segunda-feira, 16 de setembro de 2013

ECO



Estivemos sábado à noite no Palácio das Artes para assistir ao show de Erasmo Carlos. Ele não conseguiu lotar o teatro, ficou vago um bom número de lugares.

Erasmo não é um exímio cantor ou intérprete, todos sabemos. Não cabe pedir muito neste particular a um dos co-compositores das canções que nos embalaram e de maior expressão da nossa juventude e, ainda, de nossa maturidade. Jota Quest, Pato Fu e Skank beberam nesta fonte.

Foi confortante vê-lo passado dos mais de setenta anos de idade, cinquenta anos de carreira, trajando calças jeans apertadas e casaco de couro. Longe do ridículo, os seus cabelos brancos e sua proeminente careca superior não nos permitem fazer juízo de suas escolhas.

Erasmo nos trouxe a um outro tempo. Às décadas de 60 e 70, especialmente. Num script singelo, quase ingênuo, nos intervalos de um para outro estilo de composição, o artista nos fez mais do que recordar das letras e músicas de seu repertório.

Ele nos fez lembrar quão distinto era o mundo em que vivíamos há quarenta, cinquenta anos atrás. Tanto que, para mim, o ponto marcante do espetáculo foi o momento em que Erasmo relatou um episódio, nos idos de 1970, envolvendo um alto executivo da gravadora.

Ele e Roberto Carlos teriam sido questionados pelas composições relacionadas à preocupação com o meio ambiente:

- “Baleias não compram discos, Erasmo”! Teria o artista ouvido do executivo.

No show, emocionado, ele disse que se lamenta até hoje por não terem sido ouvidos ou não entendidos à época e disse ainda que somente agora concluiu o porquê:

- “Eu e o Roberto fomos burros por não termos compreendido porque não fomos considerados, hoje sabemos: porque nosso apelo era em Português”.


PANORAMA ECOLÓGICO

Lá vem a temporada de flores
Trazendo begônias aflitas
Petúnias cansadas
Rosas malditas
Prímulas despetaladas
Margaridas sem miolo
Sempre-vivas quase mortas
E cravinas tortas
Odoratas com defeitos
E homens perfeitos

Lá vem a temporada de pássaros
Trazendo águias rasteiras
Graúnas malvadas
Pombas guerreiras
Canários pelados
Andorinhas de rapina
Sanhaços morgados
E pardais viciados
Curiós desafinados
E homens imaculados

Lá vem a temporada de peixes
Trazendo garoupas suadas
Piranhas dormentes
Sardinhas inchadas
Trutas desiludidas
Tainhas abrutalhadas
Baleias entupidas
E lagostas afogadas
Barracudas deprimentes
E homens inteligentes

Em dado momento em que cantava a canção, Erasmo afastou-se do microfone e veio em direção à plateia. Aos gritos ele tentava nos dizer algo, mas penso que ninguém conseguiu ouvi-lo face ao som da banda.

Pois é.



Até breve.

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