segunda-feira, 6 de março de 2017

DESFATOS



999. Novecentos e noventa e nove.

Nove dias dedicados exclusivamente à família em um balneário no sul do país.

Pois é, saí por uma semana do mundo e, por causa disto, achei que ele se tornaria melhor. Sem minha contribuição para atrapalhar, todas as coisas ficariam em seus devidos lugares. Especialmente a Verdade.

Rápidas olhadelas aqui e ali em alguma coisa, mas com um bruto desinteresse. Fiz até algum comentário feicebucante, uartisapes, mas nada que pudesse de fato gerar qualquer intervenção importante no andamento das coisas.

Voltei.

Para atrapalhar, portanto. Porque todo aquele que está gastando o precioso tempo dos mortais para dizer qualquer coisa está, no fundo, atrapalhando. E muito. Acho que nunca se leu tanto e se viu tantas imagens, estáticas ou móveis, quanto na atualidade.

As pessoas nunca estiveram expostas tanto quanto agora. E nunca estiveram tão dispostas quanto agora. E nunca estiveram tão impostas quanto agora. E nunca estiveram tão postas quanto agora. Não há nada que não esteja posto.

Posto isto, eu queria era mesmo dizer que nunca estivemos tão próximos de compreender tudo quanto agora. Na medida em que tudo está posto e sobre o qual zilhões comentam, reagem, esbravejam, combatem, questionam, curtem, compartilham, deletam, não há nada que não seja.

Enfim, se se sempre (que horror!) buscou-se saber sobre tudo, hoje se sabe. Tudo está de la ta do nos seus mais ínfimos de ta lhes. Ninguém está imune a uma câmera, a uma denúncia, a um revide, a um post.

O Ser, mais do que o Nada, virou o Meio. A foto, o post, o vídeo é a Vida vivida. Eu sou um texto, uma foto, um vídeo. Ser é expor-se. Mesmo que não se seja, que seja o que o outro diz, revela, posta. Ser é compartilhar, mídias.

Nunca fomos todos, tão juntos e misturados. Nunca fomos tão todos, quanto agora. Uma massa compacta e uniforme, sem nuances e sem mistérios. Todos são de todos e ninguém é de ninguém.

Ser não é.

Quinta-feira fiquei preocupado. Acho que exageramos com Lelê. Ela está com dez meses de idade, portanto muito novinha para tanta estripulia beira-mar. Que a mãe não saiba, porque estava ausente, mas minha netinha mais nova bebeu alguns mililitros de água salgada, comeu areia, caiu de cabeça dentro do pátio central do castelo que ainda estávamos esculpindo na areia. Chupou picolé de chocolate.

À noite, da mesma quinta-feira, fomos jantar depois das vinte horas e Lelê ficou acordada, saindo, portanto, de sua rotina. Na volta para a pousada, chovia, estávamos sem guarda-chuvas, Lelê no colo do pai.

Acho que se molhou, mesmo que pouquinho.

É que li os jornais de hoje, alguns articulistas e cronistas e me lembrei de um cartaz fixado em mural de uma igreja em Lisboa: “Na sexta feira às sete, os meninos do Oratório farão uma representação da obra “Hamlet”  de Shakespeare, no salão da igreja. Toda a comunidade está convidada para tomar parte nesta tragédia.”.

Pois é.



Até breve, que será o milésimo.


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