quarta-feira, 31 de agosto de 2011

COTIDIANO

Estive no último final de semana, de sexta-feira a domingo, no paraíso. Hotel Ponta dos Ganchos Exclusive Resort, Florianópolis, Brasil. À trabalho.
Gozo de privilégios. No cardápio degustações de várias maravilhas gastronômicas e etílicas, além do irrepreensível atendimento do maravilhoso resort da rede Relais & Chateaux.
Conduzi workshop de vinte e oito presidentes de empresas nacionais e transnacionais, algumas com faturamento anual global de perto de US$35 bilhões. A demanda: produzir um vôo rasante sobre a conjuntura atual, perspectivas e o que, em síntese, tira o sono dos líderes presentes ao encontro.
Estamos diante de uma crise esperada e desejada. Chegamos ao futuro que queríamos: somos um país com oportunidades extraordinárias de crescimento em praticamente todos os segmentos da economia, com imensas chances de viabilizar investimentos de monta e a consequente elevação do padrão de qualidade de vida de nosso povo, mas não nos preparamos o suficiente e temos expressivas dificuldades em empreender soluções de curto e/ou médio prazo.
Essa é uma macro-conclusão do debate de quatro horas com o grupo.
Temos escassez quali-quantitativa de mão de obra, em todos os níveis e competências; um Estado sem visão de longo prazo e com prática ainda incapaz de gerir de forma estratégica e eficiente as inúmeras prioridades que se apresentam; ausência de um projeto de país que seja orientador para empreender; marca e custo Brasil ainda carentes de ações de impacto; marcos regulatórios como fatores restritivos importantes que muitas vezes emperram investimentos ou são geradores de aguda insegurança jurídica; pouca ou inexpressiva representação política da classe empresarial, liderança ainda carente de formação a altura do desafio.
São fatores que, de maneira geral, tiram o sono dos líderes presentes ao encontro.  O que fazer e como fazer são as perguntas que ficaram postas, o que remete ao alargamento e aprofundamento de alternativas que possam fazer frente às dificuldades e viabilizar a chance histórica em que o Brasil encontra-se.
O melhor do evento não foi o workshop, até porque, quem o conduz é um ingênuo. O que torna o lugar um paraíso é o encontro com pessoas diferenciadas, como o presidente de uma empresa de tecnologia e guarda de documentos. Um figuraço. Ele fundou a empresa e foi comprado pela maior empresa do mundo no setor. Hoje ele preside A Unidade de Negócios para a América Latina.
Ouví-lo é um bálsamo à alma e ao intelecto. Sobre o negócio que opera, sobre arte, cultura, política, comportamento, o cara discorre sobre tudo com uma desenvoltura, humor e simpatia contagiantes. Entre as preciosidades, uma em especial: ele escreve regularmente para um jornal, editado na França chamado “Ao Inútil”, assim mesmo em Português. Os colaboradores do jornal são assumidades catalogadas no mundo inteiro (da América Latina são apenas cinco).
Ele comentou que um dos colaboradores do “AO INÚTIL”, por exemplo, escreveu um texto fazendo um paralelo do desenvolvimento recente da tecnologia a partir da evolução das pistolas de pintura de automóveis; ou, sobre outro sujeito, que coleciona modelos de ferros de marcar gado e já tem 150 mil peças catalogadas.
Ontem, fiz um programa mais útil. Sobrevoei de helicóptero durante várias horas, na companhia de um cliente do setor de agronegócio, inúmeras lavouras de diferentes culturas da região de Ribeirão Preto-SP até o triângulo mineiro. Fizemos um percurso em torno de 250 Km em linha reta. De um lado e de outro e à frente, um campo integralmente ocupado com produção com alto índice de emprego da melhor tecnologia agrícola.
Hoje, no final da tarde, retornando para casa, um caos: manifestação dos professores estaduais.
Estou pensando em enviar este post para o jornal “Ao inútil”.
Até breve.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

ESTAMPA

Lá fora o pau comia solto. Eram os tempos da redentora, da revolução, do governo militar. Dentro de casa, por outras razões, o chicote zunia. E a censura era principalmente paterna. Uma família de dez filhos, um nascido após o outro, penúria financeira e cultural, sobravam razões para rigidez.
Palavrão dentro de casa, sem chance. Quando um de nós queria escorraçar um irmão, mandava-lhe peidar n’água ou, no máximo, à merda. Vários assuntos eram sumariamente proibidos. Um seguramente: o tema da homossexualidade. Era também a época dos festivais da canção popular onde foi lançado parte do que de melhor se produziu da música brasileira.
Entre os artistas, Caetano Veloso. Para meu pai um homossexual com todas as plumas e paetês. Ele não dizia o que pensava de Caetano, apenas mandava desligar a televisão quando o baiano aparecia ou o rádio quando Caetano surgia cantando Alegria, Alegria.
Um dia, estávamos todos juntos almoçando e o rádio estava ligado. De repente deram a notícia da extradição de Caetano e Gil do país. Houve um silêncio geral e meu pai limitou-se a dizer: além de... é comunista!   Ele não conseguia dizer: homossexual.
Os anos se passaram. Foi-se a ditadura, eu me casei, tive meus filhos, passei uns tempos fora de BH, voltei, comprei o terreno em Santa Luzia, fiz minha parada. Um belo dia estava em nossa edícula e meu pai foi nos visitar. Sempre gostei de boa música e Caetano, apesar das restrições impostas, era e é, para mim, um dos compositores prediletos.
Havia comprado o CD Fina Estampa, gravado em 1994, em que Caetano interpreta todas as músicas em castelhano: Rumba Azul, Contigo em La distância. Recuerdos de Ipacarai  e outras, boa parte delas que meu pai, argentino, cantarolava enquanto trabalhava na oficina mecânica no galpão em frente de nossa casa onde passei toda a minha infância e juventude.
Coloquei o CD no aparelho. Fui ao encontro de meu pai. De repente ele disse: que bonito! Aumenta... Levantei-me para ir aumentar o som e me lembrei que meu pai abominara Caetano. Aumentei o volume do aparelho. Meu pai foi para próximo à caixa de som e começou a cantar junto com Caetano. Vi meu pai enxugar com as mãos as lágrimas que corriam de seus olhos quando cantarolou em dueto Recuerdos de Ipacarai. Ele então me perguntou: quem é esse cara? Como canta,esse sujeito!  Eu pensei: isso não vai acabar bem.
Peguei a caixa do disco e esperei meu pai concluir junto com Caetano uma das músicas e temendo a reação dele, passei-lhe a caixa do CD. Meu pai olhou, olhou de novo, distanciou quanto pode a caixa do CD esticando os braços para frente e disse estarrecido: mas esse viado?!!!
Pois é.

Até breve.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

VASSOURA

Volto às minhas ruminescências e encontro-me aos sete para oito anos de idade. Minha mãe engajara-se na campanha política de José de Magalhães Pinto para governador de Minas e Jânio da Silva Quadros para Presidente da República. Foi uma época intensa. Nossa casa era comitê para onde convergia todo tipo de gente, material publicitário, os cambaus. Lembro-me dos ícones para fixar a marca dos candidatos utilizados em todas as peças publicitárias: um pintinho dourado e uma vassoura.
Meu pai adorou a idéia desde o início. Prá ele Jânio era louco e Magalhães um devasso. Com um pouco de razão e muito de ciúme meu pai andava pelos cantos da casa entre panfletos, caixas de material, ruminando: quando essa loucura vai acabar?
Nós adoramos porque além da confusão generalizada minha mãe esqueceu literalmente de nós e aí valia tudo: andávamos de Kombi da campanha e distribuíamos panfletos, pintinhos e vassouras a dar com o pau, até o sol se por. O problema era que a Kombi carregava a aparelhagem de som com os jingles da campanha e mesmo se eu for acometido do mal do alemão jamais vou esquecê-los:
Varre, varre vassourinha,
Varre toda a bandalheira
Que o povo, está cansado
De sofrer dessa maneira.
Jânio Quadros a esperança
De um país abandonado.
ALERTA MEU IRMÃO!
Vassoura conterrânea,
Vamos vencer com o Jânio.
OU:
Encosta sua cabecinha no meu ombro e pensa
No futuro de teus filhos e de teus irmãos.
Quem vota em Jânio Quadros é porque tem consciência
De um governo honrado e de realizações.
Jânio Quadros, governo direitinho
Cinco anos de realizações.
Jânio Quadros para presidente
Primeiro inquilino
Do Palácio Alvorada.
Ou ainda:
Ele vem ai, não demora não.
Ele vem aí com a vassoura na mão.
Ele é um colosso,
Ele é paulista de Mato Grosso.
Fica melhor cantando. Uma ruminescência dessa época extraordinária foi o comício com palanque e tudo na Praça Duque de Caxias. Bati meu recorde de distribuição de panfletos e de pintinhos e vassourinhas carregados de casa para a praça em caixas e voltávamos correndo para buscar mais quando as peças acabavam. Mal vi ou ouvi os discursos, no entanto, fui agraciado pela vida porque vi Jânio Quadros com os cabelos alvoroçados e lançados a frente no rosto dando gritos alucinados (meu pai teria razão?) e ouvi-o aos brados dizer:
ACABARAM AS FESTAS, ACABARAM OS FOGOS, AGORA VÊEM AS CONTAS!
Aquilo me intrigou e procurei, no dia seguinte ao comício, saber de minha mãe o que Jânio quis dizer. Minha mãe com a maior paciência: “Lozinho, Jânio criticava a construção de Brasília.”
Eu guardava, até alguns anos atrás, um lápis com uma vassourinha na ponta e botons dourados com o pintinho e a vassourinha. Como fiz dezenas de mudanças de residência, numa dessas, alguém os varreu.
Assim como a esperança.

Até breve.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

IMPERFEIÇÕES

Teresa é esposa do Eugênio. Eugênio e Teresa são nossos amigos há quase quarenta anos. Têm, como nós, três filhos. Um neto, de quem já falei em SIMPLES, apenas para nos fazer inveja.
Teresa é filha de Dona Luzia, atleticana de coração e hoje vivendo seus oitenta e tantos anos: uma graça de pessoa.
Eugênio é um sujeito assim: nesses quase quarenta anos de profunda amizade nós dois nunca conversamos sobre nada. Ele gosta mesmo é de contar piadas, inclusive as mais infames e sempre depois que termina de contá-las fica olhando para o adversário para ver como o sujeito ri da sua performance. Um porre.
Fizemos juntos em família, quando os nossos filhos eram crianças e adolescentes, inúmeras viagens de férias. Algumas inesquecíveis. Como à Pousada das Andorinhas, em Muriqui-RJ, onde fazia calor de quase quarenta graus na sombra e o pé direito da laje ao piso das acomodações era inferior a 2,30m. Um horror. Dona Lindinha, uma mocréia de arrepiar, era a proprietária do lugar e quando estivemos hospedados lá ela, em todas as oportunidades que tinha, nos dizia: “preciso melhorar isso aqui...”
Aconteceu também uma viagem à Nova Almeida-ES. Alugamos uma casa com vistas para o mar, através de fotos que nos foram apresentadas num catálogo em Belo Horizonte. Quando nos deparamos com a casa, bom embora seja inesquecível é melhor não lembrar.
Fomos à Nova Iorque, Miami e Orlando. Fizemos tudo que merecia ser feito e o que registro dessa viagem é que Eugênio classificou os passeios entre contemplativos e participativos. Contemplativos foram aqueles de visitas a monumentos, igrejas, museus e participativos os parques e estúdios.
Sobre esses amigos vou ter que voltar aqui várias vezes ainda.
É que Teresa nos enviou um vídeo e eu fiquei com a sensação que ela quis nos dizer alguma coisa de muito importante. Tão importante que vale a pena compartilhar.
Até breve.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

COMO

Para quem escreve a falta de assunto deve ser horrível. Imagine você ávido por dizer algo e esse algo não lhe acomete. Você fica olhando para a barra do cursor do laptop que pisca intermitentemente como se provocasse: e então? Você pede que ele aguarde, mas não, ele continua no seu piscar frenético.
Muda de parágrafo, tenta produzir uma ou outra palavra que dê gancho, dê liga e lhe dispare a um texto. Não há palavra mobilizadora tão forte que lhe dê asas e puxe a imaginação de autor. A tarefa lhe impõe um esforço e de repente você vê lampejos de uma idéia sobre a qual possa discorrer.
A idéia é pobre, ou na verdade foi mais vontade do que propriamente uma idéia mobilizadora. Então você decide que vai escrever exatamente sobre isso. A ausência de uma idéia que seja instigante, que leve aquele que lê a uma transformação importante, uma virada, uma retomada, algo importante.
Tá bom, então vamo lá. Quer mudar sua vida leitor: pegue duas pílulas de 0,25gr de estimulante cerebral, duas doses de acelerador cardíaco, dois volts de energético cinético e disparador e 15 ml de líquido lacrimal. Tem em qualquer farmácia do ramo. Deve a receita toda ficar em R$156,00, mas eles fazem no cartão de crédito em até três vezes sem juros. Uma dica: separe aleatoriamente os produtos em dois e vá a dois caixas diferentes: esta receita está gerando uma certa desconfiança nas drogarias. Talvez seja recomendável você comprar dois produtos numa farmácia e os outros dois em outra farmácia. Se possível, em dias diferentes. É melhor você perder o parcelamento sem juros do cartão de crédito, pois a compra vai ficar menos de cem reais, aí algumas drogarias não parcelam. Agora se quiser ter benefício financeiro, compre logo na mesma loja, no mesmo caixa, na mesma hora, duas ou mais porções da receita. Eles farão em até cinco vezes sem juros.
Jamais ingira nenhum dos produtos isoladamente e, principalmente, na rua. Um amigo reclamou comigo, que não sentiu nada. Eu perguntei como ele havia administrado a receita. Ele me disse que estava tão eufórico em mudar a vida que logo que deixou a drogaria, abriu o pacote e foi logo tomando um volt de disparador. Andou alguns metros e ficou puxando mais ar aos pulmões como se vento fosse combustível agregador. Como não ocorreu nada, abriu novamente o pacote e tomou uma dose de acelerador cardíaco. Teve ímpetos de correr, mas não alterou suas passadas. Começou a achar que havia sido enganado. Ligou para o meu celular, que estava desligado.
Outro sujeito que ficou sabendo que eu tinha a receita, comprou os produtos e também não teve nada que justificasse prá ele o gasto de R$156,00 no cartão de crédito em três vezes sem juros. Como você ingeriu os produtos, perguntei a ele. Ele me respondeu dizendo que o processo tem uma lógica: primeiro você toma uma dose de acelerador cardíaco, para que o órgão suporte o tranco. Depois uma dose de estimulante cerebral, porque você pode desejar tanto a mudança que haverá alto nível de exigência intelectual. Na sequência você ingere um volt de energético cinético e os dois volts de disparador, para que você tenha um solavanco na vida. Por último 7,5 ml de líquido lacrimal, para no caso de alegria ou tristeza, você chore ou ria das conseqüências. Duas horas depois, você de pé, ingira todo o resto da receita na ordem contrária da primeira administração. Você terminará na pílula de estimulante cerebral e terá, num mínimo, um barato legal. Tenho dúvidas se essa é mesmo a lógica, principalmente porque ele me disse ainda ser importante que a ingestão de cada dose de cada produto seja administrada com um cálice de bebida alcoólica diferente. Nem digo a vocês o que ouvi dele. Não serei responsável por ninguém entrar em coma etílico. O importante é que no caso dele, ficou pelos R$156,00 em três vezes sem juros. Um barato, e nada mais.
Não vou relatar todos os casos, são hoje milhares de pessoas que aceitaram a receita. Estou estudando a possibilidade de sair do anonimato e assumir a autoria. O que me desanima é tornar-me célebre, escrever alguns livros best sellers em várias edições que serão vendidos nas livrarias dos aeroportos, dar inúmeras entrevistas em todo tipo de mídia e ter que escutar inúmeros casos dos efeitos trazidos pela administração da receita. Até que passe a euforia, inventem outro composto e eu tenha que retornar a um cursor que pisca frenética e intermitentemente em meu laptop.
Prefiro ficar aqui, quietinho no meu canto.
Até breve.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

BANAL II

Fred e Elaine em agosto passaram a noite juntos. Para eles foi maravilhosa. Circularam pela cidade atentos às luzes, veículos, pessoas, alguns animais perdidos, coletores de lixo, fixadores de outdoors, trabalhadores que vinham, trabalhadores que iam, profissionais do sexo, do tráfico, de pequenos furtos, ambulâncias, resgates, viaturas.
Ao lado um do outro, trocavam confidências. O preço das coisas, aluguel, comida, roupas e sapatos, escapadas, e outras pequenas despesas. Depois da família: o irmão dele que estava preso já há cinco anos, tinha perdido o controle das surras que dava na mulher, numa noite bateu mais do que de costume e a companheira não resistiu. O outro irmão era policial, tinha sido morto num confronto com traficantes fazia pouco tempo. A irmã amasiada com um sujeito imprestável, que vivia à custa da mulher que era diarista em casa de família. A mãe sofria dos nervos, só de remédio consumia boa parte da pensão que o marido que a havia abandonado muito antes de morrer deixara. Uma sobrinha, filha de outra irmã que se prostituíra e morrera muito cedo, atropelada numa avenida do centro da cidade. Uma cadela fiel que lhe fazia festa quando ele voltava para casa. Uma última irmã, jovem, parece que sairia algo na vida, estudava o fundamental na escola municipal do aglomerado.
Depois ela foi falando também da família. Um irmão era porteiro noturno em prédio do centro, dois eram auxiliares de cozinha e trabalhavam em restaurantes diferentes e nas folgas atendiam como garçons em festas; uma irmã que era cabeleireira e outra que era garçonete numa lanchonete no centro da cidade.
Falaram dos seus sonhos. Ele se ganhasse na loteria, ficaria no mesmo lote da família, mas demoliria tudo, barracos e puxadinhos, e construiria um sobrado com duas lojas em baixo, uma para montar um bar e outra para explorar máquinas de azar. Para a cobertura de laje deixaria um acesso para que a irmã mais nova tomasse sol de biquíni.  Compraria um carro de quatro portas branco, podia ser usado, melhor se tivesse sido de um único dono. Viajaria para cidades que gostaria muito de conhecer: Rio de Janeiro, São Paulo e Piracicaba.
Ela, não, mudaria de onde morava. Aliás, independente de ganhar na loteria, ia se mudar um dia, mesmo que não fosse de sonho, mas por necessidade. A barra nas redondezas só piorava, então mudar de residência era mais por urgência do que por melhoria. Na verdade tinha pequenos sonhos, conhecer alguém que a tratasse bem, que a levasse para passear, adorava andar de barco no parque municipal, lanchar e dormir debaixo das frondosas árvores. Outro sonho que Elaine acalentava era de poder comprar um sapato alto, embora como ela nunca pudesse usar algum até então, não sabia se conseguiria manter-se, esse era mesmo um sonho alto. Alugar uma pequena lojinha e montar um salão com a irmã, ela ficaria no caixa e faria unhas dos pés e das mãos.
Riram muito quando ela perguntou se ele jogava na loteria. Ele respondeu que não.
Comentaram ainda sobre o que faziam nos dias de folga. Ele ficava mais por conta da mãe e da sobrinha. Levava a menina com freqüência ao zoológico e, na volta para casa, chupava picolé, ele de limão (mais barato) e a sobrinha de brigadeiro (bem mais caro). Às tardes, fazia pequenos reparos ou consertos em casa ou via futebol, ainda que desgostoso do time que há muito não tirava nenhum dos campeonatos que disputava. De resto, era isso, no caso dele.
Ela lavava roupas, arrumava o armário, fazia unhas e procurava conversar com aqueles da família que estavam em casa. Visitava uma ou outra amiga, trocavam meia dúzia de fofocas, os finais prováveis das novelas e muita intimidade, que para ele não teria coragem de abrir.
Por último falaram dos seus relacionamentos. Agora ambos estavam sozinhos, sem ninguém para estar e pensar. Ele falou daquelas que o marcaram mais, uma com quem viveu alguns anos, mas que era muito pouco confiável, a ponto de por força do ciúme e da suspeita ele faltara de serviço algumas vezes para tentar surpreender a mulher. Não disse se acontecera, isso ficou no ar. Outra, mais confiável, esteve sem regularidade, mas era muito chata, pegajosa e se metia muito nos problemas da família, um dia mandou à merda a mãe dele doente. Enfim, mulher para ele era mais transtorno do que alegria.
De parte dela, não, ela já se apaixonara algumas vezes e no geral não tinha a reclamar até o desfecho, quase todas às vezes por traição do companheiro. O último, de quem ela gostou mais, era casado e vivia dizendo que iria separar da esposa, até o momento que ela descobriu que ele não tinha uma, mas duas esposas e uma namorada firme em Cariacica, no Espírito Santo. Ela não estava desesperançada, mas procuraria escolher doravante melhor os seus amores, mesmo sabendo que homem tudo não presta.
Foi a última coisa que Elaine disse a Fred, quando desceu do ônibus e foi direto para a cabine do fiscal da empresa entregar-lhe a receita do dia.  Disse ao fiscal que Fred era um companheiro de trabalho muito legal e um excelente motorista. Tomara que ela, como trocadora, pudesse reencontrá-lo em outra escala de serviço.
Passou no toalete do bar próximo a cabine do fiscal, trocou de roupa, refez a maquiagem e voltou para casa. Até satisfeita pela noite.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

ESTÔMAGO

Ontem assisti Contra a Parede na sessão das 22:00 hs do Cine Cult. Produção turco-alemã, rodada em Hamburgo e Istambul. A idéia aqui não é fazer uma crítica do ou ao filme, mas uma reflexão sobre a que ele remeteu-me: quão difícil tem sido a procura de algo que faça verdadeiramente sentido. Cahit e Sebil, vivem em Hamburgo, ele de raízes turcas com 44 anos de idade e ela também turca, muçulmana, de vinte. Encontram-se em uma clínica depois da tentativa de suicídio, ele tendo batido em uma parede de frente com seu carro em alta velocidade e ela cortado os pulsos. Enquanto estão na sala de espera para serem atendidos entreolham-se. Ele é chamado pelo médico que pergunta a Cahit por que ele quis se matar. Cahit responde com uma pergunta: quem disse que eu queria me matar?
Ele está no pátio da clínica e é procurado por ela. Ela implora que ele case-se com ela, para que ela possa ficar livre da tradição familiar. Ele diz que quando ela quiser se matar corte os pulsos no sentido horizontal e não vertical como ela teria feito. Ela diz que quer se casar, mas que eles não precisam transar, já que ela queria experimentar vários homens e ficar livre da família. Combinam um encontro à noite em um bar em frente à clínica. Lá ela volta a fazer o pedido a Cahit, que se case com ela, ele nega dizendo que não tem como se manter. Ela quebra uma garrafa sobre a mesa e corta novamente os pulsos. Ele rasga a toalha de uma das mesas do bar e enrola nos pulsos de Sebil e saem do bar desesperados. São expulsos de um ônibus urbano dizendo aos gritos ao motorista que o ônibus não é dele, mas da prefeitura.
Cahit procura um amigo e diz que vai se casar, caso contrário a mulher que ele encontrara na clínica iria se matar. O amigo tenta demovê-lo da idéia, Cahit diz que está decidido e convida ao amigo que vá com ele à casa da família de Sebil para pedi-la em casamento. O amigo apresenta-se a família (pai, mãe e irmão de Sebil) como sendo tio de Cahit que, por sua vez, apresenta-se como Gerente de uma fábrica. Na verdade Cahit é um zelador ocasional de uma fábrica. O pedido de casamento é aceito e eles se casam.
Na noite de núpcias Sebil pára na frente da porta da casa de Cahit e implora a ele que a carregue para dentro. Ele a joga sobre os ombros e a deixa sobre uma mesa repleta de restos de comida. Depois, aos gritos, manda que ela saia e que não lhe amole. Ela vai a um bar, seduz o barman com quem passa a noite.
As cenas sucedem-se com Sebil transando com diferentes parceiros, enquanto Cahit, droga-se e embriaga-se. Até que um dia eles estão na cama e começam a se acariciarem e Cahit começa a despi-la e ela diz que não fizesse aquilo porque senão ele tornar-se-ia o marido dela. Na sequência, ele está em um bar e diz aos gritos a um amigo que está apaixonado. De repente bate as duas mãos sobre copos em cima do balcão e o sangue jorra sobre os seus braços. Cahit vai para a pista e dança freneticamente.
Fui longe demais aos detalhes da narrativa, mas o filme é mesmo um soco na boca do estômago. Vale a pena ser visto completo já que o que eu trouxe aqui é o que se passa até a metade do filme.  Para o que pretendo, suficiente.
Quão graves têm sido as relações de afeto e quão difícil têm sido construir de fato uma perspectiva que implique em uma vida verdadeiramente humana. A contundência do entorno do casal em crise de existência e errância é avassaladora. A família, o Estado, a disponibilidade de álcool e drogas, o sexo selvagem e permissivo, o desemprego, a solidão urbana, a etnia, a religião, a marginalia, a banalidade do crime.
Pouco antes de iniciar o filme assisti a uma entrevista do diretor Daniel Filho ao ator Lázaro Ramos no programa Espelho do Canal Brasil. Daniel Filho disse na entrevista que é urgente fazer um filme de comédia, mas está muito difícil encontrar atores que façam palhaços. Há alguns anos, e ele citou vários, havia ícones que nos levavam às gargalhadas.
Daniel, acabamos também com nossos palhaços...
Até breve, que eu estou ácido.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

MANOEL II

Não é do meu feitio pegar coisas dos outros prá fazer pavãonices. Minhas limitações me bastam. Mas é que ler Manoel de Barros sem compartilhar é de um ruim sem limites. Confesso que se eu for até onde o poeta anuou (tem hoje 95 anos) quero ter parte de sua conhessência. Pura inveja, mas eu tenho.
Ele é nosso Guimarães Rosa do Pantanal só que fora de prosa, mais no meio de poesia, toda desarrumada dos conformes. Para ele o ofício de poetar é voar fora da asa. Toda vez acho que sofro disso um pouco. Até mesmo nas minhas andanças empresariais. Na vida comum não, aparento normalidade.
Sou privilegiado pelo acaso, quase de sempre. Nesse momento me deparo no cotidiano com algumas desafiências brabas. De por outro lado, me renovo, prá poder olhar de e para a frente. Estou condenado, desde menino, a não aceitar.
Deixo vocês de novo com Manoel. Essas coisas foram tiradas (do Livro Poesia Completa) assim desordenadas, fora de seus lugares, na medida em que me acometiam. Minha sensação é se embaralhá-las elas ainda fazem sentido. Toda hora você pode tirar uma e pensar uma légua.
Vai lá, então:
“Andando devagar eu atraso o final do dia.”
“Para saber as intimidades do mundo é preciso saber usar palavras que ainda não tenham idioma.”
“As coisas não querem ser vistas por pessoas razoáveis: elas desejam ser olhadas de azul  -  que nem uma criança que você olha de ave.”
“Ocupo muito de mim com o meu desconhecer.”
“As palavras têm que adoecer de mim para que se tornem mais saudáveis.”
“O que resta de grandezas para nós são os desconheceres.”
“Morrer é uma coisa indestrutível.”
“As palavras continuam com seus deslimites.”
“É mais feliz quem descobre o que não presta do que quem descobre ouro.”
“Tenho mania de comparecer aos próprios desencontros.”
“Poderoso é aquele que descobre insignificâncias.”
“Tenho o privilégio de não saber quase tudo e isso explica o resto.”
“As coisas muito claras me nortunam.”
Quero fazer parte desse ideal, barulhar com esse ideário, lutar por esta ideologia. Minha bandeira ainda é despalavrar.
Até breve.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

MANOEL

A vida impôs a mim uma trava para além de um recolhimento. Busquei refúgio em alguém que me convoca. Estou lendo Poesia Completa do poeta pantaneiro, Manoel de Barros, nascido em Cuiabá em 1916. A edição é de 2010 da LEYA.
Num quis de ficar sozinho com preciosidades, peguei uma pinça de ponta azul e fui apontando em uma folha de papel aquilo que pescava daqui e dalí. De repente resolvi compartilhar aqui no DasLetra. Acho mesmo é que deveriam comprar o livro todo e enriquecer.
“A vida tem suas descompensações.”
“Ninguém que tenha natureza de pessoa pode esconder as suas natências.”
“Falo sem desagero. Desculpe a delicadeza. Meu olho tem aguamentos.”
“Preciso do desperdício das palavras para conter-me.”
“Minha boca me derrama.”
“Eu sou culpado de mim.”
“Estou irresponsável do meu rumo.”
“Ando muito completo de vazios. Meu órgão de morrer me predomina. Estou sem eternidades.”
“A minha independência tem algemas.”
“As coisas que não existem são mais bonitas.”
“Palavra que eu uso me inclui nela.”
“Gostava de desnomear: para falar barranco dizia: lugar onde avestruz esbarra. Rede era vasilha de dormir. Traços de letra que um dia encontrou nas pedras de uma gruta, chamou: desenhos de uma voz.”
“Pode um homem enriquecer a natureza com sua incompletude?”
“Me procurei a vida inteira e não me achei  -  pelo que fui salvo. Descobri que todos os caminhos levam à ignorância.”
“Grilo é um ser imprestável para o silêncio.”
“Os delírios verbais me terapeutam.”
“A ciência pode classificar e nomear os órgãos de um sabiá, mas não pode medir os seus encantos. Quem acumula muita informação perde o condão de adivinhar.”
“Prefiro as máquinas que servem para não funcionar: quando cheias de areia, de formiga e musgo – elas podem um dia milagrar de flores.”
“Tudo o que não invento é falso.”
“Melhor jeito que achei para me conhecer foi fazendo o contrário.”
“Aonde eu não estou, as palavras me acham.”
“Não preciso do fim para chegar. Do lugar onde estou já fui embora.”

Até breve.