domingo, 29 de dezembro de 2013

MELDA



Foi logo depois de desembrulhar os ocultos amigos. Dispersávamos uns para aqui outros para ali, até que nós, os homens, ficamos na varanda. M sentou-se e do nada se lembrou de sua Lua.

Há 58 anos ocorreram as núpcias. Ela abastada, filha de pai comerciante imigrante cheio da gaita e ele reles vendedor do Grande Camiseiro, lá da Rua Rio de Janeiro. João, que ainda não era Batista, quis que a Lua fosse passada na roça.

Uma dessas casinhas lá no fundo do nada, colocada em lugar próximo do que hoje é Nova Serrana ou Pitangui. Purali. João foi quem propôs, para economizar dos trocados para pagar os móveis do barraco da Rua Amianto.

Viagem de trem, trec... trec... trec..., depois à cavalo e chegaram. No fundão dos cantos. M olhava tudo com espanto. A casinha tinha cômodos separados por ¾ de parede, de tal sorte que os incômodos e os remeixos de colchão de palha, dada a época e as fomes, debruçavam por todos os cantos do aconchego.

E foi assim durante quinze dias.

Luz a lamparina com o querosene escurecendo ares e cheirando ocre. Mas tudo valia a pena, eram os amores que mudavam os cursos, não os teres. As promessas e, claro, os inhec, inhecs.

Rola (pronuncia-se rôla) do Kim, casada com o tio de João, foi quem os hospedou. À noite os trancava, por fora, no quarto e ia dormir. Rola foi, como todos dos matos, se entregue ao casal, fazendo de um tudo para agradá-los. Matou porco, galinha, sobremesa de melado de rapadura.

Não deu outra. Estômago e intestino acostumados aos paladares de mamãe, a mocinha de M, desandou-se toda de um piriri noturno sem precedentes.

-“Vocês já tiveram, num já? Daqueles que solta um barulho tatatata...”

Na madruga de um dos quinze, trancados, a coisa desapertou.

- “João, me deu uma dor de barriga...” Disse ela cheia de vergonhas. Ele pegou o pinico, urinol debaixo da cama e M aliviou-se ali mesmo.

E foi assim durante a maioria dos dias.

Porco, laranja, mexerica, melado de rapadura e de noite tatatata... De manhã João saia do quarto, passava pela lateral e pegava o pinico tatarento das mãos de M, ela com o rosto virado para não ter contato com o tatatata. Ele sumia com o pinico lá pelos matos e voltava com o vasilhame lavadinho no rio que desaguava pouco abaixo da casinha.

Numa das noites ela correu pro quarto, ameaçava-lhe o tatatata. Os homens conversavam na salinha e tomavam pinga. No quarto, M pegou o pinico e alternou largares na medida em que os homens tagarelavam. Quando eles silenciavam ela travava, vindo o alarido da conversa largava tatatata. Até que não foi possível o controle. Tatatata quando houve silêncio e de lá da sala soaram gargalhadas.

Vergonhas.

E foi assim.

M está hoje com setenta e cinco anos. Contou-os outros viveres, vários. Ficou em cena trazendo seus horrores e que em nós produziram gargalhas de doer o estômago. Fui dormir com um gosto de melado na boca.

Foi uma noite de Luz.



Até breve.

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