas (pinho de riga). Penhascos que se precipitam sobre vales derramando águas hora verdes hora azuis e intensas, sempre cristalinas de seus degelos. 

Suas comunidades e suas pequenas igrejinhas todas de madeira, em cores que dão às retinas um prazer como se saboreássemos telas.  
Especialmente pelo clima da época com uma chuva ou garoa leve, um frio miúdo e cortante, adensando nuvens que se confundem com o que resta de neve sobre as encostas.

Creio que o coração mais frio ao percorrer estes caminhos deve fragilizar-se com a estética e a beleza das paisagens inúmeras, com as obras de arte e arquitetura que são as casinhas, os campings, as semeaduras, as ovelhas a esmo, gado, pequenos tratores, pequenos caminhões, e fardos e fardos de feno branco guardando o futuro.

O Jardineiro Maior, O Arquiteto Maior, O Geólogo Maior, O Arquiteto Maior, enfim O Criador, fez nesse interior Maravilhas.

Li dentro do ônibus (dotado de rede wifi) a crônica do Pondé na Folha de ontem. A leitura da Bíblia difere quando lida por filósofos hebraicos ou gregos. Cristo é citado por ele como filósofo hebraico. Escreveu Pondé: "A filosofia hebraica funda regimes de verdade que leva o sujeito a olhar para si mesmo ao invés de olhar para os outros. Em vez de cultivar uma filosofia política, ela cultiva uma filosofia moral da vida interior na qual não é o barulho da assembleia que importa, mas o silêncio no qual os demônios desvelam nossa própria face".

Deixo esse pedaço do tempo da viagem dando conta de que posso, devo e quero jogar sobre espelhos meu interior.

Buscar, ainda, uma nova arquitetura.

Até breve.





segunda-feira, 15 de julho de 2013

SHANGRILÁ




De 800 a 1070 os Vickings dominaram a região  governados por reis e controlados pelos PISANTES (gerentes) e seus escravos. Subsistiram principalmente pela pesca. 


Veneravam deuses pagãos ODIN (deus supremo), THOR (deus da guerra) e FREI (deus da fertilidade). Acreditavam que ao morrer seriam recebidos por Valquirias e bebidas. Daí a razão pela qual entravam em lutas frequentes e morriam jovens.

Os chifres em seus capacetes (?) eram para manter uma imagem construída pelos europeus de que eles eram "os demônios dos mares".

Após a Segunda Grande Guerra a Noruega estava devastada, faminta e com o índice de mortalidade infantil mais alto da Europa. Não sei, mas suponho que pelo sangue daqueles bárbaros ainda correrem nas veias dos caras surgiu a ação nacional pela reconstrução e determinação de instalar o welfare  state (estado do bem estar social).

Depois de 1969 quando foi encontrado petróleo e gás natural em águas profundas tudo mudou. Hoje mandam comitivas técnicas para todos os países que estão no estado da arte e das ciências e detêm hoje, por força disto, desde 2001 o primeiro lugar no IDH - Índice de Desenvolvimento Humano mundial para os seus cinco milhões de habitantes. De cada cinco três têm barcos  ou iates.

Claro que isto traz problemas. O Estado cuida de cada um do berço à cova. Aos dezesseis anos o cidadão busca rumo para cuidar da própria vida. Na velhice os avós não cuidam dos netos, vão para outros países em viagem de turismo em trailers. Assim, como se tem tudo, falta a falta: os índices de alcoolismo e suicido são expressivos.

Não há empregados domésticos, nem em fazendas que se espalham ao longo das rodovias. Após o inverno todos cuidam da reforma das casas, plantações, pastagens, criações. Vimos inúmeros fardos de feno envoltos em bobinas gigantes de lona para armazenagem em cilos. O inverno é glacial.

Sessenta por cento do total do montante das exportações é de petróleo e gás natural. O salário médio é em torno de R$10.000,00, sendo que o aluguel de um apartamento de dois quartos está na faixa de R$1.500,00. A diferença entre a remuneração do gerente para o operário é de, em média, duas vezes. O imposto de renda é gradual, quem ganha mais paga mais.

A educação básica, com duração de dez anos, é obrigatória e totalmente gratuita inclusive os materiais (livros, cadernos, etc). Para a universidade vão para os melhores cursos os melhores alunos nos cursos secundários.

Até os dezoito anos de idade a saúde é integralmente bancada pelo Estado. Cada cidadão tem o médico de família que encaminha ao especialista quando ele não é capaz de atendê-lo. Depois dos dezoito anos o cidadão paga consulta equivalente a R$50,00 podendo gastar até R$700,00 por ano. Se precisar de mais torna-se grátis o serviço. Não há planos de saúde. Cirurgias, qualquer especialidade, são integralmente custeadas pelo Estado.

Os cidadãos estrangeiros têm praticamente os mesmos direitos dos nativos, exceto o voto em eleições gerais (nacional).

A Noruega foi um dos países que decidiu não fazer parte da CEE - Comunidade Econômica Européia. 

80% da população é considerada protestante luterana e 3% católica. A prática religiosa é muito baixa o que leva a muitas igrejas a ficarem permanentemente vazias.

Setenta e cinco túneis rodoviários com extensão entre 800 metros a 24 quilômetros (o maior do mundo) dão acesso aos trezentos mil quilômetros quadrados de extensão territorial. O país é, também,  divinamente servido  por água abundante.

Falando em água aqui são encontrados um dos maiores brilhos do Criador: os fiordes. 

Os Fiordes  são imensos vales rochosos que foram inundados pelo mar, devido à fusão do gelo, nas idades glaciais. Nesta época a baixa temperatura da Terra, contribuía para as geleiras  se expandirem diminuindo o nível médio dos oceanos. Grandes mantos de gelo avançavam sobre regiões mais quentes, arrastando tudo o que encontrava pela frente, inclusive pedaços de rochas. É a chamada erosão glacial.

Como resultado formou-se vales estreitos com paredões íngremes que foram inundados posteriormente, devido às temperaturas quentes da Terra, que fez o gelo retroceder, aumentando assim o nível de água dos mares e alagando imensos vales rochosos.

Margeadas por montanhas desgastadas, pelas cachoeiras, vales verdes ou muita neve, essas formações estão presentes em todo o território norueguês. O maior e mais profundo fiorde da Noruega é o Fiorde de Sogn. Possui mais de 200 km de extensão e profundidade máxima de 1308 metros.  Por ser um ambiente de uma beleza irradiante é um local que atrai turistas de todo o mundo, o que impulsiona em grande parte a economia local. Em 2013 atracarão nos portos do país 276 cruzeiros.

Cruzamos inúmeros túneis, percorremos vários quilômetros de excelentes rodovias com uma paisagem permanentemente exuberante e paradisíaca. Não é só o fiorde que é de sonho, as comunidades, com entre 600 e 900 habitantes, espaçadas por pequenas distâncias entre uma e outra com seu casario de madeira pintada em ocre, amarelo, azul, branco, verde. Os campos milimetricamente cuidados e seus fardos de feno preventivo para o tenebroso inverno.

Nunca debrucei meus olhos sobre tantos lagos, rios, cachoeiras, com tanta variação de cores e descaminhos. A água é um dos maiores atrativos da beleza desta terra.

Ninguém, que possa, deve morrer sem vir à Escandinávia.

O paraíso existe.


Até breve.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

TOBEORNOTTOBE



Pelos idos do século VIII, ao sul da Dinamarca, existia um irmão de um rei que cobiçava o trono e a rainha. O príncipe Amleth depois de uma viagem de conquistas volta ao castelo e encontra o seu pai assassinado pelo seu tio. Indignado mata o tio e a mãe.

Dizem que vem daí a expressão: “Há algo de podre na Dinamarca”.

Em 1580, a rainha esposa do rei Frederico II, grande desenvolvedora da arte em seu reino em Copenhagen, no Castelo Kronborg, encena a tragédia. Dois dos atores que atuavam na peça migram para Inglaterra. Lá encontram o tal de Willian Shakespeare e relatam para o sujeito o roteiro.

Deixamos hoje Copenhagen e seus canais que são ruas de água salgada onde, às margens, centenas de milhares de pessoas construíram suas moradias e outros vivem em seus barcos e até pequenos iates.

A Dinamarca é um país de 5,5 milhões de habitantes, dos quais ½ milhão vivem na capital que, junto com as cidades circunvizinhas, totalizam 1,7 milhões de habitantes.

Um deles era Jakob Kristensen, criador de “O patinho feio” e “A pequenina sereia”. Há uma estátua do fabulista em Copenhagen com o rosto voltado para o Parque Tivoli, fundado em 1844 e que deve ter inspirado Disney.

Há, também, às margens de um dos canais que cortam a cidade, uma estátua da pequena sereia. É hoje um dos monumentos públicos mais fotografados do mundo. Por duas vezes, desempregados cortaram a cabeça da estátua e a lançaram ao mar.

Erguido anexo à Biblioteca Nacional construída em 1700 há um edifício moderno com as fachadas revestidas em granito negro importados do Zimbábue e, ao centro, vidros transparentes fixados da cobertura ao piso em forma de V. Quando o sol bate nas águas do lago onde às margens do mesmo foi erguida a obra, reflete nas paredes e brilha deslumbrante. Nome do anexo: Diamante Negro.

Há também um antigo castelo onde hoje funciona a Bolsa de Valores de Copenhagen. Na torre principal ergue-se a cauda de quatro dragões que se enroscam. Foram trazidos da Ásia como símbolo de prosperidade. Quatro porque na época em que foram colocados ali só se conhecia quatro mares.

Até 1640 os reis eram coroados. A coroa era vazada para simbolizar que o Rei estava aberto aos conselheiros com quem, em conjunto, governava o reino. Naquele ano um idiota assumiu o trono e quis ser empossado com uma coroa de louros, símbolo da imortalidade. Mandou fechar a coroa porque não precisava de nenhum conselho. Nome do regime que se instalava: Absolutismo.

Hoje, desde 1972, o Parlamento é que unge o reinado. Há uma rainha que tem dois filhos. Na sua falta o primogênito tornar-se-á Rei.

Não há uma diferença expressiva entre os salários pagos na Dinamarca. Eles são taxados entre 39% e 59% de impostos diretos, destinados à saúde, educação e transporte.

Quem trabalha em jornadas mais longas ganha mais. Um lixeiro que trabalha das 03:00 as 07:00 horas pode vir a ganhar mais que um professor da escola primária. O almoço nos restaurantes é mais caro do que o jantar porque emprega mais garçons. O motorista do ônibus de turismo que nos atendeu tem casa de verão na Itália.

Os desempregados recebem salário do Estado por até três anos. Como hoje o índice de desemprego está em 7%, o período de assistência passou para apenas um ano. Há um serviço público de recolocação. Se ao final de nove meses de tentativas o cidadão não encontrar um serviço ele pode ficar desempregado por prazo indeterminado. Daí, suponho, o corte de cabeças da sereia.

Há outras razões para depressão que levam alguns ao suicídio. De novembro a fevereiro o sol acorda às oito horas da manhã e vai dormir às três da tarde. Temperatura média do período: menos doze graus centígrados.

No verão, por outro lado, a turma vai para  a beira dos canais, braços do Mar do Norte e, em trajes de banho, lingerie ou cuecas bronzearem-se sobre a escaldante temperatura máxima de vinte e cinco graus centígrados.

Empresários não sofrem taxação de impostos, mas são impelidos a investir em ações de desenvolvimento cultural e social do país. O Museu Nacional, que até 1859 serviu de morada aos reis, sofreu um terrível incêndio que destruiu tudo menos a capela central. Ocorre que dois anos antes ele havia passado por uma reforma geral e haviam projetos detalhados de todas as instalações.

Carl Jakobsen mobilizou o empresariado e reconstruiu todas as instalações. Recebeu de doadores móveis, utensílios de épocas, pratarias e tudo o mais para montar ali o Museu. Carl Jakobsen vem a ser o dono de uma das maiores cervejarias do mundo: Carlsberg.

Há no país uma preocupação ecológica evidente. Boa parte da energia consumida é eólica. Em fins de 1800 estabeleceu-se que para cada árvore cortada deveria se plantar duas.

Passando por estradas arborizadas pelas faias, a árvore símbolo da Dinamarca, tivemos a clara visão disto. Nas laterais de cada pista uma ciclovia de dois metros de largura. Viajando pelo interior vimos adultos e crianças saboreando o passeio.

Limitações da CEE impedem a exportação de toda a produção de cereais do país. O excedente é lançado aos animais, principalmente aos porcos. Dizem aqui que estes são mais bem alimentados do que os fazendeiros.

A lingüiça de carne de porco é divina.  Hoje são exportadas dois milhões de latas com sémem de porcos.  A guia de turismo não soube dizer o tamanho das latas.

Os alimentos são soberbos. E para dosar suas calorias há uma aguardente que é servida junto às refeições que funciona como um diluidor de gorduras. Quando experimentamos pela primeira vez pedi uma única dose, provei e fui ao toalete. Quando voltei o copinho estava vazio. Ela tinha se precavido.

Enfim, Copenhagen só visitando para sentir quão distinta. Ao deixá-la para ir em direção à Oslo na Noruega (em um ferry boat) fomos brindados pelo ocaso do sol às 22:50 horas da noite.



Até breve.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

VÔO



A bordo da British Airways, ouço Terry Oldfield, em Well Being, mantras para o bem estar.

Penso.

Mais uma vez eu jamais estaria aqui não fosse por Ela. Principalmente agora, com Noninha ficando em BH, provavelmente saudosa de nossa presença.

Escrevo em um bloquinho que Ela lembrou de trazer. Coloca, ainda, na bandeja do café que acaba de ser servido, vitaminas trazidas naquelas pequenas embalagens de plástico, cada uma em seu devido compartimento.

Não que eu seja desprovido de desejo, ainda que Ela se refira a mim como “defunto”, não. Desejar eu até desejo, é que ele está posto em outros canais.

Meu barato é de outra ordem, sacô? Tipo viagem sideral na maionese, o som desse mantra me dá uma guia massa... Flutuo a 33.000 pés de altura, -53 graus Fahrenheit de temperatura externa (do avião), com ventos na proa de 5 a 7 Km/h.

Pintou uma preocupação com a fila de imigração na chegada em Londres. Acho um saco, aliás, como tudo que se coloca na minha frente para controle.

Melhor voltar pro mantra e flanar. Hum, que bom...

Entrei em alfa, apaguei geral e deixei cair o lápis que rolou para debaixo da poltrona do vizinho da frente.

Acordei com o solavanco do avião na aterrissagem. Peguei o lápis que eu trouxe do Hotel Australis de Cabo de Horno em Punta Arenas e desembarcamos no segundo mais movimentado aeroporto do mundo.

Fizemos uma rápida conexão para Copenhagen.

Cidade da bicicleta. Trânsito de dar inveja, de um lado e de outro das vias de rolamento com poucos automóveis e ônibus vazios, centenas de bicicletas com crianças, jovens e idosos numa naise. Todos usam o meio mais saudável de transporte para uma cidade plana como Copenhagen.

Tipo 17:30 horas, hora local (12:30 em BH), estávamos na varanda do hotel onde nos hospedamos às margens de um braço de mar. Na outra margem as pessoas em trajes de banho e até íntimos (biquíni, sungas, lingeries e cuecas) doravam de verão.Ali, nestas circunstâncias, recebemos a notícia que nos ocupará ainda mais.

Pretinha nos ligou via Face Time: Noninha vai ganhar um irmãozinho, ou será, uma irmãzinha?

Voltei pras nuvens...  E sem mantras.




Até breve. 

sexta-feira, 5 de julho de 2013

FJORDES



Previsão astrológica para o dia de hoje:

“De pouco em pouco se trilha um caminho muito longo e intrincado. Tempo não é um problema nem uma limitação, é a matéria prima com que você tece seu destino. Por isso, melhor não ceder ao apelo de nenhuma preocupação”.

Héctor Abad em seu livro A ausência que seremos(*), que eu arrematei no brechó da RIJ por R$5,00 escreveu: “A memória é um espelho opaco e estilhaçado, ou melhor, é feita de conchas intemporais  de lembranças espalhadas numa praia de esquecimento”.

Lembrei-me, também, de inscrição marqueteira na camiseta que Collor usou certa vez em suas corridas matinais quando ainda era Presidente da República: “O tempo é o senhor da razão”.

É que a Escandinávia, Finlândia e Rússia me assustam. Esta próxima viagem. Copenhague, Helsingue, Oslo, Lofthus, Bergen, Voss, Naeroyfjord, Loen, Oslo, Estocolmo, São Petersburgo, Moscou, passando também por Londres.

Programa para o oitavo dia de viagem: “Saindo em direção à cidade de Voss, cruzaremos regiões em que os lagos refletem a paisagem ao redor, formando cenários de sonho. Passaremos pelo Stalheim Canyon, até atingirmos Gudvangen, onde embarcaremos num maravilhoso cruzeiro pelo Naeroyfjord até a cidade de Flam. Após esse belo passeio, seguiremos viagem em direção ao espetacular mirante suspenso, para contemplarmos toda a magnitude cênica dos fjordes. Logo após, passaremos por uma das maiores obras de engenharia da Escandinávia, o túnel de Laerdal, o maior túnel rodoviário do mundo que liga as cidades de Aurland a Laerdal. Continuaremos, então, nossa viagem encantada até a cidade de Loen, situada às margens do Nordfjord”.

Ou para o décimo terceiro: “Pela manhã city tour em Estocolmo, Gamla Stam, a cidade antiga. Suas ruazinhas entrelaçadas, a interessante arquitetura e a grande variedade de restaurantes, lojas e galerias de arte fazem dela um lugar pitoresco e muito atraente. Veremos também o interior da Prefeitura incluindo o salão coberto por mosaicos de ouro onde acontece o baile de entrega do Prêmio Nobel. ... Visitaremos o famoso galeão de guerra VASA, totalmente restaurado depois de naufragar em sua viagem inaugural e permanecer submerso por 333 anos: uma experiência espetacular e única no mundo!”

Pois é.

Eu acho que tinha uns sete ou oito anos de idade. Passei a semana inteira ansioso pela viagem que faríamos no domingo à Venda Nova, cidade que hoje é bairro de Belo Horizonte. Fomos em uma Rural Willys, 1950, vermelha e branca. Meu pai gostava tanto dela que numa noite foi ao cinema no centro da cidade e a esqueceu estacionada debaixo das árvores da Avenida Afonso Pena. Ele estava na cama quando minha mãe disse: “Pepe eu não ouvi você entrar na garagem com o carro”.

Enfim, aquela foi uma viagem extraordinária, embora eu tenha ido entre irmãos, que tiveram preferência às janelas.

Ah, o tempo!



Até breve.

(*) Abad, Hector - A Ausência que seremos, São Paulo, Companhia das Letras, 2011