terça-feira, 30 de julho de 2019

AMIZADE




“O que há de ser o outro?”
(Alara de Esperanza)



A Arte nos faz suportar a realidade. Especialmente esta que está aí a nos assaltar o cotidiano. Embora haja muita imaginação para produzir Realidade.

Fui assistir domingo à Cézanne e Eu, filme dirigido por Danièle Thompson e estrelado por Guilhaume Gallienne (Paul Cézanne) e Guillaume Canet (Emile Zola).

Cinema, pintura e literatura juntos nos servindo como um tempo de respiro, de catarse, de alento. Ou de provocação.

Li muito ao longo da vida e alguns livros fundaram meu caráter. Germinal, de Emile Zola, sem dúvida, foi um deles.

Publicado em 1885, Germinal retrata uma épica revolta de mineiros que se sublevam contra as condições de trabalho. Cultuado por muito tempo como o romance por excelência das relações humanas no universo da organização dos trabalhadores, a obra constitui simultaneamente um painel revelador da lógica patronal no início do capitalismo industrial.

Paul Cézanne, considerado “o Deus da pintura” por Matisse e “o pai de todos nós” por Picasso, nos legou cores e formas lançadas em tela para enlevar o espírito. Magnânimo.

O filme busca retratar os contornos da amizade de quarenta anos entre estes dois gigantes do fim do século XIX. A genialidade de ambos, a sensibilidade à flor da pele e o amor/ódio presentes na relação dão a dimensão do belo roteiro.

Em que pese outros ícones da época surgirem de forma secundária na trama, Cézanne e Zola, são suficientes para nos fazer pensar no amor presente na amizade como elemento fundamental na produção de algo verdadeiramente extraordinário.

Os conflitos entre os dois artistas derivados da cobrança recíproca para que um e outro fossem o que se propunha a ser são passagens de uma riqueza infinda. Somente alguém que nutre um interesse genuíno pelo outro pode, de fato, nomear-se como amigo.

O filme quer isso, pelo menos em mim.

A cena em que Cézanne interpela Zola colocando-o diante de si mesmo e a forma que Zola retruca à Cézanne é uma das mais belas do cinema, pelo diálogo em si e pela maestria na interpretação dos excepcionais atores.

Eu estava precisando deste filme e agora.

Na cena Cézanne “acusa” Zola de escrever sobre a realidade, a burguesia, mas que ele não consegue viver senão das benesses que o sucesso de sua obra lhe faculta.

Zola “retruca” Cézanne dizendo que o amigo jamais conseguiria viver da pintura, não fosse a ajuda financeira do pai a quem o pintor detestava.

Cruel realidade esta que nos faz abdicar de tantos e caros sonhos e projetos, para viver uma vida comezinha, menor e, além de tudo, ter retinas fatigadas, coração diminuto, calor sanguíneo em declínio.

Eu precisava assistir a este filme e agora.


Até breve.

sexta-feira, 19 de julho de 2019

ALELUIA





- E aí, Agulhô... Tá botando fé, não? Fui abordado ontem por uma amiga com esta prosaica questão.

Acordei de madrugada com esse trem me martelando os trilhos neurais. E aí me lembrei de meus antepassamentos para encontrar veio e postar.

Estivesse viva minha mãe engrossaria o rol daqueles que elegeram o atual comandante. Pelas mesmas motivações ela teria escolhido o da “bala na agulha – caçador de marajás” há trinta anos e o da vassoura há sessenta.

Minha mãe era uma mulher convicta e focada no bem a qualquer custo. Tanto que não poupou a nenhum de nós. Arremessava o que estivesse a seu alcance para nos apontar o caminho do bem. Surras eu levei de todos os dispositivos pedagógicos.

Meu pai, do alto de sua ignorância mais do que absoluta extraída do fato de nunca ter lido um livro sequer na vida, secundava-a com uma expressão emblemática: “Eu sou um homem reto”!

Ambos foram vitimados pelo Bem. Cegos das duas orelhas, com uma truculência a toda prova, não importavam a eles os meios, mas os fins.

E foi assim.

E eu não acho que tenha sido um privilégio de meus pais (queridos, ainda que aparentemente eu os espinafre aqui). Milhões de brasileiros sobreviveram e ainda sobrevivem, em que pese toda a avalanche de informações, na mesma expectativa.

Haverá alguém que nos governe em direção ao Bem.

Jânio, Collor e Messias em um intervalo histórico, entre um e outro, de trinta anos, explicitam a demanda brasileira: o Bem.

Reconheço que a erradicação do Mal com vassouras, antídotos marajaenzes, tudo pelo Brasil e Deus acima de todos não são, no fundo, uma ideia estapafúrdia. Faz sentido. O que nestes sessenta anos se produziu de vilania jamais será de todo contabilizado.

Então somente um Santo Guerreiro será capaz de nos livrar do Mal, amém.

O problema é que homens podem ser guerreiros, mas santos, eu tenho cá minhas dúvidas. Até porque o Bem sempre colocará em cheque quem está do lado do cabo e quem está do lado do chicote.

Pois é.

-- E aí, Agulhô... Tá botando fé, não?

Liz fará, no dia 01 de agosto, sete anos de idade. No sábado agora vamos fazer uma festinha para ela no sítio.

Acho que isto não é, de todo, mal.


Até breve.


segunda-feira, 8 de julho de 2019

CANTINHO




O que vai embora junto com João Gilberto, este sim um grandíssimo idiota?GENE

Esta besta me fez amargar, certa vez no Palácio das Artes em BH para assistir a seu showzinho desafinado, a cinquenta minutos de espera depois de ter soado por três vezes a campainha indicando o início do espetáculo.

Lembro-me bem quando ele entrou no palco. Sem pedir desculpas à plateia ruminou alguns grunhidos para dizer por que atrasara. Acho que alegou o bater de asas de um mosquito que alteraria o som de seus compassos.

Inesquecível foi quando eu saí do teatro. Flanava ainda nos acordes, difícil saber se ecoados das cordas do pinho ou das vocais da garganta de quem o tocava. Aquilo é uma monstruosidade, pensava.

Zuza Homem de Melo, historiador, me alcança: “o canto intimista, a letra sintética, despojada, o emprego de acordes alterados e, sobretudo, um extraordinário jogo rítmico entre o violão, a bateria e a voz do cantor.”.

João cortou o tempo. Bossou diferente, um novo que desconcerta, incomoda, transforma. Desses sujeitos vadios, transgressores que nos tiram de um lugar sabido, acostumado, conveniente.

Gilberto, estranho ser, encontrou no tamborim um som peculiar que lhe percorria o ar dos pulmões e lançava sobre o silêncio um recado aos corações, até dos desafinados absurdos como o meu.

Há tempos JG vivia arruinado, adoecido e sozinho em uma casa emprestada no Rio de Janeiro. A tristeza que envolveu este artista em seus últimos anos parecia não ter fim, como reza a música de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, os outros dois pais da Bossa Nova.

Posso imaginar as razões.

Outro dia assistindo o canal Arte1 deparei com um documentário sobre Saudade, belíssimo por sinal. Lá pelas tantas entra em cena um arquiteto entrevistado e diz que esse negócio de dar valor ao passado não está com nada, o que importa é o que está por vir.

Até hoje engulo em seco essa declaração.

O que vai embora com João Gilberto?

Um muito de mim com certeza. Um tempo de renovação e esperança aguda, uma juventude transviada, um acorde. Uma bossa.

Vai junto com João um canto doce, moderado, fundo. Só melhor que o silêncio, como disse Caetano.

Nos deixa vazio um palco de soberba próprio apenas para a genialidade de imensos poucos, desses que nos tornaram ainda que resistíssemos tanto, seres humanos um pouco menos endurecidos e toscos.

Esse texto me faz verter lágrimas, tão escassas hoje por estas razões. Juro que não creio mais ser possível no porvir algo que venha a compor um tempo de Tom, Vinicius e João. O mundo não tem e não terá ouvidos para um doce balanço a caminho da delicadeza, mais afinado e menos ruidoso.

Voltou a terra hoje um de seus melhores sumos.

Chega de saudade.


Até breve.

domingo, 7 de julho de 2019

GENE




Este blog está perto de atingir a marca de 150 mil acessos. De 08 de maio de 2011 até a data de hoje (+ ou - 3000 dias) editei o total de 1076 posts.

Um post a cada três dias com a média de 139 leitores por post.

Eu acho muito expressivo, ainda que não tenha essencialmente alterado em nada a minha vida e, o melhor, nada a vida de nenhum daqueles que se debruçaram sobre os meus escritos.

Estive, por duas temporadas, compartilhando parte destes posts no Facebook e, por razões diversas, acabei encerrando a minha conta naquela máquina de fazer doidos.

Voltei para a solidão daqui do blog, já que no FB recebia muitos comentários dos “amigos” virtuais o que me dava um pouco de egosplasia. Não me perguntem o que vem a ser egosplasia, porque é algo que me ocorreu agora e expressa o que sentia quando acessava a minha página e lia comentários ou curtidas.

Sofro, desde a infância, da necessidade de palco e acho que, também por isto, perdi tanto tempo meu e dos leitores que me acessam aqui.

Nesta altura da vida não vejo a menor possibilidade de me libertar desta carência sindromática de loas, e vou ficar muito triste quando, esfriando da vida, não ver pelo menos 139 amigos, mesmo que parte deles virtuais, jogando flores sobre minha tumba.

E gostaria muito, também neste evento, de ouvir um ou outro dizer: “Era um idiota, mas pelo menos sabia disto”.

Minha idiotia não aconteceu por uma acaso de nascença, não veio embarcada no DNA, não é herança maldita nem materna e muito menos paterna. Minha idiotia foi elaborada asneira por asneira, tolice por tolice, devaneio por devaneio, delírio por delírio.

Nem eu mesmo teria saco para reler os 1076 posts para comprovar isto. Aliás, o simples fato de fazer uma proposta desta me qualifica no rol dos idiotas mais distintos.

É claro que alguns posts, poucos é verdade, devem ser excluídos da pecha de terem sido escritos por um idiota, mas por um Zé Ruela de meia tigela. Incluiria nestes aqueles que escrevi para meus netos antes de nascerem. Para Liz principalmente, pois, por ter sido a primeira neta, foi a maior vítima de minha zerruelice.

Marcados por uma idiotia cavalar, todos, foram os posts sobre política. Estes foram aqueles que mais eu primei. Juro que me lembro do sentimento que experimentei logo após editá-los. E ainda me surpreendo como eu pude tantas vezes retornar ao tema, embora não fosse assim eu não poderia ser considerado de fato um tremendo idiota.

Aqueles posts em que fiz crítica a filmes, peças de teatro, músicas não posso dizer que entrariam no rol, foram na verdade espasmos intelectualóides de quinta grandeza. Não são propriamente nem idiotas e nem zerruélicos.

Contos e/ou crônicas do cotidiano? Putz! Esqueçam.

Agora, vejam como são as coisas. Ontem recebi de Pretinha (para quem não se lembra trata-se de minha filha Valesca) notícia de que Liz está escrevendo um livro para mim e que pretende entrega-lo no domingo quando ela chega de Lages para passar uns dias em BH. Dia 01 de agosto ela completará sete anos de idade.

Morro de medo de estar legando essa herança maldita.

Uma idiotia qualquer.


(capa do livro de Liz)


Até breve.