quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

VINTEUNS

 




Quero fazer desta foto uma parábola carregada de sentido.

Quero carregá-la de metáforas que sinalizem um novo tempo.

Não só minhas netas, mas os meus netos são simbolicamente o meu porvir. Todo o meu legado.

Quero olhar para a vida com esta expressão.

Há que endurecer-se sem jamais perder a ternura. Esta frase não é minha, embora eu a sinta como o fosse.

Faço careta a tudo o que está aí de abominável, torpe, vil.

Coloco a língua para fora e repudio todo ato que não enderece à paz.

Zombo daqueles senhores das regras, da moral e dos bons costumes embarcados em tenebrosas intenções e sórdidos interesses.

Vou ao encontro de todos os meus atos de amor, sem censura e sem amarras de qualquer natureza, mesmo que eu possa desagradar a gregos e/ou troianos, crentes e/ou ateus, negros e/ou brancos, homo e/ou héteros, e até mesmo aos perplexos.

Não estou obrigado a carregar o peso do mundo, já me basta a insustentável leveza do meu ser.

Quero o olhar brilhante, energizado por um humor valente e singelo, que possa irradiar aos outros um resto de esperança.

Ponho a língua de fora, infantil e deliberadamente ao feio, ao abjeto, ao falso.

Quero a beleza.

Toda ela e com toda intensidade.


Até breve.



PORRE

 



"O mundo não é como esperávamos.”

Esta frase é dita por um dos personagens do longa dinamarquês que a Academia Europeia de Cinema (EFA, na sigla em inglês) consagrou do diretor Thomas Vinterberg, como Melhor Filme Europeu do ano. Grande vencedor da cerimônia de premiação, que aconteceu de forma virtual "Another Round" conquistou todos os quatro troféus a que concorria, incluindo ainda Melhor Direção, Roteiro (também de Vinterberg) e Ator (Mads Mikkelsen).

Ecoa em 2020, ecoa nessa sombra artística embaçada pela pandemia ecoa na profusão de factóides em que vivemos, a história de quatro amigos, que estão literalmente estagnados na vida.

Durante um jantar entre eles – todos professores (entre 40 e 55 anos) contemporâneos em situações similares – surge um debate acalorado acerca da teoria do psiquiatra norueguês Finn Skårderud de que os seres humanos possuem um déficit de teor alcoólico no sangue, que deveria ser compensado diariamente para uma vida mais plena. Achando que não têm nada a perder, eles decidem testar essa hipótese, o que desencadeia uma louca e tocante sequência de eventos.

Inspirados por essa teoria, e principalmente focados no deprimido e deprimente Martin (Mads Mikkelsen), o grupo com o desejo de escapar da rotina diária, começa a experimentar grandes quantidades de álcool, e os primeiros resultados da experiência são animadores, injetando energia nas suas vidas e galvanizando os alunos com mais confiança e entusiasmo do que o normal.

À Martin falta disposição, encorajamento, falta despertar do torpor onde o mundo o jogou, esvaziado em algum momento entre o casamento e o agora. O personagem perdeu a motivação não apenas no trabalho – onde vem sendo chamado a atenção – como também em casa, transformada em um modelo robotizado de família industrial, sem paixão e sem entrega. Quando uma faísca alcoólica o acerta junto a seus três companheiros de quadro negro, o que parecia uma saída obviamente se mostrará o real labirinto.

Vale à pena assistir pela maravilhosa trilha sonora e por, pelo menos, três cenas brilhantes:

1.    quando eles tomam o primeiro porre pesado e, posteriormente, há uma sucessão de quedas no vazio da escuridão, onde as imagens e sua luz por si só já constroem um texto imaginário sem falar nada;

 

2.    a seleção de imagens de líderes mundiais bêbados, um registo documental irreverente que encaixa na perfeição nesta viagem ao fundo dos copos.

 

3.    A cena final, uma das mais belas cenas do ano, um tour de force completo que vai do calcanhar aos fios de cabelo e coloca a celebração e a efervescência que o estado alcoólico, quando bem dosado, pode levar ao humano.

Oportuno e necessário por este momento de ressaca mundial; este entorpecimento no mundo de hoje, uma paralisia seguinte a um furor alucinante que nos prometeu soluções, consertos e qualidade de vida. Se nem a Dinamarca viu esse momento contemporâneo acontecer por completo, fica até difícil cobrarmos uma evolução no Brasil.

 

Até breve.

domingo, 20 de dezembro de 2020

ESCOLHA

 



Amar intensa, deliberada, revolucionária e ideologicamente.

Amar a si acima de todas as Coisas, para dar o melhor de si a cada um como se este fosse único, mesmo que por tanto e de tanto amar não se com prenda.

Amar alguém de todas as maneiras e fazê-la ponte para cruzar toda uma vida. Amá-la da adolescência à decrepitude, gastando de si toda a energia e potência.

Amar os frutos deste Ato, todos eles e a cada um.

Amar ainda o inominável apesar de todas as circunstâncias contrárias e guardar para todo o sempre.

Amar o trabalho, amar a milhares de pessoas que por ele passaram e levaram todo o melhor do que dele resultou.

Amar cada milímetro de sua morada, cada barro, tinta, grama. Cada flor. Amar cada parte daquilo que se edificou como um gesto de humanidade e nunca de fasto.

Amar a terra sobre qual edificou esta morada, ainda que de suas entranhas saiba tão pouco, amando o extraordinário mistério do que lhe germina.

Amar o pomar atras da morada, sua macieira, pereira, laranjeira, limeira, limoeira e, especialmente, amar o que se produziu de uma sementinha trazida de Elche na Catalunha à beira do Mediterrâneo, dos fundos da casa do avô paterno e torná-la exuberante árvore que desabrocha seus primeiros frutos. AMEIxa.

Amar seus antepassados e fazer fluir o prolongamento no sangue da essência de uma história humana particular e universal.

Amar a escrita, através da qual busca inscrever-se.

Amar a letra, a música, a melodia, a harmonia, o som.

Amar o silêncio.

Amar a solidão profícua, a existência, o tempo.

Amar a poesia, o simbólico, tornando-a veículo em que se embarca a Vida.

Amar sobretudo e sobre tudo o direito e a liberdade de só amar.


Até breve.


quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

INSANAIDADE

 


Final de ano, tempo para balanços. E eu me permito balançar para além do tempo que finda. Este ano atípico, sui generis, pandêmico.

Formulo, próximo de alcançar (pelo menos eu espero) sete décadas de vida, uma síntese.

Ao longo desde período, que observei através de minhas mais do que desfocadas lentes, fomos governados por três tipos de figuras históricas: os ditadores de meio-coturno, os gangsteres e os transloucados.

É fácil, suponho, de encontrar os sujeitos e as categorias aqui apontadas para classificá-los. Vamos ter pouca polêmica entre nós, o que é uma pena. Pólen é o órgão das plantas que as fazem germinarem.

Vamos lá, então.

Na categoria de ditadores de meio-coturno, combatidos por revolucionários à moda de exércitos de Brancaleone e sem Sierra Maestra, temos aqueles que se autonomearam como tal e, portanto, desnecessário lembrá-los. Talvez Medici, o mais cruel, Figueiredo (o amante de cavalos e não de povo), e Geisel, este sim que nos deixou uma das pérolas da época: “Vamos conceder a liberdade vigiada”.

A dos gangsteres, aqui em que pese nauseante, aponto apenas os mais torpes: Dom Sarney de Los Marimbondos de Fuego, Dom Marcos Maciel El Varapau, Dom Paulo Maluf de El Comtex, Dom Antônio Carlos Magalhães El Imperador del los côcos, Dom Michel Temer El Verdugo e, El Major traidor del a Esperanza, Dom Lula.

Na categoria de transloucados, que fizeram enriquecer nossos melhores e sagazes humoristas: Jânio, Itamar, Collor e Dona Dilma. Difícil apontar aquele mais caricaturesco ou mais trágico, senão fosse cômico.

Este que está aí? Deixo com vocês a tarefa de classificá-lo.

Desde que ele subiu a rampa do Palácio da Desarvorada eu perdi o interesse de me ocupar com este assunto.

Até chegar aos setenta, devo catalogar trezentos ou quatrocentos mil acessos no blog. Não é muito, aliás é muito pouco, para quem (transloucado) imaginava vestir-se de libélula na entrega de prêmio na Suécia.

Os próximos anos? Estou a criar galinhas, no máximo entre 15 e 16 e um galo.

Vera sempre me questiona como que um homem que vai fazer sessenta e nove anos em fevereiro do ano que vem, se é que ele vem aí, não sabe cuidar de um galinheiro.

Pois é.


Até breve.


domingo, 13 de dezembro de 2020

TORTO

 





A professora perguntou para quem ela gostaria de fazer um cartão de Natal.
- Para o vovô!
Os pais providenciaram cartolina e uma folha de papel. Lelê pediu ao pai uma foto dela. Dobrou a cartolina e colou a foto na frente. Fez um desenho de duas figuras humanas, escreveu Feliz Natal Vovô e colou no verso. Dobrou a cartolina.
No domingo estava na casa dela e ela veio me entregar.
- Vovô, tá torto...
É que ao abrir o cartão a gente vê o desenho de cabeça pra baixo.
Estou torto até agora.

Até breve.


sábado, 5 de dezembro de 2020

EPITÁFIO

 


Amigos queridos privilegiaram-me com comentários instigantes e complementares no último post, pelo que agradeço imensamente.

Em alguns o retorno é de que o texto os levou a refletir. Sou marcado por esta palavra. Refletir é pensar o já pensado, só que em “outro lugar”.

Contamos o tempo para que, o instante seguinte, possamos fazê-lo diferente. E diferente deveria significar para melhor. A gente sabe que não é bem assim. Não aproveitamos o tempo tanto quanto deveríamos para aquilo que acabaria se configurando como o melhor.

Extremei no texto o colapso do tempo, que é a morte. A parada da contagem. O desligamento definitivo do cronômetro. O nunca mais.

Estive em reuniões de trabalho presencial na quarta-feira e soube lá que um dos participantes estava com suspeita de ter contraído o vírus o que veio se confirmar anteontem.

Sou obrigado a confessar que a possibilidade de eu ter sido infectado modifica substancialmente o meu olhar para a questão. “Não vai acontecer comigo” é uma das expectativas mais frustradas a que estamos expostos.

Aquilo que é provável quando se torna iminente, nos expõe ao óbvio. E é o óbvio que nos escandaliza, como queria Nelson Rodrigues.

Até que passe o período da eventual encubação para se confirmar ou não a positividade em um inevitável exame, aguça em mim a reflexão.

Devia ter amado mais
Ter chorado mais
Ter visto o Sol nascer
Devia ter arriscado mais
E até errado mais
Ter feito o que eu queria fazer

Queria ter aceitado
As pessoas como elas são
Cada um sabe a alegria
E a dor que traz no coração

Devia ter complicado menos
Trabalhado menos
Ter visto o Sol se pôr
Devia ter me importado menos
Com problemas pequenos
Ter morrido de amor

Queria ter aceitado
A vida como ela é
A cada um cabe alegrias
E a tristeza que vier

O acaso vai me proteger

Enquanto eu andar distraído

O acaso vai me proteger

Enquanto eu andar

 

O acaso vai me proteger é uma das afirmações mais tolas.

Acaba em Epitáfio. Ainda que, também, poema belíssimo dos Titãs.


Até breve, espero.


sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

CHANCE

 


Permito-me pensar diferente daqueles que entendem que 2020 deva ser riscado da contagem do tempo. Era melhor que ele não tivesse acontecido.

Antes pelo contrário.

2020 deve ser considerado como um marco na medida que nos universaliza a todos enquanto seres humanos, únicos que temos consciência de nossa finitude.

Devíamos ter presente o óbvio: viver como se estivéssemos mortos.

Isto mesmo, assim.

A hipótese, crença inabalável ou real possibilidade que há “outra vida” para o além desta, ainda que permaneça, deve levar em conta de que esta vida agora tem fim. E ele ficou mais iminente na medida que amplificou o risco de todos em perdê-la.

E de todos, MESMO!

Assim, tornou-se urgente o viver e como quer a Rita, para poder gozar no final. Tempos atrás fomos impelidos a usar camisinha, agora máscara. Camisinhas são preservativos para aqueles restritos à um grupo de risco.

Máscara está para todos.

Perguntadas algumas pessoas em situação de risco iminente de perda da vida, sobreviventes de acidentes aéreos, doentes terminais, e outras, é quase unânime a resposta: se eu conseguir sair desta, mudo a minha vida.

Pois está posta esta questão.

Aproveitaremos 2020 se tirarmos dele o entendimento de que devíamos viver como se estivéssemos mortos.

Mesmo que advenham vacinas que abreviem o inevitável.


Até breve.


quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

SEM FOTO

 


Juro que não tenho lido e nem visto Notícias.
Mas é que essa lista de "detratores", "neutros informativos" e "favoráveis" me causou.
Fiquei triste por não encontar a classificação na qual me encontro.
De Idiota, como queria Brecht.

Até breve.

quarta-feira, 25 de novembro de 2020

VERBO

 






“Siga seu luar interno; não esconda a loucura. Noticie o que você noticia”. 

(Allen Ginsberg)

 

Não estou bem certo, acho que me disseram que foi, nos idos dos anos 70, um político mineiro quem disse: “O que importa não são os fatos, mas a versão que damos a eles.”.

A modernidade digital exponenciou os efeitos dessa assertiva. Especialmente em tempos globais de distanciamento, recolhimento, solidão compulsória.

Versão não é fake nem trolls, embora dependa de quem as produza e suas intenções. Assim como os fatos.

Factóide não é versão, embora dependa de quem o produza. Assim como as versões.

O que vale dizer que o que é, depende.

A Rede Globo, no Brasil, assim como a RAI, na Itália, e tantas outras redes criaram uma versão de país. A rede digital cria uma versão do mundo. Não há nada que passe sem um like.

Parece claro que a linguagem explicita o individual e o coletivo, tanto consciente quanto inconsciente. O que vale dizer que estamos todos em uma rede de versão dos fatos (sem trocadilho). Se é que eles, de fato, acontecem.

Coloque uma pitada de influencers, que proliferam aos milhares fixando marcos de referência para construir versões tácitas.

Dizer que, portanto, tudo é uma mentira cabeluda, não é de todo uma verdade. É apenas uma versão.

Ou então, uma aversão a tudo que está aí.

Se me perguntarem aí é onde, juro que crio um verso. O único lugar em que se encontra toda a verdade.

Um poema.

A beleza salvará o mundo.


Até breve.

terça-feira, 17 de novembro de 2020

CERCAS

 




 

Não sei se já disse aqui, mas a pandemia me levou para Santa Luzia. Tenho ficado lá com mais regularidade em períodos mais extensos ao longo da semana. Era inevitável que eu fizesse uma reforma. Mais tempo, mais observação.

Havia anos que eu tinha a demanda de construir um galinheiro. Claro, para os netos.

Até aqui ninguém invadiu os aposentos dos galináceos para subtrair-me uma das espécies. Há uma certa segurança, já que minha morada faz parte de um condomínio fechado (acho muito louco isto) e, supostamente, ladrões de galinha encontrarão mais dificuldade para sua lida diária.

O mesmo parece não ocorrer com as redes sociais, condomínios fechados portadores de selinhos que demonstram que as moradas virtuais são autênticas e seguras, a cada dia mais vulneráveis a todo tipo de puladas de cercas.

Declaração de representante no Brasil do Instagran, publicado no Estadão de hoje:

“Hackers que tentam obter acesso às contas do Instagram diversificam constantemente suas táticas para escapar das proteções que o Instagram coloca em prática. Mais recentemente, observamos uma tática pela qual hackers tiveram acesso a contas verificadas e alteraram as informações do perfil para sugerir uma afiliação com o Instagram, por exemplo, “instagramsupport”. Essas contas verificadas enviam links e mensagens suspeitas para usuários do Instagram, na tentativa de assumir o controle de suas contas também. Tomamos diversas medidas para interromper esse comportamento, incluindo: remoção de contas que tentam se passar pelo Instagram; acesso restaurado a muitas dessas contas para seus legítimos proprietários; aperfeiçoamento dos nossos sistemas para melhor detectar este tipo de comportamento”. 

O meliante, em geral, tem três diferentes motivações: a primeira é a prática de extorsão; a segunda é para alterar ou excluir o conteúdo; e a terceira é para se passar pelo dono da conta. 

Começo a pensar em substituir minhas duas cadelas dóceis de enjoar, por dois dobermans ou filas ou pitbulls.

Ou então fechar meu galinheiro.


Até breve.

sábado, 14 de novembro de 2020

EUFOPRÊ

 





Estou eufórico.

Deixo pra outro texto minha faceta deprê. Se bem que, como nunca sei onde vou parar quando escrevo, alguma chance de melar um estado de humor está sempre presente. Meu alto e autodiagnóstico me coloca oscilando nos extremos, com regularidade.

O motivo da alegria (próxima à euforia) é que hoje atinjo no blog a marca dos 210 mil acessos. Não é pouca coisa, mesmo considerando que 91,43% deles são de procura no Google pelas palavras que intitulam os posts. Aceito manifestações contrárias, especialmente aquelas a meu favor.

Não foi sem razão que resolvi que todos os posts receberiam, como título, uma única palavra. A outra motivação é a de que, como quer uma das máximas da melhor filosofia de botequim (butiquim, para os leigos): “Para o bom entendedor, meia palavra basta”.

Como vivemos em tempos de obscurantismo fui logo dando a palavra inteira, na expectativa insana de que afinal, com o dobro de letras, eu pudesse fazer alguém entender alguma coisa.

Depois destes anos todos, duplo, nunca sei exatamente quanto resulta minha escrita. A quase totalidade de pessoas que me acessam são seres nublentos (não procurem nos dicionários), mas quis dizer das pessoas que vivem em minhas nuvens.

Gente que eu não sei a estatura, a cor exata dos olhos, o perfume atrás da orelha, e, para falar a verdade, nem se são pessoas de carne, osso e outros ingredientes que os tornem assemelhados a mim.

O que é mais interessante nestes seres é que alguns comentam meus textos, e com tal proximidade que fico achando que eu também vivo nas nuvens, e não aqui nesta minha bisnaga de carne que me torna sujeito vivente portador de identidade, cadastro de contribuinte e eleitor.

Alguns, eu tenho a nítida sensação, nutrem um afeto expressivo para comigo a ponto de manifestarem-se preocupados, quando eu me mostro down, ou estimulados, quando eu me desaguo no outro polo.

Teve uma vez, antológica, que eu me suicidei num texto e alguns pediram fervorosamente que eu não fosse ao ato, já tendo o feito. Outros que comentam recomendando atitudes, comportamentos, reações para que eu dê um encaminhamento à minha vida.

Curto tanto que, já de há muito, não curto mais. Amo. No face, todo comentário que recebo respondo com um coração vermelho: AMEI. Aliás, no face, meu recorde de acessos em um único post foi, acho, mais de 300. Tinha uma foto do pé de lichia aqui de casa carregadézimo, às vésperas de um natal. As pessoas babaram na página.

Assim, como nesta fase, a foto de Totô e Lelê, está perto de atingir 200, mesmo já não estando tão doce.

Para manter-me coerente com meu diagnóstico, aproveito para recomendar dois filmes: o alemão candidato ao Oscar de 2020, TRANSTORNO EXPLOSIVO e o chinês de Hong Kong, MAD WORLD.

Ambos tratam de desamparo. No primeiro, a personagem é uma criança e no segundo um adulto, bipolar.

Assistam e curtam. Ou melhor, amem.

Amém.


Até breve.





quarta-feira, 11 de novembro de 2020

TORPOR

 



Arrebatador! Sufocante!

Diante da última cena, emudeci.

Não me lembro de ter experimentado sensação semelhante ao final de um filme.

A explicitação do desafeto e as consequências em uma criança são, sem concessões, objeto da narrativa. Não há contemporizações romanescas. Crua crueldade.

O humano e o desumano estão ali, dramaticamente vivenciados na extraordinária interpretação da jovem atriz.

Até breve!

sábado, 7 de novembro de 2020

SILKS

 


Estou em um resort no litoral baiano. Diante da minha solidão e do silêncio ondular do mar.

Ontem, quando vinha para cá, cruzei na sala de embarque do aeroporto com uma jovem trajando uma camiseta preta com uma inscrição em letras brancas todas minúsculas: deleting...

Posts atrás, comentando sobre o filme Vidas Duplas, escrevi sobre a desmaterialização do livro, objeto físico.

Não me parece que o inevitável esteja na digitalização do livro, já que o projeto ebook deu água. A versão digitalizada não emplacou. Não é o book, em qualquer idioma, que se desmaterializa.

O que parece estar em curso é a desmaterialização da massa crítica, suponho. Aquela que se forma pela química e fisiologia neural que advém da absorção do emaranhado sofisticado de letras, encontradas há séculos, exatamente neste objeto em estado de obsolescência.

A tecnologia suplantou a compreensão. Não há necessidade de elaboração de interpretações a partir de textos sinuosos. E ninguém mais tem paciência e tempo para debruçar sobre páginas e paginas.

Nada mais demodê do que uma biblioteca, palavra incrustrada em traças.

Textões não fazem parte da curtição. Ou imagem ou vamos direto ao ponto. Papo cabeça é porre duplo. O que cola, e como cola, é o simplório dos influencers, célebres descerebrados que arrastam opiniões de superfície.

O que desmaterializa é a consciência do sujeito tirando dele sua capacidade crítica do real. Pasteuriza-se a dúvida (indispensável) e industrializa-se a resposta.

Estou pensando em fazer um silk na cor azul em camiseta branca com a inscrição: saving...


Até breve.


terça-feira, 3 de novembro de 2020

DECALQUE

 


Gostei muito de Vidas Duplas, disponível no Telecine On Line e no Looke.

Não necessariamente por abordar a questão dos relacionamentos.

O filme coloca algo de relevância na atualidade: a desmaterialização da escrita, isto é, o quase desaparecimento em futuro breve do livro, objeto físico.

O histerismo da escrita em zilhões de plataformas virtuais, por força da acessibilidade, portabilidade e instantaneidade, trouxe à cena contemporânea bilhões de pessoas que diuturnamente se colocam. Por escrito.

A obra literária está em questão. E eu gosto deste debate. Até para saber de seus novos contornos. Mensagens no WhatsApp, coletânea de e-mails, posts nas redes, blogs, e um sem número de meios tecem hoje uma nova forma de produzir. Arte através do espelhamento das palavras. Decalques.

Desnuda e desvela e coloca nos tribunais o privado e o direito de utilização de estórias para serem relatadas.

Vamos ter que pensar muito a partir de uma das cenas do filme em que um dos personagens, escritor, está fazendo o lançamento de seu último livro e é inquerido pelos participantes.

VIDAS DUPLAS nos coloca diante de nós, sujeitos dúbios, personagens de nós mesmos dependendo da cena em que nos colocamos.

A pós-modernidade está nos desmaterializando.

 

Até breve.


domingo, 1 de novembro de 2020

CANÇÕES

 



Taí, gostei.

Maria Cadu fez a seleção das canções que foram parar em uma fita cassete gravada por personagem encorpada por Luiza Mariani, esposa que pede ao marido que as ouça. O casal está se separando.

Vinte anos depois a fita é encontrada por personagem estrelada por Marina Ruy Barbosa, escritora que passa a elucubrar sobre o que teria acontecido com o casal e as circunstâncias em que se inscreve as canções.

Ainda que superficialmente, o filme aponta as vertiginosas mudanças ocorridas nas duas últimas décadas. Especialmente no que tange às relações afetivas e ao lugar do feminino.

E com realce a forma artística de tratá-las em canções. Saudosista e bestamente romântico, assistindo o filme sofri com a mudança na “qualidade” da narrativa poética das letras de então e agora.

Pô, bicho! Teria o amor perdido sangue? Teria se convertido como tudo o mais em comodities? Trivial, banal, superficial e nada de visceral, temperamental, carnal?

Duas cenas sugiro cuidado, zelo, atenção. A da que a personagem de Luíza está diante da “acusação” do marido de que ela “não foi capaz de cuidar de um cacto”. Ela responde que, por ser exacerbada na entrega, teria encharcado por demais a pobre da planta.

A outra cena vivida pela personagem de Marina, quando ela fala sobre a sua experiência que viveu aos quatro anos com sua mãe e a frase “eu te amo”.

A frase não mudou.


Até breve.



quinta-feira, 29 de outubro de 2020

FOSSO

 


Dos últimos meses, sobrevivo a quatro afastamentos.

Todos eles por minha e exclusiva responsabilidade. Eu poderia, eu deveria e se fosse hoje, estou certo, eu gostaria de tê-los evitado.

Não é uma questão de ligar o celular ainda que eu tenha o número de todos os envolvidos e eles o meu.

Meus atos não foram condizentes com o meu discurso, antes pelo contrário. Expuseram o pior de mim, que conheço. O que os amplifica e agrava.

“Falar” aqui sobre isto ainda sinaliza uma estranheza, própria de mim, mas é que todos sabemos que “este lugar” acolhe nossas partes mais dúbias, inconfessáveis, verniziantes.

Tenho convivido comigo com certa reserva, não que eu me cobre um perdão impróprio, descabido e sem efeitos naqueles que marquei. A coisa é comigo e, por extensão, com todos que me leem.

O que fazer com a pior parte de nós? Levá-la à um analista? Conscientemente?

Operar a culpa pela reminiscência familiar, deixá-la lá nomeando-a, classificando-a, pacificando-a deliberadamente...

Saber-se de porquê.

A pandemia acendeu lanternas com raios fulgurantes de sóis em ocaso.

Incendiaram a minha besta interior, ainda que ali dentro more uma lâmpada cruelmente apagada, desenérgica.

Todo um mistério.


Até breve.

terça-feira, 20 de outubro de 2020

TRUSTO

 

“As pessoas usam o Google porque querem, não porque são forçadas ou porque não conseguem encontrar alternativas.”

Kent Walker, vice-presidente do Google

 

Eu não acho, mas devo sim pedido de desculpas ao leitor que ainda me acessa. Desde que iniciei a edição de meu blog foi o período mais longo de ausência.

Pois é, continuo vivo, pelo menos nos contornos oficiais que dão a cada um de nós esta condição. Estar vivo ainda é demonstrável. Digo isto porque, aposentado que sou, anualmente sou obrigado a apresentar-me ao banco pagador do meu malefício inessiediano e, de posse da carteira de identidade e cartão do banco, mostrar-me vivo.

Existencialmente, continuo com dúvidas.

Existir, ou pelo menos fazer questão de, está sim cada vez menos interessante.

Há alguns meses deixei de acompanhar noticiários, decapitações em via pública de professores nos arredores da cidade luz, campanhas eleitorais aqui e acolá, cuecas abarrotadas de reais desestéticos e deséticos, aumento da criminalidade e, ainda, a 19, não, muito obrigado.

Prefiro o ignoramismo, termo cunhado agora para sugerir nanismo de realidade objetiva traumática nauseante crônica.

Por outro lado, há sim algo do que se poderia cronicar.

O Estado americano ingressou em juízo contra a Google, este truste. Não é embuste não, é pra valer. Li hoje no Estadão.

De há muito deveriam ter acabado com este absurdo. “Alguém” que sabe tudo, sobre tudo, de tudo, de todos, sobretodos, para e contra todos. Não é o fim? Onde vai parar o Estado soberano se trusticamente alguém se achar capaz de substituí-Lo?

Aí, jesuses, mamãe me acode! A coisa ficou muito explícita agora.

Quero viver pra ver se vai acabar em pizza, em um acordo leviano entre causídicos afortunados em verdes notas. Até na América, quase sempre, o filme acaba nestes tipos de acordos.

Enquanto o já sabido não ocorre, eu me permito, parodiando o Descartes (Penso, logo desisto), supor o que viria se o google passasse a imperar. Se bem que, se já não impera enquanto o Estado durmência em sua catatonia...

Só que isto eu não conto pra ninguém ainda que eu pudesse ganhar uma nota se colocasse num provável best seller.

Pois só não o faço por isto. Não coloco a mão em notas cuja melodia e letra desandam.

 

Até breve.

quarta-feira, 7 de outubro de 2020

REDE

 

Publiquei em minha página do FB:

Mais de duas pessoas, gentilíssimas, perguntaram-me sobre minha ausência daqui e do meu blog.

Respondo: estou reduzido à minha insignificância, tentando ocupar-me com aquilo que sobra de mim.”

 

Claro que “insignificância” resume numa provocação aos afetos. Do lado de cá eu peço atenção, como desde sempre o fiz.

Adoro o palco, holofote, ribalta.

Imagina se minha luz não fosse incendiosa, reluzente, esclarecedoramente provocante. Especialmente agora, covidante tensão no obscurantismo que grassa.

Recolher-me é sempre um trabalho articulado de fuga, um ato de loucura controlante. Não fosse essa loucura, estaríamos em cavernas, recolhidos aí sim à insignificância natural.

De jeito maneira nenhuma, sem chance.

Agulhar ruge, ou será urge?

Sempre souberam todos que a pretensão é traço da minha humildade. Eu sempre soube de um tudo que interessa. O resto é frangalhos, outros alhos, bugalhos.

Vou direto ao ponto.

Isolar-se é um ato necessariante. Mesmo que alarmado pelos circunstaciamentos virais. Não sei por que, mas lá atrás, de há muito imaginava que um dia em acabaria sozinho aqui luziamente falando.

Santa Luzia é padroeira dos olhos, pelo menos eu acho.

Aqui, do alto de minha solidão compulsória e compulsiva, dá para ver uns trens, bem encadeadamente, um com o outro, um a partir do outro, um condicionando outro, como numa teia.

Urge a Existência.

Assisti na Netflix o filme do dilema das redes. Os caras que inventaram o monstro querendo que seus filhos não padeçam das garras. Bacana o contemporâneo, tem alucinação geral até sem pico na veia.

É só sair das cavernas e com néctar, pirar geral.

Tem trocentos anos que passo por uma avenida em BH, a Cristiano Machado. Diversos viadutos cruzam a via sustentados por pilares. Em alguns deles foram pintados poemas. Simbólica imagem. A poesia como sustentáculo dos andares.

“Pássaros voam livres presos por ares”... (verso de um poema).

 

Voltei às garras.


Até breve.


quarta-feira, 5 de agosto de 2020

PRÓPOSITO



ODA A LA ALEGRIA

...

No se sorprenda nadie porque quiero

entregar a los hombres,

los dones de la tierra,

porque aprendi luchando

que es mi deber terrestre

propagar la alegria.

(Pablo Neruda)

 

 

Não se trata de ter coragem, ainda que pertinente e oportuno, em abordar tristeza. Toda a tristeza que grassa em diferentes matizes e planos. Aqui, ali e acolá. A guerra, a pandemia, o terrorismo, a vilania, a desigualdade e fosso social, a crueldade em toda a sua expressão.

Alienar-se. Evadir-se, como provavelmente justificou à Chaplin em algum momento de sua extraordinária vida intelectual em buscar a solidão e o ostracismo.

Não.

Não se trata de fazer de conta que o mundo não continuará sendo tão “normal” como sempre foi: cruel.

Trata-se de convidar a mim e àqueles que visitam esta página, a um olhar ainda que singelo para a parte que justifica minimamente um gosto pela Vida.

O Amor.

Toda a extensão do afeto que possa humanizar ainda nossos corações e mentes enrijecidos por tantos e tantos desatinos e perdas. De todas as naturezas e extensões.

Sei que gozar do privilégio de alocar tempo a isto é quase vergonhoso, elitista por demais, na medida em que milhões de pessoas no planeta não recebem a quantidade de alimento que as possibilite ficar de pé.

Não obstante, minha consciência me permite o olhar para a dimensão da urgência do afeto. Incondicional e permanente. Ser na minha individualidade, na microfísica do poder que ainda tenho, alguém que se permite a alegria como uma prática, a acolhida ampla, geral e irrestrita como um princípio basilar de conduta.

Hoje construí dois carrinhos de rolimã, que serão de Totô e Lelê. Soube que Totô quer que o dele seja verde, Lelê diz que o dela pode ser roxo ou rosa. Vou construir ainda mais dois: um para Tin, que me disse hoje também que quer o dele preto e Liz disse que o dela pode ser roxo ou rosa.

Quero cores na Vida. Meus netos apontam a direção do meu legado.

A do afeto.

 

Até breve.






domingo, 19 de julho de 2020

COLATERAIS



Somos alicerçados em dois pilares: tempo e espaço.

Fui, sou agora e serei: tempo. Aqui, lá, acolá: espaço.

Todo o viver sustenta-se nestas duas perspectivas. Nos estruturamos a partir daí. Qualquer alteração em uma ou noutra pode nos afetar de forma significativa.

Todo e qualquer deslocamento no tempo e/ou no espaço implica.

O domínio de ambos nos apazigua, o descontrole nos angustia. A vida inteira viver é ter um certo controle: do tempo e do espaço.

Provavelmente nenhum de nós experimentamos um impacto tão expressivo como aquele trazido pela atual pandemia. Ela nos desestruturou a todos, uns mais outros menos, mas todos fomos impactados.

A ponto de entendermos que, passada, voltaremos ao “normal”. Ou seja, teremos o nosso “tempo” e o nosso “espaço” de volta.

A pandemia obrigou que nos distanciássemos, tirando o hábito de nosso trânsito comum e cotidiano. Ela nos circunscreveu, a muitos de nós, exclusivamente a nós mesmos: em nossa solidão, quase que nos vimos restritos ao nosso interior. Espaço físico em nós, o mais reduzido e, paradoxalmente, o mais amplo.

Fomos lançados, de uma hora para a outra (tempo), para a restrição de nós mesmos (espaço).

Muito de nós redescobriram cômodos, cores, odores, defeitos e tudo o mais que, até então, haviam se incorporados a paisagem do nosso dia-a-dia em nossa morada. Olhamos para nossa morada como outra. Nos descobrimos em “outro espaço”.

- “Meu Deus, eu nunca tinha reparado isto...”

Da mesma forma que fomos impactos na dimensão de espaço também o fomos na do tempo e, por força disto, a tudo o que ele nos remete no que tange as nossas operações, até então, de rotina.

Estamos expostos a mais tempo com nossos mais próximos o que, se para alguns é uma tremenda oportunidade e desejo, para outros pode ser desgastante e angustiante.

Companheiros de vida, filhos, netos, parentes outros, resvalam-se em nós nos quartos, nos corredores, disputam a hora do banheiro, o canal da TV, o pedaço do frango. O silêncio, a música, a janela aberta ou fechada. A voz alta, o pano, o rodo, o sabonete. A toalha. Tudo afeta.

O distanciamento nos impôs a ilusão de presença objetiva em telas tecnológicas. Nossos conflitos corporais foram minimizados e perdemos o perfume dos outros. O toque, o beijo, o afago e até a agressão foram suprimidos.

Todo o amor e todo o ódio vacilam.

Não somos feitos para a ausência e nem para a distância de outros. Sem um outro perco a minha referência, o espelho por si só não me revela. Eu sou com o outro.

A morte é a perda absoluta. Antes dela, não há angústia maior do que a perda da liberdade.

Eu queria HOJE pegar um avião, ir a LAGES-SC e buscar Liz e Valentin para verem o galinheiro que, nas últimas duas semanas, estou construindo. Eles não terão que NUNCA MAIS, quando estiverem aqui, irem com Totô e Lelê visitarem o sítio do meu vizinho.


Até breve.