quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

IDÍLIO




“Não faço questão de ser feliz, ainda prefiro a vida.”



Pretinha chegou dia 18 de dezembro para o Natal. Por causa dela, minha festa natalina aconteceu até ontem à noite, não porque ela ainda estivesse conosco. No último domingo nos despedimos em Florianópolis e ela retornou para Lages, onde mora.

- “Pai, estou lendo um livro que o cara escreve igual você... Não consigo parar de pensar em você enquanto leio.”, como se pensasse em mim somente quando lê alguém que também escreve.

- “Pai, você tem que ler esse livro. É incrível! Vou te dar ele de presente de Natal.”.

Ela repetiu esse deslumbramento inúmeras vezes, e aumentou a intensidade do interesse em que eu lesse o livro depois que o me entregou na noite de Natal.

- “Você já começou a ler?”, me perguntou “n” vezes até mesmo em Jurerê onde estávamos juntos até o último domingo.

- “Como? Seus filhos não me largam durante o dia todo, à noite não quero outra coisa senão dormir.”.

Nunca vou me esquecer desse Natal pela preciosidade com que Pretinha me presenteou.

A VIDA PELA FRENTE, apesar de ter sido publicado a primeira vez há mais de quarenta anos, parece mais atual do que nunca.

Momo, um garoto muçulmano que acredita ter dez anos de idade, vive sob os cuidados de uma senhora judia chamada Madame Rosa. Sobrevivente de Auschwitz e mais tarde prostituta em Paris, ela está aposentada e cuida de diversas crianças em seu apartamento.

O centro do livro é o amor de Momo por essa mãe postiça. Seu maior medo é a morte dela – e enquanto se preocupa com remédios e diagnósticos, convive num caldeirão multicultural atravessado por intolerância e pobreza, mas que a seus olhos ingênuos parece um mundo idílico de adultos bondosos.

Da fricção entre a inocência do narrador e a brutalidade do mundo a seu redor sai a força de um dos romances mais cativantes da literatura francesa recente.

Vocês têm que ler esse livro! É incrível! Eu terminei de lê-lo ontem.

Para convencê-los, além da epígrafe deste post, pincei alguns trechos:

“Acho que são os injustos que dormem melhor, porque eles estão se lixando, ao passo que os justos não conseguem pregar o olho e esquentam a cabeça por qualquer coisinha. Do contrário não seriam justos.”.

“Eu por mim acho que os judeus são pessoas iguais às outras e que não devemos querer mal a eles por isso.”

“Madame Rosa dizia que o Dr. Katz era da clínica geral, e é verdade que havia de tudo no consultório dele, judeus, claro, como em toda parte, norte-africanos, para não dizer árabes, negros e todo tipo de doenças.”

“As coisas mais difíceis de curar não são as doenças.”

“Quanto mais a gente se conhece, menos é bom.”

“Eu não brincava com os outros pirralhos, eles eram pequenos demais para mim, a não ser para comparar com outros pintos, e Madame Rosa ficava furiosa porque tinha horror a pintos por causa de tudo que já tinha visto na vida.”

“Quanto a mim, heroína, cuspo em cima. Os meninos que se picam ficam todos viciados na felicidade e ela não perdoa, pois a felicidade é conhecida pelos seus estados de abstinência.”

“A felicidade é um belo de um lixo muito cruel e precisava de alguém que a ensinasse a viver. Nunca fiz política, porque isso sempre beneficia alguém, mas a felicidade deveria haver leis para impedi-la de ser canalha.”

“Eu queria ir para muito longe, para um lugar cheio de outra coisa, e até procuro não imaginar para não estragar. Poderíamos manter o sol, os palhaços, os cachorros, porque não é possível fazer melhor no gênero.”

“A vida pode ser muito bonita, mas ainda não a descobrimos de verdade, e enquanto isto é preciso viver.”

Vocês têm que ler esse livro! É incrível!

“Um dia, vou escrever os miseráveis também.”, diz Momo a um senhor amigo que vive com o livro de Victor Hugo nas mãos.

Émile Ajar, em 1975 ganhou o mais importante prêmio literário da França e o livro tornou-se um dos romances mais vendidos do século XX. Quatro anos depois, quando o autor morreu, descobriram que Émile Ajar era um pseudônimo de Romain Gary, um dos escritores mais populares da França e já premiado com o Goncourt em 1956 (o prêmio não pode ser concedido duas vezes à mesma pessoa).

Fosse o último exemplar disponível no mundo e eu o encontrasse na Atlantis Book (vide post anterior) eu pagaria por A Vida Pela Frente tudo o que eu pudesse chamar de minha riqueza. E o guardaria debaixo do colchão de meu beliche.

Filha, para expressar seu amor, não exagere. Seu pai poderá acabar acreditando.


Até breve.