terça-feira, 18 de setembro de 2018

SERPENTES





Estou lendo Ascensão e Queda de Adão e Eva, de Stephen Greenblatt, vencedor do Prêmio Pulitzer, edição da Companhia das Letras.

“Deus criou Adão e Eva, o primeiro homem e a primeira mulher, e os pôs, nus e livres de vergonha, num jardim de delícias. Disse-lhes que poderiam comer o fruto de qualquer uma de suas árvores, com uma única exceção. Não poderiam comer da árvore da consciência do bem e do mal; no dia em que violassem essa única proibição, morreriam.

Uma serpente, o mais ardiloso dos animais do campo, pôs-se a conversar com a mulher. Falou-lhe que desobedecer à ordem divina não os levaria à morte, mas que lhes abriria os olhos e os tornariam semelhantes aos deuses, conhecedores do bem e do mal. Acreditando na serpente, Eva comeu o fruto proibido. Ofereceu-o a Adão, que também o comeu.

Os olhos deles realmente se abriram; ao se darem conta de que estavam nus, juntaram folhas de figueira para se cobrir. O Senhor os chamou e perguntou-lhes o que tinham feito. Diante da confissão, Deus anunciou várias punições: daí em diante, as serpentes rastejariam sobre o ventre e comeriam o pó; as mulheres teriam filhos com dor e desejariam os homens, que as dominariam; os homens seriam obrigados a ganhar seu sustento com suor e fadiga, até que retornassem à terra de que tinham sido feitos. Pois tu és pó, e ao pó tornarás.

Para impedir que eles comessem o fruto de outra das árvores especiais – a Árvore da Vida – e vivessem eternamente, Deus expulsou-os do jardim e pôs de sentinela querubins armados, para evitar que votassem.”

Pois é.

A cada quatro anos, na cena política, figuras mitológicas nos assombram com suas estórias fantásticas, obnubilando nossa frágil consciência. Alguns simples mortais são tomados de tal fervor que passam a crer na construção de paraísos jamais habitados.

“Durante toda a vida fascinaram-me as histórias que inventamos na tentativa de dar sentido a nossa existência, e vim a compreender que ‘mentira’ é um termo de lastimável inadequação quando aplicado ao tema ou ao conteúdo dessas histórias, mesmo quando fantásticas.

A humanidade não pode viver sem histórias. Nós nos cercamos delas, as criamos ao dormir, as contamos aos nossos filhos e pagamos a outras pessoas para que as contem. Há quem as invente para ganhar a vida.”

Surpreendente como, desde os primórdios, somos tomados por elas, mesmo que ultimamente elas têm se tornado tão sinistras.

As estórias que me contam agora, confesso, não têm me feito dormir.


Até breve.


sexta-feira, 7 de setembro de 2018

INTERTINOS




Quem esfaqueou? Quem foi esfaqueado?

À margem especulações de qualquer natureza das motivações e da extensão - se lesão corporal, tentativa de assassinato ou atentado - permito-me refletir sobre o episódio ocorrido um dia antes que comemoramos nossa independência.

O que encerra o ato? A quem se destina?

Vejo cada um de nós fusionado tanto naquele que atua quanto naquele que é afetado pelo ato. Tornamo-nos todos beligerantes e vitimas de nossa beligerância. Nunca fomos tão agressivos, violentos, bestiais, desumanos.

Tudo bem, uns mais outros menos, mas todos têm agravado o universo em que vivemos. Seja pela ação, seja por omissão, seja por incitação, seja por conveniência, seja por que razão for, estamos sujeitos e submissos à nossa parcela mais do que abominável enquanto seres supostamente racionais.

São incontáveis as evidências de nosso desastre estampadas pelo cotidiano, desgraças que se incorporam à paisagem e que não nos causam porque se sucedem com tal frequência que, bem nos refizemos de um golpe, sucede outro maior ou mais daninho.

Paradoxalmente evoluímos em anos o que demorávamos séculos para descobrir em qualquer campo da ciência e da tecnologia. No campo das relações mais próximas, contudo, temos fracassado sistemática e profundamente.

Hoje, não deveríamos louvar nossa independência. Essa festa é caduca. Arcaico colocar nossas forças bélicas em parada, nossas crianças repetindo valores de superfície. Nossos governantes e suas vestes pudicas. Nossos palanques demoníacos.

Deveríamos nos convidar à interdependência, face ao tempo presente. Urge que façamos um exame de consciência: quanto tenho contribuído para que esse estado de violência se torne agudo?

Parece que não, mas reflita. Você se encontrará em algum ato, seja como agressor ou como vítima.

A faca transita.


Até breve! 
(Se houver amanhã...)