Ontem, pela primeira vez, resolvi
escrever o post do dia no meu Ipad que ganhei de presente no dia dos pais. Logo
que iniciei lembrei-me de minha máquina de escrever alemã que pesava pouco
menos que um fusca amarelo, também de origem alemã.
Escrevi nessa máquina sete livros.
Além de escrevê-los à mão, datilografei, montei e encardenei todos os volumes.
Fiz inclusive as capas. Tenho todos ainda, guardados no quartinho da garage do
prédio onde moro. Ali guardo bugigangas, tralhas e outros inservíveis. Meus
livros dividem espaço em prateleiras onde estão também exemplares de jornais de
cidades mundo-a-fora editados nos dias em que as visitei.
O processo de montagem dos livros constituía
no seguinte.
Após terminar de escrever todo o
livro eu preparava as folhas de papel subtraídas de empresas onde em trabalhava
na época de elaboração do texto. Somados todos os volumes eu estimo em duas mil
a duas mil e quinhentas folhas de papel ofício. Jamais vou me esquecer dos meus
empregadores que financiaram, sem saber, minhas obras hoje ainda inéditas.
Dessas duas a duas mil e quinhentas
folhas de papel ofício eu fiz o dobro de páginas datilografadas. Só um dos
romances, DOR, conta com quase quinhentas páginas. IINFECTUM tem quase
trezentas. ÍMPAR inacabado tem outras trezentas.
Eu dividia cada folha em duas,
media a margem inferior e fazia a lápis um pequeno risco para que eu pudesse
saber a hora de parar a datilografia. Ali, naquela marca, eu sabia que eu
estava na última linha de cada página. Meus conhecimentos operacionais sempre
foram e serão rudimentares.
No futuro, quando forem queimar
estes entulhos intelectuais medíocres, por favor, considerem o cuidado que teve
aquele jovem datilógrafo em medir e marcar o limite da margem inferior para
última linha, página por página.
As capas foram elaboradas
artesanalmente. A do livro DOR foi feita com um cartaz de propaganda de cerveja
que eu peguei em um bar. O verso do cartaz era absolutamente branco e
brilhante.
Medi e cortei no tamanho pouco
maior que as páginas do livro e dobrei o cartaz de tal forma que o seu verso
ficasse a minha disposição na sua brancura para se tornar capa. Com um pequeno
frasco de cola preta para trabalhos infantis escrevi a palavra título e deixei que
escorresse das letras um certo excesso, como se delas sangrasse. Depois peguei outro
frasco de cola, esta vermelha, e cobri todo o resto da capa. Em seguida, usando
a haste de pressão da tampa de uma caneta Bic, fiz várias ranhuras ao longo de
toda a capa, misturando parte da cor preta das letras que escorriam.
Depois que aquela maçaroca secou,
plastificando a capa, gostei tanto do resultado que percebi que eu, aos
dezessete anos de idade, além de não ter o menor talento para a escrita se fosse
viver das artes plásticas eu estaria fadado às esmolas. A capa sugeria carne
esquartejada dando o sentido que eu queria explicitar DOR.
Está tudo lá no quartinho de minhas
ruminescências.
Não ultrapassei a primeira palavra
no Ipad. Meu celular tocou. Era W, um amigo, dizendo que, em dez minutos,
passaria para me pegar em casa para irmos para o aeroporto. Viemos ontem, à
noite, para Arraial d’Ajuda.
Agora cedo recolhi as folhas de
papel onde escrevi este post durante a viagem e as transcrevi para o meu
laptop. No fundo tenho uma puta saudade de minha vida aos dezessete, quando eu
construía minhas ilusões a bordo de um fusca amarelo, alemão de origem.
Até breve.