quarta-feira, 24 de novembro de 2021

MISÉRIA

 






Adriana Varejão disse que a arte não tem função. O ofício de artista é como o de outro profissional qualquer. A arte não tem nenhum papel especial e jamais poderá ser entendida como capaz de transformar a realidade.

Para Ney Matogrosso, no entanto, a arte transformou a sua vida. Não fosse a música ele teria ficado louco.

Eduardo Galeano entendia que o mundo não está feito de átomos, o mundo está feito de histórias, porque são as histórias que a gente conta, que a gente escuta, recria, multiplica são o que permitem transformar o passado em presente e que, também, permitem transformar o distante em próximo, possível, visível.

Para Galeano as pessoas que mais dor sentem ao viver, as pessoas mais sensíveis são as mais vulneráveis. Em contrapartida, existem aquelas que se dedicam a atormentar a humanidade, vivem vidas longuíssimas, não morrem nunca, porque não têm uma glândula que na verdade é bem rara e que se chama consciência. É aquela que nos atormenta pelas noites.

Um filme como AMA-ME, cartaz na Netflix, pela universalidade dos problemas que encena, deveria sensibilizar às pessoas de consciência e em posição de responsabilidade para alterar o quadro de vulnerabilidade em que se encontram bilhões de pessoas sensíveis, mundo a fora.

O Estado, através de suas Constituições cidadãs, mantido por sociedades livres e supostamente soberanas, deveria ousar políticas que mitigassem ou eliminassem de vez esta barbárie.

Não há, lamentavelmente, nenhuma evidência objetiva de que isto ocorrerá. Antes, pelo contrário.

Inclusive, ou sobretudo, aqui.


Até breve.


terça-feira, 23 de novembro de 2021

MEADA


 

Quem perde seu tempo me lendo sabe da minha paixão por futebol. Jogá-lo, mais do que debatê-lo, ainda que em mesas de bares (o debate, claro). Até antes de casar estive em todas as peladas possíveis, depois preferi outra pelada.

Sério, fui bom de bola. Hoje no Veredão (campinho da minha morada) divirto-me com os netos jogando o que eles chamam de “toquinho”. Pois é.

Na adolescência e juventude os que me viam jogar me comparavam com Tostão, o que me irritava profundamente. Não por ele, que eu admirava, mas porque diziam que eu era “igual a ele”.

Eu sempre quis ser igual e diferente só de mim. Nunca quis ser outro, até porque ser-me já era tão divertido, que nunca (nunca mesmo) quis estar sob a pele de outro.

E vou confessar algo muito íntimo: ser-me não é para qualquer um, dá um trabalho imenso porque, inacabado, estou sempre caindo em buracos de mim, alguns até abissais.

Quando apanhava de minha mãe, as surras eram embaladas por uma cantilena inesquecível: “Você não se emenda, menino!”. Vou morrer, estou certo, desemendado.

Fiquei pensando nisso depois que assisti ao vídeo do Roberto Crema. (link abaixo)

Nele, Roberto diz de uma neopatologia social: a Normose.

Achei legal dar nome ao que “enquadra” um olhar para a realidade. As realidades que vão se incorporando à paisagem por uma conduta de “normalidade” que, a mim, desemendado (portanto, desnormal) assusta, para não dizer que angustia.

Pretinha, meses atras, mandou-me via WhatsApp uma foto do Tin. Se me lembro ela colocou os dizeres: “Pai, ele teve a quem puxar”.”

Tomara que ele não se emende.





Até breve.

Link CREMA 


sexta-feira, 19 de novembro de 2021

GÊS I

 

A essência do que quis propor no post anterior está no título.

Eu completarei em fevereiro do ano que vem sete décadas de vida. Tenho três filhos com pouco mais de quarenta anos e quatro netos entre cinco e nove anos de idade.

Sobrevivi, nas últimas três décadas, ao advento de cinco gerações disruptivas de intervenções nos meios (tecnologias) de operar a Vida. É a isto que me refiro no texto, e as suas múltiplas e avassaladoras consequências.

A tecnologia 6G talvez não me alcance, um pouco aos meus filhos, mas será determinante nos primeiros trinta anos de meus netos.

Admirável mundo novo.

Só que não. Por isto, concluo o meu texto, nomeando-o como um “porre”. O tempo não corroeu em mim o juízo moral para olhar para o mundo e interpretá-lo.

Não gosto no que nos transformamos. Se evoluímos extraordinariamente em nossas obras, a tecnologia que vimos criando avança para nos tornar autômatos insensíveis.

E sem memória, já que tudo estará “nas nuvens” a nossa disposição com amplo acesso, às mãos e instantaneamente.

A avalanche e efêmera de stories não permite que se retenha significados, que se elabore, que se reflita, que por força da ausência de significados, se sinta.

Nenhum acontecimento acontece. É um tique sem toque.

O post não quis recomendar um filme, nem lembrar dos olhos maravilhosos de Franco Nero.

O texto diz que estamos e agora sob um holocausto contra a natureza, contra a cultura, contra a Arte, contra a memória, contra a moral, contra o belo, o bom e o justo e não só aqui no nosso cercadinho.

E adiante, nada há que sinalize algo distinto e redentor.

Ah, Agulhô, que porre! Conta mais storizinhos de seus netinhos, vai...


Até breve.

quinta-feira, 18 de novembro de 2021

GÊS

 



Talvez o maior dano trazido pela contemporaneidade ao humano seja quão efêmero tornaram-se os acontecimentos. De toda e qualquer natureza. Desde as tragédias (promovidas ou não pelo homem), as descobertas (da ciência ou da arte), o tempo (todo ele).

Vide a última pandemia, ainda em curso, em declínio. Nos seus primórdios parecia algo apocalíptico, hoje algo que passou e, assim como as guerras, ceifou algumas vidas. Virão outras.

E pronto.

Não implica, mesmo (suponho) para a grande maioria dos afetados diretamente, em oportunidade de rever a dinâmica de sua própria vida. Não aconteceu nada que mereça significado.

A vida segue. Ou melhor, passa.

O contemporâneo tornou o viver, operar o tempo, desde para aqueles que precisam fazer de um tudo para se alimentar, até para aqueles mais abastados, como algo da funcionalidade.

Estar vivo é funcionar.

Viver é desincumbir-se de tarefas, mesmo a sobrevivência básica ou o deleite ostentatório.

Estar vivo é coisar-se em funções que, a cada ciclo abrupto da tecnologia, é suportado por apps, aplicativos, para os não iniciados.

Assisti recentemente, na Plataforma Fronteiras do Pensamento, conferência do Yuval Noah Harari. Para ele há evidências de que a espécie está em acelerado processo de mutação. Ainda que Sapiens, outro hominídeo. Outra espécie.

Cyborgs.

Percebo a objetivação destas evidências quando ligo a TV, este equipamento ainda rudimentar, que deverá ser substituído nos próximos anos. Ou, ainda mais amplo, o aparelho celular e seus zilhões de funcionalidades.

Tique e Toque. Zap. Zaz. Vupt.

A contemporaneidade elimina gradual e amplamente a memória, o tempo passado, a História, o conhecimento, a experiência, o vivido.

As estórias (stories) instam por 24 horas, se tanto. Aos milhões para bilhões.

Este post, ainda que um porre, apenas para dizer do impacto que tive ao assistir ontem na Netflix, ao filme O Caso Collini. 


Até breve.


quinta-feira, 11 de novembro de 2021

KARMA

 


A entrada na disputa do ex-juiz e ex-ministro, esta semana, permite um olhar, a mim, revelador. A riqueza da cena confere contornos bastante nítidos do momento histórico que atravessamos, enquanto sociedade.

Não quero colocar holofotes sobre os três apontados na pesquisa mais recente, mas na plateia que escolhe e paga pelo enredo que eles, supostamente, uma vez eleitos protagonizarão.

Revelador não são aqueles que se propagam como o de alma mais santa e nobre defensor dos fracos e oprimidos; nem aquele que coloca Deus sobre todas as coisas ou ainda, e por último (ou em terceiro), aquele herói paladino da justiça.

Revelador somos nós que os escolhemos e, sobretudo, como e porque o fazemos.

Quais paixões nos nutrem e nos cegam a ponto de nos tornar massa de manobras historicamente assustadoras, agora anabolizadas por uma rede de inverdades intencionalmente fabricadas que circulam na quinta geração de uma tecnologia com acessibilidade, portabilidade e instantaneidade?

Ouso dizer, como analista selvagem (desprovido de fundamentos científicos) que reside aqui nossa patologia social. Por que insistimos no gozo da manutenção de uma sociedade sem perspectiva, paralisada em seus dramas intermináveis?

Por que e há décadas, em que pese todo nosso potencial e privilégios que a natureza prodiga nos faculta, escolhemos governança que amplifica os efeitos danosos desta patologia, reproduzindo-a e tornando-a, a cada processo eleitoral, mais perigosa?

Destruímos valores econômicos aprofundando o fosso social, explicitamos nossa imensa dificuldade com aqueles que de nós diferem, esgarçamos nossas relações mais íntimas, construímos muros para diálogos orientadores, solapamos a cultura, a arte, a nossa brasilidade.

Perdemos todos com nossas escolhas.

Há aqui sim um juízo moral do qual não me farei isento. Estou envolvido como qualquer outro pela teia do tecido social. Estou com Sartre quando ele escreve que não escolhemos exclusivamente por nós, mas também por aqueles que conosco constroem o espaço de convivência.

Passa da hora de ouvirmos zilhões de vezes, já disse isto aqui, Sol de Primavera, do Beto Guedes: “A lição sabemos de cor, só nos resta aprender”.


Até breve.


quinta-feira, 4 de novembro de 2021

SINAL

 




Recebi em casa, hoje, a meu pedido, visita de uma Corretora de Imóveis.

Estamos inclinados a transferir nossa morada para outrem que possa usufruir, enquanto viver aqui, a mesma ou maior satisfação que experimentamos ao longo de três décadas.  

A jovem, de posse de uma prancheta e de seu aparelho celular, percorreu lentamente por todos os espaços, fazendo anotações e tirando fotos.

Durante o percurso conversamos sobre o mercado de imóveis no momento, correlacionando com as características da propriedade, poço artesiano próprio, aquecimento solar, área de lazer com sauna, piscina e campinho de futebol, casinha de bonecas, gangorras, cozinha mineira com fogão à lenha, diversidade de árvores frutíferas, jardins e o belo galinheiro/coelheiro que conferem ao todo um caráter peculiar e original.

Concluída a visita técnica, na saída perguntei à corretora qual era a expectativa de realização da venda.

Notei que ela aparentava uma certa tristeza, enquanto me respondia:

- Agulhô, você conhece a história do amigo do Olavo Bilac que queria vender um sítio e pede ao poeta, que conhecia a propriedade, fizesse um relato para que ele, o amigo, pudesse anunciá-la?

- Não. Se conheço, não me lembro agora...

- Bilac, alguns dias depois, teria escrito e passado ao amigo o bilhete: "Vende-se encantadora propriedade, onde cantam os pássaros ao amanhecer no extenso arvoredo. Cortada por cristalinas e marejantes águas de um ribeiro. A casa, banhada pelo sol nascente, oferece a sombra tranquila das tardes, na varanda".

- Ô, loco!

- Pois é, meses depois o poeta reencontrou o amigo e perguntou-lhe se havia conseguido vender a propriedade.

- E aí?

- Nem penso mais nisso Sr. Bilac! Quando li o anúncio que o senhor escreveu é que percebi a maravilha que tinha nas mãos.

 

Estou quase certo de ter me equivocado na escolha da Corretora.

Ou não.


Até breve.