quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

DESHORIZONTE





Ah, sombrio horizonte!!!

Capital (ah palavra de significados!!!) das terras indevolutas de riquezas gerais!

Ah, cidade de meu berço natal e aonde depositarão, em uma campa, aquilo de sólido inerte que sobrar de mim!

Ah, estado das montanhas que nos ensimesmam em nossa mineiridade! Ah, meu canto, meu lugar, minha terra, meu céu, meu triste horizonte!

Ah, figura simbólica da tragédia humana, mais nítida da atualidade! Ah, musa histórica para meu canto de dor! Ah, evidências mais do que concretas que as imagens televisivas e escândalos decorrentes explicitam!

Séculos de barbárie exploratória solapando riquezas e as distribuindo das formas mais sórdidas e vis, que nem inconfidências sangrentas foram capazes de suspender. Enforcaram todos aqueles que denunciaram. E ainda o fazem dissimulada, maquiavélica e deliberadamente.

Curral del Rey está plantada sobre um equívoco. De todas as naturezas, inclusive com um profundo desrespeito à própria. Sufocaram seus córregos e rios, mas eles não faleceram através dos tempos. Ainda tramam nos subsolos de avenidas escuras aguardando que o céu precipite forças para que rompam e retornem aos seus leitos naturais.

Como o Córrego do Leitão, que, com o aumento da densidade populacional em sua bacia, havia se tornado extremamente poluído. Na década de setenta, decidiu-se, então, por canalizar e fechar o córrego e construir a Avenida Prudente de Morais, com o objetivo de melhorar o fluxo viário na região, cuja expansão se dava de forma acelerada e de aguçada volúpia capital.

Foi ele um dos que se rebelaram a partir do rompimento da Barragem Santa Lúcia que o continha. Voltou por cima, soberano, ávido por reencontrar suas margens e seu curso de origem e direito. E os homens assustados o reconheciam: “Parece um rio”...

Somadas a todas as águas trazidas por força de algo sabido e explicado por especialistas (a configuração montanhosa da cidade, o calor advindo de seus concretos e a falta de permeabilidade) desaguou adiante em Marília de Dirceu, a Praça.

Trágico o que construo revisitando Tomaz Antônio Gonzaga, um dos inconfidentes. No poema dele, Marília de Dirceu, ele faz culto à natureza (ao pastoralismo, a vida em harmonia com o ambiente e repúdio à vida citadina).

Um dos moradores em edifício da Praça: el Rey. Da janela de seu apartamento o prefeito, que gosta de dizer-se culpado, assistiu a pujança das águas. 

Não, senhor prefeito, não traga para si o privilégio da culpa, como mais uma demonstração da vaidade insana que grassa nos governantes.

A culpa continua em nós que, nos dias presentes, enforcamos Greta.



Até breve.

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

PROPOSITO






Eu estava em Paris e o cinema completava 100 anos. 

Nas paredes dos portais da Praça Trocadero acontecia projeção de diversas cenas antológicas produzidas pela Sétima Arte. A cidade luzia. Os jardins da praça de 90.000m² exalavam um perfume de dar nos nervos.

Sempre me encantei com o cinema.

Ontem fui assistir 1917. Concorre ao Oscar e, embora eu já tenha meu favorito, devo considera-lo cinema na veia. Sam Mendes dá um show de direção e nos coloca em cena junto aos atores durante toda a projeção.

Dado momento observei, tanto quanto eu, pessoas se mexendo nas poltronas. As câmeras, suponho embarcadas em drones, fazem com que nos arrastemos, assustemos, transpiremos, enfim, expericiemos tudo o que o filme pretende mostrar.

A cinematografia é uma das áreas que mais tem aproveitado do avanço tecnológico, está sempre explicitando o estado da arte e adiante de seu tempo. 1917 é uma prova contundente de quanto os meios contribuem para os fins a que se propõem os seus brilhantes produtores.

Cenas como a da queda do avião bombardeado em combate é um primor da tecnologia conjugada com o brilhantismo da direção. Difere de tantas apelações computadorizadas de filmes corriqueiros e exclusivamente comerciais, e nos coloca diante de uma visão muito próxima daquilo que nos parece verdadeiramente real.

 “O grande foco do diretor Sam Mendes é contar uma história sobre o homem e não sobre a guerra em si. Com tal abordagem, 1917 nos faz refletir sobre o que pode levá-lo mais adiante: a vontade de voltar para casa ou o senso de responsabilidade para com sua pátria. E, dessa forma, o diretor transforma seu filme numa jornada repleta de emoção e altos e baixos. É uma experiência definitivamente imersiva e muito intensa – e o fato de Mendes ter estabelecido uma narrativa no formato de um falso plano-sequência é o que amplia as sensações que o público receberá sem qualquer resistência.” (Crítica A guerra em primeira pessoa, por Barbara Demerov, no site Adoro Cinema).

Mesmo que o roteiro em si seja banal e recorrente, a trilha sonora, a iluminação, as locações e os, suponho, caréssimos cenários dão um elevado padrão de qualidade ao filme.

Quero voltar a Trocadero daqui cem anos e me sufocar de luzes e de perfumes. De quebra revisitar emoções vividas a partir de cenas projetadas nos portais da praça.

O cinema assim o permitirá.


Até breve.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

MARCO




Marcos, talvez por isto seu nome, abriu a sequência familiar. Foi o primeiro a chegar e o primeiro a sair. Vlad, meu filho, quem me deu a notícia. Disse-me que Grácia, a sexta, estava tentando falar comigo e não conseguia.

Ele se foi como nossa mãe: de um colapso fulminante, privilégio reservado somente aos melhores. Quando falei com Franciane, minha sobrinha, ela confirmou.

- É tio, eu estava falando exatamente isto. Papai se foi como um passarinho e como vovó. Só os bons se vão assim, né?

Tempão que eu não falava com Marcos, mais de duas décadas ou mais. Ele viveu sempre na dele, ensimesmado no seu mundo pequeno, recolhido como um bichinho acuado.

No novembro passado ele fez oitenta anos, nisso diferiu de nossa mãe, no que diz respeito à ida. Ela se foi com setenta e três do mesmo jeito que ele. Assim, vapt!

Franciane disse-me que ele estava conversando com Bárbara, a esposa, e do nada parou. Tudo.

Continuará vivendo em mim. Marcos não ocupava um espaço, para mim sempre foi um vazio, nunca o vi fazer mal algum a ninguém e nem opinar sobre qualquer assunto.

Na juventude ele tinha apelido de Risadinha. Na alegria e na tristeza. Levou a vida, essa que ainda está comigo, assim: sorrindo. Só rindo.

Notícia que tinha dele, mais recente, era de que ele criava galinhas e com elas conversava efusivamente. Imagino os segredos que deveria ter com elas através do silêncio.

Franciane levou o pai e a mãe para morarem com ela em Anápolis, Goiás, logo depois que Chico, seu único irmão, faleceu. E isso já faz para mais de duas décadas ou mais.

Grácia, a sexta, me perguntou se eu iria para o descimento. Num primeiro momento achei que deveria, depois desisti porque só iria para ficar dentro de determinados conformes. O corpo se vai. Marcos está em mim enquanto eu viver. Quem morrerá sou eu e, comigo, todos.

Inadvertidamente fui eu quem deu a notícia para Lourdinha, a segunda, a que tem o coração tamanho de um trem e só fala aos gritos, pela descendência espanhola, eu acho.

- Ô seu danado, que não fala com ninguém, por que cê tá me ligando? Morro de saudade docê, tá tudo bem?

- Ainda não chegou para você a notícia?

- Quê notícia?

- Agora nós somos nove.

Marcos e Bárbara são padrinhos de batismo de Pretinha, minha filha. Quando falei com ela do acontecimento Pretinha me disse que se lembrava das bonequinhas de pano com que a madrinha a presenteava na infância. Bárbara é uma eximia bordadeira e costureira.

Em fim.

Grácia foi com o marido Josevan e Lourdinha para Anápolis ontem à noite. Depois disso não soube de mais nada. E prefiro que continue assim.

Dando uma de Risadinha.


Até breve.


quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

IDÍLIO




“Não faço questão de ser feliz, ainda prefiro a vida.”



Pretinha chegou dia 18 de dezembro para o Natal. Por causa dela, minha festa natalina aconteceu até ontem à noite, não porque ela ainda estivesse conosco. No último domingo nos despedimos em Florianópolis e ela retornou para Lages, onde mora.

- “Pai, estou lendo um livro que o cara escreve igual você... Não consigo parar de pensar em você enquanto leio.”, como se pensasse em mim somente quando lê alguém que também escreve.

- “Pai, você tem que ler esse livro. É incrível! Vou te dar ele de presente de Natal.”.

Ela repetiu esse deslumbramento inúmeras vezes, e aumentou a intensidade do interesse em que eu lesse o livro depois que o me entregou na noite de Natal.

- “Você já começou a ler?”, me perguntou “n” vezes até mesmo em Jurerê onde estávamos juntos até o último domingo.

- “Como? Seus filhos não me largam durante o dia todo, à noite não quero outra coisa senão dormir.”.

Nunca vou me esquecer desse Natal pela preciosidade com que Pretinha me presenteou.

A VIDA PELA FRENTE, apesar de ter sido publicado a primeira vez há mais de quarenta anos, parece mais atual do que nunca.

Momo, um garoto muçulmano que acredita ter dez anos de idade, vive sob os cuidados de uma senhora judia chamada Madame Rosa. Sobrevivente de Auschwitz e mais tarde prostituta em Paris, ela está aposentada e cuida de diversas crianças em seu apartamento.

O centro do livro é o amor de Momo por essa mãe postiça. Seu maior medo é a morte dela – e enquanto se preocupa com remédios e diagnósticos, convive num caldeirão multicultural atravessado por intolerância e pobreza, mas que a seus olhos ingênuos parece um mundo idílico de adultos bondosos.

Da fricção entre a inocência do narrador e a brutalidade do mundo a seu redor sai a força de um dos romances mais cativantes da literatura francesa recente.

Vocês têm que ler esse livro! É incrível! Eu terminei de lê-lo ontem.

Para convencê-los, além da epígrafe deste post, pincei alguns trechos:

“Acho que são os injustos que dormem melhor, porque eles estão se lixando, ao passo que os justos não conseguem pregar o olho e esquentam a cabeça por qualquer coisinha. Do contrário não seriam justos.”.

“Eu por mim acho que os judeus são pessoas iguais às outras e que não devemos querer mal a eles por isso.”

“Madame Rosa dizia que o Dr. Katz era da clínica geral, e é verdade que havia de tudo no consultório dele, judeus, claro, como em toda parte, norte-africanos, para não dizer árabes, negros e todo tipo de doenças.”

“As coisas mais difíceis de curar não são as doenças.”

“Quanto mais a gente se conhece, menos é bom.”

“Eu não brincava com os outros pirralhos, eles eram pequenos demais para mim, a não ser para comparar com outros pintos, e Madame Rosa ficava furiosa porque tinha horror a pintos por causa de tudo que já tinha visto na vida.”

“Quanto a mim, heroína, cuspo em cima. Os meninos que se picam ficam todos viciados na felicidade e ela não perdoa, pois a felicidade é conhecida pelos seus estados de abstinência.”

“A felicidade é um belo de um lixo muito cruel e precisava de alguém que a ensinasse a viver. Nunca fiz política, porque isso sempre beneficia alguém, mas a felicidade deveria haver leis para impedi-la de ser canalha.”

“Eu queria ir para muito longe, para um lugar cheio de outra coisa, e até procuro não imaginar para não estragar. Poderíamos manter o sol, os palhaços, os cachorros, porque não é possível fazer melhor no gênero.”

“A vida pode ser muito bonita, mas ainda não a descobrimos de verdade, e enquanto isto é preciso viver.”

Vocês têm que ler esse livro! É incrível!

“Um dia, vou escrever os miseráveis também.”, diz Momo a um senhor amigo que vive com o livro de Victor Hugo nas mãos.

Émile Ajar, em 1975 ganhou o mais importante prêmio literário da França e o livro tornou-se um dos romances mais vendidos do século XX. Quatro anos depois, quando o autor morreu, descobriram que Émile Ajar era um pseudônimo de Romain Gary, um dos escritores mais populares da França e já premiado com o Goncourt em 1956 (o prêmio não pode ser concedido duas vezes à mesma pessoa).

Fosse o último exemplar disponível no mundo e eu o encontrasse na Atlantis Book (vide post anterior) eu pagaria por A Vida Pela Frente tudo o que eu pudesse chamar de minha riqueza. E o guardaria debaixo do colchão de meu beliche.

Filha, para expressar seu amor, não exagere. Seu pai poderá acabar acreditando.


Até breve.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

OIA





Em uma parede, em cima de algumas primeiras edições raras, de antigos mapas da ilha vulcânica e um abajur de linho manchado, uma cronologia traça a evolução da ‘Atlantis Books’, desde uma ideia regada a muito vinho, em 2002, até tornar-se uma das livrarias mais fantásticas da Europa. Do terraço tem-se a visão do Mar Egeu. Prateleiras de livros se movem revelando beliches onde os trabalhadores podem dormir.

Com o tempo, espalhou-se a notícia de que também escritores visitantes poderiam passar as noites de verão escrevendo e tirar um cochilo ali, e o proprietário começou a receber e-mails solicitando um beliche na colônia de escritores mais impressionante do mundo, em uma ilha que Platão julgava ser a Atlântida perdida.

Nos últimos quinze anos, enquanto turistas a bordo de navios de cruzeiro invadiam a aldeia de Oia, na ponta mais setentrional de Santorini, a ‘Atlantis Books’ tornou-se um oásis de autenticidade e de sanidade cultural. As páginas amareladas e as prateleiras de madeira trazida pelas marés emanam um cheiro de mofo. Os clientes andam em volta do cachorro da loja, Billie Holiday.

Folheiam obras de ficção, poesia, ensaios e raridades. Uma primeira edição de The Great Gatsby de F. Scott Fitzgerald, sem a sobrecapa de um dos livros raros mais procuradas do mundo, está à venda por seis mil euros.

Atrás da máquina registradora há uma primeira edição extremamente rara de A Christmas Carol de Charles Dickens. Seu preço: quase dezoito mil euros. Os livros raros vendem bem porque a ilha se tornou um destino famoso para pessoas com muito dinheiro.

Atlantis não é a mais antiga e nem a menor livraria da Europa. Ernest Hemingway não escreveu ali.

Meu coração de uns meses prá cá passou a bater por me levar à Teruel, reconhecida pela UNESCO como Patrimônio da Humanidade, cidade localizada na região de Aragão, Espanha, a província menos populosa do país (30.000 habitantes).

Já estive em Santorini, mas não sabia da Atlantis Books.

Hoje, ao ler matéria no Estadão de onde bebi como fonte para os primeiros parágrafos deste post, meu coração vacilou.

Passo a pensar em alugar um dos beliches, se houver algum disponível, para ficar por ali e padecer do cheiro de mofo do ocaso de uma literatura. Junto com Billie Holiday ocupar um espaço qualquer e, como ele, em um dia qualquer deixar a ilha.



Até breve.

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

BANQUETE





Retornei ontem, pela manhã, ao batente. À noite assisti Viver Duas Vezes, na Netflix.

Com grata surpresa e alegria constatei que minha alma não esta seca, como disse aqui no último post. O filme me fez lacrimar aos gritos.

À parte as deliciosas cenas secundárias, o drama central contempla cenas impagáveis. Quando Emilio (Oscar Martínez) é diagnosticado com Alzheimer, ele e sua família resolvem partir em busca do seu amor de infância.

Na iminência do encontro com Margarita, a paixão precoce, a família tenta ajudar Emílio para decorar o que dizer a ela no momento.

- “Minha vida era como uma noite escura até você aparecer e como um meteorito iluminou as minhas estrelas”, sugere a netinha.

- “Não, isto não tem muito sentido porque as estrelas têm luz própria. Elas não precisam de outro astro para brilhar”, rebate Emílio.

- “Fale papai: o que Margarita tinha de especial?”, pede a filha.

- “Ela era como o número pi. Gosto muito de matemática porque é lógica pura. Os números são racionais previsíveis. Mas, de repente, no meio dessa harmonia, aparece o número pi. Um número misterioso, infinito. Um número vivo. Cria seu próprio caminho sem seguir padrões estabelecidos. E isso faz com que a Matemática além da lógica, também seja mágica. Isso era a Margarita para mim: a magia.”

Um dos danos mais críticos de minha compreensão passa por Platão. Quase sempre vivo no mundo das ideias onde tudo é perfeito. O que há no mundo real não passa de uma cópia imperfeita desse mundo das ideias.

Assim, com o Amor. À distância, que não se aproxima, não toca, não envolve, é feito de fantasias e de idealização, onde o objeto do amor é o ser perfeito, detentor de todas as boas qualidades e sem defeitos.

Caramba! Falei.

Que vive nas ideias desses amantes, que cantam os poetas mais delirantes, que juram os profetas embriagados, que está na romaria dos mutilados, que está na fantasia dos infelizes, que não tem certeza nem nunca terá, que não tem conserto nem nunca terá, que não tem tamanho, que não tem decência nem nunca terá, que não tem censura nem nunca terá, que não faz sentido, que todos os avisos não vão evitar, por que todos os risos vão desafiar, por que todos os sinos irão repicar, por que todos os hinos irão consagrar, e todos os meninos vão desembestar, e todos os destinos irão se encontrar...

Que não tem Lógica e não serve aos seres racionais e previsíveis.

A cena final de Viver Duas Vezes, supostamente construída pela mente de Emílio a partir do experimentado na infância, me soou como um convite. Diante da vastidão do oceano contemplar todo o Infinito.

Não fosse a Arte, não valeria viver.



Até breve.

domingo, 19 de janeiro de 2020

BLUES




No post de ontem disse uma impropriedade. Não somos governados pela mentira. A mentira é inerente à política. Seria desnatural não fosse. É da natureza, da essência da Política, especialmente a que se nomeia democrática a visão partida, portanto, tendenciosa.

Todo partido parte de uma perspectiva partida, portanto fundado em interesses do grupo a que se (com) promete.  Adoro construções onomatopaicas.

A única corrente que cobre o universal (não partida) é fundada nos modelos totalitários, nazifascistas. Portanto, uma única perspectiva é inerente à ausência da política partidária. Só há Um que verdadeiramente governa.

O Estado sou eu!

A sociedade vive nessa sinuca de bico: entre a mentira (partida) e a verdade única (oniversal). Quanto mais vulnerável culturalmente um povo mais aguda é a sinuca.

Vejam, por exemplo, duas decisões do atual desgoverno. A dita maior de todas as iniciativas no campo da cultura contempla, em 2020, o investimento de R$20 milhões para o incentivo da produção artística em diferentes modalidades: de ópera a história em quadrinhos. Poesia não faz parte, o que me parece absolutamente compreensível.

Passa-se uma borracha e apaga-se com a demissão do Secretário Suástico, portanto ninguém sabe se o vultoso incentivo permanecerá. De minha parte vou adorar saber a comissão censora, ops, julgadora.

A outra decisão é de destinar para as eleições municipais do ano de 2020 o montante de R$2bilhões para o Fundo Partidário.

Atentem para o detalhe: o investimento na bandalha dos Pequenos Partidos Grandes Negócios corresponde a 100 vezes aquele que se destinará ou se destinaria aos infelizes marginais produtores de cultura.

Juro a vocês que se o blog não fosse de grátis eu não escreveria uma linha. O pior é que na medida em que vai passando o meu tempo fico mais amargo, sem graça, quase desgraçado.

Embora esteja gozando do privilégio de merecidas férias fecho a semana com uma profunda tristeza. Ontem fomos à Santo Antônio de Lisboa, Floripa, e nos deparamos com um artista de rua nos oferecendo um CD de sua autoria.

Pedi a ele que nos desse uma pala para que pudéssemos saber qual era a dele. Levou-nos para debaixo de uma árvore e nos brindou com um blues de sua autoria. Só não lacrimei porque minha alma tá seca.

Disse-nos que os comerciantes ao longo da orla chamam a polícia se ele incomodar os turistas.

Retomo amanha meu cotidiano perplexo: como um país de mais de duzentos milhões de pessoas se permite tal aviltamento.

Entre a mentira partidária da vil democracia e a perspectiva do Oniversal opto, e cada vez mais, pela minha alma anárquica.

Aos setenta serei inimputável.


Até breve.

sábado, 18 de janeiro de 2020

CÂNDIDA




A dissimulação, a mentira, o escárnio governam. Há décadas. Ou serão séculos?

José Sarney: “Juro que é o último Plano.”.

Fernando Collor: “Elba? Que Elba?”.

Itamar Franco: “Juro que eu não sabia que a menina estava sem calcinha...”.

Fernando Henrique: “Juro que não movi uma palha para a extensão do meu mandato.”.

Lula: “Mensalão? Que Mensalão?” “Sítio, que sítio?” “Triplex, que tríplex?” “Odebrete? Somos apenas amigos...” “Eu nunca nomeei ninguém como diretor...”.

Dilma: “Na época eu era Presidenta do Conselho, o relatório sugeria a compra de Pasadena.” “Pedalar? Todo dia em torno do palácio.”.

Bolsonaro: “Eu não conheço esse Wagner.”.

O drama dessa figura feminina chamada sociedade brasileira é um roteiro de Nelson Rodrigues. Traída sistematicamente por seus maridos está sempre acreditando que eles se emendarão. Afinal fica com eles por causa de seus filhos.

Ocorre que não é da época do iluminado dramaturgo o feminicídio. Na atualidade o drama ficou mais grave. Hoje pode até ocorrer.

O marido atual fica entre um diagnóstico de idiota ou psicótico perverso, clinicamente falando. No dia anterior do último episódio, ele se reuniu com o secretário e fez elogios explícitos. “Agora o país tem cultura.”

Depois da ópera bufa, acontecido o fato, o secretário foi pra rede dizer que pediu demissão para “proteger o presidente”.

E a sociedade acreditou.

Tolinha essa sociedade, né?


Até breve.

sábado, 11 de janeiro de 2020

IMPRECIONANTE (*)


Foto: Taba Benedicto/Estadão




Não considero Saber algo que, nestes tempos, seja relevante. Até porque todo saber está catalogado e à disposição instantaneamente para bilhões de habitantes do planeta.

Para os excluídos ao acesso à tecnologia, Saber seguramente não é produto de necessidade já que fome é de outro gênero mais crítico.

Nunca se pôde Saber tanto dada às liberdades cada vez mais francas ao redor do mundo. Mas Saber, além de ser irrelevante, não convém.

Com todo mundo que convivo que procura Saber se decepciona inclusive sobre si mesmo. Além de entrar numa de ensimesmar-se e afastar dos convivas, inclusive os mais próximos. Saber isola.

Saber é perigoso. Cria realidade completamente defasada daquela que se apresenta, especialmente em redes sociais e em páginas da mídia. Saber aliena, portanto.

É possível viver sem Saber? Claro que não. Então como Saber e ainda assim conseguir viver uma vida boa e integrada ao meio em que se vive? Lendo, claro. Mas ler o quê? O que todo mundo tá lendo, claro. E o que “todo mundo tá lendo”?

Os 15 livros mais vendidos no Brasil em 2019, segundo esquisa feita pela Nielsen a pedido da Babel:

1.    A Sutil Arte De Ligar O F*da-Se, de Mark Manson (Intrínseca)
2.    O Milagre da Manhã, de Hal Elrod (Best Seller)
3.    Do Mil Ao Milhão. Sem Cortar o Cafezinho, de Thiago Nigro (HarperCollins Brasil)
4.    Seja Foda!, de Caio Carneiro (Buzz)
5.    Brincando com Luccas Neto, de Luccas Neto (Pixel)
6.    As Aventuras na Netoland com Luccas Neto, de Luccas Neto (Nova Fronteira)
7.    O Poder da Autorresponsabilidade, de Paulo Viera (Gente)
8.    Os Segredos da Mente Milionária, de T. Harv Eker (Sextante)
9.    Me Poupe!, de Nathalia Arcuri (Sextante)
10. O Poder da Ação: Faça sua Vida Ideal Sair do Papel, de Paulo Vieira (Gente)
11. Pai Rico, Pai Pobre – Edição de 20 Anos: Atualizado e Ampliado, de Robert Kiyosaki (Alta Books)
12. Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas, de Dale Carnegie (Nacional)
13. Mindset, de Carol S. Dweck (Objetiva)
14. O Poder do Hábito, de Charles Duhigg (Objetiva)
15. Mais Esperto Que o Diabo, de Napoleon Hill (CDG)


Alguém daí leu algum da lista? Nem do Luccas Neto?

Ora, me poupe!


Até breve.

(*) Ortografia já atualizada dentro dos ditames correntes do Ministério da Educação, ops, Educassão.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

OSCAR





Eu parasito. Tu parasitas. Ele parasita. Nós parasitamos. Vós parasitais. Eles parasitam.

A ação é conjugada em todos os tempos do Verbo.

No parasitismo, relação que se estabelece entre organismos de espécies diferentes (relação interespecífica), um dos indivíduos envolvidos instala-se no corpo do outro para retirar alimento. O organismo que retira o alimento é o parasita, enquanto o que está sendo parasitado é o hospedeiro.

No parasitismo, apenas um dos organismos envolvidos é beneficiado e o outro é prejudicado. Esse tipo de relação não gera a morte do hospedeiro, pois, quanto mais tempo ele viver, mais tempo terá o parasita para alimentar-se. Para isso, é fundamental que o parasita não retire do corpo do hospedeiro muitos nutrientes, pois este ficaria muito debilitado e acabaria morrendo, o que levaria o outro organismo também à morte.

Talvez você usufrua deste texto sem já ter se hospedado no filme (vencedor de todos os prêmios em que concorreu), o último deles O Globo de Ouro: PARASITA. Vai ganhar o Oscar junto com Coringa, um como melhor filme estrangeiro e o outro como melhor filme do Império.

PARASITA é produção sul-coreana. Emblemático né?

O filme remete à questão: quem é parasita de quem? Ou se, no fundo, todos nós parasitamos, como sugiro no início do post?

A trama contempla a participação de um dos personagens como o maior arquiteto do mundo, projetista da casa em que o filme se desenrola. O criador do filme concebe dois mundos: um às luzes e outro subterrâneo e usa do personagem arquiteto para explicitar sua intenção simbólica.

A casa, magnifica, tem uma sala lançada para um jardim soberbo, quase um paraíso para a contemplação. A casa, monstruosa, tem um porão que hospeda algo de demoníaco.

Céu e Inferno como lócus, o Onde em que tudo se passa.

O roteiro enxerga na violência o único desfecho possível para o choque entre a pobreza extrema e a riqueza ostentatória, entre a educação hipócrita do patrão (que até gosta dos empregados, apesar de terem “cheiro de metrô”) e a agressividade represada dos funcionários.

O filme constrói uma bomba-relógio, acentuando as diferenças e as injustiças sociais até vê-las explodirem num clímax sangrento. Deste modo, representa de modo alegórico a luta de classes, as ideias de posse e de apropriação na era contemporânea. Telefones celulares, “varandas gourmet”, quartinhos dos fundos – tantos elementos representativos dos tempos em que vivemos.

Para que uma família ocupe a casa, símbolo máximo do sucesso, é preciso que outra se retire, nem que seja pela força. Para ascender ao topo da pirâmide, o único caminho é a guerra.

Existe ainda um caso de parasitismo que é conhecido por muitos biólogos como parasitoidismo. Nessa relação, observa-se a morte do hospedeiro, fato que, de maneira geral, não ocorre nos casos de parasitismo. Como exemplo clássico de parasitoidismo, podemos citar as vespas, que colocam os ovos no interior de alguns artrópodes. Após eclodirem, as larvas alimentam-se do hospedeiro ainda vivo. Depois de algum tempo, elas matam o hospedeiro e emergem de seu interior.

Eu entenderia isto como o que mais nos aterroriza quando o Império ataca.


Até breve.


NOTA: Assisti o filme gravado em pen drive por um amigo. Muito do que sugamos vem dos porões. Que ninguém, inclusive eu, se considere desparasititico.