quarta-feira, 16 de outubro de 2019

GARGANTA




Dia desses, em reunião familiar, perguntei à Lelê com quem que ela se parece. Não me venham dizer que seja uma pergunta capciosa, porque claro que é.

- Com você, vovô...

Olho para os meus netos e procuro neles semelhanças para comigo. Repudio tudo que a mim não corresponde. Já é sabida, por aqueles que comigo convivem, da minha humildade exacerbada.

Não foram poucas as vezes que me peguei olhando para uma foto minha quando menino comparando com uma de Lelê. E também não foram poucas as vezes que expus a tantas pessoas esta foto para dizer quanto Lelê, de fato, me puxou.

Mas a sequência do diálogo acima me encheu de preocupação. Fá, a mãe de Lelê, perguntou:

- E você se parece com o vovô por quê?

- Porque ele é doidinho.

No dia das crianças ela ganhou um estojo de instrumentos médicos: estetoscópico, termômetro, réplicas de brinquedo, naturalmente. Embora ela ande dizendo que quando crescer vai ser médica, convém esperar para presenteá-la com os instrumentos reais.

Na sexta-feira passada, eu estava com ela e o seu irmão Totô brincando no playground do prédio onde moro, quando de repente ela me chama sentadinha em um banco defronte a uma mesa de brinquedo.

- Vem aqui, vovô!

- Que foi?

- Senta aqui na minha frente...

- Já vou.

Ela estava com os instrumentos médicos espalhados sobre a mesa e entre eles um bloquinho para o receituário.

- Senta moço!

- Sim senhora, doutora.

Levantou do banquinho, veio próximo a mim, pediu que eu abrisse a boca e “examinou” minha garganta.

- Moço, o senhor está com a garganta inflamada...

-É, doutora?

- Sim e o senhor vai tomar um remédio... Um xarope e chazinho... Pro senhor dormir direitinho e não tossir, tá bem?

- Sim, senhora. Posso ir?

- Agora pode.



Até breve.