terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

ALGO




Quiroga, no Estadão de hoje:

“Ainda que o efeito Carnaval te induza a um estado letárgico e permissivo, procura pensar bem sobre tudo que tenhas intenção de fazer hoje. Pensar bem é um exercício que se desenvolve pela imposição de uma demora entre o desejo de fazer algo e a sua execução. Pensar bem não acontece por inércia nem automaticamente, é algo que tu precisas impor a ti, um exercício que se preenche com questionamentos lúcidos e tentativas de entendimento sobre a real necessidade de se fazer isso ou aquilo. Pensar bem é o contraponto do desejo, cujo funcionamento se baseia na urgência e na cegueira. Urgência porque te incita à satisfação imediata, cegueira porque te impede raciocinar sobre os efeitos colaterais da ação. Pensar bem parece ser algo impertinente, porque é Carnaval, mas o céu pouco se importa com a agenda terrestre.”

Sinto sede, fome, apetite, dor e tantos outros sentires. Necessidade fisiológica é quase sempre de escrever, como se fosse um desatamento, um expurgo, um me deixa, me larga, me solta, vá-se-embora. Por isto nem sempre é belo, interesse a alguém, comova, explique, dê conta, conforta, alegre, entristeça, sei lá o que mais que possa.

Mentira das grossas que eu escreva para mim, como se eu tivesse um eu imperioso e egoísta, querendo só e para si. Eu escrevo é para um nunseiquém, deixando pelaí palavras tortas, obtusas, frases rotas, incomplementos.

Muitos dos textos sugerem um tema até com contornos de atualidade, como se estivessem em análise fatos do cotidiano, indignados dizeres sobre o que se passa. Nada disso, por trás e de essência dos motivos são outros, nos entrementes das palavras há algo que se quis dizer, eu acho.

Ontem à noite ouvi Letícia Novaes poemar: “Eu sou uma criança com pentelho e traumas, mas ainda uma criança”, e achei lindo. Depois ela disse ainda: “Eu queria era só sonhar e acabei me apaixonando”, e achei mais lindo ainda.

E se insurgiu uma comichão para que eu viesse às letras.

Se dormi não lembro, porque acho que não.  Fiquei com as entranhas marolando revoltas, como se quisesse me dizer estomacalmente que era hora de vômitos inebriantes.

E por onde remetê-los, aí que nasce essa necessidade de fazer algo. Não fosse esse blog eu perderia vísceras. Não há ninguém, a não ser no anonimato, que me consuma. Que me sabe todo, até a pior parte de mim, pois certo.

Só a criança em mim, travessa e quase rebelde que vaza. Destraumatizada e livre de emboramentes e explicamentos das convenções torpes que separam sonhos de possibilidades, ainda que as circunstâncias assim os determinem.

Eu sei que há hermetismos aqui, daí que eu escrevo para ninguém. Ou não.

Certa vez eu estava em um voo e me coloquei a sonhar, como se não fosse possível minha vida perderia de vez sentido. E assim sonhei inteiro, forte, determinado, intenso e definitivo.

Mas foi aí que, pouco depois, me apaixonei irremediavelmente. Escrevê-lo aqui foi fruto da cegueira e impertinência, próprias de uma criança. Travessa.


Até breve.