sexta-feira, 3 de maio de 2019

RIO







Eu num divia era ter parado de escrever. Nunca!

Hoje tô aqui com as munhecas travadas, pelo medo de dedilhar teclados em busca de palavras ordenhadas. Putz, isso é bunito, não? Sentido duplo em ordem e ordenhas.

Pois é, num posso ficar sem botar minhas tetas a serviço daquele que me suga. Lá do mais fundo que meu fundo pode estar.

Minha dormência, interessante, não me trouxe dor. Apenas vazio, assim de um tamanho imedível, ou será iquântido, ou iquálido? Não sei, mas vazio.

O monólogo que assisti no último domingo só veio aumentar ainda mais a vastidão.

História fantástica da mulher que encontra um manuscrito contendo o relato autobiográfico de um general do Império Romano. Ele, o general, busca a Cidade dos Imortais cujo rio purifica da morte todo aquele que bebe de suas águas.

Lá pelas tantas nas andanças erráticas depois de banhar-se e saciar sua sede, sem saber que no tal rio, já tendo se tornado imortal, encontra um sujeito com quem adentra a cidade dos imortais.

Claro que num vou contar. A peça, baseada no conto O Imortal de Jorge Luis Borges, está em cartaz ainda e não será eu quem dará a pista do que rola lá dentro.

Se bem que pelo menos uma passagem posso citar. Passeando nos interiores da cidade o novo imortal depara-se com um homem dentro de um buraco com o olhar perdido.

- Por que ele está dentro desse buraco?

- Não sei.

- Está aí há muito tempo?

- Uns setenta anos...

Por que ele está dentro desse buraco é uma pergunta que me seca a boca e dá urros nos estômagos. Caramba, como a vida é cruel, ao nos cobrar sentido por estar aqui.

Nesse buraco.

Ou sair dele, e encontrar algum sentido.

Para terminar este post eu teria que relatar parte do epílogo da peça.

Melhor voltar para o meu buraco.


Até breve.


FICHA: O IMORTAL, baseada no conto de Jorge Luis Borges, com Gisele Fróes, dirigida pelos irmãos Guimarães. CCBB, Belo Horizonte, em cartaz de sexta a domingo até 26 de maio de 2019.

quarta-feira, 10 de abril de 2019

BIPOLAR





Recebi o vídeo pelo WhatsApp.

Está aí uma ideia verdadeiramente revolucionária, especialmente pela simplicidade do propósito, ainda que com imensa complexidade para sua viabilização.

Basta imaginar 70% do PIB brasileiro em aliança estratégica para a contratação (ampla) de projetos de infraestrutura e tecnologia.

Só isso traria para o país tudo.

Desenvolvimento tecnológico, urbanidade, emprego, renda, atratividade internacional, valor de moeda, tudo.

Por consequência, os demais desafios críticos que impõem a realidade brasileira, com a mesma estrutura estratégica, resultariam extraordinários.

Enviei o vídeo, hoje cedo, para um amigo sócio de uma consultoria na qual é líder da Unidade de Negócios Governo.

- “Na gestão passada tivemos uma iniciativa idêntica capitaneada pelo MBC – Movimento Brasil Competitivo. Faziam parte 9 governadores”.

A resposta do amigo começou a me despertar. Na sequência da mensagem acima ele arrematou:

“Resumindo: foi igual peido, muito barulho e pouca bosta. Acho que este encontro promovido pelo Zema foi muito mais para alinhamento do que pedir em troca do apoio à reforma da previdência”.

Retornei a mensagem:

- Foda, cara, é quase certo que você tenha razão. É que hoje acordei mais besta do que já sou.

Pois é.

Só que enviei o vídeo à um outro amigo que é dono de grande hospital em BH. Na mensagem lembrei à ele do esforço que havíamos feito juntos anos atrás para a construção de aliança estratégica entre 23 hospitais de BH, 22 da Bahia e 19 do Paraná.

Recebi dele o retorno:

“Verdade, meu caro Agulhô. Vamos torcer. Abraço”.

Pois é.

Fico entre a besta e aquele que nutre um restinho de esperança. O restinho está no ato falho quando escrevi na mensagem ao amigo consultor “tenha” e não “tem”.

Razão.


Até breve.

segunda-feira, 8 de abril de 2019

FASCÍNIO





Nota: Para um aproveitamento maior clic no canto direito do vídeo e assista em tela inteira.


Ontem assisti a um espetáculo. Raro, impensável, arrojado, com grande força poética. Marcante. Em tudo magnificamente surpreendente.

Celui qui tombe, Aquele que cai. Concepção, direção artística e cenografia de Yoann Bourgeois.

Uma maravilha fascinante!

Yoann Bourgeois, dedicado inicialmente ao circo, do qual empresta elementos em todos os seus espetáculos, direcionou sua carreira para a dança contemporânea e, desde 2016, dirige o Centre Coregraphique Nacional de Grenoble, no qual se apresenta como um artista interessado em “desarmar o tempo”, por meio de “um processo ininterrupto de criação”. Celui qui tombe é mais uma de suas tentativas de parar o relógio num ponto de suspensão.

Para o criador de Aquele que Cai, a dança contemporânea encontra no circo uma importante relação que integra a harmonia dos movimentos com energia singular – e espetacular – das acrobacias. “Com o circo descobri que queria me aprofundar no fenômeno físico elementar que passa por nossa humanidade”, diz. “Ao retirar o circo de suas formas arquetípicas, apliquei à plataforma as forças que estão presentes no aparato clássico circense.”

Saí do teatro experimentando uma satisfação imensa. Pela magnitude da produção de conhecimento interdisciplinar.  O espetáculo envolve, além de todo um repertório artístico para a produção do texto, da coreografia em si, da música, do canto, da interpretação, um imenso estudo de arquitetura, engenharia, cinética, física, mecânica, acústica, iluminação, e sei lá quantos mais para dar conta de um tudo que nos leva, espectadores, abrir a boca em um espanto gozoso.

Bourgeois cria um jogo para experimentar novos princípios físicos. Seus jogadores, cinco artistas, se movimentam sobre uma plataforma de madeira instável, suspensa, de 36 metros quadrados – que desce, se inclina, roda, balança e se eleva – com uma única instrução: manterem-se de pé.

Sem controle do que acontece, os artistas se rendem ao movimento em busca de formas, tanto individual quanto coletiva, e se relacionam com a gravidade existente.

Penduram-se e caem, juntos e separados, como em uma dança pela sobrevivência, um universo infinito de possibilidades em busca de alcançar o topo da suspensão do corpo.

Ao invés de iniciar o movimento, cada um deles reage a ele e trabalha contra forças centrípetas e centrífugas, tentando manter o equilíbrio, evitando ser aquele que cai.

A cenografia nos coloca diante da plataforma instável de madeira e em torno dela o vazio. Não há como observar o que está no palco a não ser a cena. . A ausência de um significado, definitivo e soberano, tem levado nossa humanidade a buscar mais localmente, com uma nova coragem, nos picos de desespero, como diria Schopenhauer, cercados de vazio.”

Enquanto a plataforma gira, as ideias, tão abstratas, não parecem fustigar a qualidade técnica e artística dos bailarinos. Se o sentimento de vazio é coletivo e mundial, o espetáculo busca oferecer, em meio a tanta desesperança, uma solução conjunta que os impeça de cair: segurar uns aos outros. “O significado das situações do espetáculo vêm das técnicas de luta mão-a-mão entre o ambiente em movimento e nossa humanidade”, conta Bourgeois. “O significado então não é dado, é por natureza instável e dinâmico. É esse equilíbrio de forças que estamos procurando tornar perceptível.”

Ao conceber então, uma movimentação mutante e sob um chão instável, Bourgeois intui que as aparências tendem a desmoronar – a queda se torna atraente. “Queria tornar visível a fragilidade desta humanidade em luta. Estamos vivendo uma sequência histórica, sem precedentes, de profunda mutação civilizatória.”

A versão apresentada ontem no Sesc Palladium de BH conta com cinco artistas no palco (originalmente são seis) e “uma coreografia muito bem escrita” por Bourgeois, que, no entanto, nunca sai exatamente igual em cada apresentação, algo que apenas reforça as reflexões que o coreógrafo propõe com seu trabalho. Afinal, na arte como na vida, a realidade transforma os planos e impõe a necessidade de adaptação.

São experiências como estas que me animam ainda a buscar estar de pé.


Até breve.



quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

PRÉ VIDÊNCIA




Embora tenha pré visto não gosto nada do que vejo na cena presente.

A cada crise, um militar no governo.

Se por um lado (positivo) cole no presidente a imagem de campanha de que ele se cercaria de pessoas de ilibada conduta - os militares gozam dessa impressão - por outro (negativo), excluir do caminho da governança a raça política é criar, na essência, crise institucional.

Não há Política sem Políticos. Exceto nos governos de exceção, próprios do milênio passado, quando haviam porões onde se tramavam atos institucionais.

O mundo é outro. Caiu na rede você está morto.

Se quiser avançar na previdência o presidente terá que ser pré vidente, ou seja, ter visão de consequência política. Há uma lógica perversa na química democrática: você não governa sozinho com sua trupe.

Ontem o governo experimentou o efeito do corolário acima. Exceto aliados de seu próprio partido, ainda que já partido, votaram contra projeto de lei.

Agravar a crise parece sinal de competência, daqueles que não precisam de inimigos para serem derrotados. A declaração do vice-presidente de que, como o projeto de lei foi encaminhado por ele, não passou porque o congresso não gosta dele. Tivesse sido o presidente, passaria. Tiro de canhão no pé.

Temo pelos dois pilares que sustentam a estratégia: a administração e a justiça. Dois homens de conceituada capacidade, mas sem experiência nos meandros do poder que decide, possam (pelo árduo processo de aprendizagem) cansar a ponto deles abdicarem de seus propósitos mais do que legítimos.

O Ministro Moro ao encaminhar em separado projetos relacionados a medidas de segurança e contra o crime organizado daquele que penaliza o Caixa Dois dá outro sinal evidente de falta de manha politiquenta.

Pensaram os legisladores: “Caramba, nos colocaram numa sinuca de bico?”. Adoro Nelson Rodrigues e não vou me cansar de citá-lo: “O óbvio que escandaliza”.

Se o governo não entender o básico, tenderá a buscar a administração por decreto. Não sei se ainda existe o programa humorístico da Globo. Se sim, ele terá matéria vasta para pintar a zorra total.

E o Brasil? Ora esperemos, somos o país do futuro.


Até breve.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

TUBE









Fiz parte do público de (16) dezesseis pessoas (contando comigo), que assistiu à noite do último domingo no Teatro Professor Ney Soares ao espetáculo Hamlet e eu.

No monólogo, o autor do texto e ator propõe ao público uma reflexão sobre nosso comportamento e sua importância na política e na sociedade.

A montagem tem como propósito discutir o bem estar humano por meio da arte, alertando sobre a banalização da violência, da corrupção, do desejo, do imperativo de se tomar uma posição em torno da própria existência.

Destaque à performance extraordinária do ator, especialmente quando ele deixa o palco e vai ao encontro dos espectadores e, encarando-os, convida à consciência.

Terminada a peça o ator fica diante do público, exausto depois de quase duas horas de catarse e com a voz embargada diz que não tem patrocínio conta com o “boca-a-boca” para que os presentes divulguem as duas últimas apresentações no próximo fim de semana.

A principal atração deste ano no Rock in Rio, contabilizou 30 bilhões de visualizações no YouTube, o correspondente a quatro vezes a população do planeta.

Um de seus hits é uma canção cuja letra trata da ligação da namorada via celular que ele recebe numa madrugada e tem como refrão: “O que é isso, baby? Me ligar a estas horas... Hum... Hum... Hum...”

Às vezes chego a pensar que vivemos a maior tragédia histórica da humanidade: a sua bestialização.

O nome do ator é Humberto Câmara. O do astro americano, sensação no Rock in Rio, a quem interessa?


Até breve.

sábado, 26 de janeiro de 2019

PATÍBULO







A mim não interessam declarações, pareceres, opiniões, juízos, análises, pesquisas, perícias, métricas, tétricas, troças, lágrimas, seguros, solidariedade, a mim nada interessa neste lamaçal.

Fotos valem mais do que zilhões de palavras. Talvez uma única palavra seja suficiente para explicitar o óbvio: topografia.

Boa parte das vítimas foram colocadas na linha de tiro. Não há prova mais contundente de um crime hediondo.

Não foi tragédia, não foi acidente, não foi nada que se possa lamentar.

Foi crime e como tal deve ser punido e, por reincidência, de forma conclusiva e exemplar.

Tiradentes ainda clama por justiça. Ou nos enforcaremos a todos?

Basta de lama! Em todos os sentidos.


Até breve.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

REALEZA



Isto é a vida real?
Isto é apenas fantasia?
Soterrado num deslizamento
Sem saída da realidade

Abra seus olhos
Olhe para o céu e veja
Mas eu sou apenas um pobre menino
Eu não necessito de nenhuma simpatia
(fragmento da letra de Bohemian Rhapsody)




Êxtase! Puro êxtase!

A exuberância da sétima e perene arte: ah, o cinema!

Com cinco indicações para o Oscar de 2019, Bohemian Rhapsody é uma celebração exuberante da banda de rock Queen, sua música e seu extraordinário cantor principal Freddie Mercury, que desafiou estereótipos e quebrou convenções para se tornar um dos artistas mais amados do planeta.
O filme mostra o sucesso meteórico da banda através de suas canções icônicas e som revolucionário, a quase implosão quando o estilo de vida de Mercury sai do controle e o reencontro triunfal na véspera do Live Aid, onde Mercury, agora enfrentando uma doença fatal, comanda a banda em uma das maiores apresentações da história do rock.
Durante esse processo, foi consolidado o legado da banda que sempre foi mais como uma família, e que continua a inspirar desajustados, sonhadores e amantes de música até os dias de hoje.
Assistir aos 132 minutos de projeção na telona de Bohemian Rhapsody é experimentar sensações inenarráveis. A grandiosidade da lenda que o filme retrata já seria suficiente para mobilizar o expectador.

No meu caso, não foi pela biografia de Freddie que me arrebatei, mesmo porque Freddie Mercury faz parte da galeria dos artistas eternos e não precisaria de nenhum tributo a mais para elevar a importância de sua passagem pelo showbiz.
A intensidade da emoção que experimentei está no filme em si enquanto obra de arte, na sequência vertiginosa até a cena final apoteótica tanto quanto a carreira de quem o enredo busca retratar.
Rami Malek, o ator que faz Freddie Mercury no filme, não precisa de nenhuma demonstração de maturidade artística a mais. Ele conseguiu dar a dimensão da genialidade, dos dramas internos, da solidão profunda, da voluptuosidade sexual do astro.
Um ator assim é uma preciosidade que, embora não se compare em grandeza ao quilate de quem protagoniza, torna-se também um clássico. Sua interpretação dá ao filme a indispensável magnitude do ser humano ímpar que foi Freddie.
O processo de criação da banda, os bastidores das composições, os conflitos internos, cenas que vão ficar na memória de cinéfilos os mais exigentes. A cena (longa) em que Freddie vai ao encontro de sua ex-esposa que havia o procurado para dizer dos desatinos dele e é filmada sob uma chuva torrencial é impagável simbolicamente, como se ali Freddie estivesse sendo “lavado” de seu passado, encontra a sim mesmo e vai, na sequência, retomar a banda e realizar Live Aid.
Outra cena, a do reencontro dos integrantes da banda, em que Freddie diz que individualmente nem ele próprio alcançaria o êxito pode ser usada em programas de desenvolvimento empresariais para que executivos compreendam de vez o que é uma equipe de alta performance.
Vou ficar eternamente grato à Bohemian Rhapsody.

Até breve.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

ΑΓΆΠΗ




O que restará dos corações aflitos tomados de sentimentos ensandecidos que a razão e a moral não alcançam?

Sentimentos que dão a dimensão do Homem enquanto Humano. “Há mais coisas entre o céu e a terra do que pode imaginar nossa vã filosofia.” Derivamos de Shakespeare que escreveu em 1600, e colocou na boca de Hamlet.

Embora a filosofia e a racionalidade sejam essenciais para o ser humano, elas não respondem a tudo. Há mais no mundo coisas que a razão não consegue explicar. Por isso é temerário legar todas as soluções da existência ao nosso limitado cérebro.

Some-se a essa extraordinária limitação a Moral e seus ditames circunstanciais que implicam em restrições à paixão sem freios e amarras.

O coração, símbolo do que pulsa a humanidade no Homem, fragiliza.

Fosse uma máquina e agora com toda tecnologia cibernética embarcada, provavelmente o cérebro, pelo juízo da razão e da moral, sistematizaria aquilo que deveria conter o coração.

Mas não. A tecnologia não dará conta da loucura. Para a paixão não há remédio.

De onde nasce e nutre o sentimento não há explicações plausíveis, fosse assim a civilização seria outra.

Ao longo de toda a História foram os sentimentos transloucados pela paixão que movimentaram o círculo. Não foram esquemas lógicos racionais e nem aqueles ditados por um determinado código.

O princípio da paixão é o desejo.

E o desejo é o desejo, que não se explica.

Vitimado por marcos regulatórios, impingidos pela razão e pela moral mais do que dominantes, o desejo sempre sofreu seus horrores e, ainda assim, sobreviveu mesmo que inúmeras vezes enquanto ardia em fogueiras.

Quando uma e/ou outra alma é dragada e/ou dragadas pelo mistério servirá a ele e tão somente a ele e aos seus desígnios.

Cruel tarefa essa de escrever o não escrevevíl. E olhe, na norma linguística a última palavra da frase anterior não existe, portanto estou em erro e passível de punições de toda sorte.

Aos poetas, a dor.


Até breve.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

SI


"Tudo neste mundo é produto da fórmula 'função x economia'.
Por isso nada é obra de arte: toda arte é composição e,
por conseguinte, antifuncional.
Toda vida é função e, por conseguinte, não artística."
Hannes Meyer
(1923)


No fundo, falando assim muito de transparentemente, sem rebuscamentos e nem escondidos cravados, a solidão nunca faz de todo bem.

Verdade que o diálogo consigo próprio, no mais das vezes, é facilitado porque se tiver que mandar um ou outro calar a boca não resta constrangimento. Embora, e não são poucas, tem horas que é de amargar.

Isso tem a ver com fragilidades caras, coisas que em consultórios devem rolar soltas, e eu, como num vô, fico com elas aqui embrulhando estômagos. E dizem que ali é que a coisa pega e não nos miolos, onde resida a psique.

Tive uns tempos feicebocando, mas bordejei dali também. É grosso o trem. Voltei prá cá, porque nunca de sei com quem estou falando e aí, supostamente num tem nem debate e nem embate.

Aqui tem até um canto pra comentários, mas depois destes anos todos (de blog) já desisti. Ninguém vem prá cima. E quando vem - bom deixa prá lá -, porque são tão poucos os leitores que se for brigar com eles aí que eu vou continuar falando sozinho.

Pensar com o umbigo, porta de entrada da região dos embrulhos, ainda fica zoando bem. Ou não.

E é sobre que eu vinha falando lá de cima.

Eu desde menino fui circunspecto, mas saí pela vida no esculacho. Afinal, nem eu mesmo tem horas me suporto. Todo aquele que pensa é um porre.

Principalmente para si próprio.

Hoje então, nem se me fale.

Os anos têm debruçado sobre meus ombros neurais e vai ficando cada vez mais miúdo o sofrimento de querer, pelo saber a partir do nada, encontrar algum sentido no pouco que resta.

A vida econômica nos transformou a todos em autômatos funcionais. Independentemente de quanto jorrem contas bancárias. Montantes ou migalhas.

Melhor não enveredar por aqui senão entro no senso mais do que comum ou, como queria Nelson Rodrigues: “O óbvio que nos escandaliza”.

Outro dia disse a alguém (que queria por que queria sair de um imbróglio vivencial), mas fui eu quem mais ouvi: “Num vale a pena, faltam poucos anos para o fim”.

Droga de vida essa! Pico na veia, extenuante. A única certeza nos acomete e diz.

Se não escrevesse, enlouqueceria. E de tão covarde para não ser louco, turvo páginas. Eu deveria mesmo é ficar com meus botões toscos.

Não fosse para as nuvens para quem escreveria?


Até breve.

domingo, 20 de janeiro de 2019

NADA



Para A.



Ouço o grito da página com suas entranhas em brancas linhas.

Ela me convida:

- “Preencha-me, e me faça encontrar sentido”...

Como se o sentido de Tudo estivesse em linhas tortas e vagas, permeando conscientes fugidios, matreiros, escolados e/ou tenebrosos inconscientes inconfessáveis ou essencialmente marcados por infinito e definitivo mistério.

Ai de mim, página literalmente em branco porvir!

De que tintas e cores me restarão letras e sobre que construções de vínculos entre elas - ainda que poéticos - palavras em frases marcarão genuínos olhares?

Há muito me perdi em turbilhões. Sexta-feira, ouvi de uma amiga que eu perdi o veio.

Pode ter sido, ou entrei por outro onde cabe silêncio, resguardo, cansado de parir filhos impróprios.

Ninguém que turva páginas deveria se encontrar, perder-se sempre deverá ser o melhor caminho.

A escrita é o maior crime cometido pelo homem contra si mesmo. Sem ela não cometeríamos tantos desatinos, nem cartas de amor ou ódio, nem contratos avessos, tratados torpes, leis, sentenças, juízos.

Ah, os livros! Ah, a Literatura! Instrumentos perversos, repletos de viagens alucinógenas, construções de olhares em perspectiva fantasmáticos e delirantes.

Deveríamos todos que escrevem nos autocondenarmos e sair de cena. Mesmo aqueles que deixam lenitivos, esperança, bonança, como se humanizar-se pela leitura fosse uma verdade inconteste.

Escrever é cometer crime hediondo, ler é cumplicidade mórbida.

Nenhuma entranha de nenhuma página é preenchida se não por horrores, dramas entre Eros e Tanatos (ou será Thanatos, com esse H de Humano), pulsões contumazes, erráticas e danosas.

Tudo isto por um vazio ou tristeza, não sei. Assisti à A Esposa, e à Monsieur & Madame Adelman. Ambos essa semana, o primeiro no cinema e o segundo na Sky.

Escrever é gerar procura. Quem quiser viajar, assista aos dois filmes e se perderá comigo.

Só assim terei feito mais uma vítima.


Até breve.

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

CAPITAUTISTA





Foi assim num mais que de repente. Nada de muita pesquisa, fontes de erudição, interesse pelo hipermoderno, coisas que tais.

Foi assim por desses acasos fortuitos de que pela Vida nos acomete. Fa, minha nora do primeiro, no 25 de dezembro último, disse me passando um livro:

- Agulhô, dê uma olhada, acho que você vai gostar.

Sofro de compulsão exacerbada e mesmo que continuando na roda de conversa em família, passei a folhear o livro e... zupatz!!!

- Gisus, quêquêéisso?????

Pois então, depois disso num fui o mesmo.

Podem acreditar, embora não pareça ao longo da vida eu li à beça. Muito e de tudo e de todos. É verdade que se me pedirem para falar algo sobre qualquer deles é capaz de eu misturar uns aos outros ou “inventar” que foi dali que eu bebi, essas sandices.

Desde sempre achei que saber deve servir.

A Estetização do Mundo – Viver na Era do Capitalismo Artista(*), do filósofo Gilles Lipovetsky e do professor de literatura e crítico de arte Jean Serroy, é um livro que serve.
Nutre, embriaga, eleva e, sobretudo, arrebata.

“A oferta de todo um conjunto de consumos de maior valor agregado não elimina o espetáculo da nova pobreza, das cidades sem estilo, dos corpos desgraciosos, das criações culturais pobres e vulgares, da desculturação dos estilos de existência. O que se anuncia nada mais é que uma comercialização extrema dos modos de vida na qual a dimensão estética ocupa, sem dúvida, uma posição primordial, mas que, apesar disso, não desenha um universo cada vez mais radiante de sensualidades e de belezas mágicas. No mundo fabricado pelo capitalismo trasestético convivem hedonismo dos costumes e miséria cotidiana, singularidade e banalidade, sedução e monotonia, qualidade de vida e vida insípida, estetização e degradação do nosso meio ambiente: quanto mais a astúcia estética da razão mercantil se põe à prova, mais seus limites se impõem de maneira cruel a nossas sensibilidades.”

Com 422 páginas de texto, 33 de Notas e 10 páginas de Índice Onomástico contemplando perto de 800 artistas de diferentes áreas, pensadores, teóricos e ensaístas de diferentes disciplinas, o livro a mim causou mais do que O Capital de Karl Marx. Ou foi Germinal de Emile Zola? Ou terá sido O Muro de Jean Paul Sartre?

Faço mesmo confusões romanescas, mas...

Compreender o tempo presente, mais do que julgá-lo, sorvendo do saber a beleza de estar vivo, talvez nos torne um pouco menos toscos e idiotas.

Ou será pelo o quê?


Até breve.
(*) A estetização do mundo: Viver na era do capitalismo artista/ Gilles Lipovetsky, Jean Serroy; tradução Eduardo Brandão. – 1ª ed. – São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

TUPI





Vão dizer que eu entrei no Bolso.

Mas gostei do discurso do Ministro. Parte dele, boa parte dele. Do discurso, claro.

Gosto de ele ter usado Clarice e Pessoa, esses monstros sagrados.

Desvelamento, liberdade e conhecimento. Deixemos de olhar o espelho e nos voltemos às janelas.

Quase uma síntese de um tudo que foi dito.

Gosto de manifestações apaixonadas, dos transloucados, dos que creem. Gosto, porque me identifico. Mesmo que visceralmente não acordado para o que é dito, mesmo me corroendo todo, mesmo sendo radicalmente contra, quase odiando (já que não sou capaz).

“Respeite as leis más. Você poderá se ver em situação de criar boas leis e não deverá dar a ninguém o direito de desrespeita-las.” J. J. Rosseau.

Gosto da explicitação, prefiro à dissimulação que nos leva ao engodo. Mesmo que o que se explicita esteja carregado de matizes, nuances.

Gosto da coragem, que coloca o coração em risco. A Vida em risco.

Policarpo Quaresma na veia.

Este país ainda descobrirá seu ideal. Mesmo que se torne um grande Portugal.

Gosto de ir às entranhas, remexer, da angústia de ser.

Gosto da história do menino de vinte e dois anos que entrou no ministério e viu o quadro de Dom Pedro I bradando com a espada às alturas. Tão marcado pelo fato que este menino hoje, senhor da casa, clama pela mesma liberdade e diz não ter medo.

Dois posts, dois nervos (Íris e Tupi): Família e Pátria.

Caramba e nós que achávamos que iriam mexer na Previdência, mas serão tão imprevidentes?

Quem viver será?



Até breve.

NOTA: Os índios de língua tupi habitavam quase todo o litoral brasileiro, pela época do descobrimento, e foram os primeiros a estabelecer contato com os colonizadores europeus.