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quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

OIA





Em uma parede, em cima de algumas primeiras edições raras, de antigos mapas da ilha vulcânica e um abajur de linho manchado, uma cronologia traça a evolução da ‘Atlantis Books’, desde uma ideia regada a muito vinho, em 2002, até tornar-se uma das livrarias mais fantásticas da Europa. Do terraço tem-se a visão do Mar Egeu. Prateleiras de livros se movem revelando beliches onde os trabalhadores podem dormir.

Com o tempo, espalhou-se a notícia de que também escritores visitantes poderiam passar as noites de verão escrevendo e tirar um cochilo ali, e o proprietário começou a receber e-mails solicitando um beliche na colônia de escritores mais impressionante do mundo, em uma ilha que Platão julgava ser a Atlântida perdida.

Nos últimos quinze anos, enquanto turistas a bordo de navios de cruzeiro invadiam a aldeia de Oia, na ponta mais setentrional de Santorini, a ‘Atlantis Books’ tornou-se um oásis de autenticidade e de sanidade cultural. As páginas amareladas e as prateleiras de madeira trazida pelas marés emanam um cheiro de mofo. Os clientes andam em volta do cachorro da loja, Billie Holiday.

Folheiam obras de ficção, poesia, ensaios e raridades. Uma primeira edição de The Great Gatsby de F. Scott Fitzgerald, sem a sobrecapa de um dos livros raros mais procuradas do mundo, está à venda por seis mil euros.

Atrás da máquina registradora há uma primeira edição extremamente rara de A Christmas Carol de Charles Dickens. Seu preço: quase dezoito mil euros. Os livros raros vendem bem porque a ilha se tornou um destino famoso para pessoas com muito dinheiro.

Atlantis não é a mais antiga e nem a menor livraria da Europa. Ernest Hemingway não escreveu ali.

Meu coração de uns meses prá cá passou a bater por me levar à Teruel, reconhecida pela UNESCO como Patrimônio da Humanidade, cidade localizada na região de Aragão, Espanha, a província menos populosa do país (30.000 habitantes).

Já estive em Santorini, mas não sabia da Atlantis Books.

Hoje, ao ler matéria no Estadão de onde bebi como fonte para os primeiros parágrafos deste post, meu coração vacilou.

Passo a pensar em alugar um dos beliches, se houver algum disponível, para ficar por ali e padecer do cheiro de mofo do ocaso de uma literatura. Junto com Billie Holiday ocupar um espaço qualquer e, como ele, em um dia qualquer deixar a ilha.



Até breve.

terça-feira, 21 de agosto de 2018

ORIFICIOS




Estou, desde quinta-feira, em João Pessoa visitando Bernardo e Alessandra, sua namorada. Namorada do meu filho, não de João Pessoa, para ser bem claro.

Na sexta fizemos um programa de índio: fomos ao encontro da natureza.

Exuberante, diga-se de passagem!

Estivemos em reserva da FUNAI em Barra do Rio Camaratuba, entre as cidades de Mataraca e Baía da Paixão, território da tribo Potiguara, a menos de 100km de JP.

À beira dessa maravilha (foto) vivem, em condições primitivas, Ronaldo, sua esposa Mariana e o filinho deles, Júlio.

Ela preparou um caldo de camarões, cozido - pasmem - com coco, uma das minhas paixões.

Pois foi Mariana que nos brindou com a receita para a preparação do prato dos deuses mais primitivos.
Só que ocorreu à partir daí um fato relevante de choque cultural. Deu-se o seguinte: Mariana fez também um pastel de queijo, e, perguntada por Alessandra porque ela não fazia o pastel de camarão, ela respondeu que fazia e se colocou a nos explicar como.

A coisa ia bem até que já no final da aula de gastronomia divina Mariana disse: “Eu deixo o óleo esquentar bastante, coloco o pastel com recheio seco, e quando ele desgruda do cu da panela eu viro ele”.

Eu, chocado: “ A senhora pode repetir essa parte?”
“Pois é, eu espero ele desgrudar do cuzinho da panela e viro...”

Não sei como suportei tamanha descoberta.



terça-feira, 8 de dezembro de 2015

CRENÇA




Visitamos outras três bodegas localizadas na Província de Mendoza, mais exatamente no Valle de Uco: Salentein, La Azul e El Boquiet.

Salentien tem seus vinhedos cultivados em 2000 hectares de terras localizadas de 1050 a 1750 metros acima do mar, permitindo as condições microclimáticas para o cultivo de cinco tipos diferentes de uva de alta qualidade.

A disputa por estas terras tem sido acirrada especialmente pela necessidade de concessão do direito ao uso da água. Há filas de investidores aguardando para a obtenção da licença.

Toda a água da região depende de quanto neva no inverno. A província é irrigada e abastecida com água do degelo. Não fosse esta restrição da natureza a Argentina não estaria ocupando a 5ª posição no ranking dos países maiores produtores de vinho.

Salentein é uma propriedade de uma arquitetura contemporânea que se confunde com uma obra de arte em si. Alias, na entrada do edifício sede, depara-se com uma galeria que, nesse momento, expõe obras de artistas de alta expressão. Produz ao ano perto de 30 milhões de litros de vinhos.

As instalações e os equipamentos são de última geração já que foram inauguradas no início de 2000. O subsolo onde são estocadas as barricas mais parece um templo a Baco.

Ali durante a Páscoa ocorrem concertos de música clássica ao piano e em setembro tango. São 7.000 m² com temperatura natural entre 12 e 15°C e com 80% de umidade.



Próxima de Salentein visitamos a Bodega La Azul. A propriedade de 120 hectares, dos quais apenas 10mil são cultivadas pela família proprietária hoje na terceira geração. São produzidas ali apenas 80.000 garrafas ano com a utilização de apenas 8 barricas de metal com capacidade de 70 hectolitros de vinho.

O fundador antes de falecer, há vinte anos, reuniu os cinco filhos para um jantar e realizou um sorteio de suas propriedades entre os cinco filhos. Cada propriedade era pintada em uma cor diferente: sede, equipamentos, veículos, maquinários. Quem foi agraciada com a fazenda onde hoje funciona a bodega foi Sheila, a única filha mulher, que herdou a propriedade da cor com que veio a batizar a marca da bodega.

Há sessenta anos o patriarca comprou as terras por US$3,00 por hectare. Hoje o valor está em US$40.000,00 por hectare.

A terceira bodega El Boquiet foi a que menos nos encantou.

Nossos quarenta anos de casados foram marcados por uma estadia inesquecível em Mendoza. Experiência significativa, não só pelos passeios às vinícolas, a degustação e o prazer gastronômico da região, mas, sobretudo por ver a extraordinária obra dos homens antepassados que tornaram uma região desértica em um paraíso dionisíaco.

Diego, neto do precursor das terras hoje da La Azul nos disse que, quando o avô chegou à região, ninguém acreditava ser possível desenvolver ali qualquer cultura.

Ele acreditou.


NEVE NA CORDILHEIRA E VINHEDOS AO LONGO DO VALE



Até breve. 

domingo, 6 de dezembro de 2015

SEMFIM




Os espanhóis fundaram Mendoza em 1650. Hoje a província conta com mais de 2 milhões de habitantes, sendo 200 mil na própria cidade. Existem muitos espaços vazios para serem ocupados e encontram-se casas de moradias mesmo na área central.

Foram índios descendentes dos incas que escolheram este lugar para viver antes dos espanhóis. A região é toda formada por solo de deserto com um índice pluviométrico de 200 a 250 ml por ano.

Os índios plantaram toda a vegetação usando água do degelo que percorre hoje a extensão de 500 quilômetros de canais margeando as calçadas. O sistema de irrigação das inúmeras praças e dos alargados parques da cidade é algo impressionante.

A distribuição destes pulmões foi pensada a permitir condições de vida à população, face ao clima extremamente seco com temperatura que excede a 35° C durante boa parte do ano e há períodos da umidade do ar chegar a 0,0%.

Não bastassem as condições climáticas mais do que adversas toda a região sofre abalos sísmicos diários que, embora imperceptíveis, fazem parte de programas de escape da população. As praças e parques além de pulmões servem como ponto de encontro da população para onde se dirigem todos os elementos de segurança da cidade.

No mês de fevereiro a província é vitimada por tormentas que precipitam pedras imensas de granizo destruindo propriedades e lavouras, inclusive de extensos hectares de plantação de uvas e azeitonas.

A coisa é tão brava que aviões fazem voos sobre as nuvens lançando bombas para explodirem as camadas de gelo e reduzir o tamanho das pedras que se precipitam para o solo. Lançadores de mísseis também estão dispostos e são utilizados para o mesmo fim.

Tormentas como as de Mendoza somente ocorrem em ilhas do Pacífico e na Groenlândia.

Há ainda os chamados ventos Sonda que são arrasadores. Para minimizar o impacto dos mesmos a cidade plantou em diferentes lugares álamos que servem como cortinas protetoras.

Resultado: a cidade é verde. De um verde que nunca vi em nenhuma parte do mundo que já visitamos. Salgueiros choram seus galhos, álamos e um sem número de outras espécies plantados em intervalos de 5 a 6 metros de distância um do outro, enchem nossos olhos e pulmões de uma beleza estética e de um ar agradabilíssimo.

A configuração do solo extremamente árido foi o que permitiu o desenvolvimento da segunda riqueza econômica da região: a cultura de uvas e azeitonas o que leva a cidade ser considerada a Capital Internacional do Vinho. A primeira riqueza é petróleo e, a terceira, turismo.

Das mil e trezentas vinícolas existentes na Argentina, 920 estão espalhadas pela província de Mendoza. Visitamos e degustamos espécimes da produção de três delas: Trapiche, SinFin e Família Zuccardi.

Nada disso era para existir.

Em 1750 os espanhóis não aceitaram o fato de uma de suas colônias estar produzindo uvas e azeitonas muito melhores do que as suas e a Coroa determinou o corte de todas as plantações. Reza lenda que uma índia teria resistido encobrindo algumas pequenas mudas debaixo de sua ampla saia rodada.

Luzia, nosso guia no tour disse: “Saiam borrachos daqui, mas não percam de vista que, quando destamparem uma garrafa de vinho está aí um trabalho, muito esforço e muita paixão e arte de milhares de pessoas que trabalham ao longo de todo um ano para produzirem sabores incomparáveis”.

Débora, filha do proprietário da vinícola SinFin, quem ciceroneou nossa visita à bodega, nos apresentou um vinho de seleção restrita, guarda de família, especialíssimo que leva a mistura de cinco tipos de uvas.

O patriarca desenvolveu a raridade porque cinco são seus filhos e que, na fala de Débora, completamente diferentes uns dos outros. Eu perguntei a ela porque o nome SinFin e ela respondeu abrindo um belíssimo sorriso:

- Papai quer que isto aqui permaneça para sempre.




Até breve.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

LACUNAS



Veneza nunca foi invadida. Esteve sempre protegida, flutuando sua história sobre as lagunas do Mar Adriático.

Formada por 118 ilhas, que são alagadas de outubro a fevereiro, e por seus edifícios construídos sobre estacas de madeira naturalmente petrificadas pelo tempo.

Ímpar cidade foi fundada no século VII d. C. e hoje tem vida normal (?) para seus 60 mil habitantes (em 1500 eram 150 mil e em 1960 120 mil) embora receba turistas, por ano, cinco vezes mais do que todas as cidades do Brasil juntas.

Veneza recebe todos os anos cerca de 25 milhões de pessoas vindas do mundo inteiro.

Nas ruas e vielas desfrutam das paisagens inigualáveis caminhando em dois sentidos, alertados pelos gritos de ATENZIONE vindos dos carregadores de produtos para as lojas, bares e restaurantes.

Aqui surgiram os primeiros bancos e companhias de seguros, sendo que o primeiro cheque foi emitido para honrar a compra no mercado instalado ao lado de uma das principais das 400 pontes existentes na cidade, a Ponte Rialto.

A Igreja de São Marcos, construída em 1094, apresenta 8.000m² em mosaicos, cuidadosamente aplicados sobre as paredes e o piso. Para fazer a decoração destes mosaicos gastou-se mais tempo do que construir toda a igreja.

Ela é considerada a mais bizantina de todas as igrejas já que foi inspirada em mesquitas de Istambul.

Sei que estes registros de viagem são muito superficiais e servem mais a mim do que a qualquer leitor, por mais interessado que ele possa estar.

Fiquei a pensar sobre, já que este é o último post dedicado a esta temporada que se encerra hoje, quando voltamos ao Brasil com escala em Lisboa.

Há ainda um registro, no entanto, que levo daqui como um retrato do tempo presente. Em várias das ruas movimentadas de Veneza, assim como em Florença e mesmo em Roma, observei refugiados em frente a lojas de marca vendendo cópias de produtos produzidos, a maioria na China, provavelmente por escravos.



O privilégio de estar aqui não encobre o mal estar por esta brutal e evidente realidade. O mundo não nos permite o frugal. Ninguém tem mais o direito de gozar a vida impunemente.

O real é trágico e contundente.




Até breve. 

domingo, 5 de abril de 2015

LAMACCHINA



Saímos de Siena pela manhã de ônibus, com destino à Veneza.

No caminho o programa contemplou uma passagem por Maranello. Isso mesmo, a terra “della macchina”. Dirigi, por dez minutos, uma Califórnia T, vermelha. O ronco do motor na arrancada inebria levando o condutor a uma sensação ímpar.

Visitamos o museu que fica ao lado da fábrica. A Ferrari conseguiu mesmo, ao longo de tantos anos, ser o grande sonho da potência masculina.

Nem que seja por dez minutos.

De Maranello fomos a Arbizzano di Negrar, próxima à Verona, conhecer a Villa Mosconi Bertani.

Ali visitamos o palácio do século XVIII. Nos jardins do palácio há um parque onde foram plantadas árvores cujas copas servem estética e funcionalmente como um anfiteatro. O piso do jardim de uns 1000m² foi construído com inclinação a fim de permitir a colocação de poltronas facilitando a assistência aos concertos de música clássica que habitualmente ocorrem na Villa.



Degustamos o vinho AMARONE, Safra 2008 (uma raridade não disponível para a venda na própria Villa), acompanhado por queijos, pão e embutidos.

À noite chegamos à Veneza. Chovia leve sob o olhar enevoado da lua cheia.





Até breve.

sábado, 4 de abril de 2015

DESARTEAMENTO



O post de hoje é breve como um “palio”.

Siena foi nossa base para visitar, nos seus arredores, as vinícolas na Toscana. Fundada pelos filhos de Remo, para fugir do tio, em 90 a. C. cultua desde 1600 d. C. sua atração principal: corridas de cavalos na Piazza del Campo.

Siena está dividida em 17 contradas (bairros) que disputam em 2 de julho e 16 de agosto de todo ano a corrida que mobiliza a cidade em festa emocionante.

Dez cavalos (cada um representando um bairro) são pré-sorteados entre os dezessete concorrentes, passam pela igreja do bairro, onde são benzidos) e vão correr em pista de 21 cm de altura de tufo (areia) em círculo na praça buscando ganhar US$ 1,8 milhão a cada palio.



Siena também abrigou a inauguração do primeiro banco do mundo, Monte del Paschi de Siena, por volta do ano de 1100, quando foram instituídas as primeiras Notas Promissórias da história econômica.

Fomos à Florença para uma rápida olhadela. Não gostei do que vi. A cidade me encantou quando estive aqui quinze anos atrás. Hoje, as bombas letais do consumo destruíram o que a cidade tem de belo e raro, além das pichações comuns às urbes da modernidade.

Florença foi vandalizada pelos novos bárbaros: turistas ávidos por quinquilharias marcantes comercializadas em inúmeras barracas (mercado persa) em uma ponta, e, noutra, imigrantes expelidos de suas origens por força da miséria, fome ou até mesmo de guerras.



Ai de ti, Michelangelo!

Inadvertidamente, ou como obra do acaso, funesto fui ao meu horóscopo, e:


“A zombaria, o escárnio, o desprezo irônico com que às vezes tratas teus semelhantes, tudo isso depõe contra ti, pois declara que te sentes superior e que tens autoridade para julgar, condenar e que do alto de tua posição tens direitos que os outros carecem. Francamente, isso depõe contra ti, te diminui e te torna hipócrita, porque na verdade desprezas o que temes. Se tratas com desprezo a suposta ignorância alheia é porque a percebes e só poderias perceber o que conheces, o que está dentro de ti e se, por isso, desprezas tua própria ignorância é porque não fazes nada útil para superá-la, está estacionada em ti e quanto mais zombas dela, mais e mais essa ignorância se arraiga em ti como uma sombra que projetas ao mundo e que te diverte, como um ataque de riso nervoso numa cena assustadora de terror”.



Até breve.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

SANTIDADE



Quando o ônibus entrou na ampla garagem do suntuoso edifício achei que estávamos chegando para visitar um museu de arte moderna. Só que o prédio é a base de operações do grupo ANTINORI CHIANTI em Bargino.



A obra, em arquitetura soberba, consumiu investimentos de US$130 milhões, 80% deles capital da família e 20% recursos vindos da Comunidade Econômica Europeia. 44.000 m² de bom gosto, refinamento estético e engenharia de métodos construtivos ultramodernos.




Tudo é belo na sede até as escadarias que dão acesso aos pisos superiores com esculturas de vanguarda, bioesferas transparentes, dentro das quais vivem plantas sem água e sem terra.




Degustamos os vinhos Villa Antinori Chianti Clássico Riserva, Marchese Antinori Chianti Clássico DOCG Riserva e Badia a Passignano.

Data de 1180 o documento de registro de compra da primeira gleba de terras pela família Antinori, mas somente em 1335 é que Rinuto Antinori inscreveu a vinícola na corporação dos produtores de vinhos. Hoje, na 26ª geração, possuem dois mil hectares de vinhedos, 25 vinícolas, entre elas duas na Califórnia, uma no Chile, uma na Hungria e uma na Romênia. 

Nos “salões de exposição de arte” na unidade de Bargino, eles mantém 50 tonéis em aço com capacidade de 18.000 litros (cada) nos quais ocorre, ao longo de nove meses, o processo de fermentação. Depois passam para tonéis de madeira, adormecendo por doze meses. Retornam aos tonéis maiores onde ocorre a blindagem para produção dos vinhos tinto e branco.

A vinícola produz hoje 9 milhões de garrafa/ano na Toscana e outros 9 milhões/ano no resto da Itália e nas demais instalações fora do país. Para tanto, só na unidade de Bargino são colhidas nove mil toneladas de uva das quais 350 toneladas são processadas por dia.

A curiosidade da galeria de arte é o Vinho Santo de cor âmbar e reflexo dourado, três a quatro anos de envelhecimento em barricas (caratelo) de 18 a 60 litros de capacidade cada. São necessários três quilos de uvas frescas, que se transformam em um quilo de uvas passas (secas) para resultarem em vinho a ser colocado em garrafas de 750ml.

O vinho santo é produção imposta pela tradição da família Antimori, restrita a seis mil garrafas/ano que são comercializadas exclusivamente na Itália. Ao mastiga-lo sente-se a glicerina tomar todas as paredes da boca. “Ai, que frescura, Gesu”!

Depois de Antimori Chianti seguimos para o CASTELLO DI AMA. Outra vinícola que foi buscar inspiração na arte contemporânea para compor o seu conceito. Fora e dentro das instalações da vinícola harmonizadas com barris estão expostas as obras de ousados e provocadores artistas.

Três delas me chamaram atenção especial: a primeira, instalada a 20 metros de profundidade, onde dezenas de barricas adormecem o sagrado líquido, há uma palavra escrita em letras garrafais em luminoso neon fixado na parede: NOITULOVER. Tudo advém de um mal estar revolucionário e movido pela paixão. (O luminoso deve ser lido da direita para a esquerda).

Nos jardins do Castello di Ama um artista cubano expõe em miniatura seis muros: China, Alemanha, USA/México, Austrália, Malta e as muralhas de contenção do mar em Havana. Título: Os Muros da Vergonha. Impactante!

A terceira obra está espalhada por todas as paredes da cantina. São inscrições de frases, poemas e outras sacadas em nanquim.

Degustamos quatro vinhos diferentes acompanhados de queijos, enchidos e azeite.

À tardinha fomos ainda a San Gimignamo, uma verdadeira joia medieval com suas torres de pedra.

Fecho o post com uma das inscrições pintada em uma das paredes do Castello di Ama.




Até breve.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

MENUS



Deus e os homens pintaram uma tela contemplando castelos, muralhas, roseirais, vinhedos e oliveiras: MONTALCINO.

Região abençoada, recebe ventos vindos do Mar Mediterrâneo distante 50 km, que contribuem no perfume das uvas, além de ter recebido (nos primórdios) do Vulcão Amiata preciosos minerais indispensáveis à cultura vinícola.

Visitamos a Enoteca do Castelo Banfi, a maior vinícola da Itália. Produz onze milhões de garrafas por ano, das quais 70% são exportadas sendo 40% para os USA. Lá degustamos os vinhos Chianti Superiore 2013, Brunello de Montalcino 2010 e Florus 2012 acompanhados por Consumé de Legumes, Filé de porco envolto em bacon acompanhado de verduras e bolo de castanhas com calda de vinho.





Em seguida fomos à BIONDI SANTI vinícola mais artesanal da Itália. Está na sétima geração e utiliza até hoje a mesma tecnologia e processo para produzir os vinhos quando de sua fundação. Produz de oitenta a cem mil garrafas/ano.

O proprietário é quem participa diretamente do plantio, colheita e fabricação. Defende com unhas, dentes e prêmios internacionais a tradição artesanal fundada em três princípios que dão o terroir dos vinhos da Biondi Santi:

·      IDADE DOS TONÉIS: só utiliza tonéis antigos, hoje o mais novo em utilização data de 1900;

·       MADEIRA DOS TONÉIS: somente utiliza carvalho cultivado na Croácia, porque não interferem no buquê do vinho como acontece com o carvalho francês utilizado pela maioria das outras vinhas e

·     CAPACIDADE DOS TONÉIS: somente utiliza tonéis com mais de 100 hectolitros (10.000 litros). Tonéis menores aceleram o processo de envelhecimento do vinho.



Prova de dois vinhos depois fomos conhecer a encantadora Pienza, um exemplo urbanístico do renascimento definida como cidade ideal, cidade da utopia, terra do Papa Pio II e escolhida por Franco Zeffirelli para filmar Romeu e Julieta.

Na entrada de Pienza há um arco e nele fixada uma placa: Destruído em 1945 – Reconstruído em 1955. A cidade em 15 de junho de 1945 foi bombardeada, quando morreram 22 pessoas. Em setembro do mesmo ano, outras cinco pessoas morreram vitimas da explosão de artefatos bélicos lançados em junho.

Para um intimista como eu, cidade modelo para reduto da solidão.





No final da tarde fomos visitar a terceira vinícola do dia: CASTIGLION DEL BOSCO. Projeto arrojado e charmoso de seu proprietário Mássimo Ferragamo, filho mais novo de Salvatore do império de moda italiano.

Em tonéis de aço com a capacidade de até 10.000 litros eles maceram a matéria prima para os vinhos durante apenas 15 dias e depois transferem para barricas de carvalho francês com capacidade de 250 litros cada.

Produzem duzentas e cinquenta mil garrafas/ano entre elas 1100 de reserva especial das quais 888 são exportadas para a China. Cada ano essas garrafas recebem o rótulo alusivo ao ano do zodíaco chinês. 2006 foi o ano do cavalo.



Existem pelo menos 240 vinícolas que produzem o principal vinho da região o Brunello de Montalcino em ferrenha disputa entre a tradição (poucas unidades com longo processo de produção – pode durar até seis anos entre a colheita e a entrega para consumo) e contemporaneidade (milhões de unidades com reduzido tempo de fabricação e comercialização).

Por favor não perguntem a minha opinião sobre cada um deles. Troglodita que sou e macerado em ignoranças gerais, não fico diferente à vinhos: quanto a estes acho que a qualidade não depende do líquido em si (que me perdoem os aficionados à Baco), mas da ocasião e com quem você os compartilha.

Ah, sim, a história de nosso companheiro de viagem. Ele foi convidado pelo governo americano para conhecer, durante estada de quarenta dias, o sistema judiciário do país. Percorreu boa parte dos mais de quarenta estados e, em um deles, foi convidado por um juiz da Suprema Corte para jantar em sua residência.

O juiz foi apanhá-lo no hotel na noite marcada, passou em uma loja de conveniência, comprou pão, sorvete e uma garrafa de vinho. Chegando à casa do juiz foi recepcionado pela esposa e a única filha do magistrado.

Surpreso, porque esperava que o jantar fosse para um número expressivo de convidados, sentou-se à mesa e dividiu com os comensais presentes (juiz, esposa e filha) o pão, a garrada de vinho e como sobremesa sorvete.

Terminada a refeição o juiz o conduziu pelo braço à uma sala, ligou o aparelho de som e sentou-se em uma poltrona logo depois de acender o cachimbo. A esposa entrou na sala e convidou nosso companheiro de viagem para dançar. Ele, constrangidíssmo, dançou seguidas músicas com a esposa do juiz da Suprema Corte Americana e não sabia o que fazer ao ter os seus cabelos e as orelhas acariciados pela mulher.

Quando se despedia tomou coragem e perguntou o por quê do convite.

- “O senhor mora em que cidade no Brasil”?

- “Belo Horizonte”...

- “Sempre quisemos ter em casa alguém que morasse em cidade do Brasil  que tem o mesmo nome da nossa rua”.



Até breve.

terça-feira, 31 de março de 2015

SUMMUS



Ele acabara de desembarcar em Brasília para uma reunião em instituição de classe profissional da qual era participante. A secretária, logo que ele chegou ao escritório do órgão, esbaforida, pediu que ele voltasse para o aeroporto e embarcasse para Belém do Pará.

Deveria representar o Presidente uma vez que o colega ilustre estava em casa acamado e não poderia comparecer a um evento celebre no norte do país.

Sentou-se em um dos últimos lugares e foi o penúltimo passageiro a sair do avião. Quando chegou ao patamar da escada ele viu, no pátio, centenas de pessoas vestindo camiseta branca e gritando refrãos que ele não conseguia entender muito bem.

Sorvendo o deslumbramento do poder ele passou a acenar para as pessoas, jogar beijos em profusão, a sorrir histericamente.

Já no pátio percebeu que as pessoas não olhavam para ele, procurava crianças para pegar no colo e beijá-las, mas elas o rejeitavam. Só então olhou para trás e viu a última passageira descendo as escadas do avião. Era Sula Miranda, a “Rainha dos Caminhoneiros” adorada também em Belém do Pará.

Delícias como essas marcaram o nosso dia de ontem.

Saímos bem cedo de Roma em ônibus com destino à Siena, Pátria da Cultura na região da Toscana.
Primeira parada: Pitigliano, ao sul da região. A cidade brota de uma colina rochosa (tufo, tipo de areia prensada) como se fosse prolongamento. As casas são quase todas do mesmo material da montanha, barro e rochas extraídos do próprio local.

Ao se avistar de longe a cidade e seus penhascos tem-se a impressão de que é tudo uma construção única em terracota.



Depois da rápida visita a Pitigliano fomos para Orvieto construída também no alto de uma colina. Com suas ruas típicas de uma cidade medieval ela foi, até 1860, território papal.



Em seguida, sabor intenso: Montepulciano.

Vlad e Fá, que rondaram por estas bandas no ano passado, já tinham cantado a pedra:

- “Não deixem de ir ao restaurante da Lilian e peçam Pici com Javali”.

Montepulciano, uma cidade minúscula, é rota obrigatória da Toscana porque produz um dos melhores vinhos DOCG (Denominazione di Origine Controllata e Garantita) da Itália.



Nosso programa contemplou o almoço precedido de degustação de vinhos, queijos e embutidos na vinícola GATTAVECCHI. Ao chegarmos fui logo em direção à cozinha procurando pela tal de Lilian.

- “Lilian trabalha aqui”?

- “Sou eu”...

Lilian, uma baiana de Salvador, não era só a chef do restaurante mas a proprietária da vinícola GATTAVECCHI junto com Jonathan (marido) um italiano “da porra”.

Ali, por umas duas horas, me senti um frade diante de um rosário de delícias. Uma pasta de fígado salpicada com um-sei-lá-o-quê mais pitadas de erva de não-sei-das-quanta que fazia minha boca chorar de prazer. E, claro, Pici com javali.



Depois vagamos pela cidade. Uma das fotos que tirei me fez pensar em Caravaggio, na luz de suas telas.



Chegamos a Siena já à noitinha e fomos para a Piazza del Campo tomar um vinho, comer uns petiscos.

Ele estava junto e... amanhã em conto.



Até breve.