segunda-feira, 11 de novembro de 2019

LAVANDERIA





“O homem não é tão ferido pelo que acontece, e sim por sua opinião sobre o que acontece.”
Michel de Montaigne


Ingressei-me no processo formal de produção capitalista no ano de 1967, então com 15 anos de idade, quando tive a minha Carteira de Trabalho assinada pela primeira vez.

Antes disso, operei na informalidade, vendendo bolinho de feijão de porta em porta, distribui panfletos de propaganda, fiz faxina em lojas comerciais, fui balconista.

Não se assustem com a foto acima na CT. Sou eu mesmo, em versão clicada por aqueles fotógrafos lambe-lambe do Parque Municipal de BH.

Desde sempre tenho me empenhado em dar o melhor de mim para a maximização de resultados, fruto de meu trabalho. Recebi até aqui, como recompensa, em boa medida.

Entre 1967 e 1992, ascendi na carreira profissional, passando por organizações de grande porte dos setores têxtil, químico, minerador, siderúrgico, automobilístico, alimentício e financeiro.

Ao longo daqueles 25 anos, boa parte deles, estive a frente de negociações trabalhistas enquanto representante do campo patronal. Também rodei o país participando de mesas de debates, palestrante, conferencista em inúmeros eventos que problematizavam o trabalho dentro da economia capitalista.

Participei ainda de inúmeros cursos, congressos, simpósios, visitas técnicas, inclusive na Universidade do Trabalhador cujo patrono era o extraordinário educador Paulo Freire, com quem estive um par de horas debatendo em Cajamar. Nada melhor do que poder respeitar os opositores de nossas ideias que, até por isto, nos fortalecem e iluminam nossas convicções.

Nunca tive dúvidas daquilo que representava: o capitalismo em sua vertente mais potente – a geração de riqueza para todos nele aplicados.

Tenho lembrança do respeito e admiração por parte de todos com quem me relacionei: líderes sindicais de expressão nacional, os quais, mesmo em tempos das mais agudas crises negociais, sabiam que eu defendia que entre a tese (maiores lucros) e a antítese (maiores salários) buscávamos a melhor síntese.

Tenho isto como expressivo patrimônio pessoal: ter sido executivo defensor do melhor modelo capitalista. Pude contribuir para que organizações e seus colaboradores expandissem suas riquezas.

Em 1993 instalei minha empresa de consultoria. No mesmo ano fui convidado a dar aulas pela Fundação Dom Cabral, pelo IBMEC e pela FGV. Convivi com dezenas de milhares de executivos juniores, plenos, seniores e masters em programas de formulação estratégica e desenvolvimento de liderança de alta performance.

Essa oportunidade é outra riqueza de valor incomensurável contabilizada no meu patrimônio: pessoas com as quais pude, enquanto supostamente eu “dava aulas”, aprender mais do que todos.

Fui me afastando da cátedra na medida em que a consultoria roubava das salas de aulas, minhas horas de aplicação. A partir do início dos anos 2000 até hoje tenho me dedicado exclusivamente a prática consultiva e atuado em Conselhos de alguns grupos empresariais.

Às vezes lamento por não trazer aqui no blog experiências (e não são poucas) de sucesso na condução de projetos estratégicos. Não o faço por acreditar que apenas aos meus clientes pertence o protagonismo, pertence a eles o sucesso e, afinal, me pagaram por isto.

Essa longa introdução foi para dizer que, embora não goste de rótulos, pelas circunstâncias abro uma exceção e me autonomeio como capitalista.

E por que o faço? Para me distinguir e junto com todos aqueles que comigo se assemelham. Aqueles que diuturnamente, durante toda a vida, fizeram do trabalho o seu único meio para a geração de riqueza para si e para tantos que dela se beneficiaram.

Para me distinguir daqueles que, embora combatam o capitalismo com pseudodiscursos ideológicos amplamente distorcidos (a boa maioria deles nunca debruçaram sobre Marx, Engels e etc) desenvolveram uma práxis empresarial e política dentro de uma lógica torpe e criminosa.

Ao capitalismo mais selvagem pertencem aqueles que durante décadas vampirizaram, através de perversa trama público/privada, os bens públicos e remeteram os bilionários resultados via offshores.

No próximo dia 27, ocorrerá o julgamento de um desses elementos integrantes da pior parcela do capitalismo torpe nacional. Ele será julgado por uma quinquilharia de ter recebido um sítio como contrapartida por seus inestimáveis préstimos. As verdadeiras somas são explicitadas em diferentes fontes entre elas no filme em cartaz da Netflix: A Lavanderia.

A prova material já foi confiscada e leiloada pela União. Ele deverá ser naturalmente condenado pela indiscutível e insofismável culpabilidade. E poderá continuar livre, por força dos perversos e competentes tentáculos que bancam a parte podre do capitalismo.

Enquanto isto uma turba cega e fanática cantará hinos de louvor ao sátrapa.

Perdoem-me pela extensão do texto, mas se quiserem saber por que falo tanto de mim precisarão ler Montaigne.


Até breve.