terça-feira, 23 de agosto de 2011

VASSOURA

Volto às minhas ruminescências e encontro-me aos sete para oito anos de idade. Minha mãe engajara-se na campanha política de José de Magalhães Pinto para governador de Minas e Jânio da Silva Quadros para Presidente da República. Foi uma época intensa. Nossa casa era comitê para onde convergia todo tipo de gente, material publicitário, os cambaus. Lembro-me dos ícones para fixar a marca dos candidatos utilizados em todas as peças publicitárias: um pintinho dourado e uma vassoura.
Meu pai adorou a idéia desde o início. Prá ele Jânio era louco e Magalhães um devasso. Com um pouco de razão e muito de ciúme meu pai andava pelos cantos da casa entre panfletos, caixas de material, ruminando: quando essa loucura vai acabar?
Nós adoramos porque além da confusão generalizada minha mãe esqueceu literalmente de nós e aí valia tudo: andávamos de Kombi da campanha e distribuíamos panfletos, pintinhos e vassouras a dar com o pau, até o sol se por. O problema era que a Kombi carregava a aparelhagem de som com os jingles da campanha e mesmo se eu for acometido do mal do alemão jamais vou esquecê-los:
Varre, varre vassourinha,
Varre toda a bandalheira
Que o povo, está cansado
De sofrer dessa maneira.
Jânio Quadros a esperança
De um país abandonado.
ALERTA MEU IRMÃO!
Vassoura conterrânea,
Vamos vencer com o Jânio.
OU:
Encosta sua cabecinha no meu ombro e pensa
No futuro de teus filhos e de teus irmãos.
Quem vota em Jânio Quadros é porque tem consciência
De um governo honrado e de realizações.
Jânio Quadros, governo direitinho
Cinco anos de realizações.
Jânio Quadros para presidente
Primeiro inquilino
Do Palácio Alvorada.
Ou ainda:
Ele vem ai, não demora não.
Ele vem aí com a vassoura na mão.
Ele é um colosso,
Ele é paulista de Mato Grosso.
Fica melhor cantando. Uma ruminescência dessa época extraordinária foi o comício com palanque e tudo na Praça Duque de Caxias. Bati meu recorde de distribuição de panfletos e de pintinhos e vassourinhas carregados de casa para a praça em caixas e voltávamos correndo para buscar mais quando as peças acabavam. Mal vi ou ouvi os discursos, no entanto, fui agraciado pela vida porque vi Jânio Quadros com os cabelos alvoroçados e lançados a frente no rosto dando gritos alucinados (meu pai teria razão?) e ouvi-o aos brados dizer:
ACABARAM AS FESTAS, ACABARAM OS FOGOS, AGORA VÊEM AS CONTAS!
Aquilo me intrigou e procurei, no dia seguinte ao comício, saber de minha mãe o que Jânio quis dizer. Minha mãe com a maior paciência: “Lozinho, Jânio criticava a construção de Brasília.”
Eu guardava, até alguns anos atrás, um lápis com uma vassourinha na ponta e botons dourados com o pintinho e a vassourinha. Como fiz dezenas de mudanças de residência, numa dessas, alguém os varreu.
Assim como a esperança.

Até breve.

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