segunda-feira, 8 de julho de 2019

CANTINHO




O que vai embora junto com João Gilberto, este sim um grandíssimo idiota?GENE

Esta besta me fez amargar, certa vez no Palácio das Artes em BH para assistir a seu showzinho desafinado, a cinquenta minutos de espera depois de ter soado por três vezes a campainha indicando o início do espetáculo.

Lembro-me bem quando ele entrou no palco. Sem pedir desculpas à plateia ruminou alguns grunhidos para dizer por que atrasara. Acho que alegou o bater de asas de um mosquito que alteraria o som de seus compassos.

Inesquecível foi quando eu saí do teatro. Flanava ainda nos acordes, difícil saber se ecoados das cordas do pinho ou das vocais da garganta de quem o tocava. Aquilo é uma monstruosidade, pensava.

Zuza Homem de Melo, historiador, me alcança: “o canto intimista, a letra sintética, despojada, o emprego de acordes alterados e, sobretudo, um extraordinário jogo rítmico entre o violão, a bateria e a voz do cantor.”.

João cortou o tempo. Bossou diferente, um novo que desconcerta, incomoda, transforma. Desses sujeitos vadios, transgressores que nos tiram de um lugar sabido, acostumado, conveniente.

Gilberto, estranho ser, encontrou no tamborim um som peculiar que lhe percorria o ar dos pulmões e lançava sobre o silêncio um recado aos corações, até dos desafinados absurdos como o meu.

Há tempos JG vivia arruinado, adoecido e sozinho em uma casa emprestada no Rio de Janeiro. A tristeza que envolveu este artista em seus últimos anos parecia não ter fim, como reza a música de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, os outros dois pais da Bossa Nova.

Posso imaginar as razões.

Outro dia assistindo o canal Arte1 deparei com um documentário sobre Saudade, belíssimo por sinal. Lá pelas tantas entra em cena um arquiteto entrevistado e diz que esse negócio de dar valor ao passado não está com nada, o que importa é o que está por vir.

Até hoje engulo em seco essa declaração.

O que vai embora com João Gilberto?

Um muito de mim com certeza. Um tempo de renovação e esperança aguda, uma juventude transviada, um acorde. Uma bossa.

Vai junto com João um canto doce, moderado, fundo. Só melhor que o silêncio, como disse Caetano.

Nos deixa vazio um palco de soberba próprio apenas para a genialidade de imensos poucos, desses que nos tornaram ainda que resistíssemos tanto, seres humanos um pouco menos endurecidos e toscos.

Esse texto me faz verter lágrimas, tão escassas hoje por estas razões. Juro que não creio mais ser possível no porvir algo que venha a compor um tempo de Tom, Vinicius e João. O mundo não tem e não terá ouvidos para um doce balanço a caminho da delicadeza, mais afinado e menos ruidoso.

Voltou a terra hoje um de seus melhores sumos.

Chega de saudade.


Até breve.

domingo, 7 de julho de 2019

GENE




Este blog está perto de atingir a marca de 150 mil acessos. De 08 de maio de 2011 até a data de hoje (+ ou - 3000 dias) editei o total de 1076 posts.

Um post a cada três dias com a média de 139 leitores por post.

Eu acho muito expressivo, ainda que não tenha essencialmente alterado em nada a minha vida e, o melhor, nada a vida de nenhum daqueles que se debruçaram sobre os meus escritos.

Estive, por duas temporadas, compartilhando parte destes posts no Facebook e, por razões diversas, acabei encerrando a minha conta naquela máquina de fazer doidos.

Voltei para a solidão daqui do blog, já que no FB recebia muitos comentários dos “amigos” virtuais o que me dava um pouco de egosplasia. Não me perguntem o que vem a ser egosplasia, porque é algo que me ocorreu agora e expressa o que sentia quando acessava a minha página e lia comentários ou curtidas.

Sofro, desde a infância, da necessidade de palco e acho que, também por isto, perdi tanto tempo meu e dos leitores que me acessam aqui.

Nesta altura da vida não vejo a menor possibilidade de me libertar desta carência sindromática de loas, e vou ficar muito triste quando, esfriando da vida, não ver pelo menos 139 amigos, mesmo que parte deles virtuais, jogando flores sobre minha tumba.

E gostaria muito, também neste evento, de ouvir um ou outro dizer: “Era um idiota, mas pelo menos sabia disto”.

Minha idiotia não aconteceu por uma acaso de nascença, não veio embarcada no DNA, não é herança maldita nem materna e muito menos paterna. Minha idiotia foi elaborada asneira por asneira, tolice por tolice, devaneio por devaneio, delírio por delírio.

Nem eu mesmo teria saco para reler os 1076 posts para comprovar isto. Aliás, o simples fato de fazer uma proposta desta me qualifica no rol dos idiotas mais distintos.

É claro que alguns posts, poucos é verdade, devem ser excluídos da pecha de terem sido escritos por um idiota, mas por um Zé Ruela de meia tigela. Incluiria nestes aqueles que escrevi para meus netos antes de nascerem. Para Liz principalmente, pois, por ter sido a primeira neta, foi a maior vítima de minha zerruelice.

Marcados por uma idiotia cavalar, todos, foram os posts sobre política. Estes foram aqueles que mais eu primei. Juro que me lembro do sentimento que experimentei logo após editá-los. E ainda me surpreendo como eu pude tantas vezes retornar ao tema, embora não fosse assim eu não poderia ser considerado de fato um tremendo idiota.

Aqueles posts em que fiz crítica a filmes, peças de teatro, músicas não posso dizer que entrariam no rol, foram na verdade espasmos intelectualóides de quinta grandeza. Não são propriamente nem idiotas e nem zerruélicos.

Contos e/ou crônicas do cotidiano? Putz! Esqueçam.

Agora, vejam como são as coisas. Ontem recebi de Pretinha (para quem não se lembra trata-se de minha filha Valesca) notícia de que Liz está escrevendo um livro para mim e que pretende entrega-lo no domingo quando ela chega de Lages para passar uns dias em BH. Dia 01 de agosto ela completará sete anos de idade.

Morro de medo de estar legando essa herança maldita.

Uma idiotia qualquer.


(capa do livro de Liz)


Até breve.

quarta-feira, 26 de junho de 2019

DOR





Recebi de uma amiga o vídeo acima.

Não concebo a possibilidade de alguém que o assista e não experimente a sensação de mais profunda dor, indignação e, sobretudo, imensa preocupação.

Vivêssemos no seio de uma sociedade sadia, a divulgação deste vídeo seria suficiente para resultar numa ação generalizada de todos para que pudéssemos extirpar, de vez, a repetição de fatos como esse.

Não, a banalidade do mal é de tal monta e expressão que a epidemia que grassa não nos sensibiliza mais. Incorporou-se à paisagem da nossa bestialidade visceral e cada um desses episódios, mais do que corriqueiros, reduzem-se às estatísticas.

Não há conflito no planeta, por mais torpes e cruéis que sejam os motivos que os desencadeiam, que cobre tantas vítimas humanas como a nossa violência cotidiana.

Na mente trumpulenta americana, mesmo que em blefe, foi abortado recentemente um contra-ataque ao Irã tento em vista a possibilidade de ceifar a vida de 150 pessoas inocentes, o que corresponde a menos de um dia de produção de cadáveres brasileiros vítimas da nossa endêmica epidemia.

Matamos mais de 60 mil pessoas por ano, somos a sociedade mais assassina do planeta. Ninguém é mais violento, mais cruel, mais omisso, mais vil, do que cada um de nós brasileiros.

Há muito tempo sabemos e convivemos com essa tragédia civilizatória.

Estava no aeroporto ontem à noite, em retorno de viagem a trabalho, quando recebi o vídeo e, de lá para cá experimento sentimentos difusos e intensos. Minha tristeza é infinita e sinto uma vergonha íntima que faz doer minhas entranhas a ponto de não ter coragem de me olhar no espelho.

Minha impotência é daninha.

Junto a ela os equívocos dramáticos de quem se espera cuide daquilo que nossa combalida constituição assim o determina. No bojo das ações e decretos fica translúcida a nossa tragédia: que cada um se arme e se defenda.

Meu Deus, senhor de toda e qualquer potência, não me faça crer que somos os primeiros protagonistas históricos da cena apocalíptica.


Até breve.


OBSERVAÇÃO: Hoje recebi um pedido do Vlad, meu filho, para que eu retirasse o vídeo. Acato o pedido, mas mantenho o texto. As imagens contempladas no vídeo, em si, não serão tão dificeis de serem imaginadas por aqueles que não o assistiram.

sábado, 22 de junho de 2019

MIRAGEM












 “A vertigem é uma sensação de perder onde as coisas começam e onde elas terminam, onde você está em relação ao mundo e onde o mundo está em relação a você.”

Petra Costa

“A Netflix está mudando drasticamente o mercado de documentários no mundo, de uma forma muito positiva. Em que outro momento um documentário brasileiro poderia ser visto em 190 países ao mesmo tempo? É algo revolucionário, e eu me sinto muito privilegiada, especialmente, porque o tema da crise da democracia dialoga com pessoas da Ásia e da Indonésia, da Austrália até a Áustria e ao Uruguai. Acredito que não poderia ter uma plataforma melhor para esse filme.”
“Esta é uma história que vai, pelo aspecto vertiginoso mesmo, abrindo buracos pelo labirinto da história do Brasil”.
“Todos os aspectos dessa crise geraram um verdadeiro trauma para muitas pessoas. O filme é uma tentativa de falar sobre esse trauma. Como dizem, e o próprio Freud diz, o trauma é uma cicatriz na psique que gera uma incapacidade de significar as coisas, que perde sua habilidade de criar significados por conta da agressividade com que o evento invade sua psique. Então o primeiro passo para recriar um trauma é recontar, por isso ele é uma tentativa de recontar essa história.”
“Você pode concordar com essa leitura ou não, o que é esperado. É a minha perspectiva, eu não tento ser categórica ou falar a verdade, de forma alguma. A história é muito recente, por isso está aberta a todos os seus espectros de interpretações. Mas esse movimento de escuta é o primeiro passo para curar a polarização doentia em que a gente se encontra. O meu maior aprendizado ao fazer esse filme foi me colocar nesse lugar de escuta, e muitas questões que eu tinha foram abaladas neste processo. Espero que, quem sabe, eu possa também estar atenta para isso.”
Estes são trechos de entrevista com a cineasta Petra Costa que acaba de lançar seu emblemático documentário Democracia em Vertigem, pela Netflix.
A diretora, roteirista e produtora levanta o ponto de encontro do seu processo de construção: “Eu e a democracia brasileira temos quase a mesma idade” e completa “eu achava que em nossos 30 e poucos anos estaríamos pisando em terra firme”.
Esta ponte é soldada intensamente durante toda a narrativa. Desde momentos em que a diretora menciona ser de uma família privilegiada, uma vez que o seu avô é um dos fundadores da empreiteira Andrade Gutierrez (envolvida no esquema de corrupção do Mensalão), assim como os seus pais tornaram-se refugiados políticos durantes os anos de ditadura militar, e o nome “Petra” lhe foi dado em homenagem a um amigo dos seus progenitores, morto durante o período.
Com uma sequência de vídeos, a história do documentário é montada. Uma seleção de mão cheia que apresenta desde vídeos caseiros até entrevistas exclusivas com políticos brasileiros e a mãe da narradora. Petra utiliza-se de exemplos fáceis para explicar o caos: sua família e ela mesma, sempre apontando, quando necessário, seus posicionamentos.
Acho pouco provável que o filme ocupe a cena do debate nacional. Ele é uma obra aberta. E, como tal, difícil para ser assimilado pela boa maioria de espectadores que se darão ao trabalho e, mesmo o interesse, de assisti-lo.
Reside aqui nosso drama maior: não há espírito crítico. Talvez na Ásia, ou quem sabe, na Oceania.
Fui buscar em Gil, quando ele foi perguntado sobre “vil situação” em sua letra Ok Ok Ok: “Parece consensual a percepção de que o ‘espírito do tempo’ se manifesta, cada vez mais como um ‘espírito de porco’ (tomando emprestada uma expressão popular pejorativa). As coisas vão de mal a pior, a descrença e o desânimo se abatem sobre a multidão, as soluções se transformam em novos problemas mais complexos, a tentação regressiva ganha cada vez mais espaço e a queixa reverbera altissonante”.
“A tarefa historicamente atribuída aos formadores de opinião (intelectuais, comunicadores, artistas e tais) de produzirem uma crítica consistente da situação, fica ampliada exponencialmente. Somam-se a esses setores os milhões de anônimos, num jogo alucinante de opiniões e contra-opiniões nas redes sociais, como se houvéssemos chegado, afinal, à ‘Grande Babel’.”

É que eu ando meio triste e precisava saber das razões.
De novo, o Gil me acode: “Quanto mais aprendo, menos sei. Tenho que me comprazer com a alternância natural entre o conforto do silêncio e do sono e o cansaço da vigília e da espera. A cada dia, uma agonia. A cada noite, um sonho”.

Até breve.

domingo, 16 de junho de 2019

SAÍDAS




“... o presidente de um país imaginário, mas não muito, declara que na sua administração só participará, se não for filho, quem se ajustar à linha dominante do governo. Qual é essa linha, presidente? E eu sei? Falem com o Paulo Guedes que tem todas as linhas do governo no bolso e se recusa a mostrá-las até a mim. Presidente, nós acreditamos que a terra é plana ou redonda? Depende. Que dia é hoje? Presidente, o que significa essa anedota que ninguém ainda entendeu? Vocês querem que Eu entenda?!

Luiz Fernando Veríssimo em sua crônica de hoje (Anedotas) no Estadão.


Pois é, prefiro que isto sugira mais uma tragicomédia do que propriamente uma piada que nos faça rir, por força de nossa idiotia a cada dia mais aguda.

Estive, na última sexta-feira, em um encontro nacional no qual participaram representantes da alta cúpula do empresariado brasileiro. No palco secretários de governo, ministros, empresários, senador, governador, presidentes de entidades de classe e o presidente do Supremo Tribunal Federal.

Sentei em cadeira colocada na fila do gargarejo. O evento transcorreu de dez e pouco da manhã até perto das dezenove horas com cada palestrante tendo vinte minutos para a sua exposição.

Saí de lá melhor do que entrei. Ou seja, mais informado e, portanto, mais preocupado com nossa pátria amada.

Os diagnósticos apresentados pelos integrantes do governo (todos da área econômica) do quadro são translúcidos, contundentes e pragmáticos. Até eu os entendi e, por isto, saí do evento mais tenso.

Os planos, embora apresentados apenas em tópicos e não em detalhes, são também igualmente bem construídos e de uma obviedade acachapante.

Resumo: o que não nos faltam são diagnósticos e planos. Nosso drama histórico reside na execução por força de que isto só se dá, constitucionalmente, pela via política.

Não vou entrar nesta seara. A puslítica me dá náuseas e já derramei aqui minha mais explícita bílis.

Duas empresas que se fizeram representar no palco me proporcionaram certo alento. Uma ferida de morte pela operação Lava a Jato, e outra por falhas graves em suas operações que resultaram em tragédias de alcance internacional.

Gostei de ver, e até cumprimentei efusivamente o presidente da empresa lavada, pelo extraordinário trabalho de reviravolta da governança ressuscitando-a e recolocando-a em condições de operar em todas as dimensões de seu magnifico portfólio de negócios.

Quanto à outra empresa, historicamente conhecida por sua postura grosseira e imperativa junto aos seus stakeholders fez, de forma genuína e crível, uma profunda e comovente lição de humildade. Às vezes, pessoas e organizações, só mudam após um desastre.

O último expositor foi o presidente do STF.  Ele apresentou o nascedouro dos três poderes e deu ênfase ao escopo de papéis reservados ao judiciário, em especial à Suprema Corte.

De forma clara e inteligível ele conclamou a sociedade a se perguntar até quando ela se mostrará incapaz de equacionar, dirimir e resolver suas inúmeras pendengas que desaguam aos milhares às portas da última instância do poder.

Apresentou números e teceu considerações gerais sobre a dinâmica dos processos que foram suficientes para dar a dimensão da gravidade do nível de maturidade dos contratantes sociais. Só nas pendências fiscais há, em processo de sentença, o montante de um trilhão de reais.

A cultura recorrente de nossas pendengas ao poder moderador resulta em prejuízos imensos à credibilidade e a reputação do mercado brasileiro dentro da cena internacional e, eu já ouvi isto antes, determina muitas vezes o afastamento de investidores.

Pois é, minha tensão aumentou agora ao concluir este post. Se não estou muito equivocado o que está aí foi escolhido por nós. Antes de apontarmos o dedo acusatório de nossas mazelas para quem quer seja, deveríamos é estar pensando o que temos feito para que nosso riso deixe o campo patológico e derive de uma alegria recompensadora.

Deve ter alguma razão para que o cotovelo só abra em nossa direção. Ou será necessário um desastre mais evidente do que aquele que está posto para que afinal este país se emende?



Até breve.


quarta-feira, 12 de junho de 2019

BIBLIAR





Uma meia-dúzia de três ou quatro amigos sempre me consulta por que eu ainda não editei um livro. Certa vez respondi: “quem sabe aos setenta?”.

Pois é, nunca estive tão próximo de chegar aos setenta como agora. Claro, tudo pode acontecer até lá, mas ressalvadas as maledicências (que estou certo não existirem), aos setenta eu devo chegar.

Confesso que já nutri inúmeras vezes o desejo de me ver em prateleiras de livrarias ou em sebos, mas comichão posto de lado antes que o mesmo virasse corpo no cio.

Vou morrer achando que não tenho jeito pra coisa. Sou preguiçoso para exercícios de folego, tipo duzentas ou trezentas páginas. Há duas semanas não vou a esteiras para enrijecer músculos. Imagine a folhas de papel para drenar meus espíritos.

Portanto, a resposta é não. Ou, tudo bem, por enquanto. Não.

Até porque escrever o quê, sobre o quê, para quê?

Poderia, por exemplo, mergulhar numa análise criteriosa do período que cobri em STALO, o post recente em que me embrenhei selvagem na puslítica nacional pós-guerra.

Ora, pois pois, taí um tema que eu só curto. Num há a menor chance de eu perder tempo mais com esse troço.  Primeiro porque embrulha o estômago, corrói o fígado, dilacera o coração e enfraquece o cérebro.

Não, puslítica tá fora de cogitamentos. Só um post aqui outro ali e, mesmo assim, de stalo.

Um romance. Não. Prefiro vivê-lo a escrever sobre.

Crônicas, xi, um porre!

Contos, quem sabe? É, pode ser. Uma coletânea daqueles que editei aqui enxertada com outros que dormem em gavetas. Não, vale a pena não.

Espera, mas me ocorreu uma ideia que talvez me mobilize até os noventa. Escrever uma bíblia.

De stalo em stalo eu vou preenchendo o absurdo.

Como o personagem de Borges em sua obra O Imortal, na eternidade me colocarei em um buraco qualquer onde estarei por setenta anos. Ou mais.

Escrever pra quê?


Até breve.

sábado, 8 de junho de 2019

ALENTO





- Pô, Agulhô, peraí sô... Num tem notícia boa?

Da invenção da prensa de Gutemberg ao primeiro jornal impresso diário, na Alemanha, passaram-se duzentos anos. Do telégrafo, pioneiro em transmissão de informações por ondas, até a popularização da televisão, mais cem anos. Do surgimento da internet comercial até a revolução da TV sob demanda, não foram nem vinte anos. A próxima grande onda virá com a internet 5G, que vai mudar os conceitos de velocidade e comunicação, em menos de quatro anos.

No Brasil, o forte anseio da população por mudanças na política e na qualidade dos serviços públicos exige mudanças nas formas de governar.

Felizmente, os brasileiros deixaram para trás um tempo de obscurantismo ideológico que impedia que o setor público fizesse parcerias com o setor privado para trazer investimentos e inovação na atividade pública.

O governo de São Paulo acaba de anunciar um ambicioso plano para modernizar a gestão da rádio e TV Cultura. O objetivo é desenvolver novas plataformas, formas de financiamento e produtos para a melhor e mais bem-sucedida televisão pública do Brasil.

A TV Cultura completa cinquenta anos em 2019, e com boas razões para comemorar. Mais de quatrocentos prêmios nacionais e internacionais conquistados, reconhecimento da crítica e aprovação do público são testemunhos do acerto nos caminhos da TV Cultura, com autonomia intelectual, política e administrativa.

E o objetivo é claro: melhorar a oferta de serviços, incentivar a atração de novas tecnologias e adotar modelos de gestão mais eficientes em que o principal beneficiado será sempre o telespectador.

A TV Cultura sempre foi dirigida por quem pensava à frente do seu tempo. Além do compromisso permanente com a qualidade, duas outras tradições construíram esta grande televisão pública: o apreço pela inovação e o tratamento especial a um tema estratégico para o Brasil, a educação. Torço para estarmos começando, agora, um novo modelo de gestão para um novo tempo. Criando uma televisão nova, alimentada pela paixão, pela informação e pela educação.

A revolução digital impôs a todos os meios de comunicação, no mundo inteiro, a necessidade de mudar para sobreviver.

Quanto mais a digitalização e as novas tecnologias avançam, mais se ouve dizer que a televisão está em crise. Não é crise, é oportunidade.

Modelo de TV pública, a gigante BBC de Londres tem hoje um departamento batizado de Future Media, responsável por toda a sua produção digital e o desenvolvimento de novas tecnologias. A PBS americana, outro modelo consagrado, mas distinto, tornou-se bastante conhecida entre nós por ser a criadora do Vila Sésamo, sucesso mundial e referência em programas educativos para o público infantil desde o fim da década de 1960. Hoje, a PBS é uma distribuidora de programação entre as emissoras afiliadas, com importante produção própria e retransmissão de outros produtos de alta qualidade, inclusive da BBC e dos canais britânicos ITV e Channel 4.

Afinal, sim, uma boa notícia. Ainda que alguém aí possa estar pensando: “Pô, Agulhô, no gráfico de audiência do IBOPE ela não passa de um traço”.

Que seja um traço de resistência ao obscurantismo.



Até breve.

quinta-feira, 6 de junho de 2019

STALO





Alguém me disse que Análise Selvagem é uma avaliação sem fundamento. Pois que muito bem, vamos à selvageria desbragada.

Saindo da II Grande Guerra todo o Mundo tratou de se reerguer. Duas vias: Capitalismo (as forças econômicas do mercado determinando os rumos em uma sociedade com livre iniciativa) ou Comunismo (poder central do Estado comandando todos os destinos, inclusive os individuais).

O Brasil saia da ditadura Vargas, deixada para que a história o julgasse, lançado a uma republiqueta.

 “Vamos fazer cinquenta anos em cinco”, dizia Juscelino em campanha presidencial de 1955, dez anos depois da hecatombe nuclear.

O presidente Bossa Nova procurou no mapa onde era o centro do país e ali ergueu o distrito. Brasília. Eita! Só quem veio pela primeira vez como inquilino do palácio abdicou-se levando sua vassourinha e não lhe perguntem. Fi-lo porque qui-lo!

Na encruzilhada histórica o Brasil, como em tudo, miscigenou-se. Assumiu uma posição Frankenstein: misto de Capitalismo com Governo Central. Para inibir a peste comunista comedora de criancinhas, os militares puseram ordem no bordel e acenderam a luz em um programa de desenvolvimento nacional centrado no nacionalismo.

58, 62 e 70, com ruas canarinhas pintadas em todo o país,foram combustíveis para que 90 milhões em ação fizessem do Brasil o país do futuro. Bora nós, duas décadas de estradas, comunicações, instalações fabris, puta desenvolvimento.

Só que não, dada as trevas. Eu estava lá e vivi. Mordaça pura.

Entramos pelos anos 80 e aí deu água.Geramos a década perdida e, nos porões, ardia a vilania. O desenvolvimento trouxe capitais e com eles, nas entranhas da redentora, arquitetava-se a estrutura mais que perversa constituída de políticos, empresários, bancos e operadores de capitais brastempiados.

Lá fora Gorbatchovs e Raísas, perestoikamente, viravam tudo de cabeça pra baixo desencadeando movimentos globais fazendo pó e pedrinhas de souvernis até muros que separavam alemanhas. Eita, tempão, sô!

A Guerra Fria e uniões soviéticas foram pro saco e da primeira sobraram os inventos. A Guerra nas Estrelas legou o avanço tecnológico que rolava no sideral: telefonia celular, forno de micro-ondas, porrada de trecos que desaguou na infovia.

Ah, sim, o Brasil...

Colloriu em noventa. Mataram o operador, farias. O primeiro impetiimento. Ah, aquele narizinho em pé deixando o Alvorada! Na camiseta das caminhadas matinais do segundo jânio uma inesquecível frase: “O tempo é o senhor da razão.”.

O vice-coitado assumiu com topete e bailes de carnaval com as meninas em pelos. Quem se lembrar do nome dela ganha uma bala chita. O nome dele todo mundo lembra, era franco. Pôs de ministro da grana um tal de Henrique almofadinha, mais tarde, presidente coxinha, e inventaram o real depois de 15 anos de 11 moedas e quinze fórmulas para medir a inflação.

E tome roubalheira, com a facção criminosa medebista alternando-se no poder desde quando Sarney maribondoava-se no plano alto.

Aí veio a mais dramática de todas as ilusões de um povo. Num gosto nem de lembrar porque também adoeci. Gente dando as mãos abraçando quarteirões inteiros porque a esperança venceria o medo.

Lulla lá.

Bolha de consumo construída por ardis de burocratas irresponsáveis, benevolência fiscal favorecendo conglomerados globais que exportavam todo o excedente de capital extraído de resultados de um mercado consumidor comprando em zil prestações carros, casas, geladeiras, os cambau.

A mágica mandraiquiana durou oito anos e pôs “o cara” com 80% de aprovação popular.

Só que, nos porões, sangravam bilhões e amplificava a metástase.

A bolha explodiu, claro, e caiu no colo daquela que iria estocar vento e dobrar a meta. Durou um desmandato e meio, a trama da corriola botou a infeliz senhora para correr.

Adeus, querida!

Quem assume? A sanguessuga mor, vampiro histórico, líder da maioria de todas as falcatruas. Hábil, literata do absurdo, gangster.

A sobra é o nada. Ruiu tudo e nada ficou no lugar. O Brasil perdeu até a sua lógica, seu rumo, sua dignidade.

Nada melhor do que um oportunista transloucado e messiânico. Bora com ele, na falta de qualquer um, vamo com esse mesmo. Tá de tal jeito que num tem jeito de ficar de outro jeito que seja jeito de pior jeito que o próprio jeito.

Hoje, messias, atravessa a rua de um poder ao outro e leva soluções ao dano: armar os cidadãos, acabar com o horário de verão e não responsabilizar aqueles que não levam suas crianças em cadeirinhas. Ah, sim, me esqueci: imprevidenciar o futuro.

Haja saco!



Até breve, se é que eu volto.

quarta-feira, 5 de junho de 2019

PRIMA





“Se um dia puder,
nem escrevo um livro.”
Adélia Prado, in Círculo.

“Porque tudo o que invento já foi dito
nos dois livros que li:
as escrituras de Deus,
as escrituras de João.
Tudo é Bíblias. Tudo é Grande Sertão.”
Adélia Prado, in A invenção de um modo

Adélia Prado em entrevista ao Roda Viva, gravado em 2014, relatou o deserto pelo que passou ao longo de sete anos. Entre uma obra e outra, amargou esse tempo de tempestades de vazio criativo.

Eu, por mim, me sinto como.

Escrevi aqui praticamente quase todos os dias. Nada de memorável quanto Adélia, naturalmente. Mas verve.

Tinha dia de eu verter página num piscar de neurônios ou de fibras de carótidas e pericárdios, assim como de um repente. A coisa fluía como se em mim já estivesse posta, era só pari-la. A quase totalidade, parto normal. Sem dor e com sofreguidão de alívio.

Estou ao encalço de Adélia, no real, aguardando que ela restabeleça sua melhor saúde e possa me receber em Divinópolis. Sua terra, sua rede ferroviária, a partir do quê desenhou o universal.

Levo a ela uma proposta de, junto comigo, elaborarmos um encontro com um grupo de executivos de uma empresa cliente. A ideia é de que, diante de tanta complexidade e turbulência no ambiente, como resultar o simples?

No fundo, e isso é um segredo irrevelável, eu quero mais de Adélia.

Para onde foram nossos saberes? Em que encruzilhada nos perdemos? O que será da Arte estetizada por um mundo sem graça e sem graça. Sem alegria e sem religares. Sem mistérios, tudo desvelado, tudo explícito, tudo sem poesis.

Onde andam as pessoas e seus quereres mais fundos de se perguntarem? O que fizeram do que restou do humano, mais do que humano, em nós?

Afinal, o que nos resta. Se há que nos resta.

Uma Obra Prima.

Assisti na TV, Netflix, ao argentino Minha Obra Prima, filme bão. A coisa gira em torno de um pintor em processo de decadência comercial. Seus quadros não encontram consumidores.

Em que pese o deserto, ele é procurado por um jovem que quer ser seu discípulo. Ele reluta em atender o pedido do jovem, mas acaba cedendo. Combina o valor das horas de passagem e diz que pode recebê-lo no dia seguinte.

Quando o rapaz chega eufórico, o pintor apresenta a ele um quarto da casa em profunda desordem. Repleto de quinquilharias de toda sorte, lançadas a esmo em profusão.

- Quero que você observe com atenção a tudo que compõe este quarto. E que não saia daqui antes de duas horas de absoluta concentração.

Três horas depois o jovem diz que já havia concluído a tarefa e pergunta ao pintor o que deveria fazer em seguida.

- Volte amanhã.

No dia seguinte o pintor pede ao jovem que retire tudo o que está no quarto e transfira para outro aposento da casa. O jovem, estupefato e ainda que contrariado, desincumbe-se da tarefa depois de alguns dias de árduo trabalho.

- Agora quero que você volte com tudo de novo para o quarto anterior e coloque cada objeto exatamente como e onde estava antes.

Uma semana depois o rapaz aliviado convida o pintor para ir ao quarto e ver o que havia feito.

- Meu jovem, você jamais será um artista. Você voltou com tudo da mesma forma em que estava.

Pois é.



Até breve.