sábado, 28 de janeiro de 2012

SEIVA II

José Lopes Agulhô, meu pai, era ignorante e sensível. Nasceu quando eclodiu a primeira guerra mundial e morreu, aos noventa e quatro anos, após quatro de batalha contra o mal de Alzheimer. Ao longo de toda a sua vida perguntavam prá ele, e aí? Ele sempre respondia: “Na luta.”
Foi privado de toda sorte de informação, não concluiu o curso primário e ao longo de toda vida não leu um livro sequer.  Desde sempre foi orientado ao trabalho de sustento. Aprendeu um ofício de mecânico industrial e torneiro com seu irmão Evaristo, outra besta.
Relatos de minha tia Modesta dão conta de que meu pai na juventude era bonito, musculoso e que jamais permitia qualquer gajo aproximar-se de suas irmãs. Talvez por isto ela, Modesta, tenha ficado solteira e Teresa tenha tido um único affaire.
Além da lida na pequena indústria de máquinas para cerâmicas de propriedade de meu tio Evaristo, ele gastava energias como lutador. Ele era o “Pegador Latino” nas lutas livres travadas na antiga Feira de Amostra dos Produtores, onde hoje é a Rodoviária de Belo Horizonte. Teria uma carreira promissora nos ringues não fosse a ira de minha avó. Certa noite ela foi ao ginásio onde ocorreria uma luta decisiva na qual meu pai disputaria a final de um campeonato. Quando meu pai entrou no ringue ela subiu e empunhando um guarda-chuva encheu-lhe de varadas botando-lhe a nocaute. Nunca mais meu pai voltou aos ringues.
Conheceu uma jovem que era o seu oposto. Criada em colégio interno, o Santa Maria, cheia de dengos, fricotes e salve-rainhas, orientada às prendas do lar. Com todas as rendas, bordados, sonhos femininos, paixão e caminhos de mesa, foram ao altar.
Belo dia minha mãe achou que o cunhado explorava o irmão. Disse que meu pai escolhesse: ou ela ou Evaristo. Meu pai optou por separar-se do irmão e montar sua própria oficina. Puta luta! Compraram uma cafua de três cômodos na Rua Salinas, no Bairro Santa Teresa. Na frente do barraco meu pai puxou um telhado meia-água e ali começou a sua vida.
Ao longo dos anos foi expandindo galpão da oficina e cômodos da cafua, na mesma medida que estouravam os rebentos. Ao todo dez, um após o outro. Além de abortos espontâneos. Num dava tempo de criá-los, quando muito supri-los com um alimento básico. Cada um que se virasse conforme suas capacidades. Para meu pai cabia-lhe a bóia. Tudo o mais era para que cada um conquistasse.
Lembro-me quando ele sentava-se à mesa para almoçar. Não lavava as mãos cheias de óleo e graxa, para ele não dava tempo. Minha mãe há muito abolira as toalhas de linho bordadas do enxoval e forrava com jornais a cabeceira da mesa. Ali meu pai assentava-se. Depois da refeição ele gostava de chupar laranjas serra d’água. Deixava sobre o prato as cascas da fruta imundas de graxa. Dava um grande arroto e voltava para a sua oficina.
Meu pai era extremamente demandado para a fabricação de equipamentos de cerâmica. Ele fazia os moldes em madeira, fundia em ferro, usinava as peças e montava toda a parte mecânica e elétrica dos equipamentos que pesavam toneladas. Nunca teve um ajudante sequer. Fixava em um torno (que ele próprio projetou e construiu)  imensas betoneiras, as usinava e transportava-as sobre roletes de aço até os caminhões que estacionavam a frente do galpão.
Teve três amigos: Zé Espingarda, Seu Pedro Ziviane e Inácio. Zé Espingarda era um sujeito de Formiga, cidade do interior de Minas Gerais, que de quando em vez aparecia na oficina para fazer pequenos reparos em suas armas de caça de pequenas aves. Meu pai trocava o direito do acesso às ferramentas e máquinas da oficina por alguns momentos de prosa com Zé Espingarda. Seu Pedro Ziviane era um sujeito polido, letrado, que tinha uma tremenda admiração pelo meu pai. Era nosso vizinho, morava a algumas quadras de casa. Foi ele quem testemunhou no antigo INPS sobre os anos de serviço para que meu pai conseguisse aposentar-se. Inácio era dono da fundição onde meu pai levava os moldes e fundia as peças para as máquinas que montava.
Meu pai era fascinado por cinema para onde ia todas as noites, no início do casamento. Depois se apaixonou por novelas. Diversas vezes o vi às lágrimas diante da TV, ou aos gritos: “Esse sujeito é um cafajeste! Ou “Essa mulher não presta!” Minha mãe, preocupada com o destempero do meu pai, sempre tentava acalmá-lo: “Calma Pêpe, isto tudo é novela... Não é a vida real...”
Duas outras paixões: carros e futebol. Quando ele melhorou um pouco de vida começou a comprar carros, negligenciando por vezes outras prioridades da casa, motivo pelo qual inúmeras brigas foram travadas com minha mãe. Já com cérebro totalmente comprometido pelo mal de Alzheimer uma das poucas coisas pelas quais reagia era quando perguntado pelo Cruzeiro ele, com dificuldade, balbuciava: “El mejor time del mundo!”.
Na velhice humanizou-se. Aos sessenta e oito anos conheceu o mar. Colocou pela primeira vez um calção de banho e banhou-se eufórico às margens da imensidão azul. Disse que sentia tonteiras e gargalhava atordoado como uma criança.
Há um episódio simbólico que guardo em minha memória. Quando montava o telhado da cobertura de minha casa em Santa Luzia eu o levei para ver a obra. “Coloque outra peça, senão o telhado vai selar...” Ele determinou ao carpinteiro que fazia o serviço.
Há muitos anos faço um demonstrativo financeiro dos meus ganhos e despesas mensais. Hoje, no meu laptop, a senha que abre o arquivo é: peleja.
Pois é, sempre tive o maior orgulho de meu pai.

Até breve.

4 comentários:

  1. E esta "peleja" já tem herdeiros. Orgulhosos desta seiva que nos constitui.

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  2. Senti o cheiro das laranjas serra d´água que eram descascadas com extrema habilidade!
    Seu pepe, saudosas recordações.

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    1. Pois é, Julinho. Não sei o que lhe dava mais prazer: descasca-las ou chupa-las. Abraço.

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  3. Lembro-me do "homão" que era seu pai. Forte,bravo e aguerrido. É muito bom recordar.

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