terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

ALGO




Quiroga, no Estadão de hoje:

“Ainda que o efeito Carnaval te induza a um estado letárgico e permissivo, procura pensar bem sobre tudo que tenhas intenção de fazer hoje. Pensar bem é um exercício que se desenvolve pela imposição de uma demora entre o desejo de fazer algo e a sua execução. Pensar bem não acontece por inércia nem automaticamente, é algo que tu precisas impor a ti, um exercício que se preenche com questionamentos lúcidos e tentativas de entendimento sobre a real necessidade de se fazer isso ou aquilo. Pensar bem é o contraponto do desejo, cujo funcionamento se baseia na urgência e na cegueira. Urgência porque te incita à satisfação imediata, cegueira porque te impede raciocinar sobre os efeitos colaterais da ação. Pensar bem parece ser algo impertinente, porque é Carnaval, mas o céu pouco se importa com a agenda terrestre.”

Sinto sede, fome, apetite, dor e tantos outros sentires. Necessidade fisiológica é quase sempre de escrever, como se fosse um desatamento, um expurgo, um me deixa, me larga, me solta, vá-se-embora. Por isto nem sempre é belo, interesse a alguém, comova, explique, dê conta, conforta, alegre, entristeça, sei lá o que mais que possa.

Mentira das grossas que eu escreva para mim, como se eu tivesse um eu imperioso e egoísta, querendo só e para si. Eu escrevo é para um nunseiquém, deixando pelaí palavras tortas, obtusas, frases rotas, incomplementos.

Muitos dos textos sugerem um tema até com contornos de atualidade, como se estivessem em análise fatos do cotidiano, indignados dizeres sobre o que se passa. Nada disso, por trás e de essência dos motivos são outros, nos entrementes das palavras há algo que se quis dizer, eu acho.

Ontem à noite ouvi Letícia Novaes poemar: “Eu sou uma criança com pentelho e traumas, mas ainda uma criança”, e achei lindo. Depois ela disse ainda: “Eu queria era só sonhar e acabei me apaixonando”, e achei mais lindo ainda.

E se insurgiu uma comichão para que eu viesse às letras.

Se dormi não lembro, porque acho que não.  Fiquei com as entranhas marolando revoltas, como se quisesse me dizer estomacalmente que era hora de vômitos inebriantes.

E por onde remetê-los, aí que nasce essa necessidade de fazer algo. Não fosse esse blog eu perderia vísceras. Não há ninguém, a não ser no anonimato, que me consuma. Que me sabe todo, até a pior parte de mim, pois certo.

Só a criança em mim, travessa e quase rebelde que vaza. Destraumatizada e livre de emboramentes e explicamentos das convenções torpes que separam sonhos de possibilidades, ainda que as circunstâncias assim os determinem.

Eu sei que há hermetismos aqui, daí que eu escrevo para ninguém. Ou não.

Certa vez eu estava em um voo e me coloquei a sonhar, como se não fosse possível minha vida perderia de vez sentido. E assim sonhei inteiro, forte, determinado, intenso e definitivo.

Mas foi aí que, pouco depois, me apaixonei irremediavelmente. Escrevê-lo aqui foi fruto da cegueira e impertinência, próprias de uma criança. Travessa.


Até breve.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

CAROÇO




Pelo menos, duas hipóteses:

PRIMEIRA

O atual mandatário é um aborto da História recente da política brasileira. A maior parte dos eleitores surfou a onda do basta a um conjunto de mazelas de diferentes virulências.

Agora, ungido, mostra quem é: desqualificado para ocupar um cargo de tamanha envergadura. Despreparado psicológica, social, intelectual e politicamente.

Não tem o equilíbrio necessário para suportar o espectro de pressões que a posição sofre e nem é capaz de compreender as ações a serem empreendidas para equacionar e tratar o foco originário das tensões.

Não tem traquejo social que a exposição institucional exige. Alguns membros da família contribuem para alimentar uma percepção extremamente negativa do seu ambiente mais íntimo.

Não tem a menor capacidade para absorver, compreender, analisar, debater e agir no imbricado e hipercomplexo ambiente de decisões de curto, médio e longo prazos.

Não tem partido. É um franco atirador em mais de trinta anos de vida pública.

Portanto, ele é um engodo que resultará em perdas expressivas para o desenvolvimento do país.

SEGUNDA

É um estadista com visão aguçada de longo prazo e tem um projeto com arquitetura de poder para permanecer na posição e conseguir realizar um conjunto de mudanças estruturais pelas quais a maioria da sociedade espera.

Constrói, em torno de si, um bunker no Palácio com a nomeação somente de membros das Forças Armadas para as funções de Governo. O “núcleo duro” de poder sinaliza a que veio. Interna e externamente.

Delega plenos poderes a experts da esfera econômica, capazes de produzir mudanças disruptivas, com boa aceitação no mercado e determinados, para tal, a enfrentar as mazelas da política comezinha.

Age desarticulado da esfera politico-partidária, mas busca afirmar-se em “nichos” de poder não institucionais tanto no alto quanto no baixo clero.  

Suas crenças religiosas possibilitam a celebração de grandes acordos pastorais de largo alcance nas periferias, objetivando garantir a massa de aprovação popular que necessita para disputar e vencer eleições.

Constrói diariamente episódios bombásticos derivados de questiúnculas para criar uma nuvem de fumaça em torno do que verdadeiramente interessa e, assim, desviar a atenção dos controladores da opinião pública, mídia e analistas de conjuntura.

Expõe, às vísceras, as instituições democráticas para justificar suas práticas messiânicas.

Despreza a cultura na medida em que ela é sempre o maior empecilho para os propósitos em que, lideranças como Bolsonaro, se pautam.


Seguinte: este post não ultrapassa a mais uma provocação do nosso editor de Política, que escreve, publica e depois vai pro terreiro chupar jabuticabas.



Até breve.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

QUALIQUANTIDADES




No próximo dia 27 tudo me leva a crer que eu deverei completar 68 anos de vida. Nada mais incerto.

Estudos estimam que a expectativa de vida do brasileiro esteja, em média, em 72,7 anos. Usando parâmetros familiares, no meu caso considerando que minha mãe se foi aos 72, meu pai aos 94 e meu primeiro irmão aos 80, a minha perspectiva de vida contempla 82 anos.

Esta perspectiva impõe aos meus 6 irmãos que, em tese, estão na minha frente na rota do fim, não morram nos próximos 14 anos, pois isto reduzirá por extensão as minhas chances de continuar por aqui dentro desta marca.

Muito bem, nada mais incerto.

Ainda deverei ver Noninha, Tin e Totô na faculdade, se ainda as houver. Lelê, em 14 anos ela estará com 18... Caramba, ela também poderá estar na universidade, claro, se ainda as houver.

4 Copas do Mundo de Futebol, 4 olímpíadas,14 períodos de enchentes bárbaras no início de cada ano, 840.000 assassinatos no Brasil mantida a média atual de 60.000/ano, 14 carnavais, 14 natais, 14 Nossa Senhora da Conceição, 14 finados, 14 Paixão... 4 mandatos de Presidente da República, claro, se ainda os houver.

Na melhor das hipóteses mais 1900 posts e na pior das hipóteses a metade disso, já que deverei continuar sofrendo da necessidade fisiológica de escrever, mesmo que a cada dia com menos eleitores.

Drones e toda sorte de veículos aéreos e/ou terrestres autoguiados; residências sem fios elétricos, fogões, geladeiras e Tvs; corações impressos em 3D, assim como cérebros. Implantes de rostos, de genitálias (claro, se ainda as houver), de cor da pele, número de membros superiores e inferiores.

Miseráveis em profusão.

Drágeas em byes, bebidas em megabytes, e alucinógenos em terabytes. Cocaína, maconha, álcool, nicotina, êxtase, crack só para silvícolas, claro, se ainda os houver.

Arte, qual Arte?

Pois que muito bem, nada mais incerto.

Aos olhos do fim, com leveza, humor, pitadas de ironia pensar algo que ultrapasse ao comezinho, ao ter vivido para trabalhar e pagar as contas, para amar e ser amado, para ter filhos, netos e coisas.

Para não ser um subtroço do subtreco. Nem que seja para si mesmo.

Em 14 anos, 5.110 dias, 122.640 horas, 7.358.400 minutos, 441.504.000 segundos afinal encontrar algum significado por ter estado por aqui neste vale paradoxal de lágrimas e de exuberantes potencialidades.

Minhas limitações espirituais e minha razão pouca não me permitem ousar para além do estertor da bisnaga de carne que findará carniça. Não me ocupo com o depois.

Quero ainda viver uma paixão ensandecida, a ponto de me perder em ilusões. Claro, se ainda as houver.


Até breve.

domingo, 9 de fevereiro de 2020

VERDE





Amanheci com a alma banhada pelas chuvas, por aquilo que as águas nos trazem de melhor: o verde e, com ele, todas as cores naturais.

Da sala de minha casa em Santa Luzia, cidade castigada por enchentes, observo a explosão da mata, como se ela invadisse minha vida adentro com seus galhos e ramos magnânimos.

Claro que falo de privilégio conquistado por mais de cinquenta anos de trabalho profícuo, o que atenua um pouco o desconforto por merecê-lo. Não me isento da barbárie distributiva, mas minha penitência não deve impedir que eu goze daquilo que edifiquei.

Quase mil e duzentos posts editados aqui e para quem leu a maioria deles sabe quão crítico e amargo fui a partir de um olhar para o que se passa.

Hoje não!

Meu coração não se alegra, mas se compraz. Quero agora, enquanto escrevo, que algo ilumine o viver. Coloquei meus olhos, em tempos de seca, sobre a mesma mata que agora me invade. Foi doído. E hoje, ela me diz exuberante: “haverá um novo tempo”.

Não é atoa, então, que colamos o verde à esperança.

Nas inúmeras conversas que tenho comigo, algumas acaloradas e quase de ruptura, e por força de ter me embriagado de Montaigne, saio delas perscrutando com avidez o porvir.

E agora, sinto-o pouco. O tempo que me resta esgota-se mais rápido. Na juventude eu o administrava como inesgotável, abundante, não perecível. Agora, cada segundo é verdadeiramente: nunca mais.

Estou iniciando um trabalho, junto a parceiros que admiro, no qual quero investir o melhor de meus conhecimentos amealhados no percurso profissional e legar algo que de fato signifique.

O advento da avalanche tecnológica arrastando uma Era e inaugurando um tempo absolutamente não sabido nos coloca catatônicos, provavelmente como nunca na medida em que democratiza informações de largo espectro.

"Como será o amanhã? Como vai ser o meu destino? Já desfolhei o mal-me-quer. E vai chegando o amanhecer. Leio a mensagem zodiacal e o realejo diz que eu serei feliz, sempre feliz."

Como será o amanhã?

Há que cria-lo. Dos fundamentos ao êxito, passa necessariamente pela coragem de cada um pela escolha (tarefa mais aguda do processo) de seu propósito.

Nietzsche me ajuda: “Quem tem um quê pelo que viver não se importa como”.

Parece coisa de autoajuda. Sim, é provável que mereça críticas desta natureza. De mim sei que será densa, quase uma alta ajuda.

Quero viver para realizá-lo.


Até breve.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

ERRO




Excelente Fernando Meirelles no Roda Viva da segunda-feira, 03.

Em que pese a insistência (compreensível) de alguns entrevistadores em questionar a veracidade dos fatos narrados no DOIS PAPAS, Meirelles conseguiu passar as razões pelas quais filmou mais uma bela peça para o acervo de sua filmografia.

Gosto de Meirelles. Podíamos ter mais intelectuais como ele. Humildade, assertividade, maturidade intelectual e política e, para meu encanto, agnóstico que é (como acho que sou), foi fundo na questão da espiritualidade.

Logo no início do programa ele enuncia a estrutura dos temas que quis contemplar na narrativa e chama a isso de “camadas”.

Um dos temas, talvez central, quer tratar de tolerância. Meirelles supõe ser necessário trazer esta reflexão tendo em vista a polaridade em todo o mundo e até mesmo na casa de cada um de nós.

Ao colocar os dois personagens, indivíduos de convicções antitéticas profundas, ele nos convida a pensar sobre o diálogo que se faz imperioso tanto na micropolítica (nosso dia-a-dia) como na macropolítica (no caso, dois indivíduos representantes de uma instituição do porte da Igreja Católica).

Outra abordagem é a questão da culpa e do erro. Para ele o erro é vetor natural para a evolução, inclusive na natureza. Disse-se adepto ao erro e que vê em sua criação inúmeros que o fazem crescer. Uma forma polida e inteligente de responder àqueles que insistiam em apontar os equívocos do diretor no filme.

“Não é um documentário, é ficção.”

Há ainda a distinção entre MUDANÇA e CONCESSÃO, belíssima abordagem trazida de decisões impactantes como aquelas que os dois personagens querem sugerir.

Fui fisgado por todas as camadas, mas me encantei quando ele perguntado se por ter que embrenhar-se nas questões da religião ele não sentiu abaladas as suas convicções.

“Pelo contrário, reforçou minha crença de que sim, há uma entidade que nos vela, maior, não uma figura que nos penalize, mas uma ordem de todas as coisas”.

Meirelles contribui com conduta simplória, despojada, terna e firmeza intelectual para um pouco de iluminismo nesta densa nevoa obscura que paira sobre nossas mentes e corações.

Mudando de assunto, mas com algum vínculo temático, assisti ontem no Arte1 a um documentário produzido por TV francesa sobre Inhotim. Como todos sabem nenhuma galeria e nenhum museu em todo o mundo consegue expor o que ali está e poderá vir a receber pela magnitude do porte das obras.

Bernardo Paz figura central do documentário (não é ficção), ex-marido da maravilhosa Andrea Varejão e fundador do Instituto, é privilegiado com a última fala, daí meu vínculo com o filme de Fernando Meirelles.

“Eu cometi inúmeros erros na minha vida, podem me questionar por isto, podem falar mal de mim... Mas ninguém poderá falar mal de Inhotim.”

Pois é.


Até breve.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

EQUAÇÃO





Cultura no do Turismo ou Turismo no da Cultura? Não é um debate irrelevante olhado sob a perspectiva econômica.

Colocada à margem a questão mais “nervosa” que diz respeito à identidade, tanto das maravilhas do “país bonito por natureza” quanto à produção artística, vale a pena “pensar” (como propõe Regina) a questão.

O Brasil é um diamante bruto de alto quilate a ser explorado. Nosso país tem um patrimônio vastíssimo e diversificado de oportunidades a serem estimuladas através de investimentos na indústria mais limpa do mundo.

Tem clima sem extremos expressivos, um mercado de oferta de mão de obra abundante e um calendário amplo, eclético e original de eventos culturais ímpares e extraordinários, além de uma beleza natural com milhares de espaços contemplativos de tirar o folego.

Há, no entanto e historicamente, a dilapidação gradual e contínua da marca BRASIL para o consumidor local e externo.

BRASIL é um “produto” que está com a marca arranhada pela “guerra civil”, pela corrupção endêmica e por um governo travado pela impossibilidade objetiva de, no curto prazo, viabilizar programas de fomento e desenvolvimento da indústria do turismo e de bens culturais.

2020 contempla um orçamento com mais de R$100bi de déficit e a administração atual não cometerá as mesmas soluções mandraquianas de criar incentivos via renúncia fiscal, expansão delirante do consumo e, naturalmente, pedaladas. Quem cometeu deu no que deu.

Reformas fiscais e administrativas são vitais e de expressivo impacto (estão sendo implantadas com décadas de atraso), mas vão dar retorno lá pelo final dos anos 30.

Não conheço nenhum movimento e não encontro lideranças capazes e ousadas o suficiente para pensar uma virada de expectativas no produto e na marca que faça dolarestur inundarem o país.

Julho de 2013 não resultou em um levante que pudesse alimentar corações e mentes para uma revolução que colocasse o país em rota de crescimento e desenvolvimento sustentável.

Estados como Minas Gerais, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, sinistrados durante anos por bárbaros sanguessugas e vitimados recentemente pela revolta da natureza, estão lançados à mingua de seus recursos para custeio da máquina.

Sim, o turismo e bens culturais deveriam ser a nossa escolha estratégica como catapulta ao crescimento, mas a Cultura brasileira ocupada por questiúnculas patrocinadas por suas expressões históricas mais celebres, e que encontra acolhida e eco nas redes sociais, acaba obnubilando qualquer reflexão mais profunda e tira do debate cérebros melhor credenciados para “pensar”.

De qualquer maneira, Regina, eu acho que você fará um belo trabalho à frente da Cultura, conciliando as intrigas e maledicências de “artistas” que, atualmente estando de mal uns com os outros, farão as pazes para surpresa e delírio geral da nação.


E assim, é de todo provável que, por extensão, famílias inteiras, casais, amigos históricos se reconciliem e esqueçam de vez pendengas escatológicas e histericológicas.

Não é pouco.


Até breve.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

DESHORIZONTE





Ah, sombrio horizonte!!!

Capital (ah palavra de significados!!!) das terras indevolutas de riquezas gerais!

Ah, cidade de meu berço natal e aonde depositarão, em uma campa, aquilo de sólido inerte que sobrar de mim!

Ah, estado das montanhas que nos ensimesmam em nossa mineiridade! Ah, meu canto, meu lugar, minha terra, meu céu, meu triste horizonte!

Ah, figura simbólica da tragédia humana, mais nítida da atualidade! Ah, musa histórica para meu canto de dor! Ah, evidências mais do que concretas que as imagens televisivas e escândalos decorrentes explicitam!

Séculos de barbárie exploratória solapando riquezas e as distribuindo das formas mais sórdidas e vis, que nem inconfidências sangrentas foram capazes de suspender. Enforcaram todos aqueles que denunciaram. E ainda o fazem dissimulada, maquiavélica e deliberadamente.

Curral del Rey está plantada sobre um equívoco. De todas as naturezas, inclusive com um profundo desrespeito à própria. Sufocaram seus córregos e rios, mas eles não faleceram através dos tempos. Ainda tramam nos subsolos de avenidas escuras aguardando que o céu precipite forças para que rompam e retornem aos seus leitos naturais.

Como o Córrego do Leitão, que, com o aumento da densidade populacional em sua bacia, havia se tornado extremamente poluído. Na década de setenta, decidiu-se, então, por canalizar e fechar o córrego e construir a Avenida Prudente de Morais, com o objetivo de melhorar o fluxo viário na região, cuja expansão se dava de forma acelerada e de aguçada volúpia capital.

Foi ele um dos que se rebelaram a partir do rompimento da Barragem Santa Lúcia que o continha. Voltou por cima, soberano, ávido por reencontrar suas margens e seu curso de origem e direito. E os homens assustados o reconheciam: “Parece um rio”...

Somadas a todas as águas trazidas por força de algo sabido e explicado por especialistas (a configuração montanhosa da cidade, o calor advindo de seus concretos e a falta de permeabilidade) desaguou adiante em Marília de Dirceu, a Praça.

Trágico o que construo revisitando Tomaz Antônio Gonzaga, um dos inconfidentes. No poema dele, Marília de Dirceu, ele faz culto à natureza (ao pastoralismo, a vida em harmonia com o ambiente e repúdio à vida citadina).

Um dos moradores em edifício da Praça: el Rey. Da janela de seu apartamento o prefeito, que gosta de dizer-se culpado, assistiu a pujança das águas. 

Não, senhor prefeito, não traga para si o privilégio da culpa, como mais uma demonstração da vaidade insana que grassa nos governantes.

A culpa continua em nós que, nos dias presentes, enforcamos Greta.



Até breve.

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

PROPOSITO






Eu estava em Paris e o cinema completava 100 anos. 

Nas paredes dos portais da Praça Trocadero acontecia projeção de diversas cenas antológicas produzidas pela Sétima Arte. A cidade luzia. Os jardins da praça de 90.000m² exalavam um perfume de dar nos nervos.

Sempre me encantei com o cinema.

Ontem fui assistir 1917. Concorre ao Oscar e, embora eu já tenha meu favorito, devo considera-lo cinema na veia. Sam Mendes dá um show de direção e nos coloca em cena junto aos atores durante toda a projeção.

Dado momento observei, tanto quanto eu, pessoas se mexendo nas poltronas. As câmeras, suponho embarcadas em drones, fazem com que nos arrastemos, assustemos, transpiremos, enfim, expericiemos tudo o que o filme pretende mostrar.

A cinematografia é uma das áreas que mais tem aproveitado do avanço tecnológico, está sempre explicitando o estado da arte e adiante de seu tempo. 1917 é uma prova contundente de quanto os meios contribuem para os fins a que se propõem os seus brilhantes produtores.

Cenas como a da queda do avião bombardeado em combate é um primor da tecnologia conjugada com o brilhantismo da direção. Difere de tantas apelações computadorizadas de filmes corriqueiros e exclusivamente comerciais, e nos coloca diante de uma visão muito próxima daquilo que nos parece verdadeiramente real.

 “O grande foco do diretor Sam Mendes é contar uma história sobre o homem e não sobre a guerra em si. Com tal abordagem, 1917 nos faz refletir sobre o que pode levá-lo mais adiante: a vontade de voltar para casa ou o senso de responsabilidade para com sua pátria. E, dessa forma, o diretor transforma seu filme numa jornada repleta de emoção e altos e baixos. É uma experiência definitivamente imersiva e muito intensa – e o fato de Mendes ter estabelecido uma narrativa no formato de um falso plano-sequência é o que amplia as sensações que o público receberá sem qualquer resistência.” (Crítica A guerra em primeira pessoa, por Barbara Demerov, no site Adoro Cinema).

Mesmo que o roteiro em si seja banal e recorrente, a trilha sonora, a iluminação, as locações e os, suponho, caréssimos cenários dão um elevado padrão de qualidade ao filme.

Quero voltar a Trocadero daqui cem anos e me sufocar de luzes e de perfumes. De quebra revisitar emoções vividas a partir de cenas projetadas nos portais da praça.

O cinema assim o permitirá.


Até breve.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

MARCO




Marcos, talvez por isto seu nome, abriu a sequência familiar. Foi o primeiro a chegar e o primeiro a sair. Vlad, meu filho, quem me deu a notícia. Disse-me que Grácia, a sexta, estava tentando falar comigo e não conseguia.

Ele se foi como nossa mãe: de um colapso fulminante, privilégio reservado somente aos melhores. Quando falei com Franciane, minha sobrinha, ela confirmou.

- É tio, eu estava falando exatamente isto. Papai se foi como um passarinho e como vovó. Só os bons se vão assim, né?

Tempão que eu não falava com Marcos, mais de duas décadas ou mais. Ele viveu sempre na dele, ensimesmado no seu mundo pequeno, recolhido como um bichinho acuado.

No novembro passado ele fez oitenta anos, nisso diferiu de nossa mãe, no que diz respeito à ida. Ela se foi com setenta e três do mesmo jeito que ele. Assim, vapt!

Franciane disse-me que ele estava conversando com Bárbara, a esposa, e do nada parou. Tudo.

Continuará vivendo em mim. Marcos não ocupava um espaço, para mim sempre foi um vazio, nunca o vi fazer mal algum a ninguém e nem opinar sobre qualquer assunto.

Na juventude ele tinha apelido de Risadinha. Na alegria e na tristeza. Levou a vida, essa que ainda está comigo, assim: sorrindo. Só rindo.

Notícia que tinha dele, mais recente, era de que ele criava galinhas e com elas conversava efusivamente. Imagino os segredos que deveria ter com elas através do silêncio.

Franciane levou o pai e a mãe para morarem com ela em Anápolis, Goiás, logo depois que Chico, seu único irmão, faleceu. E isso já faz para mais de duas décadas ou mais.

Grácia, a sexta, me perguntou se eu iria para o descimento. Num primeiro momento achei que deveria, depois desisti porque só iria para ficar dentro de determinados conformes. O corpo se vai. Marcos está em mim enquanto eu viver. Quem morrerá sou eu e, comigo, todos.

Inadvertidamente fui eu quem deu a notícia para Lourdinha, a segunda, a que tem o coração tamanho de um trem e só fala aos gritos, pela descendência espanhola, eu acho.

- Ô seu danado, que não fala com ninguém, por que cê tá me ligando? Morro de saudade docê, tá tudo bem?

- Ainda não chegou para você a notícia?

- Quê notícia?

- Agora nós somos nove.

Marcos e Bárbara são padrinhos de batismo de Pretinha, minha filha. Quando falei com ela do acontecimento Pretinha me disse que se lembrava das bonequinhas de pano com que a madrinha a presenteava na infância. Bárbara é uma eximia bordadeira e costureira.

Em fim.

Grácia foi com o marido Josevan e Lourdinha para Anápolis ontem à noite. Depois disso não soube de mais nada. E prefiro que continue assim.

Dando uma de Risadinha.


Até breve.


quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

IDÍLIO




“Não faço questão de ser feliz, ainda prefiro a vida.”



Pretinha chegou dia 18 de dezembro para o Natal. Por causa dela, minha festa natalina aconteceu até ontem à noite, não porque ela ainda estivesse conosco. No último domingo nos despedimos em Florianópolis e ela retornou para Lages, onde mora.

- “Pai, estou lendo um livro que o cara escreve igual você... Não consigo parar de pensar em você enquanto leio.”, como se pensasse em mim somente quando lê alguém que também escreve.

- “Pai, você tem que ler esse livro. É incrível! Vou te dar ele de presente de Natal.”.

Ela repetiu esse deslumbramento inúmeras vezes, e aumentou a intensidade do interesse em que eu lesse o livro depois que o me entregou na noite de Natal.

- “Você já começou a ler?”, me perguntou “n” vezes até mesmo em Jurerê onde estávamos juntos até o último domingo.

- “Como? Seus filhos não me largam durante o dia todo, à noite não quero outra coisa senão dormir.”.

Nunca vou me esquecer desse Natal pela preciosidade com que Pretinha me presenteou.

A VIDA PELA FRENTE, apesar de ter sido publicado a primeira vez há mais de quarenta anos, parece mais atual do que nunca.

Momo, um garoto muçulmano que acredita ter dez anos de idade, vive sob os cuidados de uma senhora judia chamada Madame Rosa. Sobrevivente de Auschwitz e mais tarde prostituta em Paris, ela está aposentada e cuida de diversas crianças em seu apartamento.

O centro do livro é o amor de Momo por essa mãe postiça. Seu maior medo é a morte dela – e enquanto se preocupa com remédios e diagnósticos, convive num caldeirão multicultural atravessado por intolerância e pobreza, mas que a seus olhos ingênuos parece um mundo idílico de adultos bondosos.

Da fricção entre a inocência do narrador e a brutalidade do mundo a seu redor sai a força de um dos romances mais cativantes da literatura francesa recente.

Vocês têm que ler esse livro! É incrível! Eu terminei de lê-lo ontem.

Para convencê-los, além da epígrafe deste post, pincei alguns trechos:

“Acho que são os injustos que dormem melhor, porque eles estão se lixando, ao passo que os justos não conseguem pregar o olho e esquentam a cabeça por qualquer coisinha. Do contrário não seriam justos.”.

“Eu por mim acho que os judeus são pessoas iguais às outras e que não devemos querer mal a eles por isso.”

“Madame Rosa dizia que o Dr. Katz era da clínica geral, e é verdade que havia de tudo no consultório dele, judeus, claro, como em toda parte, norte-africanos, para não dizer árabes, negros e todo tipo de doenças.”

“As coisas mais difíceis de curar não são as doenças.”

“Quanto mais a gente se conhece, menos é bom.”

“Eu não brincava com os outros pirralhos, eles eram pequenos demais para mim, a não ser para comparar com outros pintos, e Madame Rosa ficava furiosa porque tinha horror a pintos por causa de tudo que já tinha visto na vida.”

“Quanto a mim, heroína, cuspo em cima. Os meninos que se picam ficam todos viciados na felicidade e ela não perdoa, pois a felicidade é conhecida pelos seus estados de abstinência.”

“A felicidade é um belo de um lixo muito cruel e precisava de alguém que a ensinasse a viver. Nunca fiz política, porque isso sempre beneficia alguém, mas a felicidade deveria haver leis para impedi-la de ser canalha.”

“Eu queria ir para muito longe, para um lugar cheio de outra coisa, e até procuro não imaginar para não estragar. Poderíamos manter o sol, os palhaços, os cachorros, porque não é possível fazer melhor no gênero.”

“A vida pode ser muito bonita, mas ainda não a descobrimos de verdade, e enquanto isto é preciso viver.”

Vocês têm que ler esse livro! É incrível!

“Um dia, vou escrever os miseráveis também.”, diz Momo a um senhor amigo que vive com o livro de Victor Hugo nas mãos.

Émile Ajar, em 1975 ganhou o mais importante prêmio literário da França e o livro tornou-se um dos romances mais vendidos do século XX. Quatro anos depois, quando o autor morreu, descobriram que Émile Ajar era um pseudônimo de Romain Gary, um dos escritores mais populares da França e já premiado com o Goncourt em 1956 (o prêmio não pode ser concedido duas vezes à mesma pessoa).

Fosse o último exemplar disponível no mundo e eu o encontrasse na Atlantis Book (vide post anterior) eu pagaria por A Vida Pela Frente tudo o que eu pudesse chamar de minha riqueza. E o guardaria debaixo do colchão de meu beliche.

Filha, para expressar seu amor, não exagere. Seu pai poderá acabar acreditando.


Até breve.