segunda-feira, 19 de março de 2018

CLAMOR




O quê clamam, ou por quê clamam, ou porque clamam estas mulheres?

A foto “roubada” do Estadão registra um momento das manifestações ocorridas na semana passada. Mas ela poderia estar estampada em todos os lugares, vinte e quatro horas por dia, há séculos e por séculos.

Penso que clamam o direito à vida, ao afeto, à compreensão, ao carinho, ao respeito.

Penso que clamam pela atenção aos seus filhos, à sua sexualidade, ao seu corpo desnudo, pela sua opção de ser ou não ser o que bem lhe aprouver.

Penso que clamam porque estão esgotadas há milênios de serem vilipendiadas, enxovalhadas, brutalizadas.

Penso que a Vida, entendida como fundamento civilizatório, clama por um basta.

A Vida enquanto conduta social, prática do cotidiano, a vida mais comezinha vivida em todos os lugares, lares, escritórios, lojas de comércio, estádios de futebol, casas noturnas, ruas, praças, avenidas, estradas.

Onde houver uma mulher. Basta!

Por que desaguar sobre ela a incapacidade manifesta de todas as maneiras, meios, formas, intensidades, veladas ou explícitas? Por que fazê-la depositária da incompetência de ser parceiro, provedor, protetor, amante?

Por que odiá-la?

Por que traí-la?

Por que mata-la?

A violência é atributo do másculo, da besta caçadora, do selvagem, do descivilizado.

O que ele ataca, o que ele destrói, o que ele denigre é muito mais do que um corpo com uma racha entre as pernas, diferente do que tem entre as suas, um pêndulo.

Um pêndulo simbólico que marca uma história de violência concreta.

Basta!

É passada a hora de, enquanto sujeitos do masculino, civilizarmo-nos. Domar esta troglodita expressão da força quase sempre desigual perante o feminino.

Como na foto sugere, é preciso abrir todos os semáforos, sinais, faróis. É preciso deixar que passem as mulheres. É preciso deixa-las irem, leves, soltas, livres, inteiras. É imperioso permiti-las.

Sob pena de, qualquer hora dessas, decidirem não gerarem mais filh(o)s. Para explicitarem, e de uma vez por todas, seu desatino.

E aí, nada mais poderá ser feito.




Até breve.