sexta-feira, 22 de outubro de 2021

METAVERSO

 







Não bastasse a metalinguagem, para além da linguagem, agora viveremos para além do Universo, que já não é único.

Metaverso significa “além do universo” e designa um espaço coletivo e compartilhado no ambiente virtual, onde experiências físicas serão recriadas por meio da internet, da realidade aumentada, da realidade virtual, da inteligência artificial e de outras tecnologias exponenciais.

Conceito fascinante, é um futuro possível para a internet  móvel 6G. Refere-se à  capacidade de equipamentos e banda processarem e trafegarem informação o suficiente para permitir ambientes 3D em que conviveremos uns com os outros mesmo que remotamente.

Realidades virtual e aumentada se juntarão para que tenhamos a sensação de compartilhar, com outras pessoas, o mesmo espaço ainda que estejamos em continentes distintos. Poderemos assistir a shows e fazer reuniões. De repente, até namorar.

Eu prefiro árvores reais (flamboyants...), em suas estações fluídas, e corpos perfumados e ardentes.



Tirei foto deste poema, anteontem, quando voltava pra casa.
Fosse poeta eu o escreveria.
Para que florescesse.


Até breve.



sábado, 9 de outubro de 2021

REMÉDIOS II

 




 

Além da infinita ignorância e do humor, citados em post anterior, a Vida contemplou-me com outros privilégios.

Espiritualidade em lugar de religiosidade. Aqui, como em quase tudo, não me tornei (até este momento) um homem partido. Tivesse nascido em outro país, levado por força de circunstâncias, eu poderia restringir-me ao contrário do catolicismo (aqui predominante?), ao judaísmo, ao budismo, ao islamismo, ao hinduísmo, a outros ísmos, sabe-se lá quantos e quão dogmáticos.

Preferi crer, se é que creio, na transcendência, face à minha óbvia insignificância. Restringir-me a crenças de quintais de significantes é supor dar conta, como os loucos. Que acreditam.

A minha infinita ignorância e senso de humor, somada à espiritualidade, aqueceram meu coração e cérebro quando, em minhas andanças mundo a fora, deparei-me com a inscrição na porta de entrada da Capela dos Ossos, em Évora-Portugal: "Nós ossos que aqui estamos pelos vossos esperamos.".

É bom demais saber que eu não estou com esta bola toda. Um dia esta bisnaga de carne transformar-se-á em carniça. E todos os meus quintais perderão significados temporais.

Minha paixão é o futebol e não bandeiras. Na infância e juventude fui Cruzeiro, em deferência a meu pai, outra paixão. Depois que ele se foi, fiquei com o futebol. Todo ele, de uma pelada da várzea a Champions League, Real, Barça, Liverpool, eu quero é ver Cristiano, Messi, esses sujeitos transcendentes. Independentemente das cores de suas vestes.

As décadas de Vida que se acumularam em torno de mim, colocaram-me ainda mais à margem. Não fosse meu senso de humor eu não suportaria minha infinita ignorância e embarcaria num desses caixotinhos dogmantes.

Seria Lacaniano, ou quem sabe, Freudiano. Ou Petista. Bolsonarista? Comunista. Existencialista. Epicurista. Capitalista. Frentista. Dentista. Xintoísta. Ametista. Contista. Romancista. Poetista. Artista. Crista. Escrachadista.

Rir desta porra toda é do caralho, falô?

Não sou, por isto. Portanto, vago pela terceira margem do rio. Mesmo que seja pecado.

Para quem entendeu, sobre transcendência, os ossos bastam.

No próximo post falarei de outro privilégio: o gôsto, assim mesmo, com chapeuzinho.


Até breve!


sexta-feira, 8 de outubro de 2021

PAZ

 



"Na batalha dos fatos, isso mostra que o comitê do Prêmio Nobel da Paz percebe que um mundo sem fatos é um mundo sem verdade e confiança. Se você não tem nenhuma dessas coisas, certamente não pode vencer o coronavírus, a mudança climática.”

“Desde 2016 eu digo que estamos lutando pelos fatos. Quando vivemos em um mundo onde os fatos são discutíveis, onde o maior distribuidor de notícias do mundo prioriza a disseminação de mentiras misturadas com raiva e ódio, e os espalha mais rápido e mais longe do que os fatos, então o jornalismo se torna ativismo.”

"Como fazemos o que fazemos? Como os jornalistas podem continuar a missão do jornalismo? Por que é tão difícil continuar contando à comunidade, ao mundo, quais são os fatos?"

"O mundo deve se unir como fez após a 2ª Guerra para resolver esse problema. O que eles fizeram? Eles criaram as Nações Unidas, a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Este é o tipo de momento que requer isso, e não sei como nós, nas Filipinas, teremos integridade nas eleições se não forem colocadas grades de proteção em torno das plataformas de mídia social."

"Nada é possível sem fatos. Mesmo que os fatos sejam realmente enfadonhos, tudo começa com uma realidade compartilhada que é definida pelos fatos. O que vimos é que, à medida que os jornalistas perdiam seus poderes para as plataformas de tecnologia, tudo isso foi embora quando a tecnologia assumiu a função de guardiã das informações. Essa é uma crise existencial não apenas para jornalistas ou a democracia filipina, mas globalmente.”

"O que aconteceu em nosso ecossistema de informação, esse vírus da mentira que foi introduzido por algoritmos de plataformas de mídia social, infecta pessoas reais e as muda, é como a explosão de uma bomba atômica.”

Maria Ressa, filipina, Prêmio Nobel da Paz de 2021, é a 18ª mulher a ganhar o Prêmio Nobel da Paz em 126 anos. Em conjunto com o também jornalista Dmitri Muratov, pela contribuição essencial de ambos para a liberdade de expressão e o jornalismo em seus países.


Até breve.

FONTE: O Estado de São Paulo, de hoje, 08 de outubro de 2021.

FOTO: Rappler/Handout via REUTERS


quinta-feira, 30 de setembro de 2021

REMÉDIOS

 

(Foto tirada por mim em Sambaqui, Floripa)


“A literatura concorre para uma sociedade mais harmoniosa, porque pelo texto literário você percebe que o mundo vai além de você. Você aprende com o texto literário a democratizar a razão.” (Bartolomeu Campos de Queiroz)

 

Sou grato à Vida por ter me distinguido por inúmeros privilégios.

Entre tantos, o da infinita ignorância é aquele que mais agradeço. Reconhecê-lo ao longo de todo o meu percurso obriga-me a ampliá-lo a cada dia.

Li muito e pretendo continuar lendo. A cada livro alargo o meu privilégio. Incrível como ao término de cada leitura, sinto-me mais raso o que me estimula a buscar mais e mais saber para não saber tudo. E ainda, assim, buscar saber.

Outro privilégio, tão relevante como o citado, ser vitimado por acasos, no que tange à minha infinita ignorância. Livros me chegam, como que se soubessem da minha necessidade em lê-los. Poderia citar inúmeros episódios sem que nem porque fui instado por parentes, amigos, outras leituras e não necessariamente correlatas.

A infinita ignorância é como sexo. O orgasmo é um desmancha prazer. Logo, você o quererá de novo, e de novo e de novo, e por mais que você procure, o sabor e o prazer advindo da infinita ignorância são inenarráveis, não decifráveis, não sabidos.

Só que uma delícia vertiginosa, a infinita ignorância.

Talvez derive daí outro privilégio: o humor. Até meus netos não fiam em mim, quase sempre produzo pilhérias de um tudo. Fosse a um analista, colocaria no divã a minha avó materna como culpada. Diante de conflitos domésticos acalorados ela sempre saía com: “Não sei porque brigam tanto se pra lá nós vamos.”.

Desde sempre, portanto, o humor serviu-me como um bálsamo. Sobretudo na infância, dada à penúria familiar e a dura vida de minha mãe. Eu gostava de imitar os humoristas da TV e do cinema. Ronald Golias, Ivon Curi, Cantinflas, Mazzaropi. Ela ria, ria, ria tanto que por diversas vezes saiu correndo urinando pelas pernas abaixo, de tanto rir. Fazê-la rir foi sempre, em casa, o melhor remédio.

De quem rio mais é de mim mesmo, inclusive agora, por este texto. A minha tolice em acreditar que se aceitássemos todos a nossa infinita ignorância e ampliássemos o nosso senso de humor, talvez faríamos um sexo coletivo transbordante.

E a Vida teria mais sabor. 


Até breve.


segunda-feira, 20 de setembro de 2021

AGUAR

 




Outro dia escrevi aqui que havia amanhecido vivo e que isto vinha acontecendo há vários anos.

E continua.

Hoje tomei uma decisão: vou suicidar, vou me suicidar, vou suicidar-me, vou-me suicidar. Seja a construção sintática que for, se sintática, o fato é que a decisão está tomada.

Não amanhecerei vivo.

Espera, amigo, embora a decisão esteja tomada, falta escolher o motivo e o quando, e aqui reside o grande obstáculo para que eu não realize o feito, amanhã, pelo menos. Assim, não há razão para que você se alarme, ligue pra mim, mande alguém ligar, enfim tente dissuadir-me, pelo que, de pronto, agradeço.

O quando depende do motivo, portanto, a grande dificuldade está na escolha, porque não são poucos para que eu dê cabo de minha vidinha.

Estou convalescendo, com imensa angústia, de uma perda afetiva. Por si só seria uma razão mais do que justificável.

Há outras, ainda que secundárias.

A dor pela constatação do que ambientalistas vem nos sinalizando há décadas: a mudança climática, fruto de nossas mais do que criminosas e aberrantes ganâncias. Toda vez que chego na sacada do meu quarto deparo-me com a agonia das árvores da mata defronte.

A dificuldade absurda recentemente adquirida de me relacionar socialmente, especialmente quando em grupo cujo tema é o quadro político. Quando estou com “nós”, não me sinto parte e não compreendo o que “nós” quer dizer de “eles”. Quando estou com aqueles que suponho ser “eles” daquele “nós”, o mesmo ocorre. Não há lugar para “Eu”. Ou Eu tenho quer ser de um nós ou tenho que ser de um eles.

Meu pai padeceu anos do Mal de Alzheimer. Não é essa terrível doença que temo contrair, mas do Mal do Ódio. Por absoluta ingenuidade, ou incompetência adquirida, não consigo atualizar-me para esta prática. Estou analfabeto social.

Todos os meus acolhimentos de comentários no FB são com: AMEI.

Outras questões, menos relevantes, me afligem, como a devastação da cultura, a mediocrização dos diálogos, o oco do vazio.

Talvez porque seja segunda-feira.

Lembrei-me de meu caseiro já falecido: seu Divino. Eu vinha para o sítio somente nos finais de semana e reclamava com ele que as plantas estavam muito sofridas.

Ele, honrando seu nome, sempre dizia:

- Ô, Gulhô, cê vai vê nas água... Elas renasce tudo travez, sô!


Até breve.


sábado, 18 de setembro de 2021

FUTURAR

 


Liz, Tin, Totô e Lelê, brincando outro dia juntos, dialogavam.

Aí, de repente, tiveram uma ideia:

- Vamos montar duplas?

- Como assim?

- É, vamos caçar nomes que possam brincar conosco?

- Ainda não entendi...

- Puxa, é muito fácil, é assim: a gente tem que escolher, dois nomes...

- Dupla é de dois nomes, né ô!

- Pois é, dois nomes. O primeiro para Presidente e o segundo para Vice.

- Mas isso é brincadeira de adulto, não quero, é muito chata. Num tem graça! Num quero brincar disso.

- Que que a gente ganha no final da brincadeira?

- Um futuro.

- Vamos brincar de outra coisa...

- Vem cá sô, é rapidinho. Prometo que vai ser divertido.

- No futuro eu vou ser jogador de futebol...

- Quem não sabe, você só tem bola na cabeça.

- Eu vou ser bailarina, contadora de histórias... Ah, eu não sei ainda.

- Eu, pilota de avião, já falei.

- Todo mundo riu porque eu falei que vou ser pensador...

- A gente podia chamar o vovô pra ajudar, né?

- Neim!!! Ele vai atrapalhar...

- Ele é muito doidinho, vai querer uns nomes que ninguém nem nunca ouviu falar...

- É capaz até dele inventar uns nomes para avacalhar a brincadeira.

- Num fala assim dele, não.

- E num é?

- Pior que é...

- Mas a gente podia chamar os amigos dele do blog...

- A gente nem sabe quem são...

- Vovô também num sabe de muitos também não...

- Vamo logo começar com isso que eu quero ir jogar bola...

- Então tá, quem começa?

- Fernando Haddad e Luiza Trajano.

- Rogério Pacheco e Simone Tebet.

- Fernando Bezerra e Marco Rogério.

- Ciro Gomes e Eduardo Leite.

- Romeu Zema e Tarcisio Gomes de Freitas

- Alexandre Vieira e Fabiano Contarato.

- Jorge Doria e Luciano Hulk.

- Jorge Amoedo e Horácio Piva.

- Henrique Mandetta e Eduardo Leite.

- Tasso Jereissati e Geraldo Alckmim.

- Tá difícil...

- Tenta.

- Cês num esqueceram de dois nomes não, hein?

- Esses dois aí que você pensou eu num quero nem lembrar...

- Se os amigos do vovô quiser, que que a gente pode fazer né?

- Ah, chama logo os amigos do vovô, vai...

- Eles que são responsáveis pelo futuro, né?

- Pior que é...

- Mas eles têm um ano para entrar na brincadeira, né?

- É, mas tem que avisar o vovô pra ele falar com os amigos dele que não é pra escolher já agora os nomes que querem que ganhe não. É só o que eles gostariam que estivessem no debate para poder ajudar na escolha, né?


Até breve.

OBS.: Para entrar na brincadeira é só apontar as duplas nos campo: COMENTÁRIO


quarta-feira, 8 de setembro de 2021

APELO

 

A mim não parece saudável, enquanto conduta democrática, a desconsideração do número expressivo de pessoas que responderam, no dia de hoje, ao chamamento do presidente da república.
Por mais absurdas e inadimissíveis que são as atitudes do sombrio e insano presidente, devemos acolher as queixas de nossos concidadãos que o acompanham e, com argumentos, em quaisquer esferas, buscar dissuadí-los em insistirem na defesa de sandices, para não dizer criminosas intenções.
O Brasil já tem problemas de sobra para equacionar. Não podemos dar margem a que conflitos sociais, de consequências inimagináveis, tornem nossas mazelas ainda mais insustentáveis.
Convém que, enquanto pessoas esclarecidas, saibamos conter as nossas paixões mais do que exacerbadas e buscar convergências.
É passada a hora de rompermos com que nos separa.
Viver em paz é infinitamente melhor.


Até breve.

terça-feira, 7 de setembro de 2021

DEZOITO

 


Noticiou-se, ontem, a décima-oitava vitória processual do ex-presidente. Mantida a inquestionável competência de seus advogados para encontrarem, nas entrelinhas e entrementes, oportunidades para protelarem os processos mantendo-os distantes do juízo de mérito.

Na sequência, a comunicação formal dará conta de que pela décima-oitava vez a justiça não encontrou provas e que o ex-presidente, a cada processo, demonstra a sua inocência.

No mérito perde-se de vista o desaparecimento do mercado das cinco maiores empreiteiras responsáveis por contratos de infraestrutura que, à época, faturavam juntas algo perto de mais de R$100bi. Também, tampona-se a decadência do empresário X, umbilicalmente ligado ao casino palaciano, que detinha a 8ª fortuna do mundo e hoje mantém em seu patrimônio apenas a sua mansão (herança familiar intocável) à beira do Cristo Redentor. Condenado a 30 anos de cadeia, continua livre prestando consultoria em projetos de investimentos no Brasil.

Da mesma forma, apenas para citar uma ou outra evidência da lama, a escorchante ação predatória do erário através de práticas de evasão fiscal que, como bomba de efeito retardado, culminaram em pedaladas que mandaram para a rua a pobre senhora presidenta. Golpe patrocinado pela Lei de Responsabilidade Fiscal.

Em futuro próximo, é de todo provável, que estaremos assistindo algo que se assemelhará. O atual presidente manter-se-á ileso dos crimes pelos quais será indiciado de forma inPrecisa. No mérito, se tamponará que ao longo de seu especialíssimo desgoverno, ocorreu uma pandemia que vitimou centenas de milhares de pessoas e que, ele não foi responsável nem direta e nem indiretamente pelo ocorrido. Entre outros crimes hediondos levados pela boiada.

É que é madrugada e eu, como de outras vezes, acordei de um sonho.

Sonhava que o povo que vai para a praça hoje, num lapso de extraordinária e improvável tomada de consciência, unia as cores de suas bandeiras e bradava por causa única: ELES NÃO!

Este post foi publicado no FB e, lá, se autodestruirá em doze/dezoito horas e eu retornarei à página com outros textos que, como quer meu mestre, o psicanalista Chico Daudt, continuarei fazendo parte da graça, da cura e do (escasso) sabor do Facebook. 

Folia por folia, continuo com a minha.


Até breve.


quinta-feira, 2 de setembro de 2021

PRIMAVERA

“Eu gostaria de pacificar o conceito de força como aquilo capaz de produzir e suportar elos”. (Juliana Monteiro) 


Assisti com especial interesse e atenção à conferência de JARED DIAMOND, biólogo americano evolucionário, fisiologista, biogeógrafo e autor de não-ficção. É mais conhecido no Brasil pelo seu livro Armas, Germes e Aço. Em 1997 foi vencedor do Prêmio Pulitzer.

A oportunidade faz parte do ciclo de cinco conferências de proeminentes pensadores da atualidade em diferentes campos do conhecimento realizada pela plataforma Fronteiras do Pensamento que ocorrerão a cada mês até dezembro de 2021.

Basicamente Diamond coloca a pandemia como uma experiência relevante para a Humanidade porque, na opinião dele, foi o primeiro acontecimento em escala verdadeiramente global que afetou, e ainda afeta, a todos os habitantes do planeta.

Ele vê a COVID19 como um alerta expressivo para as lideranças de todo o mundo no enfrentamento do que considera os três maiores desafios do contemporâneo: as mudanças climáticas, o insustentável uso de materiais e a desigualdade econômico-social.

Estes três desafios conjugados e interligados, um determinando o outro ou amplificando os seus efeitos, estão seguramente muito para além das agendas que ocupam as lideranças internacionais, aumentando ainda mais os efeitos decorrentes.

É cada dia mais patente a extensão dos desastres ecológicos: o verão europeu com a marca recorde de 50ºC na Itália; enchentes, queimadas, terremotos. Na noite de ontem, a cidade de Nova Iorque foi assolada com a chuva mais intensa dos últimos 156 anos.

Tenho ocupado os meus amigos com singelos poemetos ilustrados com fotografias de minha morada. Assim como historinhas e episódios que têm meus netinhos como protagonistas.

Quem visita minhas páginas comenta que vivo num paraíso, compartilhando-o com uma família maravilhosa.

Sim, a Vida tem sido muito generosa para comigo e pelo que agradeço todos os dias.

Às vezes penso que minhas postagens devem soar, para alguns, como ostentação barata, fuga ou alienação dos graves problemas que nos assolam.

Às vezes penso que deveria engrossar a fileira daqueles que, em redes sociais, militam com suas ideias na esfera política procurando dar sua contribuição aos debates ou apontando denúncias dos fatos avassaladores do cotidiano.

Tenho dúvidas dos efeitos práticos desta ação. Penso que, de alguma forma, algumas inserções com milhares de adeptos contribuem de forma expressiva no agravamento das nossas mazelas.

Perdoem-me o textão. Eu poderia simplesmente postar a letra da canção Sol de Primavera do Beto Guedes. Não deixem de assisti-lo no YouTube. Musicada, ela fica mais intensa.

 

Quando entrar setembro

E a boa nova andar nos campos

Quero ver brotar o perdão

Onde a gente plantou juntos outra vez

Já sonhamos juntos

Semeando as canções no vento

Quero ver crescer nossa voz

No que falta sonhar

Já choramos muito

Muitos se perderam no caminho

Mesmo assim, não custa inventar

Uma nova canção que venha nos trazer

Sol de primavera

Abre as janelas do meu peito

A lição sabemos de cor

Só nos resta aprender

 

Pois é.




Até breve.

terça-feira, 24 de agosto de 2021

COMFOTO



- Iiiiihhh, pai! De novo polemizando na política? Arf!

Vocês podem não acreditar, mas eu gosto um pouco de Pretinha, minha filha. E gosto muito, adoro na verdade por tudo que ela é e, com Claudinho, ter me privilegiado com Liz e Valentin. Estas dádivas.

De vez em quando ela me lembra minha mãe que me punha de cara para a parede depois que eu tinha cometido alguma arte.

Já não é segredo pra ninguém que eu tenho uma vida dupla. Estou conselheiro em algumas empresas, atuo como consultor em estratégia, mas tenho uma vida marginal na subliteratura.

A trajetória profissional começou quando eu tomei juízo na vida e entendi que não poderia viver de brisa. Só que não se passa a vida inteira isento do vendaval que é a comichão do desejo de literar, mesmo que na marginalia.

Deu nisso que tenho sido. Um misto de razão, de objetividade contrastando em um poço profundo e desconhecido de emoção exacerbada. Vísceras catalãs, signo de peixes, sei lá.

Estar aqui, desnudo, impõe riscos de imagem, claro. Meus clientes empresariais, alguns fazem de conta que não sabem; e meus amigos, poucos, que militam de cara para parede, me olham com desdém.

Ossos de ser. Eu não deveria me preocupar com isto, profissional que sou.

A objetividade empresarial cobra de mim análises amplas de cenários políticos, econômicos, sociais. Aqui não cabem delírios, exceto se fundamentados em ações projetivas que viabilizem resultados concretos. Sempre tive que ir ao mais fundo que posso nestas análises e compromissos.

Abordo a questão política de forma pragmática, quando olho nesta perspectiva. Estamos diante do futuro imediato e temos que escolher qual executivo colocar para liderar os desafios que se apresentam.

Neste momento, que pode mudar e muito, dois concorrem com maiores chances. Entendo, usando a razão, que estamos favorecidos para a escolha. Ambos já foram testados na posição.

Um, que esteve durante oito anos e se isenta, no mínimo, de tudo que acontecia debaixo de seu nariz e, outro, que balança diariamente e deverá chegar, se chegar, ao final do mandato tendo deixado o país muito pior do que encontrou. Especialmente no que tange à indispensável harmonia que um grupo precisa ter para enfrentar desafios.

Como conselheiro da Brasil S/A não tenho dúvidas em recomendar aos meus clientes que não coloquem nem um e nem outro para comandar a organização no futuro próximo.

Como subliterata recorro aos meus filhos e netos. Inúmeras vezes fui surpreendido pelos meus filhos quando eu dizia alguma coisa, de qualquer natureza, e eles se viravam pra mãe e perguntavam:

- É, mãe?

Já fui surpreendido algumas vezes por Liz, Tin, Totô e Lelê diante da mesma situação e fico torto quanto ouço:

- É, vó?

Não me levem á sério como literata, eu invento. Ontem, disse que iria incendiar o meu título de eleitor. É claro que não vou botar fogo no meu Iphone.

É só final de texto de subliteratura. Tem que ser apoteótico.


Até breve!

 


segunda-feira, 23 de agosto de 2021

SEMFOTO

 

Há algo de amargo a relatar.

No sábado, em dia inútil, portanto, uma ilustre desconhecida juíza substituta federal da comarca da capital do país, houve por bem, “concluir” alguns processos contra o ex-inquilino que passou pelo Palácio Alvorada durante o período de 2003 a 2010.

Analisados os autos a juíza entendeu que parte das imputações feitas ao ex-presidente já estavam prescritas e não poderiam mais ser utilizadas para eventualmente processá-lo. Caso das acusações de que ele praticou os crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro por ter recebido 700.000 reais em propinas da Odebrecht e 170.000 reais da OAS. Por ter mais de 70 anos de idade, os prazos de prescrição são reduzidos à metade.

Assim, para todos os efeitos práticos, no período apontado não ocorreram crimes alarmantes de corrupção que poderiam responsabilizar direta ou indiretamente o mandatário do país à época. Revogam-se também as brigas com ameaça de morte havidas entre pai e filho controladores de uma das empreiteiras arroladas no processo.

Arquive-se.

Projete-se o cenário. Daqui alguns anos, depois de vários custos aos contribuintes incorridos, uma juíza substituta federal da comarca de Pindamonhabeiras, concluirá o processo de acusação de responsabilidade direta ou indireta do mandatário do país no período de 2019 a 2022 por parte das mortes ocorridas por COVID 19.

Como o processo estava eivado de lapsos técnicos não será possível consubstanciar provas de que tenha ocorrido pandemia no país no período em que o acusado ocupou o palácio do desgoverno.

Convidados a se manifestarem o Presidente da República, Eduardo Cunha e seu vice Sérgio Cabral afirmaram: “Mais uma prova inequívoca da higidez das instituições democráticas.”.

Arquive-se.

Em 27 de fevereiro de 2022 eu, por minha fez, cometerei um crime hediondo e como estarei neste dia completando 70 anos de idade, receberei o benefício da inimputabilidade.

Queimarei o meu título de eleitor nos jardins de minha morada. Tornar-me-ei expatriado, refugiado em meu próprio país.

E vou cuidar de jabuticabas e netos.


Até breve.


sexta-feira, 20 de agosto de 2021

INSTANTE

 


Eu estava executivo em uma empresa. Houve uma mudança de direção e logo nos primeiros atos da nova governança eu percebi que nossos princípios e valores não se coadunavam.

Ano e poucos meses depois de largo e profundo mal-estar, ocorreu de eu ir assistir a uma peça de teatro. O louco circo do desejo, acho que era esse o título.

Dois personagens: um engenheiro e uma prostituta. Ali pelo meio da peça, o texto se acalora, e um conflito brutal se estabelece. O engenheiro, em dado momento, brada: “Prostituta!”. A atriz esgrima com o braço direito, como se cortasse ao meio o oponente, e retruca gritando mais alto e pontuando cada sílaba: “En...ge...nhei...ro!”.

Imediatamente após a cena senti uma ‘fisgada’ no cérebro. Enquanto a plateia gargalhava eu me contorcia numa dor imensa. Minha esposa ao meu lado, ao perceber, me perguntou o que estava acontecendo. Eu não conseguia respondê-la. Sugeriu que nós saíssemos, mas eu me neguei e seguimos até o encerramento do espetáculo.

Naquela noite não consegui dormir. Na manhã seguinte fui de carro para o trabalho. No percurso de minha casa até a sede da empresa, um pequeno trecho de rodovia simples. Em dado momento, a cena fatídica volta à minha memória. Eu perco o controle do veículo e, para minha sorte, o carro encontra um ponto de fuga avança alguns metros e, sei lá se eu ou se pelas condições do terreno, para.

Saí cambaleando e me apoiei no capô do carro. Logo depois algumas pessoas, que passavam pelo local, vieram ao meu encontro. Ficaram comigo até terem seguro de que eu estava em condições de retomar a direção do veículo.

Entrei novamente no carro e, antes de dar partida no motor, recordei-me do que havia ocorrido minutos atras. Eu revisitava a cena da peça quando me ocorreu uma frase: “Prostituta é uma pessoa que, ao final do expediente, diz: um dia eu largo essa vida.” A dor sentida na noite anterior voltou mais aguda o que fez com que eu perdesse o controle do veículo. 

Liguei o carro e, ao contrário de tomar rumo em direção à empresa, fui para casa. Tomei um banho, deitei-me na cama e entrei em sono profundo. No dia seguinte pedi demissão.

Ontem comprei o livro da foto.

Elif Shafak é uma escritora turco-britânica com dezoito livros publicados, traduzida para 54 idiomas. Doutora em Ciência Política, ela já lecionou em universidades na Turquia, nos USA e no Reino Unido. Recebeu o título de Chevalier des Arts et des Lettres, é vice-presidente da Royal Society of Literature e membro do Conselho Global do Fórum Econômico Mundial.

No livro, Leila Tequila, uma prostituta, está morrendo em meio ao lixo nos subúrbios de Istambul. Durante os 10 minutos e 38 segundos que o cérebro leva para parar de funcionar ela vai relembrar a trajetória de sua vida.

Devo começar a lê-lo neste final de semana, mas já me serviu.

Estivesse 10 minutos e 38 segundos do fim, que balanço faria?


Até breve.


quinta-feira, 12 de agosto de 2021

ESPERANÇAR

 


Oscar Quiroga, hoje, no Estadão: “Atualmente estamos na transição da Era de Peixes para a de Aquário, que finalizará no ano 2.340. A transição atual é o movimento que vai das paixões que impedem a convivência das diferenças e alimentam o ódio, na direção das razões que promovam liberdade, respeito e confiança. Enquanto isso, só o realismo honesto de nossos raciocínios nos brindará com consenso, para nos proteger da divisão e do confronto.”.

Certa vez perguntei pra Ela sobre o que eu deveria escrever e ela prontamente respondeu: fé e matemática. Uma das maiores dificuldades do relacionamento é quando se pergunta algo ao parceiro e a resposta não vem conclusiva.

‘Fé e matemática?’ Perguntei novamente. ‘É, fé e matemática...’ Melhor seria eu não ter perguntado. Pior ainda, ela pegou um livro e leu em voz alta um trecho durante quase cinco minutos sem perder o fôlego. ‘Você entendeu? ’Perguntou-me com um olhar como se eu agora tivesse a resposta. Aqui posso dizer: eu não entendi nada. Ela então disse que ambas são fundadas no mesmo princípio: é melhor que você acredite.

Com a maior paciência que lhe é peculiar, especialmente com néscios que nem eu, Ela foi elaborando sobre uma e outra, fé e matemática. Aí eu comecei a interessar-me e, como sempre às vezes acontece, fixei os olhos nos movimentos labiais dela e me pus a pensar com as minhas próprias pernas.

Qual é a maior extensão da fé: Deus existe!

Prove. Demonstre. Mostre, senão não é!

Qual é o número que vem depois do zero, um, não é?

E entre o zero e o um? Qual é?

Prove. Demonstre. Mostre, senão não é.

Apenas para demonstrar de onde veem todas as coisas, sobre as quais ainda terei muito que debruçar.

Sou de Peixes, em Peixes, em transição e tenho 320 anos (Matemática) ainda por nadar.

Eu espero (Fé).


Até breve.


terça-feira, 10 de agosto de 2021

FURM(USURA)

 

Ultimamente, de uns meses para cá, no final da tarde de domingos as pessoas que me chegam às sextas vão-se e me deixam só.

Eu e Deus.

Herdei de minha mãe o gosto pelo recolhimento. Ela adorava sua casa, seu jardim, seu altar de Nossa Senhora Aparecida (?), sua sala de visitas sempre fechada.

As circunstâncias contribuíram para permitir a mim o trabalho remoto, ainda que eu me ressinta de não o poder fazer com o calor das gentes e seus corpos.

Na juventude escrevi um texto em que consta: “Meu caminho é uma marcha para a solidão”.

Fiquem tranquilos, isto está longe de ser deprê. Antes pelo contrário. Eu me relaciono muito bem comigo, são raras às vezes que eu e eu mesmo entramos em conflito a ponto de produzir debaques.

E com Deus, sempre foi pacífica a relação. Temos um acordo tácito que vem funcionando bem: ele me aponta o caminho e eu, quando o transgrido, assumo a responsabilidade.

Trodia eu fui trocar lâmpadas e coloquei os pés da escada em falso. Precipitei do último degrau sem maiores consequências. Deus estava bem ao meu lado e, se risse, eu teria a mesma reação que Lelê quando se estrebucha no chão.

- Doeu, viu Deus!

Ontem, por sua vez, quando fui dar o alimento aos bichos (passarinhos que vagueiam soltos pelos meus jardins, galinhas, peixes e cachorras), deparei com Laka e observei que ela estava estranha.

Laka é nossa cadela mais velha, está com 10 anos e quatro meses, portanto, se fosse gente, estaria perto dos oitenta anos de idade. Seu olhar para mim suplicava atenção.

Estava ofegante e com a boca aberta. Resolvi levá-la ao veterinário. Coloquei-a dentro do meu carro no piso do banco dianteiro de passageiro. Quando saia da garagem, olhei pela janela e vi Deus na varanda. Ele fez sinal de positivo com o polegar.

- Não vou demorar..., eu disse abanando a mão direita.

Na clínica, enquanto a veterinária examinava Laka e dava o diagnóstico de intoxicação, aplicava injeção de corticoides e prescrevia um remedinho, vi Deus sentado na sala de espera.

- Caramba? Não te deixei em casa?

Passei o dia em reuniões alternadas e, à noite, fui como de costume zapear um pouco os canais iutubianos a procura de vídeos musicais. Aliás, como Deus, a música anda sempre ao meu lado. Onde vou a levo. Sem ela e sem Ele é como se eu não fosse.

Só que antes, inadvertidamente, entrei no canal de notícias e vi que haveria hoje cedo uma parada militar.

Amanheci com o firme propósito de escrever uma história e ilustrá-la com uma foto que denunciasse minha solidão. E formosa.

Deus tá vendo.


Até breve.


quarta-feira, 4 de agosto de 2021

POBREMAS

 


Amanheci vivo.

Este problema tem ocorrido comigo há anos. Invariavelmente sou desafiado a cumprir agenda, previamente construída pelos problemas trazidos de dias anteriores ou até, pasmem, com propostas de inventar outros. Nem sempre mais interessantes.

Hoje, por exemplo. O que faço com o fato de ter amanhecido e vivo?

Há agravantes na medida em que os anos têm passado, já que a hipótese de qualquer hora destas eu nem durma vivo, quanto mais amanhecer nesta condição. Claro, deverá acontecer comigo também.

Juro que estou meio enfarado de amanhecer com a mesma percepção de dias anteriores em relação a problemas que, embora me ocupem, objetivamente eu não tenho a menor condição de equacioná-los na extensão que se apresentam e nem na potência de resolvê-los.

Tipo a loucura que tomou conta do entorno. Todo dia que amanheço me deparo com uma mais escatológica, histriônica não fosse trágica. Palhaços coringos não faltam. E a claque fica cada dia que amanheço, daí o problema, mais insana.

Aqui, neste veículo de dois bilhões de usuários no planeta, então...

E, o pior, livre, solto, amplo e restrito aos humores dos censores sabe-se lá quem.

A Humanidade, a cada dia amplia, a oportunidade de se tornar mais tantan (acho que é assim mesmo que escreve a patologia). Ícones inspiradores e celebres não faltam, é difícil até de escolhê-los já que a profusão com que aparecem é um trem de doido.

Eu mesmo, às vezes, me pego em vibe transloucada e, como na medida em que os dias vão passando eu amanheço mais enfarado, sartofora de veio tóxico.

Nas duas semanas passadas tomei doses de antídotos que me imunizam, espero, por alguns dias vindouros: netomicina na veia.

Em família, perguntei à Lelê o que ela gostaria de ser quando crescer:

- Pilota de avião, vovô...

- E você, Totô?

- Pensador.

- Hein?!!! O que faz um pensador?

- Estou pensando, vovô...

Isto tem me livrado de amanhecer com a vontade de ir para as ruas empunhando mastro com bandeira.

Roxa, claro.


Até breve.


terça-feira, 3 de agosto de 2021

UTOPIA

 


“Aquele foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos; aquela foi a idade da sabedoria, foi a idade da insensatez, foi a época da crença, foi a época da descrença, foi a estação da Luz, a estação das Trevas, a primavera da esperança, o inverno do desespero…”. (Charles Dickens, no Conto de Duas Cidades).

 

Três mega explosões abriram o Terceiro Milênio: a demográfica, a tecnológica e a financeira. Bilhões de anos para que a Humanidade chegasse em 1810 a 1 bilhão de pessoas vivas sobre o planeta, em 1910 (um século depois) chegamos a 2 bilhões e em 2010 a 7 bilhões.

93% dos produtores de conhecimento desde o início da história humana estão vivos agora (portanto, 7% estão mortos) produzindo conhecimento inter e multidisciplinar, entre eles a Inteligência Artificial. A riqueza gravitou da economia para as finanças e do Estado para o Privado. Capitais financeiros de pessoas físicas sem lastro na economia real gravitam 24 horas por dia em infovias, produzindo capital sobre capital sem nenhum emprego de meios de produção, entre eles capital humano.

Tecnologias produziram revoluções disruptivas muito mais amplas do que aquelas trazidas por movimentos sociais. O atual desenvolvimento tecnológico, especialmente no campo da telemática, somado à disputa da riqueza com interesses públicos e/ou privados apontam para uma encruzilhada histórica.

O conjunto destas mega explosões determina a necessidade de pensarmos a partir de outras referências conceituais para que possamos empreender ações objetivas. As réguas do passado recente não servem para medir as complexidades do futuro imediato.

Vivemos o advento da "sociedade incivil" aquela em que o Estado se mostra incapaz de liderar e financiar a superação dos desafios que se apresentam.

Nunca, como agora, o Estado do Bem-Estar-Social apresentou-se tão utópico.


Até breve.


terça-feira, 20 de julho de 2021

BOLETIM

 



O paciente permanece em estado grave, respirando por aparelhos, em quadro clínico de aparente estabilidade, salvo por espasmos dolorosos motivados por vírus e bactérias históricas e incontroláveis.

Na última semana o organismo foi infestado por um vírus de inexpressivo poder, considerado o estado de metástase em que se encontra o paciente. FP-Fundo Partidário de perto de seis bilhões de reais.

O paciente debilitado busca sinais de repulsa ao vírus, mas o que já se sabe é que estes vírus são produzidos pela própria colônia endêmica e se auto extinguem.

Ao MALVID17, o vírus que infectou o paciente em fins de 2018, caberá mitigar os efeitos primários sobre o organismo trazidos pelo FP.

O paciente, gigante pela própria natureza, convalesce bravamente do vírus global, a COVID19, embora tenha sido ceifado o potencial de mais de 550 mil células cidadãs, que não foram protegidas a tempo e a hora do ataque.

O quadro clínico apresenta-se estável, mantidas as mesmas características endêmicas, e em que pese os arroubos de vitalidade manifestos em junho de 2013, evoluiu, face à vulnerabilidade do paciente, para o surgimento do vírus MALVID17 e o recrudescimento agudo do vírus MALVID13.

A patologia produziu no paciente o rompimento de casais, de amigos, de comunidades inteiras que vitimados pelos vírus citados, tornaram-se corpos tomados por sintomas psicóticos, fanáticos e delirantes, agravando de forma expressiva o quadro.

Historicamente, há décadas, o paciente se viu drenado de suas forças vitais que lhe são sequestradas por perdas sanguíneas em mensalões, petrolões, evasão fiscal, bolhas perversas de consumo ilusório, juros escorchantes, burocracia perversa e, a mais usual e permanente expressão da metástase, a corrupção. Agora, presente até nos meandros viscerais para a aquisição de imunizantes contra o COVID19.

Somadas à estas perdas, outras que, por efeito das citadas, resultam em CPIs vultuosas, operações antivírus caríssimas, sistemas de penalização babilônicos.

Se todas estas perdas tivessem sido canalizadas para o processo vital, o paciente estaria gozando, por seus próprios méritos, do privilégio de ser reconhecido no cenário como o mais colossal e não apenas como um sonho intenso, um raio vívido de amor e de esperança.

Esperança é uma vitamina que, no caso do paciente em tela, quase sempre transforma-se em veneno.

Esta a anamnese do paciente.


Até breve.



segunda-feira, 28 de junho de 2021

CADUCO

 

O percurso em que me encontro em direção aos meus setenta já dá sinais objetivos de senilidade, e aguda. Vejam.

Hoje amanheci com um “desejo” desconcertante: que a sociedade brasileira, as instituições democráticas e a imprensa se unissem em prol de duas vertentes, as mesmas em que se articulam.

O primeiro movimento, de uma das bandas, seria “engrossar” com o grupo de oposição a tese de que o atual presidente no episódio da Covaxin prevaricou. Simples assim, porque é crime previsto na Constituição e suficiente para o atingimento do que parcela da sociedade espera. Desnecessário reunir provas outras de outros eventuais crimes, muito mais difíceis de serem evidenciados.

O segundo movimento, da outra banda, seria agir no sentido de se agilizar o julgamento de todos os processos remetidos à esfera federal para que, de uma vez e por todas, fique claro se o ex-ex-presidente é ou não a figura mais pura do planeta e se, no mínimo, da mesma forma que o Mito, também não tenha prevaricado. “José Dirceu, quem é?”, teria, Vossa Excelência, perguntado.

Eu avisei, setenta anos acaba produzindo naqueles que os vivem e intensamente, doses de senilidade incontornáveis.

Fico me imaginando com oitenta anos.

Vai ser uma alegria. 


Até breve.