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domingo, 7 de julho de 2019

GENE




Este blog está perto de atingir a marca de 150 mil acessos. De 08 de maio de 2011 até a data de hoje (+ ou - 3000 dias) editei o total de 1076 posts.

Um post a cada três dias com a média de 139 leitores por post.

Eu acho muito expressivo, ainda que não tenha essencialmente alterado em nada a minha vida e, o melhor, nada a vida de nenhum daqueles que se debruçaram sobre os meus escritos.

Estive, por duas temporadas, compartilhando parte destes posts no Facebook e, por razões diversas, acabei encerrando a minha conta naquela máquina de fazer doidos.

Voltei para a solidão daqui do blog, já que no FB recebia muitos comentários dos “amigos” virtuais o que me dava um pouco de egosplasia. Não me perguntem o que vem a ser egosplasia, porque é algo que me ocorreu agora e expressa o que sentia quando acessava a minha página e lia comentários ou curtidas.

Sofro, desde a infância, da necessidade de palco e acho que, também por isto, perdi tanto tempo meu e dos leitores que me acessam aqui.

Nesta altura da vida não vejo a menor possibilidade de me libertar desta carência sindromática de loas, e vou ficar muito triste quando, esfriando da vida, não ver pelo menos 139 amigos, mesmo que parte deles virtuais, jogando flores sobre minha tumba.

E gostaria muito, também neste evento, de ouvir um ou outro dizer: “Era um idiota, mas pelo menos sabia disto”.

Minha idiotia não aconteceu por uma acaso de nascença, não veio embarcada no DNA, não é herança maldita nem materna e muito menos paterna. Minha idiotia foi elaborada asneira por asneira, tolice por tolice, devaneio por devaneio, delírio por delírio.

Nem eu mesmo teria saco para reler os 1076 posts para comprovar isto. Aliás, o simples fato de fazer uma proposta desta me qualifica no rol dos idiotas mais distintos.

É claro que alguns posts, poucos é verdade, devem ser excluídos da pecha de terem sido escritos por um idiota, mas por um Zé Ruela de meia tigela. Incluiria nestes aqueles que escrevi para meus netos antes de nascerem. Para Liz principalmente, pois, por ter sido a primeira neta, foi a maior vítima de minha zerruelice.

Marcados por uma idiotia cavalar, todos, foram os posts sobre política. Estes foram aqueles que mais eu primei. Juro que me lembro do sentimento que experimentei logo após editá-los. E ainda me surpreendo como eu pude tantas vezes retornar ao tema, embora não fosse assim eu não poderia ser considerado de fato um tremendo idiota.

Aqueles posts em que fiz crítica a filmes, peças de teatro, músicas não posso dizer que entrariam no rol, foram na verdade espasmos intelectualóides de quinta grandeza. Não são propriamente nem idiotas e nem zerruélicos.

Contos e/ou crônicas do cotidiano? Putz! Esqueçam.

Agora, vejam como são as coisas. Ontem recebi de Pretinha (para quem não se lembra trata-se de minha filha Valesca) notícia de que Liz está escrevendo um livro para mim e que pretende entrega-lo no domingo quando ela chega de Lages para passar uns dias em BH. Dia 01 de agosto ela completará sete anos de idade.

Morro de medo de estar legando essa herança maldita.

Uma idiotia qualquer.


(capa do livro de Liz)


Até breve.

domingo, 29 de janeiro de 2017

GASES



Pretinha pegou alguns livrinhos na biblioteca para Liz e Valentin. Entre eles, um destinado à Liz: Até as princesas soltam pum.

- “Sua cara, pai!” Mandou mensagem via WhatsApp, anexando foto da capa do livrinho.

- “Por que você não escreve suas histórias como a do livrinho. Ia fazer o maior sucesso! Genial”!

Pois é.

E o pior, capaz de ela ter razão. Sem particularizar no pum das princesas, a idiotia tem largo espectro de consumo. O que circula na rede e em todos os meios são toneladas de puns.

Youtubers são visualizados por milhões de pessoas centenas de vezes e expandem suas conexões virulentamente. Humor, ironia e idiotia têm limites tênues. Acho que esses ingredientes fazem parte do contemporâneo.

Rir ainda é o melhor remédio.

Especialmente como antídoto a tantas variáveis da realidade insustentável.

Sexta-feira agora brincava com Antônio e ele soltou um pum. Simulei susto e caí no chão. Antônio deu gargalhadas de perder o fôlego. Quis repetir a brincadeira e fez mais força do que seria necessária apenas para fazer o que princesas fazem.

- “Vovô, fiz cocô”! Disse ele, com as mãos nos fundos da cuequinha, um pouco constrangido. Ele está deixando suas fraldas e de quando em vez isto ocorre.

Faz parte da nossa formação e desenvolvimento.

Tudo bem que, durante a campanha, se possa exalar puns de diferentes megatons e alguns até encontrem narizes para serem absorvidos. São odores inerentes ao processo cada vez mais descivilizado da ilusória democracia do decadente Império.

Só que enquanto puns, vá lá. O problema é quando na sequência da buzina veem sólidos. Barrar a entrada de refugiados, de habitantes de determinados países supostamente envenenados com o mal muçulmano, construir fronteiras reais com o país de quem surrupiou uma metade do território em guerra, e outras borradas mais não faz ninguém rir.

Trump me assusta pelo nexo de suas decisões. Sua nervosa caneta baixa aos quilos decretos que criam imponderáveis consequências no curto, médio e longo prazo. A Justiça Americana vai entrar na disenteria e pode ocorrer o inverso do que sempre ocorre.

O Império copie a Colônia. Lá como cá se estabeleça uma crise entre poderes. Só que lá a Constituição tem mais de duzentos anos e, o pior, é letra viva.

E, como se não bastassem puns e sólidos subsequentes lançados para fora de seus vasos jurisdicionais, agora a coisa começa a feder internamente.

Punzão de ontem determinou às forças que elaborassem plano de extermínio de grupos terroristas com cronograma e custos de implementação.

Em dezenas de posts aqui citei pesquisa realizada por consórcio de universidades americanas e europeias, realizada em 165 países, sobre o que mais aterroriza as pessoas. Conclusão da pesquisa: Primeiro, a potencialidade de uma hecatombe nuclear. Segunda, a irreversibilidade da fome. Terceira, a ausência de líderes.

A mim o que mais aterroriza está em terceiro lugar. Príncipes que soltam puns. 



Até breve.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

ÁRVORE




Também se acaba vivendo tempo de invertimentos. Deveria no de certo era os mais adiante legar pros mais de perto. Só que não foi assim que se deu. Pelo menos, no caso.

No dia que eles foram embora para Lages, Liz trouxe prá mim um volume. Claro que avistei que dentro tinha um livro. Ela foi breve: “Procê, vovô.” E foi assim e pronto. Só que já lá ia indo para encontrar com a mãe que juntava os trem para pegar a coisa que voa e se voltou. “Abre, vô.”

Quando abri me deparei: Caderno de Poesias - Maria Bethânia. Liz tomou o livro de minhas mãos e abriu na página onde, ela e Valentin, tinham feito desenhos. Pretinha, dedicatória.






“Canto o crepúsculo da tarde
E o clarão da linda aurora
Canto aquilo que me alegra
E aquilo que me apavora”
(Patativa do Assaré)

“A vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger,
A dar vontade dar gritos, de dar pulos, de ficar no chão, de sair
Para fora de todas as casas, de todas as lógicas e de todas as sacadas,
E ir ser selvagem (para a morte) entre árvores e esquecimento”
Álvaro de Campos (Fernando Pessoa).

“Ilumina a mina escura e funda
O trem da minha vida”
Renato Teixeira

“O corpo a corpo com a vida se odeia no índio
O que se odeia no índio é a permanência da infância”
Reynaldo Jardim

“Quem desconfia, fica sábio.”
Guimarães Rosa

“Vontade de beijar os olhos de minha pátria
De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos...
Vinicius de Moraes


E foi aí que ieu tomei o livro todo de um gole só e mirando no DVD.



Até breve.


segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

REGALO



Final de semana Pretinha me disse que havia comprado o meu presente de aniversário. Que estava louca para me entrega-lo logo, sem esperar a data que é mais para o final do mês.

Minha filha, várias vezes, voltou ao assunto não sem certa emoção, achando que tinha em mãos algo de muito peculiar, especial, que pudesse me comover mais do que uma camisa ou uma bermuda.

Hoje na hora do almoço fui levar Noninha para a escola. Quando cheguei a casa dela minha netinha estava dormindo ainda, o que faz sempre para suportar o trampo da tarde.

Acordei-a com um carinho e ela, mais do que depressa desceu da cama e foi apanhar um embrulho que estava próximo a sua mochila na sala.

- Isto é para você, vovô... Seu presente.

Pela embalagem e pela etiqueta da loja sabia tratar-se de um livro. Desembrulhei o pacote e foliei as primeiras páginas.

“Pai,
Além desse avô, “Nonno”, inventar
palavras como você, pelo pouco que li, ele
tem muitas coisas parecidas...

“Nonno”, me fez lembrar quando ninava Liz... Não tem como descrever o
carinho, amor que você tem por esses netos,
apesar de que eles mesmos falam por si...

espero que seja uma leitura que lhe acrescente algo...

Te amo!

Bjo,

Sua filha Valesca
(Pretinha)”


Aí me veio à lembrança Cora Coralina:

“Desistir... Eu já pensei seriamente nisso, mas nunca me levei realmente a sério; é que tem mais chão nos meus olhos do que o cansaço nas minhas pernas, mais esperança nos meus passos, do que tristeza em meus ombros, mais estrada no meu coração do que medo na minha cabeça.”

O livro de José Luis Sampedro, O Sorriso Etrusco, que recebi de presente e já comecei a devorar trata de um tema singelo: amor.

Presente muito melhor do que uma camiseta ou uma bermuda. Uma ou outra envelhecem, se desgastam, se perdem.



Até breve.

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

HERANÇA



- Vovô, cê me leva no teatrinho da Cinderela?

- Claro, Lelê!

- Promete?

- Prometo.

- Mas num é igual que cê prometeu pro papai de dá prá ele a pingarda de rola...

- O que foi, Lelê?

- Você prometeu pro papai, quando ele era pequenininho, de dar prá ele uma pingarda de rola e num deu.

- É espingarda de rolha... Ele te falou isso?

- Não, eu é que sei.

- Eu não encontrei...

- Mas você prometeu.

- Foi.

- E agora tá me prometendo que vai me levar no teatrinho da Cinderela...

- Eu vou te levar, Lelê.

- Cê não vai dizer que não encontrou, né?

- O quê?

- O teatrinho.

- Você sabe qual?

- Mamãe falou que é no do shopping...

- Qual shopping?

- Do Pátio.

- Sei.

- Sabe mesmo, vovô?

- Sei, Lelê... Num tô te falando, eu hein?

- Melhor você pegar o endereço direito com a mamãe...

- Num precisa.

- Depois você não encontra...

- Pode ficar tranquila, vovô sabe onde é, vai perguntar para a mamãe que dia e que hora que é e...

- É quarta-feira, quatro e meia da tarde.

- Tem certeza?

- Claro, vovô!

- Tá bom, Lelê...

- E tem que chegar pelo menos duas horas mais cedo para pegar ingresso... é promoção...

- Duas horas antes?

- É bom que aí você me leva nos brinquedos que tem lá no shopping, né vovô?

- É, é bom mesmo...

- Você promete?



Até breve.

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

CONSOLO



Mas claro, há também claridades e intensas.

A questão é que eu me coloco numa perspectiva de um intelectual de esquerda, que parte do que é do Universal para o que é do Particular. Da Síria e de seus refugiados, dos crimes hediondos contra a natureza e contra a Pessoa, só depois vou me ocupar daquilo que se passa na intimidade do CEP 30330-160.

Sou daqueles que, em sua modesta concepção, entende que a negação da dignidade humana deprecia o valor de qualquer causa que necessite dessa negação para afirmar a si mesma. Escrevo isto aos europeus, especialmente aos britânicos.

Fosse aqui, bem próximo de mim, eu me bastaria de lux de cegar os olhos.

Antônio, nesse momento, deve estar esquentando sua moleira em passeio a bordo de um daqueles barcos que vagam pelo Rio Sena. Mamãe e papai, em viagem de férias, alugaram um apartamento ao pé do qual esverdeia o mundo um parque monumental repleto de curiosidades ao olhar de meu netinho de oito meses de idade.

Próximo, vinte minutos a bordo de um MacLaren, Antônio chega ao símbolo da cidade luz.




Claridade e porvir também em Noninha que já faz planos para, no próximo ano, esquentar suas alegrias em fogueiras de pipocas e alegrias.



E em Tin, que se encolore em tintas.



Apenas nas crianças que a Humanidade ainda pode ser encontrada, capturada e preservada, intacta e ilesa.

Em nossa casa de Santa Luzia, sobre a escrivaninha que há cinquenta anos misturei minhas primeiras letras, desde então guardadas, mantenho um pôster com o poema ODA A LA ALEGRIA de Pablo Neruda, poeta de esquerda e Nobel.



No mais íntimo há esperança.



Até breve.

domingo, 19 de julho de 2015

NINJA



Anos atrás a grade de programação das TVs abertas contemplava a exibição semanal de filmes temáticos: segundas-feiras Segunda Sem Lei (filmes de faroeste); às quinta-feiras filmes de terror ou suspense (inclusive Hitchcock) e, às sextas-feiras – acho – era exibida a série Os Invasores, alienígenas que vinham azucrinar a vida dos terráqueos.

Sexta-feira, bem cedo, me deparo com a seguinte mensagem no WhatsApp do meu celular:

- Indo.

- G2.

Desci para a garagem (G2) do prédio onde moro e, quando o carro de Pretinha desceu a rampa tive a nítida sensação de ser um daqueles Óvnis baixando à Terra. Atrás, os raios solares iluminavam a cena.

Fui de um lado para o outro do carro para retirar das cadeirinhas os meus mais caros invasores: Liz e Tim para uma jornada de sexta inteira sem lei, repleta de horrores, algum suspense e delírios.

- Ei vovô!!! Ei vovô!!! Vamos passar o dia inteirinho com você!!! Yuuuppiii...

- Eu quero colo, vovô!!!

- Pai, ás dez Tim vai dormir, você sabe, né? Dez e meia vai ter um teatrinho no BB e acho que às quatro no Shopping Pátio.

- Quero colo, vovô!!! Colo!!!

- Espere, Liz... Você não quer ir andando?

- Colo!!! Colo!!! Colo, vovô!!!

- Se der eu vou pegar o ingresso, mamãe vai estar às dez horas e você leva a Liz no teatrinho do BB. Depois à tarde a Val desce e fica com o Tim para você ir no Pátio. Às duas horas você tem que entrar na fila para pegar o ingresso antecipado...

- Vovô... Vovô, eu quero colo!!!

- Não deixa de dar banho antes dele dormir, nela não precisa não, deixa para dar antes de levar à tarde no teatrinho. Vai ser da Bela e a Fera, Liz adora... Ih, pai, Tim tá todo cagado. Troque ele logo se não assa... Não esquece de pegar os ingressos antecipado às duas... Tá dando maior filão... Gente à beça... Férias, cê já viu né?

Subi com Liz e Tim no colo, além de carregar a bolsa com as roupas para a estadia dos invasores. Liz carregava, como um troféu, um CD contendo fotos e vídeos do 1º semestre na escolinha.

Quando entramos no apartamento, assumiram o lugar.

- Quero brincar de massinha... Desenhar... Quero ver o filme da escolinha... Vão vovô, põe o filminho no computador... Quero suco, vovô...

- Espere, Liz.

- Agora, vovô.

- Bó... Bó... Vovô, Bó...

- Já vou Tim... Já vou jogar bola contigo...

- Filminho, vovô...

- Bó... Bó...

- Suco, vovô... Suco...

- Vem Tim, vem aqui para nós tirarmos o cocô...

- Suco... Suco... Desenhar... Cadê os batons da vovó... Posso passar?

Eram dez e pouco e eu já tinha assistido algumas vezes com Liz e Tim no colo a todos os vídeos além de ver todas as fotos da escolinha.

Joguei várias partidas com prorrogação e disputas de pênaltis com Tim em todos os cômodos do apartamento.

Pausa para massinhas...

- Tim não meche, a massinha é minha!!! Faz uma cobra, vovô... Um monstro... Anda vovô...

- Bó, vovô... Bó...

De repente:

- Uai, pai??? Tim não foi dormir ainda? Você não deu banho nele? Ah, pai, não é possível!!! Cê acredita que eu não consegui os ingressos. Lotado...

Lavei as mãos do Tim, arrumei a caminha e deitei com meu netinho para fazê-lo dormir. Enquanto isto Pretinha toureava Liz.

Depois que Tim dormiu, eu saía do quarto e:

- Pai, se eu fosse você fazia as suas coisas enquanto eu estou aqui...

- Você vai almoçar conosco, Pretinha?

- Acho que não vai dar.

Liguei meu laptop, acessei e respondi alguns e-mails, li algumas notícias, fiz alguns pagamentos via internetbanking, quando:

- Bó, vovô... Bó...

- Não vovô vai brincar só comigo... Filminho, vovô... Massinha...

- Põe o sapato, Liz... O chão tá frio...

- Não, vovô... O sapato tá apertado.

- Põe o chinelo da vovó, então.

- Eu quero por o seu... Eu vou por o seu, então... Vou passar batom da vovó...

- Bó, vovô... Bó...

- Vovô, rápido, eu quero fazer xixi... Vem... Vem, vovô...

Eram onze e meia, Pretinha havia descido para almoçar junto com Liz em um restaurante que fica em frente ao prédio de nosso apartamento. Pouco depois, WhatsApp no meu celular:

- Desce, pai. Vem buscar a Liz. A mamãe não chegou aqui ainda e eu preciso ir para o trabalho.

- Desci com Tim no colo.

Pretinha tinha acabado de engolir a comida e tentava dar colheradas para a Liz e...

- Eu quero picolé, vovô... De chocolate.

Fiquei com os dois no restaurante tentando dar comida para a Liz quando, pouco depois, a vovó chegou:

- Mas você não deu comida para ele ainda, mozinho???!!! Que absurdo!!!

- Acho melhor dar lá no apartamento... Eu levo em uma marmitinha...

- Ah, que absurdo!!!

Voltamos para o apartamento e vovó foi fazer Liz dormir e eu dar comida para o Tim.

- Última... Última... Tinzão, última... Olha o bocão...

As treze e trinta saímos, eu com Tim no colo e a vovó levando Liz no carrinho, em disparada para pegar antecipado os ingressos no Shopping onde às dezesseis rolaria a peça.

Na fila já tinha umas cinquenta pessoas aguardando e o teatro é para 114 lugares assentados. Tranquilo, portanto. Só que, eu estava sozinho na fila com Tim que brincava com outras crianças. Não havia ainda iniciado a entrega dos ingressos. A vovó tinha ficado com Liz em uma das lojas.

Recebi um email urgente de um cliente e que eu deveria responde-lo incontinente. Escrevi a primeira frase e deparei com o sumiço do Tim. Putz, e agora? Pedi para guardarem o meu lugar na fila e desorientado fui à caça do meu pimpolho de um ano e quatro meses de idade. Segundos imensos depois o vi atrás de uma pilastra esbanjando um sorriso maroto.

A vovó voltou a tempo de junto comigo pegarmos quatro ingressos – Leandro e Mateo iriam comigo e Liz assistir à peça.

Voltamos para o apartamento e às quinze horas fiz a mamadeira deles: mamão, maça, banana e leite em pó. Troquei as fraldas de Tim e o coloquei novamente para dormir. Às quinze e trinta peguei Liz, que havia acabado de tomar banho junto com a vovó.

Fui, praticamente correndo, com Liz no colo para o teatro que fica a uns quinhentos metros do nosso apartamento. No caminho, toca o meu celular:

- Agulhô? Já estamos aqui...

- Tô chegando...

Era Leandro.

Afinal já dentro do teatro ocupando os lugares dos quatro ingressos colhidos antecipadamente, quando:

- Tá demorando, vovô...

- Já vai começar, Liz.

- Tá demorando, vovô...

Alguns minutos antes do início da peça, a produção informou que havia muitas pessoas fora do teatro e se todos os presentes à sala poderiam fazer a gentileza de colocarem as crianças no colo. Duzentas e poucas pessoas lotaram o teatro, assentando-se inclusive nas escadarias e ficando de pé em outros espaços.

Liz no meu colo.

- Vovô, tá escorregando... Me segura direito, vovô... Tá demorando...

Para distraí-la passei a brincar com outras crianças próximas a nós, até que:

- Fica quieto, vovô!!! Parece menino...

Ao longo da peça:

- Vovô, a fera é boazinha, não é?

- Foi feitiço, Liz.

- Mas ela vai ficar boazinha, num vai?

- No final...

- Eu quero agora.

- Espera, Liz. Assiste.

- Eu quero que ela fica boazinha agora.

- Ela já vai ficar.

- Porque ela ficou fera?

- Feitiço.

- Da bruxa?

- É, da bruxa.

- Mas ela vai ficar boazinha?

- Vai.

- Agora?

Eram já dezessete horas e poucos minutos e retornamos para o apartamento, Liz, eu, Leandro e Mateo. Val havia ficado com Tim porque a vovó tinha que voltar para o consultório.

Eu, Leandro, Liz, Mateo e Tim descemos para a área de lazer.

- Eu quero ver a piscina...

- Não pode, tá frio, Liz.

- Eu também quero.

- Não Teteo, agora não pode.

- Bó, vovô... Bó...

- Vamos todos jogar bola, Tim.

- Eu quero brincar é de corrida, vamo Teteo?

Seis e pouco da tarde Leandro disse que tinha que ir embora para casa dar jantar para o Mateo e eu subi para o apartamento com Liz e Tim.

- Vamo brincar de massinha, vovô? Eu quero ver o filminho. Faz pipoca, vovô... Eu quero suco.

- Bó, vovô... Bó...

Perto das sete horas preparei o jantar para os meninos. Felizmente comeram bem, inclusive sobremesa Danoninho e alguns morangos.

- Última, Tim. Come, Liz. Abre o bocão, Tim. Come tudo, Liz.

Passava das sete e meia quando Cláudio chegou para buscar os invasores. Pretinha ainda continuava trabalhando. Desci à garagem com Tim no colo e dividindo sacolas com Cláudio.

- Brigado, Agulhô.

- Ora, Claudinho, não foi nada.

Onze e meia da noite, já em nossa casa de Santa Luzia, estávamos eu e a vovó terminando nosso lanche:

- Acho que vou tomar um Dorflex. Tá me doendo todo, até do lado esquerdo da orelha direita.

Dormi e acho que sonhei. No sonho me penitenciava por não ter dado banho no Tim às dez horas da manhã em ponto, o que foi menos grave do que tê-lo perdido por alguns imensos segundos no shopping.

Semana que vem tem mais. Liz entrou de férias. Nas brechas de minha agenda, vai sobrar de novo prá mim.

- Bó, vovô... Bó, vovô...

- Não, vovô, vem brincar comigo... Massinha, vovô... Eu quero ver o filminho de novo.

- Liz vai por o sapato, vai. O chão tá frio... Olha que eu vou chamar o guarda , hein!!!



Até breve.

NOTA: Para quem ainda não sabe: Liz (Noninha, três anos em agosto) e Valentin (Tim, um ano e quatro meses) são meus netinhos, filhos de minha filha Valesca (Pretinha) e de Cláudio. Leandro é casado com Camila nossa sobrinha/afilhada e pais de Mateo (Teteo, dois anos e sete meses). Val é Valdirene a pessoa que ajuda Pretinha nas tarefas de casa e cuida também dos meninos.