quinta-feira, 30 de junho de 2011

SMJ I

A mudança física para Juiz de Fora simbolizou a sinergia organizacional: uma desordem orquestrada pela inadequada administração dos responsáveis à época. Antes fosse evidenciada apenas na questão física das instalações, mas era, sobretudo, no tecido das relações. Alguns superintendentes não visitavam as áreas de outros, sequer se falavam no restaurante, disputavam regalias e jantares dos membros do Olimpo, embora o próprio Olimpo convivesse com mazelas crônicas e traumáticas. Um horror.
Apesar do ônus às pessoas a construção da usina seguia um cronograma relativamente adequado. Gradualmente as instalações foram se ajustando e as condições operacionais de trabalho reduziram um pouco o mal estar. Terminados os ajustes ficamos com um escritório belíssimo e super confortável.
O que não conseguimos equacionar satisfatoriamente foi o clima organizacional sempre agravado pela instabilidade de ZECÊ. Ele até o final do ano de 1983 havia mandado demitir mais de trinta dirigentes entre superintendentes, chefes de departamento e chefes de divisão. Sumariamente pedia ao Diretor a cabeça do profissional.  Nessa leva foram o meu superintendente e o chefe de departamento que havia substituído o anterior que ficara em Belo Horizonte. O cara nem chegou a esquentar a cadeira. ZECÊ simplesmente não gostou do jeitão dele.
Nosso líder maior, ZECÊ, que tinha o cargo de vice-presidente, ia às festas de confraternização da empresa, raras e com freqüência compulsória dos empregados, e ficava sozinho acompanhado apenas com poucos membros de sua família. Em torno dele abria-se um vazio. Ninguém se aproximava. Numa dessas festas alguém fez referência a ele como o Capeta. ZECÊ passou a ser referenciado como o Capeta. Por coincidência ele andava em uma Perua Veraneio vermelha que passou a ser reconhecida como Capetamóvel.
Quando eram agendadas reuniões com o Capeta, vários executivos entravam em transe, outros eram acometidos de disenteria, outros de tosse. O cara dava medo mesmo. Ele desqualificava o adversário e tinha um especial prazer em dizer que todo mundo era ‘incompetente e babaca’.
Nossa diretoria (administrativa) era composta por um Diretor, dois superintendentes, quatro chefes de departamento e oito chefes de divisão. Cada Superintendente com dois departamentos, cada departamento com duas divisões. Numa reestruturação a Diretoria ficou apenas com dois departamentos e quatro divisões. A outra superintendência passou a ser vinculada à Diretoria Financeira. Estava criada em setembro de 1983 a Diretoria de Recursos Humanos e eu fui promovido a Chefe de Departamento de Recursos Humanos com um salário de Cr$1.088.774,60.  Assim mesmo, entendam como quiserem.
Enquanto Chefe de Departamento eu consegui empreender algumas ações importantes embora muito aquém da minha expectativa e que eram imprescindíveis para a organização. De qualquer forma, mais próximo do processo decisório, trabalhei muito com os diretores no sentido de harmonizar conflitos organizacionais e estimular os executivos a construírem uma única empresa. Devo dizer que fui muito apoiado pela grande maioria de colegas que, também esgotados, dispunham-se a conciliar interesses e buscar sempre melhores caminhos para as suas questões. Fui embaixador de várias visitas com superintendentes de diferentes áreas a outras superintendências e desenvolvi programas estruturados de liderança apoiado por consultoria externa onde pudemos ‘lavar muita roupa suja’. Drenei os espíritos, pacifiquei relações historicamente conturbadas, movimentei pessoas de áreas, segurei diversas demissões precipitadas.
No dia 01 de setembro de 1985 eu estava na sala de meu Diretor e ele me disse que estava fazendo uma promoção para mim de 27,73% por mérito, quando passei a receber o salário de Cr$13.614.096,00. No dia 16 de outubro de 1985, ainda no cargo de Chefe de Departamento, fui chamado à sala de meu diretor. Ele foi direto ao assunto: “Ele pediu para eu demiti-lo...”
Interessante que no post ACOSTAMENTO pedi que ficassem atentos às pessoas que passaram pela construção da minha história. Neste post e no anterior, dedicados a SMJ, haverá lugar para uma única pessoa: ZECÊ. Faço assim um tributo à sua soberania.
Foram inúmeras as pessoas com as quais eu convivi durante estes mais de cinco anos na SMJ. Gozamos eu e minha família de uma cidade que nos acolheu de uma maneira emocionante e fizemos um extraordinário ciclo de convivência e amizade. Essas pessoas ficarão para outros posts. Não quis trazê-las aqui para não colocá-las no mesmo espaço de uma pessoa essencialmente infeliz.
Em 2002, já com a minha empresa de consultoria, eu fui convidado para conduzir um programa de aliança estratégica (vide FRACESSO) e eu estava em Curitiba atuando com um grupo de administradores de hospitais do Paraná. Num intervalo do trabalho eu conversava com alguns participantes do evento, que por sinal elogiavam a minha condução, um sujeito calvo aproximou-se de mim e disse:
- ‘Estou te reconhecendo... Só não sei de onde. ’
- ‘Eu também... ’. Continuei conversando com o grupo e vi o sujeito afastar-se.
Era ele: o Capeta. À época, administrador de um pequeno hospital pertencente a uma fundação filantrópica no interior do Paraná, convivendo com expressivos prejuízos.
Dessa SMJ ficou apenas o prosaico: “corriqueiro, comum, vulgar, chão, material”.
Até breve.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

SMJ

A FIAT representou uma fase de intensa formação, com inúmeras oportunidades de desenvolvimento, cursos patrocinados, viagens a serviço, reuniões de trabalho e convivência com consultorias internacionais, implantação de processos, técnicas, sistemas, padrões e toda sorte de tecnologias de gestão. Ela havia preenchido de forma determinante o fato de eu ainda não ter concluído um curso superior. Foi muito difícil deixar a Fiat, mas algo me dizia quer era chegada a hora de enfrentar novos desafios. As coisas estavam ficando mornas demais e meu espírito inquieto fez atender diversos convites da SMJ para uma conversa.
Cinco dias depois da data da minha demissão da Fiat fui contratado no dia 20 de maio de 1980 para ser Chefe da Divisão de Cargos e Salários da SMJ que à época tinha escritório na Rua dos Tupis, centro da cidade, com um salário de Cr$100.178,40.
Eu tinha reduzido em muito minha empáfia, afinal dois filhos para criar com o terceiro a caminho era bom que eu tomasse juízo. Montei uma equipe legal, grupo reduzido de pessoas, mas muito solidárias e com um nível de competência bastante desenvolvido.
Foi sim um retrocesso de Planejamento Organizacional na Fiat para Chefe de Salários da SMJ, olhando pela lente da objetividade e da racionalidade. Mas não pela da experiência. Vivi momentos extremamente críticos na formação da estrutura organizacional da SMJ e que a musculatura adquirida na Fiat permitiu-me administrar as inúmeras intrigas e briguinhas de corredores corporativos e salas fechadas com pessoas vindas das siderúrgicas concorrentes que queriam por que queriam implantar o mesmo modelo de gestão trazido de suas empresas de origem.
Grande desafio também na medida em que nossa área não tinha um peso considerável na balança do poder organizacional o que nos dava um trabalho a mais na defesa de nossos pontos de vista, agravado pela governança de um CEO instável para não dizer temperamental que vou aqui nomear como ZECÊ.
Foi lento o processo de instalação da usina. Adiada inúmeras vezes, por inúmeras razões, até que um dia de fevereiro de 1981, desceu um ar quente do prédio da Rua dos Tupis, vindo do 15º andar onde ficava a sala de ZECÊ. Nós ficávamos no terceiro andar, depois o pilotis, garagens e térreo, portanto o último andar de escritórios da SMJ. ZECÊ em um de seus surtos de rotina bradara: “EU VOU MUDAR PARA JUIZ DE FORA DIA 15 DE FEVEREIRO DO ANO QUE VEM E PONTO FINAL. QUEM NÃO ESTIVER LÁ NESTE DIA ESTARÁ FORA DA E MPRESA.”
Era bom acreditar. Para muitos não interessava a mudança, preferiam ficar em Belo Horizonte pelo tempo que fosse possível adiar. Fui eu quem persuadiu vários amigos a irmos a Juiz de Fora para localizarmos moradia e colégio para os meninos.
Toda a tensão da empresa ao longo de 1981 era a de viabilizar a construção do prédio da administração e desembaraçar questões aduaneiras da importação de equipamentos da usina, além de botar prá dentro boa parte da estrutura gerencial e de supervisão.
A SMJ fez leilão de salários e eu rebolei para construir um mínimo de consistência. Cada área achava-se mais glamorosa do que a outra e cada profissional identificado para ser trazido era apenas o máximo da função. Gastei todo o meu grego e meu latim adquiridos na FAFICH para fazer as diretorias entenderem que aquilo teria sérias conseqüências no moral da tropa. Não deu outra: o clima ainda na Rua dos Tupis era de arrepiar, tenso, ruim mesmo. Meu gerente, não conseguiu manter-se e foi demitido por ZECÊ ainda em Belo Horizonte.
No dia 15 de fevereiro de 1982, uma segunda-feira, iniciamos o primeiro dia de expediente no escritório da administração da SMJ em Juiz de Fora. Não havia divisórias das salas, caixas e caixas de documentos espalhadas por todo o vão dos dois andares do belíssimo edifício.  Um caos. Por volta das dez horas da manhã ZECÊ passou por todas as áreas, andando sozinho com as mãos para trás. Nos lábios, um sorriso triunfal.
Pobres empresas quando são vitimadas por seus líderes.
Até breve.

terça-feira, 28 de junho de 2011

ACOSTAMENTO

Em posts anteriores (de CARREIRA até FIAT V) procurei relatar aquilo que me ocorria naturalmente à memória. Sentei à frente do laptop e sem me esforçar muito me coloquei a escrever. Não revi textos, não fiz anotações antecipadas, tudo que foi trazido foi de um fôlego só. Permito-me agora uma análise do que registrei o que faço da mesma maneira.
 Ocupei-me praticamente em todos os meus textos com pessoas que passaram e que me ajudaram a moldar a minha vida. Todas as passagens registradas serviram para que eu pudesse reconhecer a importância de cada uma delas na minha formação objetiva, no meu caráter e, sobretudo, na minha sensibilidade. Minha mãe, Dona Antônia, Jaime (da loja de tecidos), Luiz Carlos, Sr. Elias, Moacir, Dennis, Barreto, Éder, Márcio, Simão, Felipe, Pecore e Eliseu. Estarei sendo injusto se disser que apenas essas pessoas foram importantes. Haverão posts adiante em que tantas outras virão à tona.
Posso, no entanto, quase afirmar que a razão pela qual me encantei pela idéia de Vladimir em eu fazer um blog era a de me obrigar a escrever e escrever para mim é deixar um tributo à vida. E a vida de cada um de nós, penso, resume-se essencialmente em quem cada um de nós debruçou seu coração. Debruçou no sentido de ter sido verdadeiramente afetado, marcado. A vida só se expressa no outro, quanto o outro levou de nós ou quanto dele nos deixou. Disse algumas vezes nos textos anteriores que eu dou graças à vida por ter vivido esta ou aquela experiência, mas de fato, estou dando graças à vida por ter me encontrado com aquelas pessoas sujeitos da ação da qual eu era personagem.
Dos sete aos vinte e oito anos de idade resumi em poucos acontecimentos a primeira metade da história da minha vida. Embora o tema recorrente tenha sido sempre a questão do trabalho como meio de sobrevivência e posicionamento, minha inquietação e interesse não está nesta questão objetiva, prosaica, diria Paulo Roberto Souza Lima. Tá vendo: esse cara tinha que ter entrado em algum relato da FIAT. Sociólogo, aprendiz de feiticeiro, uma cabeça privilegiada de dar inveja, especialista em ciências sociais e políticas com quem fiz durante muito tempo transporte solidário. Paulo fazia do percurso de casa para a fábrica e da fábrica para casa uma seção mais do que privilegiada de análises conjunturais de toda sorte. Um gigante o cara, e eu ampliava os meus ouvidos e deixava meu cérebro aberto à sua imensa sabedoria. Paulo, logo que me apanhava em casa ou que eu o apanhava na casa dele, dizia: ‘Vamos ao prosaico. ’ Prosaico você encontra no Dicionário Priberam (Google) como “corriqueiro, comum, vulgar, chão, material”.
Não me parecem relevantes as estripulias, as traquinagens, as estratégias mirabolantes, nem a ascensão meteórica na carreira profissional. Elas são prosaicas. Relevo agora o que a partir destas vivências foi-me possível guardar e que me servirá aos noventa anos. Como são importantes as nossas relações e quão necessários nos são os outros. O que é nesse momento interessante é que não sinto a menor necessidade de revê-los, de reencontrá-los. Eles foram suficientes enquanto foram sujeitos da minha história e permanecerão presentes em mim enquanto eu estiver vivo.
Quero fazer sessenta anos construindo um tributo à vida. Fazer um tributo à vida é, essencialmente, fazer um tributo ao outro. Quero que isto seja considerado a partir de agora ao lerem os próximos posts.
Obrigado e até breve.

domingo, 26 de junho de 2011

FIAT V

Entrei o ano de 1979 como Chefe de Serviço de Planejamento Organizacional, com o salário de Cr$42.797,00 e responsável pelo desenvolvimento de estudos para evolução e adequação da estrutura organizacional, além da elaboração de todas as normas e processos administrativos da empresa. Contava com uma equipe de mais de quinze pessoas. Eliseu tornara-se Gerente de Organização e Salários, portanto, das áreas mais estratégicas da empresa binacional. Transferimos para o Roberto a gestão de todos os salários, mensalistas e horistas.
Nessa época a Fiat contratou outra consultoria organizacional, franco-alemã, um negócio de doido, ORGware 4, que chamava a ‘coisa’. Colei nos consultores e saí fazendo adaptações tupiniquins e tornei-me especialista no assunto. Deve ter sido o país que a ‘coisa’ recebeu mais transgressões. De tal maneira e tal expressão que quando os consultores deixaram a Fiat eles já não reconheciam o seu produto. Ficou massa e um grupo muito grande de gerentes que eu pude repassar a tecnologia ficaram feras no assunto. Aquilo passou a ser FIAT.
Dessa época tenho saudosa memória de um grande sujeito. Lyrio do Valle Filho, esse merece o nome todo. Não veio a ser meu padrinho, porque meu casamento já havia acontecido quando começamos a trabalhar juntos e mesmo que fosse à época eu não o teria convidado. Temia que ele pudesse aprontar na igreja. Lyrio era louco. Louco mesmo. Algumas demonstrações: nós morávamos no mesmo bairro e cedo pegávamos o mesmo ônibus da Fiat para ir para a fábrica. O ônibus sempre parava numa praça logo na saída do bairro e um jornaleiro já estava esperando o Lyrio para entregar-lhe o jornal do dia. Lyrio pegava o jornal pela janela, pagava o menino e separava o primeiro caderno para começar a ler o jornal. Colocava os demais cadernos do jornal na poltrona e sentava-se sobre eles. Diversas vezes eu vi pessoas pedindo a ele para ler e Lyrio sempre respondeu: ‘Quer ler, compre o seu. ’ Quando chegava à fábrica Lyrio punha todo o jornal dentro de uma gaveta e a trancava. Depois do almoço ele ia para sala, colocava os pés sobre a mesa e voltava a ler o jornal. Na medida em que acabava de ler, sempre na mesma sequência, ele rasgava em pedaços bem pequenos os cadernos do jornal. ‘Você quer ler, compre o seu. ’ Ele tinha ciúmes doentios de suas coisas: era bom não pedir nenhuma borracha, lápis, caneta ou até um clips. ‘Você quer, requisite o seu. ’ 
Com esse rigor ele era um dos meus mais caros especialistas em projetos de formulários que integravam as normas de procedimentos elaboradas por nossos analistas. Achei que ele poderia contribuir no ORGware 4. Tratava-se de um processo de racionalização e simplificação de processos, portanto, também de geração de formulários. Lyrio cismou com determinado processo da área de após-venda.
- ‘Agulhô, nós temos que acabar com aquela papelada inútil! Com aqueles arquivos de aço... ’
- ‘Vá com calma, Lyrio, o importante é que o gerente perceba e tome a iniciativa... ’ Eu ponderava.
Um dia fiquei sabendo que ele havia conseguido racionalizar de vez os arquivos que ele julgava desnecessários. Ele visitava a área e aproximou-se dos arquivos sobre os quais havia uma bandeja com duas garrafas cheias: uma de café e outra de suco de manga. Ele disse que avaliaria a adequação do arquivo e abriu todas as gavetas, de tal sorte que a primeira de baixo ficou totalmente aberta, a seguinte um pouco menos, a terceira um pouco menos ainda e a última a que ficou menos aberta. Pegou uma cadeira e ‘inadvertidamente’, ou melhor, ‘sem querer’ rodou a cadeira sobre o arquivo derrubando exatamente sobre as gavetas semi-abertas todo o café é suco de manga existente nas garrafas. Aquilo virou uma sujeira. A secretária disse que o chefe ia matá-la, pois aqueles documentos era o que ele mais prezava na vida. Se procurarem nos manuais franco-alemães do ORGware 4 não encontrarão tal procedimento de racionalização.
Em todos os anos que trabalhei na FIAT nunca fui mordido pela necessidade de voltar à escola. Na verdade, não havia como, trabalhei demais, viajei demais, aprendi demais, me dediquei demais. E estou certo de que nenhuma escola poderia proporcionar-me tamanho aprendizado. Foi um imenso privilégio que Eliseu havia proporcionado quando assumiu o risco da minha contratação contrariando a posição técnica da brilhante Etur, de quem me tornei depois um grande admirador e amigo.
Foram, portanto, anos de intenso trabalho e significativas vivências. No final de 1979 ele me chamou à sala dele, fechou a porta e eu senti que ele ia me dizer algo de muito sério.
- ‘Sente-se, Agulhô. ’ Colocando a sua mão no meu ombro e dirigindo-me para a poltrona à frente de sua mesa.
- ‘Acabou... ’ Disse lacônico, sentando-se na sua poltrona.
- ‘Acabou o que, cara?’ Perguntei preocupado.
- ‘Estou deixando a FIAT... ’
- ‘Você ficou louco, Eliseu? Disse o discípulo.
- ‘Vou assumir a direção da empresa do meu sogro, a avicultura... ’
Nós não somos fiéis às empresas, personalidades jurídicas, nem aos seus grandes e glamorosos slogans. Somos fiéis às pessoas com as quais criamos vínculos e propósitos. Queremos construir com pessoas com as quais temos afinidades de caráter e com as quais nós sentimos que valem à pena estarmos juntos.  Queria que Eliseu soubesse, e ele sabe disso, que ele foi um dos líderes mais expressivos com os quais eu trabalhei até aqui e que devo a ele cinco anos preciosos do início da construção da minha vida adulta.
Vladimir veio em 1978. Valesca veio em 1979. Bernardo já estava a caminho, quando deixei a FIAT em 15 de abril de 1980, com um salário de Cr$88.507,00.
Muito obrigado, Eliseu. Muito obrigado, padrinho.
Até breve.

sábado, 25 de junho de 2011

FIAT IV

Na verdade Felipe era um especialista em trotes. Outro que ele aplicou foi num estagiário recém contratado para apoiar a nossa área. Felipe pediu ao rapaz que fosse ao galpão da mecânica buscar o motor do tecnígrafo (equipamento que substitui o conjunto régua T e esquadros). O tecnígrafo é fixado na prancheta em sua parte superior esquerda podendo movimentar-se por toda a área da prancheta. O menino rodou a fábrica inteira atrás do motor do tecnígrafo. Claro: o tecnígrafo não tem nenhum motor.
Inaugurada a fábrica, estabilizadas as relações, sedimentadas as estruturas a diretoria houve por bem analisar a configuração dos quadros. Em janeiro de 1978 eu fui novamente promovido, agora à Chefe de Serviço com o salário de Cr$28.000,00, portanto quase 28 vezes mais do que aquele da contratação. Mesmo considerando os reajustes coletivos foi até ali uma carreira meteórica. Desconsiderados os auto-elogios à performance do autor deste blog, desnecessários diga-se de passagem, a Fiat proporcionou a milhares de pessoas um desenvolvimento extraordinário. Já em 1978 começaram as substituições de italianos por brasileiros: lembro-me de Bogus, na área Comercial, que por sinal chegou à Diretor da Área. E não foi porque ele era primo do Armando Bogus, aquele ator famoso da Globo na época. Contracenou com Sônia Braga na novela Gabriela, fazendo o papel do turco. Lembro-me ainda de Garzon, esse um engenheiro da porra (estou escrevendo esse blog na varanda de uma pousada em frente da Praia das Conchas em Itacaré, me veio a idéia de usar uma expressão local). Garzon, eu já havia saído da Fiat, chegou também a Diretor Industrial. Praticamente todos os brasileiros tomaram  posições gerenciais. Enfim o projeto de instalar a fábrica com elevado índice de nacionalização inclusive da gestão já em 1978 tornava-se realidade.
Contrataram uma empresa de consultoria internacional para fazer a análise da estrutura inclusive da adequação dos efetivos quantitativa e qualitativamente. Surgiu aqui outro personagem marcante na minha carreira: Marco Pecore. Esse cara foi o responsável por eu adquirir um sonho: vir a ser consultor. Pecore era um sujeito brilhante. Magro, esguio, boa pinta, tinha uma pequena agenda onde anotava principalmente suas viagens. Um dia dei uma folheada e vi: Londres, Paris, New York, Berlin, etc. Ele viajava o mundo inteiro prestando consultoria. Colei nele e só desgrudava quando ele saía da fábrica para ir para o hotel. E o bacana é que o cara também me adotou.
Marco Pecore desnudou a fábrica. Sentávamos juntos à frente dos gerentes das áreas e ele fazia poucas perguntas e, com uma habilidade ímpar, apontava oportunidades de ganhos de produtividade expressivas. Ao longo de todo o ano de 1978 trabalhamos praticamente juntos e mapeamos todas as áreas apontando oportunidades de ajustes de quadros. Além de ampliar meus horizontes conceituais e metodológicos Marco Pecore me ensinou a abordar questões aparentemente complexas de uma forma rigorosamente simples e em bases matemáticas com a adoção do que ele chamava de parâmetros significativos. Todo trabalho pode ser medido através de parâmetros que dão a dimensão da demanda de tempo a ser despendido. Alguém que se interessar um pouco mais à respeito estou disponível para uma sessão de consultoria. Para leitores do blog faço módicos descontos.
É também em 1978 que ocorre um fato histórico para a Fiat brasileira. Durante as negociações para o acordo coletivo, o Diretor Industrial chegou do lado de fora da sala do Dílson e disse com ar de surpresa:
- ‘ Dr. Dílson, a fábrica estar parada!’
Eu estava em reunião com o Dílson e lembro-me que ele olhou para as luminárias e disse:
- ‘Como parada se há energia?’
- ‘Parada e todos os operários estão em frente das máquinas com os braços cruzados. ’
Somente meia-hora depois é que Dílson perguntou: ‘Será uma greve?’ Era. A primeira e pelo que me consta a única greve que a Fiat experimentou até aqui na sua historia. Dalí em diante foram registrados os mais grosseiros erros na administração de um movimento grevista. Fizemos tudo o que manda o melhor manual de como administrar uma greve buscando o desastre. Convocamos a polícia militar, que se apresentou com seus homens montados a cavalos com seus ‘cassetetes família’ roliços de mais de um metro de cumprimento. Eles postaram um ao lado do outro com uma distância de três a quatro metros contornando toda a fábrica. Foram infiltrados agentes do DOPS para identificar as lideranças que se misturavam aos operários.
Sobre isto alguns comentários que ouvimos passada a greve. Um ou outro agente consultara a um operário: ‘E aí, como você acha que vai ser nosso número?’referindo-se ao percentual de reajuste reivindicado. ‘O nosso a gente sabe. O seu a gente não tem a menor idéia e nem quer saber... ’ O problema foi que os agentes infiltrados entraram para dentro da fábrica de sapatos bico fino e fumando cigarro de ponta. Um desastre. Outro fiasco: determinamos que os chefes de equipe, grupo acima de encarregados, tinham que entrar para operarem as máquinas. Terminada a greve mandamos flores para as esposas para agradecer pelo sacrifício da ausência do marido no período. Várias mandaram telegrama, ligaram por telefone, dizendo que já não tinham mais nada com aquele sujeito, aquele safado, etc. Um horror.
Como os policiais guardavam as cercanias da fábrica os operários se aglomeraram no trevo da entrada da BR e ocorreu um atropelamento com vítima fatal de um dos nossos funcionários. Aí foi suficiente para agravar ainda mais a situação.
Passada a greve, terminado o conflito, fizemos uma profunda reflexão sobre todos os acontecimentos. Também aqui agradeço a vida por ter me permitido viver essa experiência.

Até breve.



Prancheta com tecnígrafo.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

FIAT III

O que estava em jogo era quanto tempo que os italianos governariam os processos de gestão tecnológica e administrativa da fábrica. Em todas as posições de supervisão e gerenciamento do organograma reservamos uma destinada a brasileiros. Para cada posição analisávamos com rigor os nossos melhores talentos e havia um programa de treinamento e desenvolvimento extenso e detalhado com várias etapas em fábricas de automóveis na Itália, naturalmente, mas também no Brasil, USA e Alemanha.
Jovem, eu estava fascinado pela experiência e não perdia um instante sequer do desenrolar de todo o processo de construção da estrutura organizacional, na medida em que a mim cabia a descrição, avaliação e definição da remuneração dos cargos mensalistas. Os cargos horistas, todos vinculados à produção, eram descritos e posicionados pela Gerência de Análise do Trabalho a quem cabia também a análise de tempos e movimentos. Ficava apenas a pesquisa de salários para a definição final da matriz dos cargos de horistas.
Chegou a vez de definir o brasileiro que viria a substituir no futuro o gerente da área de Análise de Trabalho. O italiano, vou nomeá-lo aqui como D.D. resistiu enquanto pode, alegando de tudo para inviabilizar o treinamento do seu substituto. Só que o José Geraldo, escolhido para a posição era safo, em todos os sentidos e conseguiu, sobretudo, conviver civilizadamente com D.D..  Fazíamos, eu e José Geraldo, uma parceria perfeita. Sempre o posicionava da evolução da matriz de cargos mensalistas e com ele fomos absorvendo a estrutura de horistas sobre intensos protestos de D.D.. Ocorre que era muito trabalho, a fábrica estava por inaugurar, com a presença do saudoso presidente Geisel, e eu fui ao Eliseu.
Ponderei com o meu guru (Eliseu) que estava por demais e devíamos ampliar nosso quadro de analistas de cargos e assumirmos de vez a análise dos cargos horistas: ‘Você é louco?’ Eu já disse aqui que não era a primeira nem a última vez que me fizeram esta pergunta.  De maneira nenhuma, já acertei com o José Geraldo e ele disse que vê sentido na idéia. ’ Eliseu preocupado, disse: ‘D.D. vai ficar uma arara!’ E eu arrematei: ‘Dane-se o italiano’.
Em janeiro de 1977 fui promovido a Chefe de Seção de Cargos e Salários de Mensalistas e Gestores e um grande cara chamado Roberto assumiu a área de Horistas. Selava-se ali a nossa condição de desenvolver de fato todas as políticas de gestão dos RHs da Fiat Automóveis S.A. o que não aconteceu sem ranger de dentes de D.D. que dificultava ainda nossas ações no que tange aos cargos horistas.
Relatada assim fica extremamente superficial toda a experiência, mas o que eu quero registrar é quanto foi a mim importante cada dia vivido na FIAT para o futuro enquanto executivo e depois enquanto consultor de processos decisórios, estratégia e desenvolvimento de acionistas e executivos. Aquela experiência e a intensidade com a qual eu a vivi foram determinantes na sedimentação de conceitos, modelos e métodos de abordagem que até hoje a mim são caros.
Em uma segunda-feira, quando chegava à minha sala, dois caras com quem eu trabalhava vieram contar sobre o final de semana de uma turma de italianos em um sítio em Contagem. Disseram que rolou de um tudo e que no final da ‘festa’ andaram depredando o jardim, jogaram lixo na piscina, um fuzuê.  Não dei muita importância até que um dos caras, falou: ‘D.D. estava na turma. ’ ‘Hein? Indaguei surpreso. Quando Felipe chegou para trabalhar comentei com ele. ‘Temos aí uma oportunidade... ’ Ele disse, enigmático.
Na terceira-feira fui tomar uma com Eliseu e outros amigos em um bar na Raja Gabaglia.  Dílson, nosso diretor havia sido chamado também e só chegou muito depois de nós.
-‘Ô, Dílson o que aconteceu? Já estamos aqui um tempão... ’, Eliseu reclamou com o chefe.
- ‘Tava administrando o maior rebu na fábrica. D.D. entrou na minha sala, agora no final da tarde, desesperado dizendo que havia recebido uma ligação do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social órgão de repressão da ditadura do governo militar) e que eles iam pegá-lo na fábrica agora à noite... Dar um pau nele, colocá-lo no pau-de-arara... ’
- ‘Quê é isso, Dílson, que loucura é essa?’ Perguntamos quase em uníssono.
- ‘Acionei o coronel X (chefe da segurança da FIAT) e ele me garantiu que não havia nada contra D.D. no Dops.  O D.D. está lá na fábrica ainda, diz que de lá ele só sai para o aeroporto com destino à Itália. Achei estranho que ele me perguntou a respeito de uma festa em um sítio em Contagem. Vocês souberam de alguma coisa a respeito?
Foi aí que eu gelei. Felipe teria aprontado? Foi barra abrandar os ânimos na fábrica depois do episódio. D.D. foi para a Itália. Ficou lá por uns tempos e quando voltou estava uma dama.
Até breve.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

FIAT II

Como técnico de Estatística não me limitei a apresentar os investimentos em mão de obra. Eu interessava-me também pela natureza da evolução da estrutura organizacional e permanentemente acompanhava o desenvolvimento da Área de Análise do Trabalho comandada por italianos. Frequentemente eu ‘sumia’ da minha sala para conversar com os analistas daquela área e pedia que eles me informassem sobre a estrutura organizacional que a FIAT estava por implantar. Sempre coloquei Eliseu a par e ele começou a trabalhar pra que esta atividade fosse também vinculada à Diretoria de Relações Industriais. Paralelamente eu desenhava a minha maneira a estrutura organizacional e ‘montava’ os funcionogramas das áreas. Eu por ter acesso à Folha de Pagamentos dos Empregados para efeito dos levantamentos estatísticos compunha também a distribuição da força de trabalho dentro dos diferentes Centros de Custos. Propus ao Eliseu que poderíamos compor os organogramas de todas as áreas e reivindicar a responsabilidade pelo seu desenvolvimento para a nossa área.
Eu fazia todos os funcionogramas à mão em folhas A3 de papel milimetrado. Embora eu tivesse uma boa letra, a apresentação do trabalho era muito rudimentar longe do padrão de uma FIAT. Propus ao Eliseu que deveríamos contratar um desenhista que produziria os organogramas e funcionogramas em papel vegetal, com canetas e normógrafos usando tinta nanquim. Um dia almoçando eu, Eliseu e Mário, Médico do Trabalho, voltei ao assunto com o Eliseu. Para surpresa minha o Dr. Mário interrompeu minha conversa com o Eliseu e disse: ‘Meu irmão é um puta desenhista... ’ Eu, vendo a chance que se apresentava, pulei na arena: ‘Aí, Eliseu, vamos ajudar um amigo e botar o rapaz na nossa equipe. ’ Eliseu vendo que não tinha como escapar da idéia disse: ‘Chama o rapaz, vou falar com o Dílson. ’ (nosso Diretor de Relações Industriais).
Algumas semanas depois estávamos com uma prancheta, com tecnigrafo, régua, conjunto de normógrafos e o irmão do Dr.Mário, Felipe, devidamente contratado como desenhista. Éramos, eu e Felipe os arquitetos da estrutura organizacional da FIAT Automóveis. Eu os construía e Felipe os desenhava e normografava em papel vegetal. Ficou um trabalho porreta.
Pus na mão do Eliseu que comandou o espetáculo na arena política. Tínhamos o desenvolvimento da estrutura organizacional em nossas mãos. A especificação dos cargos operacionais de fábrica, os horistas, ficou sobre a responsabilidade da área de Análise do Trabalho vinculada à Diretoria Industrial ocupada por italianos e dos cargos mensalistas, administrativos, de níveis superiores e dirigentes ficou sob a Gerência da Área de Pessoal e Salários vinculada à Diretoria de Relações Industriais. Tínhamos conquistado um espaço de poder importante no modelo de gestão da fábrica que se instalava no Brasil.
Felipe era um cara genial. Fazíamos uma dupla de inconseqüentes que levávamos tudo na base da curtição, mas com um profundo gosto pela criação. Tínhamos ambos, a exata dimensão do que estávamos produzindo e os ganhos decorrentes da gestão dos brasileiros no processo.
Em junho de 1976 fui levar a primeira versão do organograma de toda a Diretoria de Relações Industriais como projeto-piloto para a avaliação do Eliseu. Ele analisou o material com cuidado e disse-me: ‘Vamos à diretoria juntos, quero que o Dílson veja isto agora!’
Quando voltávamos para a nossa sala vindo da diretoria, Eliseu pôs a mão no meu ombro e disse: ‘A partir do dia primeiro você assumirá o cargo de Analista de Cargos I’ Assustado ponderei: ‘Mas, Eliseu, eu não tenho nível superior e o cargo de Analista é...’ Eliseu interrompeu-me: ‘Agulhô, você não podia ter sido contratado pela Fiat, já cometemos o erro, vamos agora apenas amplificá-lo...’ Eliseu, na época era o gerente mais respeitado do grupo de dirigentes brasileiros e tinha cacife para bancar a exceção.
Em novembro de 1976 divulgamos o primeiro volume da estrutura organizacional da Fiat assinada pelos diretores das áreas e pelo Superintendente Geral. O documento contemplava a descrição detalhada do escopo de todas as áreas da empresa. A partir daquela data, toda e qualquer alteração na estrutura tinha que ser submetida à análise da Gerência de Pessoal e Salários da Diretoria de Relações Industriais. É impossível de se avaliar hoje a importância política da ação no mapa do poder da governança da organização bi-nacional da época.
Nós tínhamos a força. Fomos eu e Felipe tomar um chope. Aquela data foi motivo de muita comemoração, mas também do início de uma perseguição política por parte do Gerente da Área de Análise do Trabalho, que passou a se referir a mim como o ‘idiotinha de óculos’ e vedar a minha entrada em sua área de atuação.
Ainda naquele mês de novembro de 1976, para surpresa de todos inclusive de mim mesmo, recebi nova promoção, agora para o cargo de Analista de Cargos e Salários II com o salário de Cr$10.912,00, portanto quase dez vezes mais o valor da minha admissão há menos de dois anos de empresa.
Isso não iria ficar assim, sem conseqüências.
Até breve.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

FIAT I

Logo logo eu havia recebido mais atribuições e gradativamente deixava aquelas de menor complexidade. Da área de Movimentação e Registro transferi-me para a área de Folha de Pagamentos. Deixava para o resto da vida atividades como colar retratos em Fichas de Registro, que eu fiz com todo tipo de cola (a última, a mais sofisticada de todas, a cola Prit, a maior inovação do mercado), além de preencher os dados dos empregados na própria Ficha. Se bem que esta atividade me dava um prazer interessante: eu preenchia a Ficha a partir dos dados da Ficha de Inscrição de Candidato onde constavam várias informações da pessoa. Eu sempre li com interesse tentando extrair dali a história de cada uma delas.
Na área de Folha de Pagamentos recebi como incumbência inicial a apuração e relatório de cartões de ponto, o lançamento de dados variáveis na Ficha Financeira do Empregado e o arquivamento de toda a documentação inerente ao processo de pagamento. Estamos em 1975 e tudo era na ‘munheca’. Não havia ainda o CPD-Centro de Processamento de Dados. Logo logo fiquei do lado do Supervisor Márcio que fazia todo o cálculo da Ficha Financeira com máquinas Facit com uma manivela do lado direito e outra do lado esquerdo. O cara era um ás na máquina. Eu achava que precisaria de uma dez anos para chegar ao nível de performance do Márcio. Só que eu tinha que abreviar. Depois do expediente eu ficava rodando aquela manivela até dar calos nos dedos e fazia conta de tudo quanto é tipo. As primeiras contas eram sempre as minhas a pagar, especialmente agora vésperas do meu casamento.
Foram admitidos por mês, na época, cerca de 150/180 empregados o que aumentava muito o número de Fichas Financeiras razão pela qual Márcio conseguiu um auxiliar. Como eu estava sempre à espreita não precisou nem de ir ao Eliseu. Eu era o cara e recebi, novinha, a minha máquina de calcular FACIT. Claro que rolou mais grana na mão do menino. Eu tenho comigo a satisfação histórica de ter calculado, sozinho, a última folha de pagamento de empregados da Fiat Automóveis processada manualmente. Foram mais de 700 empregados. Minha máquina de calcular urrava. Depois disso a Folha de Pagamentos passaria a ser rodada no CPD. Márcio foi transferido para a área de Obrigações Legais e eu fui ao Eliseu.
Márcio foi outro cara super importante na medida em que me permitiu e me fez saber de tudo das atividades inerentes ao setor além de me dar todas as dicas para operar a Facit. Jamais cheguei ao nível de Márcio. Agora me lembro que ele sempre ficava com uma bolinha de borracha na mão fazendo exercícios, passando de uma mão à outra. O cara tinha um aperto de mão de estraçalhar a do cumprimentado. Acho que de tanto rodar manivela da Facit e mais esses exercícios é que tornaram a sua mão direita uma tenaz. Grande cara o Márcio e, da mesma forma, veio a ser também um dos meus padrinhos.
Outro cara com quem aprendi muito da área de Obrigações Legais (direito trabalhista) para onde Márcio foi transferido foi Simão. Ele era o Supervisor da área e eu tinha lido a Ficha de Registro dele com especial atenção.  Sofrida a vida do cara. Depois do expediente ainda na Rua da Bahia saíamos para tomar uma, Márcio, Simão, eu e outros caras. Minha barriga doía de tanto rir dos casos que Simão contava, de um repertório vastíssimo, trazidos da própria vivência ou outros de outros, mas sempre com uma irreverência a toda prova. Em muitos deles eu me percebia: Simão também havia trabalhado como vendedor em uma loja de tecidos na Rua dos Caetés. No primeiro mês de trabalho não conseguiu vender nada, mas ficou observando os outros vendedores que ficavam na porta seqüestrando para dentro da loja os clientes. No segundo mês Simão decidido foi buscar do outro lado da rua potenciais clientes tendo debaixo dos braços peças de tecidos, as mais atraentes. Contou que havia inaugurado o caos na Rua dos Caetés, na medida em que todos os comerciantes passaram a incluir no rol de competências de seus vendedores tal habilidade. Mas Simão era ímpar. Ele morava numa pensão da Lagoinha bem próxima à zona boêmia. Nos finais de semana ele descia a ladeira da pensão com um monte das ‘meninas’ Simão, ô Simão, vem cá meu bem. Ele se achava o máximo. Baixinho, feio de arruinar, mas de uma simpatia gigante que cativava a todos. Não deu outra: entrou para o rol de padrinhos.
Quando entrei na sala de Eliseu ele foi logo dizendo: tenho um novo desafio para você. Sentei-me na cadeira à sua frente e o ouvi atentamente. ‘A Itália quer saber de todos os dados possíveis e impossíveis sobre a mão de obra alocada até agora e aquela que será aplicada na fábrica. Temos que fazer um trabalho baseado neste relatório’. Ele me passou um conjunto de cinco folhas com planilhas e instruções de preenchimento em italiano. E me disse: ‘se vira e me traga sugestões’.
Em 01 de junho de 1975 eu fui promovido para Auxiliar de Estatística com um salário de Cr$1.890,00, em 01 de setembro de 1975 ainda no cargo acima recebi promoção por mérito com um salário de Cr$2.000,00. Eu havia implantado a Estatística Geral de Investimentos em Mão de Obra, edição bilíngüe Português/ Italiano em pastas de capa dura e seções de plástico onde eram colocadas as planilhas mês a mês.
Em 01 de janeiro de 1976, um ano após a admissão eu fui promovido à Técnico de Estatística com um salário de Cr$3.500,00. Eu havia triplicado o meu salário. Ocupei este cargo até outubro de 1976 quando novamente fui chamado à sala do Eliseu.
Ah, aqui é importante dizer. Eu havia me casado em 05 de dezembro de 1975, portanto um mês de diferença a maior do que minha sogra havia estabelecido. Minha Facit ajudara a fazer os cálculos para a nova vida que se iniciava.
Até breve.

http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Calculator_facit_hg.jpg

 


 
  

terça-feira, 21 de junho de 2011

FIAT

Eu havia ficado noivo em 07 de novembro de 1974. Minha sogra, amável como sempre, determinou que ‘noivado na minha casa no máximo um ano’. Nessa época eu estava ainda na construtora do alojamento a beira da estrada de ferro. Não cheguei a colar a minha foto e nem preencher os dados da minha Ficha de Registro. Não completei sequer um mês em Lafaiete.
Fui admitido na Fiat Automóveis no dia 16 de janeiro de 1975 no cargo de Auxiliar de Pessoal com o salário de Cr$1.150,00 (hum mil, cento e cinqüenta cruzeiros) com o número de registro 00360. Quando saí da empresa do Éder em março de 1974, meu salário era de Cr$630,00 (seiscentos e trinta cruzeiros), portanto uma diferença considerável de 82,54%.
Quando fui admitido a Fiat já havia se instalado ocupando todo um prédio na Rua da Bahia, centro da cidade. Eu tinha 22 anos de idade, duas camisas ‘volta ao mundo’ (must da época), duas gravatas, duas calças de tergal e um par de sapatos pretos. Ninguém podia estar mais feliz. Duraram quinze dias.
Numa segunda-feira cedo fui ao meu Gerente, Eliseu, dizendo que eu queria minha demissão. Disse-lhe que eu havia apostado todas as minhas fichas naquela oportunidade e que eu não estava ali para colar fotos e preencher os dados de empregados na Ficha de Registro, que eu podia e queria mais responsabilidade e complexidade de tarefas. Eliseu, na época, era um cara bem forte e usava um penteado com parte da franja jogada na testa. Ele estava sentado na poltrona atrás de sua mesa e eu de pé à sua frente. Depois que eu coloquei prá ele minha intenção de sair, ele passou as duas mãos na sua franja jogando-a para trás. Ao longo de nossa convivência adiante ele fez isso poucas vezes, sempre quando estava muito puto.
-‘Que asneira é essa, Agulhô? Onde você está com a cabeça? Você está me dizendo que quer sair depois de duas semanas da maior oportunidade da sua vida? Você é louco?’ (Não era a primeira vez e nem a última que eu ouviria essa pergunta).
-‘Eu sei da minha capacidade e não estou disposto a ficar marcando passo... ’
-‘Mas você acabou de entrar, nem esquentou sua cadeira, já quer mais?’
- ‘Sim, eu quero mais porque posso mais’...
- ‘Você têm idéia do que pode estar perdendo? Da carreira promissora que pode vir a ter na FIAT? Você viu os filmes do treinamento introdutório, você viu a empresa na qual está trabalhando, seu imbecil? Eliseu passou pela segunda vez as mãos na franja, levantou-se da poltrona e veio prá cima de mim.
- ‘Vi e sei que podem ocorrer perdas de ambas as partes... ’ Eu não podia ser mais arrogante.
- ‘Heim??? Essa hora achei que ele ia me dar uma pancada (para não usar outra palavra). Fosse eu o gerente, dava.
Eliseu fechou a porta, voltou a sentar-se na poltrona e me contou o processo que conduziu para viabilizar a minha contratação. Disse que eu fui considerado inapto nos testes psicotécnicos e que a avaliação psicológica apontou que eu não iria adiante com o meu trabalho. Disse-me que ele havia ‘bancado’ a contratação junto com o Aloizio na medida em que eles queriam jovens com potencial, inteligência e determinação. Que ele correria o risco e assumiria as conseqüências pela contratação. Ele era Gerente de Pessoal e Salários e teve que ‘peitar’ seus pares na estrutura e também nosso Diretor de Relações Industriais que ponderou com ele que ‘nós que construímos as normas de RH e não podemos dar mau exemplo para as demais áreas.  Que ele ainda assim enfrentaria o risco na medida em que via em mim um grande talento. Disse por fim que se eu fosse em frente com a minha decisão ele provavelmente seria colocado em questão podendo até ser demitido (aqui eu achei que ele exagerou).
- ‘Volto às minhas Fichas de Registro e faço em benefício de sua permanência nessa grande empresa, mas logo logo você me dará novas oportunidades... Eu disse, tirando do bolso da calça minha aliança de noivado e colocando-a no dedo da mão direita. Depois que fiquei noivo quando fui à Fiat para as entrevistas finais e até aquele dia eu tirava a minha aliança e a colocava no bolso. Temia que o fato de estar noivo prejudicasse a minha contratação.
- Aproveito para lhe comunicar que eu estou noivo desde novembro do ano passado e pretendo casar no final deste ano.
Eliseu levantou-se novamente da poltrona, veio ao meu encontro e disse-me:
- ‘ Parabéns, Agulhô... Mas tenha paciência aqui que você terá um belo futuro... ’
Entrava ali para a galeria de pessoas cruciais da minha vida um grande sujeito, profissional, líder e mais um padrinho de casamento.

Até breve.

domingo, 19 de junho de 2011

CARREIRA VI

O ano letivo de 1974 estava encerrando. Eu e Dennis nos encontramos na Fafich e tivemos uma conversa. Ele defendeu a tese de que a poesia é inútil, que viver de letras ou música é impossível, que ele estava passando fome. Faltava dinheiro para tudo. Ele abandonaria a faculdade e ia cair no mundo para ganhar a vida. Eu tentei persuadi-lo a seguir, argumentando que ‘dinheiro pinta’.
Dennis e Barreto e outros tantos amigos seguiram a faculdade. Dennis foi ser tradutor e interprete numa grande empresa siderúrgica e Barreto redator numa agência de publicidade. Faziam seus cursos à noite na mesma Fafich. Seguiram também fazendo suas poesias, suas músicas e seus contos. Não são, pelos menos ainda, celebridades.
De fato, analisando friamente, minha situação era bem pior do que a de ambos. Em outubro daquele mesmo ano voltei aos pequenos anúncios do caderno de empregos. Cortei os cabelos como toda pessoa normal e fiz a barba. Interessei-me por uma vaga. Quando cheguei ao local para as inscrições havia uma imensa fila. O anúncio era fechado, não apresentava a empresa para qual era a demanda. Perguntei ao rapaz que estava imediatamente a minha frente e ao outro ainda e nenhum dos dois sabia. ‘Guardem o meu lugar que eu vou procurar saber, disse ao rapaz logo atrás na fila. Era uma casa na Rua Santa Catarina, no Bairro de Lourdes. Fui pedindo licença a um e a outro até chegar a uma das recepcionistas. ‘Vim para candidatar-me à vaga de auxiliar de pessoal e gostaria de saber qual a empresa que está recrutando... ’ A jovem, muito simpática, disse: ‘Você deve entrar na fila... ’ ‘Sim, eu já estou lá atrás na fila, mas eu gostaria de saber qual a empresa que... ’ ‘Fiat Automóveis’, ela disse.
Sem chances de bilhete, voltei para o meu lugar na fila e esperei duas horas e meia até chegar a minha vez de ser atendido. Preenchi a Ficha de Inscrição, aguardei mais uma meia-hora e fui chamado por um rapaz alto e simpático que gostaria muito de saber sobre a minha vida. Por duas vezes a supervisora do cara entrou na sala repreendendo-o pela altura das suas gargalhadas. O cara chegou a chorar de rir com minhas histórias, algumas construídas ali mesmo na medida em que o entrevistador se interessava por um tema. Grande Aloizio. Ele encaminhou-me para exames psicológicos. Tremi.
No dia seguinte voltei a casa na Rua Santa Catarina e enfrentei nova fila. Quando chegou a minha vez uma jovem, também alta, com um olhar inquisidor recebeu-me, disse que se chamava Etur e que eu passaria a partir dali por uma bateria de testes psicotécnicos e psicológicos. Duas horas e meia depois deixei a sala de testes torrando os cabeçotes. Etur agradeceu a minha participação até ali e disse que eu receberia um telefonema caso eu fosse continuar no processo. Não dormi e nem me alimentei direito no período que transcorreu entre o momento que eu saí dali até o momento que o telefone tocou e eu corri para atender: ‘é prá mim!’, gritei para meus irmãos presentes na sala onde ficava o aparelho. ‘José Lopes? Aqui é (não me lembro), gostaria de marcar uma entrevista com a Dra. Etur contigo, é possível? Aqui entre nós, tem cada pergunta que dá vontade de responder mais ou menos assim: NÃO SUA ANTA! A MINHA VIDA ESTÁ MARAVILHOSA E EU NÃO QUERO SABER DE NENHUMA FIAT. E desligar o telefone na cara da fulana. ‘Claro, com o maior interesse, é só marcarmos o dia e a hora que eu estarei presente, obrigado. ’
Etur, uma mulher sisuda, séria com um olhar inquisidor, vasculhou a minha vida de cabo a rabo.  Relações familiares, empregos anteriores, atividades realizadas, preferências de lazer, medos, interesses, projetos futuros e se eu pretendia continuar estudando Letras. Ela não sorriu uma vez sequer e eu fui o sujeito mais sério que alguém pode parecer ser. Antes de a entrevista terminar entrou uma jovem na sala dizendo que o Eliseu estava por acaso na casa e que gostaria de aproveitar e entrevistar os candidatos à vaga de auxiliar de pessoal.  Terminada a entrevista, Etur levantou-se da cadeira estendeu a mão para despedir-se e disse: ‘O processo encerra aqui. Aguarde em casa o resultado da avaliação. ’
Quando saí da sala fui direto ao encontro da jovem que havia entrado na sala de entrevistas. ‘Eu sou um dos candidatos à vaga de auxiliar de pessoal, você disse que o Coliseu está aqui para fazer entrevistas... ’ ‘É Eliseu... ’ ‘Oh, me desculpe, é isso Eliseu... ’ Ela, então, levou-me ao encontro de Eliseu, o gerente da área.
Passaram-se duas semanas depois da entrevista com o Eliseu. Todo dia pela manhã eu corria a caixa de correio para saber se havia correspondência, um telegrama talvez. Nada. Em paralelo minha vida afetiva seguia um curso de definição. Havia decidido me casar. Voltei então aos pequenos anúncios do caderno de empregos. Auxiliar de Pessoal para uma empresa construtora com obra em Lafaiete. Uma semana depois eu estava empregado.
O alojamento era ao lado de uma estrada de ferro. Eu não sabia deste pequeno detalhe, porque havia chegado lá após o primeiro dia de trabalho já no final da tarde. Por volta das duas horas da madrugada, eu dormia pesadamente quando senti a minha cama tremer de levantar do chão. Pulei desorientado. Dormiam no mesmo quarto outros três empregados da construtora que deram gargalhadas. Eu gritava que era um terremoto e que a casa ia cair. Cinco e meia da manhã um caminhão, com a carroceria coberta por lona, parava na porta do alojamento. Os empregados mais graduados entravam na boleia e os outros iam atrás, na carroceria. Como a estrada era de terra até a obra era difícil manter-se assentado nos bancos de madeira.
No primeiro dia de trabalho recebi um pacote de retratos ¾ dos empregados contratados e que deveriam ter suas fichas de registro preenchidas à máquina e fixados os seus retratos no espaço destinado. Era uns duzentos, o que me aplicaria durante pelo menos a primeira semana de trabalho. Os nomes foram colocados no verso dos retratos, coloquei a ficha de registro em ordem alfabética e colei os retratos obedecendo a essa ordem. Na sexta-feira, no final da tarde, procurei uma carona para voltar para casa em Belo Horizonte.
Vim com um dos engenheiros da obra pilotando, literalmente PILOTANDO, uma camionete. O cara veio a 180/200 por hora de lá até aqui. Fiquei com as pernas doendo de tanto pressionar o piso da camionete. Quando nós chegamos na Av. Nossa Senhora do Carmo (na época era ainda santa) o cara falou: ‘Mais uma vez vivo! Quer vir comigo na segunda?’Ao que eu prontamente respondi: ‘Não, muito obrigado, não quero te dar este trabalho’. Ainda bem que ele não insistiu. Quando desci da camionete,  pus os pés no chão e despedi-me do engenheiro tive a nítida sensação que eu havia nascido de novo. Alguns meses depois vi o retrato dele no jornal abaixo de uma manchete: ENGENHEIRO MORRE EM ACIDENTE.  
Na segunda-feira, bem cedo, quando saía disse a minha mãe: ‘Se alguém me ligar da FIAT a senhora, por favor, peça uma das meninas para ligar prá construtora em Belo Horizonte que eles comunicam comigo através de rádio... Agora, é muito importante que as meninas digam que a senhora está muito mal e que gostaria que eu estivesse aqui... ’ Minha mãe, apesar de não entender muito bem as razões, concordou e eu fui para Lafaiete. Eu não havia datilografado ainda minha Ficha de Registro e nem colado a minha foto ¾. Tinha esperanças ainda, mas se não fosse chamado pela FIAT minha idéia era seguir na construtora.
Na quarta-feira, pouco antes do almoço entrou um rapaz na minha sala com o rádio na mão avisando que acabara de receber a informação de que minha mãe estava num hospital muito mal e que era para eu ir imediatamente para Belo Horizonte. Voltei com todos os retratos espalhados pela mesa para dentro de um saco e com as fichas de registro para dentro do arquivo. Tratei imediatamente de conseguir transporte para Belo Horizonte.
Foi minha mãe que me recebeu no portão de casa. Ela estava radiante de alegria, abraçou-me efusivamente.
Até breve.  

sábado, 18 de junho de 2011

MOACIR

Não era o que eu havia planejado, ter dois posts no mesmo dia, mas hoje excepcionalmente quero quebrar esse propósito. Seria injusto se não dedicasse uma página ao PROFESSOR Moacir Laterza, e quero fazê-lo próximo a ‘Renascimento’.  Moacir é o responsável pela minha paixão pela arte, pela filosofia e pela irreverência. Moacir é o Humor em mim. Se continuar escrevendo ele voltará ainda algumas vezes em minhas histórias.
A primeira passagem aqui com Laterza diz respeito ao post anterior. Em uma de suas magníficas aulas ou ‘viagens’ no curso História da Arte sobre a obra de Pablo Picasso, especificamente sobre a ‘Cabeça de Touro’, ele contou como que o gênio concebeu a obra. Certa vez Picasso andava de carro e viu uma bicicleta velha jogada em um terreno baldio. Pediu ao seu motorista que parasse o carro, pegasse a bicicleta e a colocasse dentro do porta-malas. Essa bicicleta ficou tempos no seu atelier, até que um dia ele a desmontou e foi produzindo diferentes peças até chegar à cabeça de touro. Dependurou a peça na parede do atelier e ali ela ficou durante tempos. Um belo dia chamou o motorista e pediu que jogasse fora a cabeça de touro, mas que ele, o motorista, deveria acompanhar o destino da peça. Algum tempo depois, Picasso teria interpelado o motorista: ‘Então, o que foi feito da cabeça de touro?’ Ao que o motorista respondeu: ‘Pablo, esqueci de comentar contigo. Não é que passou um operário, chutou a cabeça de touro, pegou-a mais adiante e eu o ouvi dizer: não é que essa cabeça de touro dá um belo assento e um guidão para a minha bicicleta?’ Lembro-me de ter perguntado ao Laterza: ‘Professor, então a obra foi perdida?’ O mestre respondeu: ‘Agulhô, vai à merda!”
É também de Laterza a história de que Picasso fazia as suas primeiras exposições da Guernica, tela em que o gênio retrata a Guerra Civil Espanhola, que também tive o privilégio de visitar no Museu Reina Sofia de Madri. Contou Laterza que Picasso estava em frente à sua obra e chegou por trás dele um general e o indagou apontando para a tela: ‘Foi o senhor que fez isso?’ Picasso voltou-se para o general, olhou fixamente nos olhos do militar e disse: ‘Não, foi o senhor.’
Outra história, por hoje: Moacir passeava com sua esposa - ela dirigia o carro – quando abruptamente outro carro passou à frente deles. Era a popular ‘fechada’. Moacir tomou um susto e ficou indignado com aquilo. Aconteceu que, mais à frente, os dois carros ficaram lado a lado em um sinal de trânsito. A esposa, revoltada, cutucou o marido: ‘Você não vai fazer nada não?’ Moacir abaixou os vidros da porta do carro, pôs a cabeça prá fora e bradou ao motorista infrator: ‘MORFÉTICO!’
São por estas e por outras que a Filosofia é considerada um bem inútil.
Até breve.

RENASCIMENTO

Nos dois anos anteriores (1972 e 1973), inclusive no ano em que servi o exército tentei vestibular para medicina. Em 1974 capitulei e fiz Letras. Passei em um dos últimos lugares e matriculei-me na Fafich da UFMG: Português, Inglês, Grego e Latim. Adivinha se eu compareci às aulas. Errou. Frequentei algumas cadeiras dos cursos de Filosofia, de Sociologia e de Ciências Políticas e, na Faculdade de Letras as aulas de uma professora, de novo, PROFESSORA de Literatura Brasileira. A mulher arrancava dos textos uma viagem fascinante. Eu seria capaz de assistir toda aula dela sem respirar, com os olhos fixos nela, os ouvidos hiper aguçados e o coração aos saltos. Depois da aula eu a ‘alugava’, literalmente.
Em março de 1974 pedi demissão ao Eder, enfiei-me num macacão jeans, camiseta branca e sandálias de dedo com solado de pneu. Passava o dia inteiro e parte da noite no prédio da Fafich, pulando de sala em sala. Fiz minha própria grade de conteúdos, me lixava para quantos créditos em tinha que ter para isso ou para aquilo. Eu estava preso noutro propósito que não era nem passar de ano e nem passar pela escola. Meu propósito era tirar o melhor daquela experiência.
Entrei pro DA, fiz tudo o que tive direito e o que também na época não era tão direito assim. Escrevi artigos para o jornal do DA, GOL A GOL SE PEGÁ COM O PÉ É DIBRA. Lembro-me que tive que brigar com os colegas para permitirem a publicação de um dos meus artigos no qual eu caí de pau, com as minhas melhores metáforas, prá cima de um professor de Grego, informante do DOPS. Debito a ele, não posso afirmar, a denúncia de uma série de alunos da escola na época, um em especial, desaparecido para sempre da carteira vizinha à minha no curso de Ciências Políticas.
Nas minhas peregrinações de curso caí no de História das Artes com o PROFESSOR, de novo, PROFESSOR MOACIR LATERZA. Dentro do curso: PICASSO. Minha alma espanhola, herança da avó Manoela Agullò Durà, emergia com uma latência dilacerante. Uma das obras me fascinou: a cabeça de touro. Pablo Picasso pegou um guidão e um assento de bicicleta e os juntou formando uma cabeça de touro. O guidão e o assento em si mesmos não são uma obra de arte. E nem o ato de juntá-los desta forma necessita de uma grande perícia técnica. Mas o resultado mostra uma incrível genialidade. O guidão e o assento sempre estiveram aí, ao alcance de todos nós, mas só Picasso viu essa associação. Picasso criou, e a arte está diretamente ligada ao ato de criação. A criação ocorreu de uma forma muito simples, com objetos absolutamente triviais, restos de uma velha bicicleta, mas “A Cabeça de Touro” é inegavelmente Arte.
Há alguns anos atrás estive no Museu de Picasso em Paris e renovei em parte aquela vivência. Vi com os meus próprios olhos as gravuras, esculturas urdidas com pedaços de parafusos, torneiras velhas, enxadas que deram contornos a objetos sobre os quais, no curso com Laterza debruçávamos horas para interpretar o gênio. E uma, em especial, me levou às lágrimas: a cabeça de touro, feita com um assento e um guidão de bicicleta. Agradeço de joelhos à vida por isto.
1974 foi um ano ímpar. Eu ia mudar o mundo! Tinha amigos extraordinariamente brilhantes. Sabiam e procuravam saber de tudo que rolava de melhor nas artes, na filosofia, na música.  Nem o futebol, minha paixão incondicional, era melhor. Andávamos sempre aos bandos, nas salas de aulas, nos shows do DA, nos pátios da faculdade, na volta à pé para casa. E rola papo cabeça, e rola trama e revolução. Nós íamos mudar o Humano. Dois amigos ficarão para sempre na memória dessa época. Dennis, músico e poeta e Barreto, escritor.
Destaco, também, do período na Fafich o meu envolvimento com a encenação da peça ‘La Vida es sueño’ de Pedro Calderon de la Barca. O texto reside na abordagem da liberdade como algo tão precioso para a vida humana que, sendo o homem privado ele sofre mutações, perde o controle sobre sua consciência e deixa o instinto agir em seu lugar. Aponta a transformação do Homem para o animal, o homem dominado pela besta, ou melhor, o instinto. Fiz parte da direção e atuei no papel principal: Sigismundo, alma reprimida, muito pensativo, triste por seu longo cativeiro.
Vida breve e intensa nesse período de um ano vivido dentro da Fafich da Rua Carangola no Bairro Santo Antônio. Sempre que passo por lá sinto um gostoso aperto no coração, fazendo-me lembrar que a minha juventude não foi perdida. Aquele lugar me foi um templo.
No final daquele ano voltei para casa em certa noite. Já no meu quarto, sentei na minha cama me preparando para dormir, mas como sempre fazia, puxei uma maleta (que ficava debaixo da minha cama) onde guardava parte dos meus escritos (os mais recentes) e a abri. Tomei um susto. Ela estava totalmente vazia. Meu irmão que dormia na parte de cima da cama beliche vendo que eu os procurava, disse: ‘Mamãe queimou tudo... Teve uns caras estranhos aí ontem te procurando, ela ficou com medo, queimou tudo hoje. ’ Abri a parte de cima do armário em frente a nossa cama e encontrei minha outra mala, que eu também escondia, onde eu guardava outros tantos trabalhos e escritos.
Aquilo eu pude entender.
Só lamento hoje não poder lembrar um trecho sequer do texto repleto de metáforas (para camuflar)que escrevi para o jornalzinho do DA destilando minha indignação com um determinado professor, melhor, professor de Grego.
Até breve.


sexta-feira, 17 de junho de 2011

CARREIRA V

Retornando do Mato Grosso tratei imediatamente de procurar ‘nova colocação’. Comprava diariamente o jornal para ver se nos pequenos anúncios do caderno de empregos traziam algo em que eu pudesse me aplicar. Interessei-me por um de Auxiliar de Escritório em uma empresa de produtos químicos com sede em São Paulo, embora logo que terminei de ler o anúncio tenha ficado preocupado. Era no mesmo prédio do contrabandista de jóias e relógios. Teria ele mudado de ramo? Quanto pesa a mala de produtos químicos? Meu patrão seria polonês? Pensei em telefonar para o meu tio e perguntá-lo se meu antigo patrão estava precisando de secretário. Limpei minhas fantasias e fui para o centro da cidade.
Tomei o elevador do prédio do endereço do anúncio. Quando a porta se abriu no andar do escritório vi um grande grupo de jovens em fila nos corredores. Fiquei parado dentro do elevador, o ascensorista fechou a porta e seguiu deixando passageiros até o último andar. ‘Você não vai descer?’ perguntou-me. Eu respondi: ‘Fico no térreo. ’
Já na rua, eu estava retornando para casa, quando: ‘Caramba, eu não posso desistir assim. Eu tenho que tentar, apesar de já ter muito candidato na minha frente. ’Resolvi voltar. No elevador o ascensorista resmungou alguma coisa como: ‘Aqui não é lugar para passear... ’ Deve ter ficado surpreso quando eu desci no andar solicitado.
Fui para o último lugar da fila. A fila andava lentamente. Uma única pessoa fazia as entrevistas. Toda vez que o elevador parava no andar desciam dois, três outros candidatos. Pensei em ir embora. Minhas chances diminuíam a cada vez que o elevador parava no andar. Ocorreu-me então uma idéia ousada.
Pedi uma caneta emprestada a um dos candidatos que seguia à minha frente, peguei um maço vazio de cigarros que estava jogado num cesto colocado no piso do corredor, e estiquei a folha de papel a ponto de ele servir à um bilhete que redigi. Fui até a secretária da pessoa que estava fazendo as entrevistas e pedi a ela que entregasse o bilhete ao entrevistador. Minhas pernas tremiam e quando a jovem me perguntou se eu era candidato à vaga disse que sim e: ‘por favor, querida, é muito importante que você faça isto por mim’. A jovem relutou um pouco, mas depois entrou e fechou a porta onde ocorriam as entrevistas.
Voltei para o meu lugar na fila, embora os rapazes que estavam atrás de mim queriam que eu fosse para o último lugar. Para minha surpresa, de repente apareceu a secretária no corredor como procurando por alguém: era eu quem ela estava procurando. Ela veio até a mim e disse: ‘volte às cinco horas. ’ Desci como um bólido as escadarias dos onze andares do edifício experimentando um misto de satisfação e dúvida. O que significava: volte às cinco horas?
Cheguei às 16h30min no edifício e tomei o elevador às 16h45min para o 11º andar. Quando o elevador passou pelo 5º andar disse ao ascensorista que eu havia me enganado e que eu ficaria mesmo era no 10º andar. Desci no 10º andar e fui até as escadas, minha intenção era verificar se ainda havia fila e se parte dos candidatos da parte da manhã ainda estavam lá. Temia tomar uma surra.
Não havia ninguém no corredor e nem na ante-sala do escritório onde estava tranqüila a jovem secretária. ‘Ah, é você... Aguarde um minuto que eu vou anunciá-lo ao Eder. ’ Disse-me a jovem com um sorriso nos lábios. Quando entrei na sala deparei-me com um sujeito de olhos verdes imensos, de camisa e gravata, boa pinta e super agradável. ‘Então você é o esperto do bilhete?’, disse dando tapas nos meus ombros. ‘Sente-se ai, disse apontando para uma poltrona em frente a sua mesa repleta de papéis. ‘Por que você escreveu o bilhete? Perguntou colocando as pernas sobre a mesa e inclinando-se na sua poltrona giratória. ‘Por que eu sou a pessoa que o senhor está precisando. ’ Respondi convicto. ‘E por que você acha que é você quem eu estou precisando?’ Perguntou acendendo um cigarro. ‘Porque eu estou precisando mais do emprego do que o senhor de mim, então vou fazer tudo para acertar. ’ Eder deu uma gargalhada, tirou os pés de cima da mesa, levantou-se da cadeira, veio ao meu encontro, pegou a minha mão direita e me puxou dando um forte abraço. ‘Zé Lopes, o emprego é seu! Pode começar amanhã?
Grande Eder Gagliardi, dois anos mais tarde eu já havia me demitido do escritório, ele veio a ser meu padrinho de casamento. Grande pessoa e líder. Aprendi muito com ele. No meu casamento ele me disse que iria guardar o meu bilhete de lembrança por toda a sua vida.
No bilhete eu havia escrito: NÃO ADMITA NINGUÉM ANTES DE ME CONHECER.
No próximo post relato um dos anos mais significativos da minha vida.

Até breve.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

CARREIRA IV

No ano seguinte ao serviço militar a crise era mais aguda. Em casa fervilhava de problemas de toda sorte. Decidi ir para o mais longe que eu pudesse. Fui parar, em janeiro de 1973, em Alto Garças, Mato Grosso, como auxiliar administrativo de uma empresa construtora de estradas.
Morei numa casa que havia sido a sede de uma fazenda desapropriada para construção da obra. Nomeamos como Baú dos Anjos. Éramos entre dez e quinze, pois flutuava muito a permanência. Engenheiros e pessoal da administração da obra. Grandes caras, aqueles. Estávamos no meio do nada e fizemos uma grande amizade. Lembro-me do Sr. Elias, topógrafo, sábio, que havia sido abandonado pela mulher e resolveu viver rodando as estradas, como diziam os trabalhadores da obra: ‘fervendo o trecho’. Para se ter uma idéia do local: o vizinho da república, de uma chácara aberta, veio um dia reclamar conosco que as galinhas estavam sumindo, se nós estávamos por acaso dando cabo delas. Embora fosse uma boa idéia, não éramos nós os larápios. Para mim, especialmente, seria uma tremenda regressão: de mula de contrabandista de jóias e relógios para ladrão de galinhas, era por demais. Uma noite, Luiz Carlos, um dos engenheiros da obra acordou todo mundo dizendo que estava ouvindo um barulho estranho fora da casa. Pegamos pau de vassoura, facas e outras ‘armas’ e saímos todos com lanternas. Depois de algum tempo vimos algo dando saltos e estava dentro de um plástico. Era uma jibóia de quase três metros de cumprimento. O sacana do Luiz Carlos tinha capturado dias atrás a víbora e a escondido dentro de um saco plástico em um caixote atrás da nossa casa. Teria sido ela a ladra de galinhas? Demos de presente ao vizinho e nos fartamos de sopa de jibóia preparada pela esposa do sujeito que de quando em vez levava também galinhas em diferentes cardápios. Essa foi a parte boa da permanência em Alto Garças.
A mim cabia a administração da obra. Pessoal, compras, serviços gerais de alimentação, transporte de pessoal, segurança patrimonial. Trabalho bravo de campo, convívio com todo tipo de pessoas, de diferentes regiões do país, de toda índole, com uma rotatividade alucinante. Havia casos de ‘fichar’ o sujeito num dia pela manhã e no final da tarde: ‘eu quero ir embora’. Principalmente aqueles enviados para a pedreira, ficavam o dia inteiro quebrando pedras com um malho de dezoito quilos. Era de doer.
No sábado, dia de pagamento, nos preparávamos para todo tipo de problema a partir das quatro horas da tarde. A turma ia para cidade e acontecia de tudo. E cabiam a mim as providências. No domingo, foram vários, eu ficava ainda na cidade por horas cuidando dos desdobramentos do sábado. Gente ferida, presa, alcoolizada, desaparecida, o diabo. Para casos mais graves, como de assassinatos, vinha um juiz de Rondonópolis. Ele ouvia meia dúzia de testemunhas, fazia uma pesquisa superficial sobre a vida pregressa do réu e determinava a sentença. Alguns eram transferidos para a cidade de origem, outros ficavam na região mesmo, jogados no precipício de uma serra, a Serra da Petrovina.
Eu estive lá, não para assistir execuções, mas à passeio. Maravilhoso lugar. No final da tarde estando no topo da serra era comum a neblina abaixar e tomar conta de todo o despenhadeiro e a gente tinha a impressão que, se dessemos alguns passos, entraríamos no céu.
No dia 04 de junho de 1973, apresentei minha carta de demissão ao engenheiro chefe da obra. Eu estava com os nervos em frangalhos. Na semana anterior à minha demissão aconteceram três episódios que, somados a tantos outros, esgotaram a minha tolerância. O primeiro: eu estava em minha sala quando chegou à janela um senhor e colocou sobre o parapeito uma das mãos enrolada numa camiseta ensangüentada e me disse: ‘Seu José, eu perdi o dedo’. Ele era operador de trator e para fazer o descanso regular de trabalho ia sair da máquina. Jogou-se de cima dela deixando a mão para trás, quando a aliança no dedo da mão esquerda prendeu-se em um dos comandos da máquina e decepou-lhe o dedo.
O segundo episódio: pelo rádio recebi a comunicação de que havia acontecido um acidente em um dos trechos da obra. Um caminhão carregado de pedras havia caído dentro de um riacho de águas rasas. Quando cheguei lá, máquinas estavam tirando os imensos blocos de pedras que destruíram a cabine do caminhão. O motorista e dois operários que estavam na cabine na hora do acidente viraram uma massa única de carne triturada e dois outros que vinham no baú de cargas ficaram soterrados por pedras dentro do rio.
O terceiro episódio: em um dos trechos da obra um grupo de operários estava reunido após o almoço. Eu estava lá e vi um fotografo tirando fotos da turma. Em dado momento, muito próximo de mim, ouço o rapaz gritar, viro-me para ele e vejo o seu desespero. À nossa frente um trator de esteira deu uma brusca marcha a ré e lançou um operário debaixo da esteira. Gritei para o operador que imediatamente puxou a máquina à frente. Corri para próximo, vi o corpo do operário em convulsão e, de uma grande fenda aberta em seu pescoço, saíram pedaços que me atingiram. Fiquei com a roupa com fragmentos de carne e sangue e desabei num pranto nervoso e interminável.
Podia ter poupado a mim e a vocês destes relatos. Perdoem-me.

Até breve.
Na foto:
Acima: Luiz Carlos, Sérgio e José Carlos
Abaixo: Eli, Walmir e eu